quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ao cair das vésperas



Naqueles tempos a vida era dura, tanto para os pescadores que por cá ficavam, como para os que se aventuravam na pesca do bacalhau. Partiam para a Terra Nova e Gronelândia no final do inverno, regressando a meados do Outono, dependia da sorte e da habilidade do capitão para encherem mais ou menos depressa os porões soturnos do navio.
O Manuel João, tal como outros jovens da sua idade, agarrou a oportunidade de largar a pesca artesanal onde se ganhava uma côdea, para “ir ao bacalhau”; além disso, quem fizesse sete temporadas de bacalhau, livrava à tropa e à guerra em África.
Para quem sai a primeira vez da sua aldeia natal, tudo é uma aventura e sempre será melhor que receber umas míseras moedas no final de cada maré. Se o mar o permitir, porque de Inverno os frágeis barcos de boca aberta cavalgam rua acima entre o casario, para se furtarem às arremetidas do mar que fustiga o portinho, escavado entre as rochas agrestes do Moureiro e o Forte da Lagarteira..
Acabara de fazer a sua terceira viagem no “Rio Lima”, um barco lento, mas seguro, construído em 1952 pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. As condições de vida a bordo, apesar de duras, não se comparavam aos velhos lugres à vela, onde o seu pai e os irmãos mais velhos tinham pescado. Aí sim, era uma vida de escravidão e de perigo constante a pescar nos frágeis dóris, a viverem amontoados em cubículos como animais, a trabalhar perto de vinte horas por dia, sob as inclemências climatéricas do Atlântico Norte.
O “Rio Lima” tinha atracado a meio da manhã na doca de Viana do Castelo. Já lá estava o “Senhor dos Mareantes” e o “S. Ruy”, atracados desde a semana anterior. A roupa sebosa estava ensacada há muito, tal como as bugigangas compradas em St. Johns para a mãe e para as irmãs. Para o pai trazia, como de costume, pacotes de tabaco com filtro. O último banho a bordo libertou-o das escamas, disfarçou o odor a vísceras e a suor, mas não apagou as marcas do cansaço, as mãos gretadas e gastas, a barba hirsuta e o cabelo ensalitrado.
Após da manobra de atracar, cumpridas as formalidades, desembarcou pelo instável portaló ao encontro do abraço sentido dos familiares que o aguardavam no cais. Mais que um reencontro, era o renascer de uma coesão familiar, uma celebração da vida que recomeçava. Era dia de festa, a viagem para casa foi de carro de praça, um luxo reservado para bodas, emergências e para estas ocasiões.
Uma acha de pinheiro no fogão espevitou o fogo inundando a cozinha de aroma resinoso, que o refogado estava pronto de véspera e a cabidela surgiria enquanto contava as peripécias da viagem. Só as vitórias, os lances carregados de bacalhau, as partidas que pregaram aos colegas, as horas intermináveis na escala e salga. Os sustos, as lágrimas, as saudades e o medo não se apregoam, iriam sombrear os rostos felizes da família, que o escutam com um fervor quase religioso.
