domingo, 22 de junho de 2014

Água para a agulheta número dois

O dia nascera soalheiro, como seria de esperar de um dia primaveril em que os melros e pardais se afadigam na construção dos ninhos e as plantas vicejam pelas terras férteis e húmidas dos vales e das encostas.
Estávamos no dia 26 de Abril de 1957, em Vila Praia de Âncora, pacata vila e porta de entrada do Vale do Âncora, herdeira legítima da velha Gontinhães. Era sexta-feira e em nada se distinguia dos demais dias da semana. No Portinho, as masseiras varavam na areia suavemente empurradas pelo impulso dos remos. Em terra, as mulheres esperavam o peixe para logo abalarem terra dentro, na venda que irá render uns magros tostões a repartir pela companha
Na serração, à força do vapor da caldeira, máquinas de dentes traiçoeiros, transformavam troncos em tábuas e estas em caixas, depois de aplicados os grampos metálicos. Ali ao lado, na estação, os comboios chegavam e partiam entre silvos e baforadas de fumo e vapor; as agulhas viravam ao ritmo da manobra, passageiros e mercadorias entabulavam um bailado, ora para cá, ora para lá. Da Sandia e da Cruz Velha regressavam os rangentes carros de bois, elementos estruturantes na economia de qualquer casa de lavoura, conduzidos à soga por moçoilas de saia riscada e lenço garrido à cabeça.
Da fábrica do leite, assim chamada pelo povo à fábrica de lacticínios, chegava o carro com as caixas de manteiga e queijo, uma rotina bissemanal para despachar as encomendas dos clientes para o Porto e Lisboa. Dizia-se que os cavalos, conhecedores dos hábitos do cocheiro, dispensavam ordens para parar à porta de certas tascas.
De repente o sossego é interrompido pelo silvo longo e arrepiante de uma sirene.
- É dos bombeiros – gritam um número indefinido de gargantas.
As pessoas olham umas para as outras numa interrogação muda. Depois põe os olhos no ar à procura de um vestígio de fumo. As narinas abrem-se na busca de um odor a queimado ali perto.
- Não, não é na serração, Graças a Deus!
- Será na do Pereira? – Alguém se lembrou da outra serração existente no extremo oposto da Vila.
Espicaçados pela curiosidade muitos deixaram os seus afazeres e arrastando os tamancos partiam em direcção ao quartel dos Bombeiros. Queriam assistir à azáfama que precedia a saída dos carros da “bomba”. Por eles passavam como lebres os bombeiros em corrida desenfreada, era sempre uma vergonha ser dos últimos a perfilar aguardando ordens do chefe.
O Silvino Perruco e o Zé do Toneca trabalhavam na serração e mal ouviram a sirene, largaram a correr em direcção à entrada das instalações. Encostadas à parede do escritório estavam as bicicletas dos diversos trabalhadores.
- Agarra essa do Zé Nita que é mais pequena! – Grita o Zé do Toneca para o companheiro, lembrando-se que este era de baixa estatura.
Foram os primeiros a chegar ao quartel. Os outros bombeiros não tardariam; o Armando Ferreira, o Velhinho, o Balau, o Camilo… Agora chega o Zèzinho, aquele chefe de passo tranquilo, poupado nas palavras, com respostas concisas às interrogações dos seus homens.
- Barata, Armando, Silvino, Balau, Toneca, Camilo e… Joaquim! Avancem para o pronto-socorro.
O dolman, o cinturão e o capacete, transformaram aqueles vulgares e pachorrentos cidadãos em seres determinados a combater as chamas, para lá dos medos e das hesitações quando se tratava de salvar vidas.
O pronto-socorro Bedford tinha sido inaugurado em 1954 e era o orgulho da Corporação. Todos os bombeiros ansiavam integrar a equipa que arrancava nesta viatura para os incêndios.
O motor de seis cilindros a gasolina ronronava baixinho dentro da garagem. O Barata engatou a primeira e aliviou a embraiagem. O carro deu salto em frente levando em debandada a multidão que se acotovelava na frente ao quartel em busca de informações. Mal os homens se instalaram no carro, outro solavanco marcou o arranque a toda a brida, sirene ao vento a anunciar a urgência e a necessidade do caminho livre até Caminha, onde ardia o Convento de Santo António.
