terça-feira, 8 de julho de 2008

Euclides, o comunista

Este conto é baseado em acontecimentos reais, ocorridos na década de cinquenta do século passado.

O vento chegava em rajadas, era vento de norte, o frio cortava e a rua não oferecia abrigo aos raros peões que se atreviam a sair.
O Domingos Verde aconchegou o grosso sobretudo regulamentar, que vestia sobre o blusão azul-escuro, quase negro, da farda policial. Pesava-lhe o cinturão largo, que suportava a pistola e o casse-tete, doíam-lhe os pés, depois de ter passado quase todo o turno de giro em Leça, desde a praia, até ao quartel dos bombeiros, ziguezagueando por uma infinidade de ruas.
Fez esse percurso várias vezes, só tinha parado ao início da manhã para entrar na leitaria do Esteves e tomar um galão e um pão com manteiga, não esteve parado mais de dez minutos, nunca se sabe quem está a observar, para mais, ele ainda era novo na corporação.

Ao passar junto ao gradeamento do quartel, um carro vem em sentido contrário, afrouxa e pára a meia dúzia de metros. O condutor baixa o vidro e chama o jovem polícia de turno:
- Senhor agente, uma informação. Onde fica a pensão Godinho?
- A pensão Godinho é aqui em Leça, mas, do outro lado. O senhor dá a volta e vai até à rua onde está a farmácia, sabe onde é?
- Não, eu conheço mal esta zona.
- Se seguir por aquela rua vai ter a um jardim; depois de o passar vira à sua esquerda. Essa é a rua da Farmácia. Tem uma loja de ferragens logo à esquina. Quando lá chegar, vira na… deixe-me ver, na tercei…, não, na quarta rua à sua direita, a pensão Godinho é a cinquenta metros. Não tem que se enganar, no início da rua há uma carvoaria.
- Obrigado senhor agente…, mas, eu não o conheço? Você não trabalhou no Lindoso?
- Eu também o estou a conhecer, senhor engenheiro. Trabalhei sim senhor, na barragem.
- Eu bem me parecia, quando vejo uma cara, não costumo enganar-me! Então agora está na polícia?
- É verdade, quando comecei a trabalhar na barragem, já tinha metido os papéis para a polícia, mas como nunca mais me chamavam, aproveitei e ainda lá trabalhei quase nove meses.
- O senhor agente é que me podia fazer um grande favor.
- Se puder, diga senhor engenheiro.
- Você lembra-se do Euclides, o técnico das máquinas?
- Lembro-me perfeitamente.
- O Euclides foi preso e está aqui no Porto.
- Que fez o senhor Euclides para ser preso, ele que era tão boa pessoa?
- Olhe azares da vida, não teve culpa, mas está a ser chateado pela PIDE.
- Oh diabo, então mete a PIDE? Que quer o senhor engenheiro que eu faça?
- Senhor agente, venha comigo à pensão, que eu vou lá ficar com os meus filhos e lá conversamos.
- Não posso ir já, senhor engenheiro. Só termino o serviço à uma da tarde, se quiser encontramo-nos lá às duas, duas e pouco.
- Muito bem, eu fico na pensão à espera. Até logo senhor agente… desculpe mas esqueci-me do seu nome…
- Verde, agente Verde, ao seu dispor, senhor engenheiro.
O Chevrolet negro com o engenheiro Ogando e os dois filhos, arrancou suavemente, contornou o pequeno canteiro em frente aos bombeiros e perdeu-se pela rua em direcção ao jardim. O frio continuava a apertar e por ter estado parado aquele tempo todo a conversar, tinham-lhe arrefecido ainda mais os pés. Lembrava-se que o pai do eng. Ogando, também formado em engenharia civil, fora o responsável técnico pela construção do Casino da Póvoa do Varzim.
Já passava do meio-dia e eram horas de se dirigir calmamente para a esquadra que ainda ficava longe, fazer o relatório e consultar a ordem do próximo serviço, que devia começar à uma da próxima madrugada.