Depois do almoço saiu com rumo certo, o barbeiro que o expurgou das pilosidades acumuladas em sete meses de mar, vestígios sombrios que importa esquecer até à próxima viagem. No Poipa reencontrou companheiros, leu o jornal, soube as últimas do futebol e das coscuvilhices locais, antes da tesoura e da navalha cumprirem a sua missão. Quando olhou ao espelho não se reconheceu, custava-lhe acreditar que aquele rosto lhe pertencia, tão pálido e exangue, as orelhas penduradas na cabeça estreita, onde o nariz ganhava destaque, tal como um promontório avança mar a dentro.
Aviado do barbeiro, seguiu em direcção ao portinho, lugar que o viu nascer e crescer, onde se juntavam os amigos, onde se trocavam olhares e ditos com as raparigas, onde os homens enchiam as tabernas, nas quais ele já tinha entrada por direito próprio. A tarde correu rápida, talvez a conversa retida durante meses a tenha apressado, a noite cobriu a terra e o mar, despediu-se de cada um para regressar ao lar aquecido pela chama mortiça do fogão, onde o caldo de hortaliça papujava lentamente.
Estavam à sua espera, pois era hábito daquela comunidade cear após as vésperas.
- Por onde andaste meu filho, que se faz tarde.
- Ó mãe, ainda ficou gente na Curraca e no Coxo da Faena.
- Mas o teu pai já está à espera para depois se deitar… Afinal onde é que andaste?
- Fui ao Poipa cortar o cabelo e a barba…
- Graças a Deus…
- … Depois fui para o portinho e estive à conversa com os amigos… o Daniel, o João, o Nel do Côto, o…
- Qual João?
- Da tia Ermelinda… e bebemos umas malgas de vinho novo.
- Vê lá, já não estás habituado e pode fazer-te mal.
- Não se apoquente, minha mãe. Pouco bebi e só demorei mais um bocadinho porque encontrei na esquina da pensão um companheiro de escola e fiquei à conversa. Depois ele seguiu para casa e eu pelo Sol Posto acima… Aqui me tem!
- Quem é esse companheiro de escola? O Camilo?
- Esse ainda não vi. Era o Berto da Nila…
A tigela caiu com fragor no chão, espalhando cacos e caldo em todas as direcções. A cor fugiu das faces rosadas da Lurdes, petrificada de espanto e horror.
- Que foi, mãe? Parece que viu um lobisomem… Conhece o Berto da Nila… onde está o espanto?
- Tens a certeza, meu filho? – Balbucia a Lurdes, procurando o rosário no bolso do avental.
- Tenho, mãe! Então eu não conheço o Berto?! Olhe que fizemos juntos a quarta classe…
- Mas isso não é possível… a Nossa Senhora nos acuda…
- Então qual é o problema? Ele até estava tão bem disposto…
- Virgem Santíssima – gemeu a Lurdes com as lágrimas nos olhos – a sua alma não está tranquila.
- Que está aí a dizer, minha mãe! A sua alma?!...
- Sim, filho… O teu amigo… o Berto da Nila, esteve muito doente, chegaram a levá-lo para o Hospital de Viana, mas mandaram-no de volta para casa… o Berto… coitadinho, foi enterrado ontem…