A meia encosta do Monte de Santo Antão, ao lado do cemitério de Caminha, este convento albergava uma vasta comunidade de freiras, as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, que já por lá estavam desde 1898. Pelo meio, escorraçadas pelo anticlericalismo da primeira República, aconteceu uma saída forçada para a vila galega de Tuy e o regresso a Caminha ainda durante os anos vinte do século passado.
O Barata era um condutor destemido e atravessou a Rua dos Pescadores em Caminha, a uma velocidade alucinante, roçando as paredes de tão estreita artéria, desviando-se de carros e carroças como por magia. Os seus companheiros sabiam bem o que ele dizia nestes momentos de emergência “Agarrem-se que isto é para andar”; e todos se seguravam o melhor que podiam, entre os equipamentos de combate a incêndio que enchiam a Bedford.
A meio da Corredoura ultrapassaram um dos carros da Corporação de Caminha e num instante já saltavam em terra para iniciar o combate, que as labaredas já lambiam a fachada do convento. Os lances de escada estavam montados, a bomba a funcionar e o Balau carregava a mangueira escada acima, o Silvino como primeira ajuda, alguns degraus mais abaixo.
- Água p´ra agulheta número dois! – pede o Balau com a voz fanhosa.
- Eiii… vocês, saiam daí! Tem de ir lá para trás – ordena um indivíduo de pêra que todos reconheceram, era o chefe Lino dos Voluntários de Caminha e que acabara de saltar do carro recem chegado.
- Mas aqui é que precisamos de atacar – contrapõe o Armando Ferreira, o mais graduado dos Bombeiros Ancorenses.
- Quem está ao comando sou eu… e aqui fica por nossa conta. Vocês vão defender a capela.
- Vocês não vão conseguir aguentar isto – ainda retorquiu o Armando Ferreira, homem experiente e conhecedor das manhas e da violência que as chamas podem ter se forem bem alimentadas.
Contrariados, porém disciplinados, recolheram as mangueiras, desmontaram as escadas e iniciaram o combate no ponto que lhes foi atribuído.
Ao longo da tarde foram chegando outros bombeiros, de Cerveira, Viana e até os municipais do Porto foram convocados. A população não se fez rogada e uma verdadeira cadeia humana permitiu salvar muitos pertences do convento.
Junto à capela, depois de terem posto em funcionamento a moto-bomba, a água sugada do tanque era despejada pelas agulhetas de forma a conter as chamas que teimavam em aproximar-se da capela.
- Água p’ra agulheta número dois – repetiu o Balau.
- … E p’ra número um, também – respondeu-lhe o Zé do Toneca, enquanto Barata manobrava as alavancas.
Por todo o lado os longos hábitos das freiras esvoaçavam, como um exército de formigas, ora carregando haveres, ora matando a fome e a sede aos combatentes, sob o olhar diligente da madre que tinha uma serrada pronúncia italiana.
Durou toda a noite este combate desigual, onde homens cansados viam as chamas inexoravelmente apoderar-se das memórias de uma comunidade. Pela alvorada, quando foi dado por dominado, pouco mais restava do convento que umas paredes enegrecidas e montes de entulho fumegante… além da capela que escapara incólume.
Como prova de confiança e porque dispunham da melhor moto-bomba, o comandante dos Municipais do Porto, que assumira o comando das operações, encarregou os Bombeiros Ancorenses de coordenar o rescaldo, alimentando as mangueiras de outras Corporações.
Regressaram ao quartel a meio da tarde, vinte e quatro horas após terem sido chamados pelo toque da sirene, silenciosos, exaustos do esforço, desanimados por não terem sido capazes de derrotar o fogo, mas cientes do dever cumprido, briosos de terem contribuído para que a Capela do Convento não fosse consumida pelas chamas e para o bom nome dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