Quando saiu da esquadra foi directo à casa de pasto do Aníbal, um transmontano de Carrazeda de Ansiães, com porta aberta há mais de vinte anos, uma casa muito asseada, onde comiam a maior parte dos agentes da esquadra de Matosinhos, funcionários das casas comerciais das redondezas e estivadores da doca de Leixões.
Depois de ter engolido uma jardineira fumegante, que a Laurinda lhe apresentou, dirigiu-se para a pensão Godinho, onde o esperava o engenheiro Ogando, que sem mais delongas lhe explicou.
- Pois o nosso amigo Euclides está metido em trabalhos. Tudo começou quando apareceram uns panfletos do Partido Comunista afixados numas árvores, a caminho da barragem. A PIDE foi chamada pela Guarda Republicana, andaram para lá a investigar e encontraram um desses papéis no armário do Euclides. Nem quiseram saber de mais nada. Trouxeram-no para Ponte da Barca e daí transferiram-no para o Porto, desconfio que para a sede da PIDE, você sabe onde é?
- Sei, é na Rua do Heroísmo, perto de Campanhã.
- Pois era isso que eu queria que fizesse, ia comigo à PIDE, ver se me deixavam visitar o Euclides, para lhe perguntar algumas coisas do serviço, que estavam pela mão dele. Como você é polícia, se calhar, é mais fácil deixarem-me vê-lo.
- Se é só isso, não vejo problema, eu vou consigo – diz o jovem agente, convencido do poder persuasor da farda que envergava.
- Então vamos no meu carro, que chegamos lá num instante.

Quando chegaram à Rua do Heroísmo, no Porto, o Domingos apeou-se e dirigiu-se à portaria do edifício, sendo interpelado de imediato, por um plantão da PIDE.
- Que deseja?
- Eu venho saber se está aqui um tipo de Ponte da Barca chamado Euclides, que trabalhava na barragem do Lindoso.
- E para que quer saber?
- Está ali fora o antigo chefe dele, um engenheiro, que queria falar-lhe por causa do serviço lá da barragem.
- Um momento, que vou saber. – Dirigiu-se a um telefone pendurado na parede ao fundo da salinha que fazia de recepção e falou baixo durante breves instantes. Depois de desligar, dirigiu-se ao Domingos, dizendo-lhe para entrar e aguardar na primeira sala do corredor à esquerda.
Não esperou mais de dez minutos, até que um sujeito de meia-idade, com o escasso cabelo empastado de brilhantina, fato negro e voz nasalada entrou na sala e lhe disse à laia de cumprimento:
- Então é você que quer ver o Euclides? Que é que tem a ver com ele, hein? Conhece-o de onde? Vamos lá a identificar-se.
O agente Verde puxa da carteira, tira o cartão da PSP, entrega-o ao PIDE e repete-lhe a história.
- Há quanto tempo está na polícia, hein?
- Fiz a escola e estou em Matosinhos há seis meses.
- Seis meses, hein! Sente-se aí e aguarde.

O tempo ia passando e ninguém mais se aproximou da sala onde o Domingos, só esperava que lhe dissessem alguma coisa. Lá fora o engenheiro devia estar ansioso por novidades. Ainda ninguém lhe tinha confirmado que o Euclides estava lá preso, mas também lhe tinham dito o contrário.
A sala estava aquecida e o tempo de espera dava-lhe sono. Com sorte, hoje ainda podia dormir algumas horas, até entrar outra vez de serviço. O raio do homem é que nunca mais vinha, se calhar estava a consultar o processo ou a pedir instruções a algum superior.
Quase duas horas depois, entrou novamente o PIDE na sala, entregou o cartão de identificação ao Domingos dizendo-lhe:
- Tome lá isto, desapareça e não volte a pôr os pés aqui na directoria a não ser que o chamem. Diga lá ao engenheiro, que o comunista que trabalhou na barragem está aqui e que na cela dele, ainda cabem mais um ou dois, hein. Se quiserem?...
Dito isto, virou costas e saiu tão silenciosamente como tinha chegado. O Domingos sentia-se ruborizado pela forma arrogante como tinha sido tratado, ele que também era uma autoridade e só ali estava para fazer um favor. Saiu do edifício, deixando para trás o sorriso zombeteiro do plantão, que certamente ouvira a conversa, atravessou a rua e entrou no Chevrolet do engenheiro Ogando.
- Então senhor agente que novas me conta.
- Novas?... Eles têm lá o Euclides, fizeram-me esperar este tempo todo, mandaram-me desaparecer e ainda me ameaçaram que na cela dele havia lugar para nós, para mim e para si.
- Então não se pode fazer nada.
- Pois não senhor engenheiro, com estes tipos não se brinca…Vamos embora, que eu preciso de ir dormir e pouco falta para as seis da tarde.

1 comentário:

maria diegues disse...

Um rio maravilhoso que eu amo de paixão.
Minha querida mãe nasceu em Vila Praia de Ancora, ainda moça rumou a Lisboa á procura de vida melhor, constituiu família e no verão lá íamos visitar a minha avó, tios e primos.
Depois sendo eu já adulta também lá ia passar uns dias com o meu marido e filho.
Mas...todos esses familiares já partiram...mas sempre que posso dou lá um salto, nem que seja só por umas horas quando vou visitar amigos que tenho em Rio Tinto.
Sinto que tenho lá raízes, adoro essa terra lindaObrigada pelo seu blog.