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pescaria em Moledo

Andei vários meses a fazer planos para ir pescar, mas foram sucessivamente adiados com desculpas meio esfarrapadas que dava a mim próprio. Ora estava “muito mar”, ora estava frio, ora não tinha maré para apanhar isca, vocês sabem muito bem como é.  Também não tinha licença, o que é sempre uma boa desculpa!
Como tive duas semanas de férias em Julho pensei que desta vez é que era e tinha de ir desenferrujar o material. Tirei a licença no multibanco, revi o material e conclui que o melhor era refazer todas as baixadas, pois não me ofereciam o mínimo de segurança. Sempre fui adepto de substituir os materiais ao fim de algum tempo de uso, pois o contacto com a água salgada e as pedras enfraquecem tudo, as linhas, os anzóis, os distorceres, etc..
Então, um fim de tarde ventoso que me tinha corrido da praia para fora, enchi-me de paciência e fiz uma bela sessão de bricolage, como já não fazia há imenso tempo.
Na manhã seguinte fui à isca para Penedim (perto do Sanatório da Gelfa), dei cabo dos dedos e das unhas, mas consegui a “sintética” mais que suficiente para uma noite de pesca.
Não sei se sabem que “sintética” é aquilo que vocês conhecem como “linhas” ou teagem. Andava lá à isca o Mário, um amigo que é padeiro e que também estava de férias.
Conversa daqui, conversa dali enquanto apanhávamos isca, disse-me que ia pescar à noite com o cunhado ali no praial de Âncora, enquanto eu lhe disse que iria para Moledo, mais por causa da maré, que faria o baixa-mar lá perto da meia-noite. Eu gosto de pescar em Moledo, nas últimas horas do baixa-mar. Manias!
Depois do jantar, meti os “tarecos” no carro e abalei para Moledo, estacionei junto ao ultimo passadiço, junto ao Camarido e comecei a montar a cana, uma Hiro Boomerang de quatro metros e meio, com carreto Shimano Ultegra, carregado com multifilamento Fireline 0,22. Os anzóis continuam a ser Aberdeen muito comprido e finos, ideais para a sintética. Pelo menos é essa a minha opinião!
Enquanto montava a tralha, reparo que há movimento dentro do pinhal e reconheço a já habitual raposa que fez do contentor do lixo próximo um ponto de paragem diário. Já é a terceira ou quarta vez que vejo aquele bicho por ali. Não se impressionou com a minha presença, limitou-se a esperar que eu me “pirasse” para avançar a todo o gaz para o contentor.
Quando cheguei à praia estava o sol quase a esconder-se no horizonte, não havia vivalma, o que me admirou e me levou a pensar, “para não estar ninguém ou não tem dado peixe ou está cheio de lixo”.
Lá avancei até ao Bico da Ruiva, aquele pequeno bico mesmo em frente à Ínsua; isquei os anzóis e lancei para uma coroa de areia que já se adivinhava. Pouco depois verifiquei que a água corria para sul, recolhi e encontrei algum lixo nos anzóis. Voltei a lançar e pouco depois voltei a recolher com uma boa carrada de lixo. “Que grande merda, primeiro dia que venho pescar e está tudo cheio de lixo; por isso não está cá ninguém”, pensava eu, já desanimado.
Entretanto escurecera e decidi ir para sul até ao “Moinho” e lá tentar a sorte. Como a água estava faltar devido ao baixa-mar, viam-se claramente os areios e decidi pescar sobre um deles. Lá me mantive durante mais de uma hora sem qualquer resultado. De repente, surpresa… senti um toque, outro toque, puxo um pouco a cana para mim e sinto o peixe preso. Recolho nas calmas, é pequeno, pelo menos parece.
Era mesmo pequeno e vinha embuchado. Para lhe retirar o anzol quase lhe fiz uma autópsia. Pouco depois outro toque, a mesma operação e uma sargueta pequena, também embuchada. A partir daí tirei mais duas sarguetas e outro robalinho, tão pequenos que os devolvi ao mar, até porque não estavam embuchados e podiam sobreviver.
Notei então que um pouco mais a sul havia um rego entre duas coroas de areia, onde o mar não virava. “É ali mesmo que vou mandar dois lances, se der a mesma missanga vou já embora”.
Lancei para o tal rego, pousei a cana no suporte e subi um pouco a praia para ver melhor o trabalhar do mar.
Quando desci pareceu-me que a cana estava a dobrar, mas todos sabemos que muitas vezes é o mar ou apenas ilusão óptica; é que de noite todos os gatos são pardos.
Mas este não era pardo, a embraiagem já cantava e mal pus a mão na cana percebi logo que estava do outro lado um figurão de peso. O peixe até nem deu muito trabalho a vir para terra, apenas tive algum cuidado na rebentação e facilmente ficou em seco.
Mais que depressa, com o coração aos saltos, meti-lhe os dedos na guelra, levantei-o e calculei uns dois quilos de peso.
Toca a iscar outra vez, tudo me fugia das mãos e comecei a pensar que antigamente não me davam estes tremeliques. Se calhar é da idade!
Acabei por lançar, mas desta vez fiquei com a cana na mão na expectativa, que se desfez em menos de um minuto quando levei uma autêntica paulada na cana. De repente sinto a linha a sair aos sacões, com uma força enorme. Deito a mão á embraiagem para a aliviar um pouco mais por precaução e deixo de sentir o peixe. Recolho rapidamente, não vá o gajo ter deitado a correr para terra, habilidade que fazem muitas vezes, mas o peixe tinha-se desprendido.
Há muito tempo que não levava uns “coices” daqueles, certamente dados por um peixe realmente grande. Voltei a laçar para o mesmo sítio, mas durante o resto do tempo que lá permaneci não senti mais nenhum toque.
Vim para casa com um misto de sensações contraditórias; trazia um amargo de boca por ter perdido um peixe realmente espectacular, mas no saco “cantava” um de dois quilos e meio, que era quanto pesava o robalo que tinha apanhado.