A fome dos invernos longos


Aurora desperta a razão
Nas águas agitadas do mar gélido
Como gigante impondo a vontade
Ao pobre pescador aperta o coração
Por a maresia não fazer sentido
E amarrá-los em terra à mendicidade

Terras a dentro vão em procissão
Casa a casa pedem pão
Arrastam os tamancos pelo caminho
As lajes testemunham a submissão
Homens famintos com o grilhão
De filhos que esperam bucha e carinho

A brisa virou a noroeste
O mar engole a espuma e as mágoas
Retira-se para onde impera
A refrega já não é agreste
Redes, anzóis, velas e masseiras
Vamos ao mar que arribou a primavera

Para trás fica a triste lembrança
A fome e a miséria aplacadas
Com côdeas e caldos magros
O Senhor dos Aflitos lhes dá esperança
A agulha os guiará pelas águas diáfanas
Peixe será ouro nos seus desejos

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ao cair das vésperas



Naqueles tempos a vida era dura, tanto para os pescadores que por cá ficavam, como para os que se aventuravam na pesca do bacalhau. Partiam para a Terra Nova e Gronelândia no final do inverno, regressando a meados do Outono, dependia da sorte e da habilidade do capitão para encherem mais ou menos depressa os porões soturnos do navio.
O Manuel João, tal como outros jovens da sua idade, agarrou a oportunidade de largar a pesca artesanal onde se ganhava uma côdea, para “ir ao bacalhau”; além disso, quem fizesse sete temporadas de bacalhau, livrava à tropa e à guerra em África.
Para quem sai a primeira vez da sua aldeia natal, tudo é uma aventura e sempre será melhor que receber umas míseras moedas no final de cada maré. Se o mar o permitir, porque de Inverno os frágeis barcos de boca aberta cavalgam rua acima entre o casario, para se furtarem às arremetidas do mar que fustiga o portinho, escavado entre as rochas agrestes do Moureiro e o Forte da Lagarteira..
Acabara de fazer a sua terceira viagem no “Rio Lima”, um barco lento, mas seguro, construído em 1952 pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. As condições de vida a bordo, apesar de duras, não se comparavam aos velhos lugres à vela, onde o seu pai e os irmãos mais velhos tinham pescado. Aí sim, era uma vida de escravidão e de perigo constante a pescar nos frágeis dóris, a viverem amontoados em cubículos como animais, a trabalhar perto de vinte horas por dia, sob as inclemências climatéricas do Atlântico Norte.
O “Rio Lima” tinha atracado a meio da manhã na doca de Viana do Castelo. Já lá estava o “Senhor dos Mareantes” e o “S. Ruy”, atracados desde a semana anterior. A roupa sebosa estava ensacada há muito, tal como as bugigangas compradas em St. Johns para a mãe e para as irmãs. Para o pai trazia, como de costume, pacotes de tabaco com filtro. O último banho a bordo libertou-o das escamas, disfarçou o odor a vísceras e a suor, mas não apagou as marcas do cansaço, as mãos gretadas e gastas, a barba hirsuta e o cabelo ensalitrado.
Após da manobra de atracar, cumpridas as formalidades, desembarcou pelo instável portaló ao encontro do abraço sentido dos familiares que o aguardavam no cais. Mais que um reencontro, era o renascer de uma coesão familiar, uma celebração da vida que recomeçava. Era dia de festa, a viagem para casa foi de carro de praça, um luxo reservado para bodas, emergências e para estas ocasiões.
Uma acha de pinheiro no fogão espevitou o fogo inundando a cozinha de aroma resinoso, que o refogado estava pronto de véspera e a cabidela surgiria enquanto contava as peripécias da viagem. Só as vitórias, os lances carregados de bacalhau, as partidas que pregaram aos colegas, as horas intermináveis na escala e salga. Os sustos, as lágrimas, as saudades e o medo não se apregoam, iriam sombrear os rostos felizes da família, que o escutam com um fervor quase religioso.
Depois do almoço saiu com rumo certo, o barbeiro que o expurgou das pilosidades acumuladas em sete meses de mar, vestígios sombrios que importa esquecer até à próxima viagem. No Poipa reencontrou companheiros, leu o jornal, soube as últimas do futebol e das coscuvilhices locais, antes da tesoura e da navalha cumprirem a sua missão. Quando olhou ao espelho não se reconheceu, custava-lhe acreditar que aquele rosto lhe pertencia, tão pálido e exangue, as orelhas penduradas na cabeça estreita, onde o nariz ganhava destaque, tal como um promontório avança mar a dentro.
Aviado do barbeiro, seguiu em direcção ao portinho, lugar que o viu nascer e crescer, onde se juntavam os amigos, onde se trocavam olhares e ditos com as raparigas, onde os homens enchiam as tabernas, nas quais ele já tinha entrada por direito próprio. A tarde correu rápida, talvez a conversa retida durante meses a tenha apressado, a noite cobriu a terra e o mar, despediu-se de cada um para regressar ao lar aquecido pela chama mortiça do fogão, onde o caldo de hortaliça papujava lentamente.
Estavam à sua espera, pois era hábito daquela comunidade cear após as vésperas.
- Por onde andaste meu filho, que se faz tarde.
- Ó mãe, ainda ficou gente na Curraca e no Coxo da Faena.
- Mas o teu pai já está à espera para depois se deitar… Afinal onde é que andaste?
- Fui ao Poipa cortar o cabelo e a barba…
- Graças a Deus…
- … Depois fui para o portinho e estive à conversa com os amigos… o Daniel, o João, o Nel do Côto, o…
- Qual João?
- Da tia Ermelinda… e bebemos umas malgas de vinho novo.
- Vê lá, já não estás habituado e pode fazer-te mal.
- Não se apoquente, minha mãe. Pouco bebi e só demorei mais um bocadinho porque encontrei na esquina da pensão um companheiro de escola e fiquei à conversa. Depois ele seguiu para casa e eu pelo Sol Posto acima… Aqui me tem!
- Quem é esse companheiro de escola? O Camilo?
- Esse ainda não vi. Era o Berto da Nila…
A tigela caiu com fragor no chão, espalhando cacos e caldo em todas as direcções. A cor fugiu das faces rosadas da Lurdes, petrificada de espanto e horror.
- Que foi, mãe? Parece que viu um lobisomem… Conhece o Berto da Nila… onde está o espanto?
- Tens a certeza, meu filho? – Balbucia a Lurdes, procurando o rosário no bolso do avental.
- Tenho, mãe! Então eu não conheço o Berto?! Olhe que fizemos juntos a quarta classe…
- Mas isso não é possível… a Nossa Senhora nos acuda…
- Então qual é o problema? Ele até estava tão bem disposto…
- Virgem Santíssima – gemeu a Lurdes com as lágrimas nos olhos – a sua alma não está tranquila.
- Que está aí a dizer, minha mãe! A sua alma?!...
- Sim, filho… O teu amigo… o Berto da Nila, esteve muito doente, chegaram a levá-lo para o Hospital de Viana, mas mandaram-no de volta para casa… o Berto… coitadinho, foi enterrado ontem…