Neste momento que estou a escrever penso, a frio, que era bom que isto me acontecesse de todas as vezes que vou pescar. Não era? 

Agosto de 2007

sábado, 22 de setembro de 2012

Crónica ao espelho de um quarto de hotel



Há dias li uma crónica do António Lobo Antunes onde fazia uma reflexão frente ao espelho de um qualquer quarto de hotel. Para dizer a verdade já não me lembro muito bem sobre o propósito da reflexão, mas retive a ideia que o quarto era sempre o mesmo só mudava de terra e de país sucessivamente. A mesma cama, o mesmo espelho, os mesmos cortinados em volta da janela. A mesma cadeira onde ele se sentava para escrever a crónica, um misto de obrigação contratual com a revista e a vontade de escrever qualquer coisa, só para não perder a mão.
Lembrei-me dos tempos em que também vivia mais tempo nos hotéis que em casa por dever de ofício. Dos tempos em que saltava do hotel para o restaurante, da residencial para a tasca, da cidade para a aldeia, da auto-estrada para o sinuoso caminho municipal. Com objectivos, mas sem fim. O ciclo repetia-se uma e outra vez, a ponto de tudo me parecer igual, mesmo diferente. Tal como o quarto de hotel do António.
Nos balcões de recepção onde já era tratado pelo nome, onde me cumprimentavam com modos quase familiares, já não preenchia fichas, recolhia a chave e subia sem precisar de ser orientado dentro do edifício. Também eles sempre iguais, corredores compridos, números nas portas, números altos como tivessem aquela quantidade de quartos…
Sobe-se sempre, é algo fantástico, nunca os quartos de hotel são em pisos inferiores. Sempre a subir, abre-se a porta e é sempre o mesmo. O roupeiro com três cruzetas, o espelho e a mesa com o bloco e a esferográfica. A televisão a um canto em frente às duas camas gémeas, a Bíblia na gaveta da mesinha de cabeceira.
Na casa de banho a sanita selada com a tira de papel branco, o rolo do papel higiénico com a dobra em v, as toalhas turcas dobradas sobre o varão, o copo de vidro virado sobre a prateleira ao lado do espelho iluminado. Por falar nisso, prefiro os espelhos dos quartos, como o António.
Com uma moldura fina em madeira, são geralmente mais humanos, dão-nos imagens mais simpáticas, mais quentes que os espelhos da casa de banho. Caras ensonadas, por barbear, cabelos em pé de triste figura. Sem falar nas caretas involuntárias que oferecemos ao espelho cada vez que fazemos a barba, a olhar de lado, a esticar a pele do pescoço ou do queixo, macaquices aproveitada pelos Beans para ridicularizar os espelhos… não a nós.
Mas é com o espelho do quarto de hotel que nós falamos, que apresentamos o problema que durante a tarde nos deixou sem resposta. Quem sabe se esses espelhos são feitos de algum produto especial, com algum magnetismo para nos sugerirem soluções?
Basta sentarmo-nos à sua frente, pousar as mãos sobre a mesa, pegar no bloco e na esferográfica publicitária, nem sequer é preciso fazer uns rabiscos… Desculpem, se calhar convêm, para a concentração.
Quando levantamos a cara para o espelho vemos um sujeito de ar cansado, que não sabe muito bem o que está ali a fazer, que não vê a família há um par de dias, que fala como um papagaio de circo para tipos que tem pouca vontade de o aturar e que também não vêem a família ainda há mais tempo e também dormem em quartos de hotel, com espelhos como este, que todos os dias olham… e não se reconhecem, como eu.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cabo Blanco