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pescaria em Moledo

Andei vários meses a fazer planos para ir pescar, mas foram sucessivamente adiados com desculpas meio esfarrapadas que dava a mim próprio. Ora estava “muito mar”, ora estava frio, ora não tinha maré para apanhar isca, vocês sabem muito bem como é.  Também não tinha licença, o que é sempre uma boa desculpa!
Como tive duas semanas de férias em Julho pensei que desta vez é que era e tinha de ir desenferrujar o material. Tirei a licença no multibanco, revi o material e conclui que o melhor era refazer todas as baixadas, pois não me ofereciam o mínimo de segurança. Sempre fui adepto de substituir os materiais ao fim de algum tempo de uso, pois o contacto com a água salgada e as pedras enfraquecem tudo, as linhas, os anzóis, os distorceres, etc..
Então, um fim de tarde ventoso que me tinha corrido da praia para fora, enchi-me de paciência e fiz uma bela sessão de bricolage, como já não fazia há imenso tempo.
Na manhã seguinte fui à isca para Penedim (perto do Sanatório da Gelfa), dei cabo dos dedos e das unhas, mas consegui a “sintética” mais que suficiente para uma noite de pesca.
Não sei se sabem que “sintética” é aquilo que vocês conhecem como “linhas” ou teagem. Andava lá à isca o Mário, um amigo que é padeiro e que também estava de férias.
Conversa daqui, conversa dali enquanto apanhávamos isca, disse-me que ia pescar à noite com o cunhado ali no praial de Âncora, enquanto eu lhe disse que iria para Moledo, mais por causa da maré, que faria o baixa-mar lá perto da meia-noite. Eu gosto de pescar em Moledo, nas últimas horas do baixa-mar. Manias!
Depois do jantar, meti os “tarecos” no carro e abalei para Moledo, estacionei junto ao ultimo passadiço, junto ao Camarido e comecei a montar a cana, uma Hiro Boomerang de quatro metros e meio, com carreto Shimano Ultegra, carregado com multifilamento Fireline 0,22. Os anzóis continuam a ser Aberdeen muito comprido e finos, ideais para a sintética. Pelo menos é essa a minha opinião!
Enquanto montava a tralha, reparo que há movimento dentro do pinhal e reconheço a já habitual raposa que fez do contentor do lixo próximo um ponto de paragem diário. Já é a terceira ou quarta vez que vejo aquele bicho por ali. Não se impressionou com a minha presença, limitou-se a esperar que eu me “pirasse” para avançar a todo o gaz para o contentor.
Quando cheguei à praia estava o sol quase a esconder-se no horizonte, não havia vivalma, o que me admirou e me levou a pensar, “para não estar ninguém ou não tem dado peixe ou está cheio de lixo”.
Lá avancei até ao Bico da Ruiva, aquele pequeno bico mesmo em frente à Ínsua; isquei os anzóis e lancei para uma coroa de areia que já se adivinhava. Pouco depois verifiquei que a água corria para sul, recolhi e encontrei algum lixo nos anzóis. Voltei a lançar e pouco depois voltei a recolher com uma boa carrada de lixo. “Que grande merda, primeiro dia que venho pescar e está tudo cheio de lixo; por isso não está cá ninguém”, pensava eu, já desanimado.
Entretanto escurecera e decidi ir para sul até ao “Moinho” e lá tentar a sorte. Como a água estava faltar devido ao baixa-mar, viam-se claramente os areios e decidi pescar sobre um deles. Lá me mantive durante mais de uma hora sem qualquer resultado. De repente, surpresa… senti um toque, outro toque, puxo um pouco a cana para mim e sinto o peixe preso. Recolho nas calmas, é pequeno, pelo menos parece.
Era mesmo pequeno e vinha embuchado. Para lhe retirar o anzol quase lhe fiz uma autópsia. Pouco depois outro toque, a mesma operação e uma sargueta pequena, também embuchada. A partir daí tirei mais duas sarguetas e outro robalinho, tão pequenos que os devolvi ao mar, até porque não estavam embuchados e podiam sobreviver.
Notei então que um pouco mais a sul havia um rego entre duas coroas de areia, onde o mar não virava. “É ali mesmo que vou mandar dois lances, se der a mesma missanga vou já embora”.
Lancei para o tal rego, pousei a cana no suporte e subi um pouco a praia para ver melhor o trabalhar do mar.
Quando desci pareceu-me que a cana estava a dobrar, mas todos sabemos que muitas vezes é o mar ou apenas ilusão óptica; é que de noite todos os gatos são pardos.
Mas este não era pardo, a embraiagem já cantava e mal pus a mão na cana percebi logo que estava do outro lado um figurão de peso. O peixe até nem deu muito trabalho a vir para terra, apenas tive algum cuidado na rebentação e facilmente ficou em seco.
Mais que depressa, com o coração aos saltos, meti-lhe os dedos na guelra, levantei-o e calculei uns dois quilos de peso.
Toca a iscar outra vez, tudo me fugia das mãos e comecei a pensar que antigamente não me davam estes tremeliques. Se calhar é da idade!
Acabei por lançar, mas desta vez fiquei com a cana na mão na expectativa, que se desfez em menos de um minuto quando levei uma autêntica paulada na cana. De repente sinto a linha a sair aos sacões, com uma força enorme. Deito a mão á embraiagem para a aliviar um pouco mais por precaução e deixo de sentir o peixe. Recolho rapidamente, não vá o gajo ter deitado a correr para terra, habilidade que fazem muitas vezes, mas o peixe tinha-se desprendido.
Há muito tempo que não levava uns “coices” daqueles, certamente dados por um peixe realmente grande. Voltei a laçar para o mesmo sítio, mas durante o resto do tempo que lá permaneci não senti mais nenhum toque.
Vim para casa com um misto de sensações contraditórias; trazia um amargo de boca por ter perdido um peixe realmente espectacular, mas no saco “cantava” um de dois quilos e meio, que era quanto pesava o robalo que tinha apanhado.

Neste momento que estou a escrever penso, a frio, que era bom que isto me acontecesse de todas as vezes que vou pescar. Não era? 

Agosto de 2007

sábado, 22 de setembro de 2012

Crónica ao espelho de um quarto de hotel



Há dias li uma crónica do António Lobo Antunes onde fazia uma reflexão frente ao espelho de um qualquer quarto de hotel. Para dizer a verdade já não me lembro muito bem sobre o propósito da reflexão, mas retive a ideia que o quarto era sempre o mesmo só mudava de terra e de país sucessivamente. A mesma cama, o mesmo espelho, os mesmos cortinados em volta da janela. A mesma cadeira onde ele se sentava para escrever a crónica, um misto de obrigação contratual com a revista e a vontade de escrever qualquer coisa, só para não perder a mão.
Lembrei-me dos tempos em que também vivia mais tempo nos hotéis que em casa por dever de ofício. Dos tempos em que saltava do hotel para o restaurante, da residencial para a tasca, da cidade para a aldeia, da auto-estrada para o sinuoso caminho municipal. Com objectivos, mas sem fim. O ciclo repetia-se uma e outra vez, a ponto de tudo me parecer igual, mesmo diferente. Tal como o quarto de hotel do António.
Nos balcões de recepção onde já era tratado pelo nome, onde me cumprimentavam com modos quase familiares, já não preenchia fichas, recolhia a chave e subia sem precisar de ser orientado dentro do edifício. Também eles sempre iguais, corredores compridos, números nas portas, números altos como tivessem aquela quantidade de quartos…
Sobe-se sempre, é algo fantástico, nunca os quartos de hotel são em pisos inferiores. Sempre a subir, abre-se a porta e é sempre o mesmo. O roupeiro com três cruzetas, o espelho e a mesa com o bloco e a esferográfica. A televisão a um canto em frente às duas camas gémeas, a Bíblia na gaveta da mesinha de cabeceira.
Na casa de banho a sanita selada com a tira de papel branco, o rolo do papel higiénico com a dobra em v, as toalhas turcas dobradas sobre o varão, o copo de vidro virado sobre a prateleira ao lado do espelho iluminado. Por falar nisso, prefiro os espelhos dos quartos, como o António.
Com uma moldura fina em madeira, são geralmente mais humanos, dão-nos imagens mais simpáticas, mais quentes que os espelhos da casa de banho. Caras ensonadas, por barbear, cabelos em pé de triste figura. Sem falar nas caretas involuntárias que oferecemos ao espelho cada vez que fazemos a barba, a olhar de lado, a esticar a pele do pescoço ou do queixo, macaquices aproveitada pelos Beans para ridicularizar os espelhos… não a nós.
Mas é com o espelho do quarto de hotel que nós falamos, que apresentamos o problema que durante a tarde nos deixou sem resposta. Quem sabe se esses espelhos são feitos de algum produto especial, com algum magnetismo para nos sugerirem soluções?
Basta sentarmo-nos à sua frente, pousar as mãos sobre a mesa, pegar no bloco e na esferográfica publicitária, nem sequer é preciso fazer uns rabiscos… Desculpem, se calhar convêm, para a concentração.
Quando levantamos a cara para o espelho vemos um sujeito de ar cansado, que não sabe muito bem o que está ali a fazer, que não vê a família há um par de dias, que fala como um papagaio de circo para tipos que tem pouca vontade de o aturar e que também não vêem a família ainda há mais tempo e também dormem em quartos de hotel, com espelhos como este, que todos os dias olham… e não se reconhecem, como eu.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cabo Blanco

13 Julho 1936 - Não se via um palmo à frente do nariz e a névoa pegajosa e húmida tudo tolhia. O som repetitivo da máquina, adensava a sensação de isolamento criado pelo nevoeiro. O dia ainda vinha longe, já o Comandante Piño desesperava com o compasso e régua sobre a carta de navegação. Não perdia de vista a agulha de marear e na ponte vários pares de olhos esforçavam-se a escrutinar as trevas nevoentas. À volta do “Cabo Blanco” o mar tinha adormecido e cardumes de sardinha fugiam para o profundo ao sentirem a vibração daquele corpo estranho em movimento.
A viagem tinha-se iniciado em Huelva, às portas do Mediterrâneo, com uma carga de produtos da terra, vinho, azeite, amêndoa, figo entre outras iguarias de que os Galegos de Vigo eram escassos, destino desta cabotagem. Na Andaluzia corriam rumores sobre a eminência de um golpe dos monárquicos, há até quem diga que o General Queipo de Llano já dera as suas ordens. Talvez a carga de mantimentos do “Cabo Blanco” fizesse parte do plano de reforçar o abastecimento da Falange na Galiza, disso saberiam os armadores, não o comandante e muito menos os marinheiros, que estão ali para labutar.
Dois dias de mares remansosos, sem vento, nem ondulação, que fazem feliz qualquer marinheiro. Poupa-se no carvão e avia-se a empreitada a contento do cliente. Madrugada dentro, tinham avistado os clarões do farol de Esposende, passando a distância segura dos mal-afamados “Cavalos de Fão”, dentes rochosos sempre à espreita de incautos, destino amaldiçoado por viúvas e órfãos. Nor-noroeste, sentenciou o Comandante Piño, bom conhecedor daquelas voltas, enquanto o piloto rodava o leme a bombordo.
A máquina resfolegava pela pressão do vapor que impulsionava as enormes bielas de metal polido, peganhenta de óleo que os maquinistas lhe vertiam.
O dia levantara-se cedo e triste, a bordo despertavam corpos e consciências toldadas pelo palhete andaluz que correra farto ao serão. O Comandante olhou pela milésima vez para a bússola incrustada na campânula de latão polido. A cada minuto, o silvo estridente da sirene fendia a cúpula de algodão que lhes servia de céu. Por mais atentos e avisados que estivessem os dois marinheiros de atalaia nas asas da ponte, nada assinalavam ao angustiado oficial, homem sabedor, porém nervoso com tanta responsabilidade.
No seu cubículo, o radiotelegrafista, de auscultadores nos ouvidos, perscrutava o éter, ora partilhando a apreensão de outros navios presos no nevoeiro, ora acompanhando as informações das estações navais. À sua frente, a caneca de café, lembrava-lhe uma noite de espertina.
Entre dois silvos da sirene ouviu-se um ligeiro rocegar, como alguém que esgadunha ao longe. O silêncio regressou, apenas o tempo suficiente para todos se perguntarem sobre a origem de tão estranho ruído. O ribombar seguinte tirou-os de dúvidas e à vibração habitual provocada pela máquina, sobrepôs-se o tremor da estrutura metálica em luta contra a áspera penedia.
Após os primeiros momentos de estupor, correrias cruzaram o convés, semblantes de pânico, gentes aflitas emergentes do ventre metálico rasgado. A máquina deu à ré, demasiado tarde para esta manobra. Do pouco que se podia vislumbrar, percebia-se que tinham entrado por um afloramento rochoso, talvez a norte de Viana da Foz do Lima, agora conhecida pelo Castelo que lhe guarda o casario.
O pedido de socorro foi enviado sem demora e das estações costeiras de Lisboa e de Leixões foi acusada a recepção e prometido auxílio. Vários navios que se encontravam próximos responderam ao chamamento e pelo meio da manhã, quando o nevoeiro se retirou e o sol brilhou, com a posição obtida pelo sextante do Comandante Piño, reconheceram na velha e sebosa carta náutica, a costa de Montedor, onde se destacava a torre quadrada do farol agora apagado. A colina verdejante cortada verticalmente pelo mar observava-os sobranceira e os moinhos rodavam as pás preguiçosas. Na planície, camponeses sachavam o milho que lhes fornecia pão e alimentava o gado nos rigores do inverno.
Os sete passageiros desembarcaram a salvo pelo cabo lançado a terra e a maior parte da tripulação retirou-se do navio que abrira água nos porões da proa. Para a operação de desencalhe, iniciada nessa tarde, bastava a presença dos maquinistas e de mais alguns marinheiros para a manobra dos cabos de reboque. Trabalho vão, que nem o mar estanhado auxiliava. Dos buracos do casco saiam, ao sabor da corrente, os barris de vinho e azeite da Andaluzia, que mãos ávidas, a bordo das masseiras da Praia de Âncora e dos pesqueiros de Viana, retiravam das águas, antes que se escapassem para a praia, onde a chusma de camponeses se metia à rebentação para resgatar tanta fartura.
Não tardou a Guarda-fiscal querer arrecadar o que o mar dava e o engenho do povo subtraía. Negócios se fizeram entre pedras e dunas, barris e caixas eram carregados, o dinheiro mudava de mãos sumindo-se logo nos bolsos negros, enquanto o “Cabo Blanco “afundava lentamente a popa inundada. “Dali já não sai”, diz quem conhece bem os picos fortes e aguçados das rochas do Montedor, “com a graça de Deus, não morreu ninguém” responde quem está habituado às tragédias que o mar provoca.

sábado, 30 de abril de 2011

Pérolas amargas (2ª parte)

O farol tornou-se visível mais cedo que as contas feitas pelo capitão, que atribuiu este desfasamento a um amainar do vento e da ondulação, com consequente aumento da velocidade do barco.
- Ilhas Cies à vista, rumo 075, máquina devagar à vante…
- Não se vê nada, senhor. Não seria melhor esperar pela manhã?
- Quantas vezes entrou no porto de Vigo, imediato?
- É a segunda vez…
- Pois eu já aqui entrei mais de vinte… mais de trinta vezes. Quando se atinge aquele farol, o das ilhas Cies, muda-se de rumo, cruzamos devagar e fundeamos aqui – bateu com dedo grosso sobre o mapa – e esperamos piloto para atracar. Menos máquina… menos máquina, pode estar outro barco aí à frente…
O cargueiro deu de bordo à luz bruxuleante do pequeno farol e avançou decidido a entrar nas águas remansosas da Ria de Vigo.
- Marinheiro, largue a sonda… só para verificar…
- Senhor capitão, só temos quatro braças…
- Você está bêbado… meça outra vez.
- A diminuir para três… vamos encalhar.
- Não pode ser… máquina à ré, toda a força – berra o capitão, branco como a cal.
- Máquina à ré… tudo à ré…
A máquina calou-se por instantes e logo se voltaram a ouvir as bielas e cambotas a empurradas violentamente pelo vapor que silvava nos escapes.
Outro barulho se começou a ouvir, primeiro parecia distante, surdo, como se alguém estivesse a arranhar uma chapa para os lados da proa. Em crescendo, o barulho era agora seguido do estremecer de toda a estrutura. Os homens pararam com o trabalho para melhor perceberem o que acontecia. Alguém gritou “encalhamos” e todos se atropelavam para subir ao convés.
- Mais máquina à ré – berrava o capitão.
Ninguém lhe fez caso, todos estavam mais preocupados com as condições do encalhe e o perigo que daí advinha do que nas tentativas desesperadas do capitão em safar o barco. Todos sabiam que um navio quando encalha não sai pelos próprios meios e mesmo com ajuda, raramente se salva.
O “Antinous” estava agora imóvel e da ponte podiam apreciar o mar que rebentava de ambos os bordos do navio. Tinham encalhado sobre um seco de areia, não tinham encontrado pedra, não se ouvira o barulho aterrador da chapa a ser retalhada pelos dentes de granito, o terror, o pesadelo de qualquer marinheiro.
Sentiam-se encurralados mas conscientes que não corriam perigo imediato. As vagas começavam agora a fustigar a popa do navio imóvel. A bombordo continuavam a ver a pequena luz do farol que o capitão Jones tinha tomado por as Ilhas Cies.
Da asa da ponte um dos marinheiros disparou um very light alaranjado que bailou agitado ao vendaval de sudoeste. Ao segundo foguete de sinalização pareceu-lhes ver uma barreira de areia baixa pela proa do vapor.
- Costa Galega não é - resmungou o capitão, que transpirava abundantemente apesar do frio que se fazia sentir.
- Estamos certamente na barra do Rio Lima…
- Não pode ser, senhor Sullivan. Aquele farol é o de uma ilhota, a Ínsua, à entrada do Rio Minho… à nossa frente temos uma praia… temos de esperar auxílio.
Pequenas lanternas bruxuleantes viam-se em movimento pela praia, certamente gente que se tinha apercebido do naufrágio e que, movidos pela curiosidade, tinham descido desde as suas casas, indiferentes à invernia.
Quando o dia clareou surgiu do estuário do rio uma velha canhoneira vomitando fumo pela alta chaminé, chapinhando as rodas laterais nas águas ainda agitadas da foz. Várias manobras de aproximação foram ensaiadas e outras tantas abortadas pelo perigo de um segundo naufrágio. Já a manhã estava avançada quando se avistou a sul um rolo de fumo que rapidamente se aproximou e fácil foi distinguir a silhueta baixa e forte de um rebocador saído a toda a máquina do porto de Viana.
O “Antinous” continuava bem preso no banco de areia, perdido no extenso areal da praia de Moledo a cerca de cento e cinquenta metros da linha de praia mar. Cabos foram lançados pelo rebocador, as manobras duraram toda a tarde e os resultados foram nulos. Ao cair da noite aproveitando um período de acalmia e a viragem da maré, um dos escaleres do navio foi areado e parte da tripulação remou vigorosamente até à praia onde foi recebida com manifestações de carinho pelos populares, que os presenteavam com abundantes porções de bagaço retemperador de frios e emoções.
Durante a noite, o “Antinous” abriu água à ré e de manhã o capitão deu ordem de embarque aos tripulantes que tinham ficado a bordo, depois de desligarem a máquina e ter arrecadado as papeladas do cofre. Desta vez não remaram para terra, mas ao encontro do “Rio Minho” a canhoneira da marinha, representante da autoridade no local, que abrigada pela penedia da Ínsua se mantinha vigilante.
Nessa noite o mar cresceu e na manhã seguinte as águas tingiram-se de amarelo quando o milho arrecadado nos porões rebentados se soltou e vogou ao sabor das correntes.
A Guarda-fiscal ainda tentou impedir o povo de carregar o milho que em vagas sucessivas salpicava a fina areia de Moledo. Em breve a mancha amarela invadia outras praias, Âncora, Afife e Montedor. Destas freguesias surgiam carros de bois e grupos de mulheres que, de cesto de vime à cabeça, gratavam as pérolas douradas que o mar oferecia.
O “Antinous” não mais saiu de Moledo. Foi-se enterrando na areia sempre em movimento no canal entre a ilha da Ínsua e o Bico da Ruiva. Enterrou-se até ficar apenas com a chaminé fora da mortalha arenosa. Onde outrora saía fumo, passaram a viver mexilhões, indiferentes ao passado metálico do alojamento.
Os náufragos foram repatriados e poucas semanas depois já navegavam em outros navios, em outros mares, com mais uma história para contar aos novos camaradas.
O povo que diligentemente tinha recolhido tantas arrobas de milho, amaldiçoou a hora em que tinham encetado tão árdua tarefa, pois o milho grelou e apodreceu depois do contacto prolongado com a água do mar.
Hoje em dia a chaminé do “Antinous” continua erguida, despontando na areia durante a baixa-mar, testemunha solitária e silenciosa, respeitada por pescadores e outros navegantes que se esforçam todos os dias por não errarem o rumo.

Fim