13 Julho 1936 - Não se via um palmo à frente do nariz e a névoa pegajosa e húmida tudo tolhia. O som repetitivo da máquina, adensava a sensação de isolamento criado pelo nevoeiro. O dia ainda vinha longe, já o Comandante Piño desesperava com o compasso e régua sobre a carta de navegação. Não perdia de vista a agulha de marear e na ponte vários pares de olhos esforçavam-se a escrutinar as trevas nevoentas. À volta do “Cabo Blanco” o mar tinha adormecido e cardumes de sardinha fugiam para o profundo ao sentirem a vibração daquele corpo estranho em movimento.
A viagem tinha-se iniciado em Huelva, às portas do Mediterrâneo, com uma carga de produtos da terra, vinho, azeite, amêndoa, figo entre outras iguarias de que os Galegos de Vigo eram escassos, destino desta cabotagem. Na Andaluzia corriam rumores sobre a eminência de um golpe dos monárquicos, há até quem diga que o General Queipo de Llano já dera as suas ordens. Talvez a carga de mantimentos do “Cabo Blanco” fizesse parte do plano de reforçar o abastecimento da Falange na Galiza, disso saberiam os armadores, não o comandante e muito menos os marinheiros, que estão ali para labutar.
Dois dias de mares remansosos, sem vento, nem ondulação, que fazem feliz qualquer marinheiro. Poupa-se no carvão e avia-se a empreitada a contento do cliente. Madrugada dentro, tinham avistado os clarões do farol de Esposende, passando a distância segura dos mal-afamados “Cavalos de Fão”, dentes rochosos sempre à espreita de incautos, destino amaldiçoado por viúvas e órfãos. Nor-noroeste, sentenciou o Comandante Piño, bom conhecedor daquelas voltas, enquanto o piloto rodava o leme a bombordo.
A máquina resfolegava pela pressão do vapor que impulsionava as enormes bielas de metal polido, peganhenta de óleo que os maquinistas lhe vertiam.
O dia levantara-se cedo e triste, a bordo despertavam corpos e consciências toldadas pelo palhete andaluz que correra farto ao serão. O Comandante olhou pela milésima vez para a bússola incrustada na campânula de latão polido. A cada minuto, o silvo estridente da sirene fendia a cúpula de algodão que lhes servia de céu. Por mais atentos e avisados que estivessem os dois marinheiros de atalaia nas asas da ponte, nada assinalavam ao angustiado oficial, homem sabedor, porém nervoso com tanta responsabilidade.
No seu cubículo, o radiotelegrafista, de auscultadores nos ouvidos, perscrutava o éter, ora partilhando a apreensão de outros navios presos no nevoeiro, ora acompanhando as informações das estações navais. À sua frente, a caneca de café, lembrava-lhe uma noite de espertina.
Entre dois silvos da sirene ouviu-se um ligeiro rocegar, como alguém que esgadunha ao longe. O silêncio regressou, apenas o tempo suficiente para todos se perguntarem sobre a origem de tão estranho ruído. O ribombar seguinte tirou-os de dúvidas e à vibração habitual provocada pela máquina, sobrepôs-se o tremor da estrutura metálica em luta contra a áspera penedia.
Após os primeiros momentos de estupor, correrias cruzaram o convés, semblantes de pânico, gentes aflitas emergentes do ventre metálico rasgado. A máquina deu à ré, demasiado tarde para esta manobra. Do pouco que se podia vislumbrar, percebia-se que tinham entrado por um afloramento rochoso, talvez a norte de Viana da Foz do Lima, agora conhecida pelo Castelo que lhe guarda o casario.
O pedido de socorro foi enviado sem demora e das estações costeiras de Lisboa e de Leixões foi acusada a recepção e prometido auxílio. Vários navios que se encontravam próximos responderam ao chamamento e pelo meio da manhã, quando o nevoeiro se retirou e o sol brilhou, com a posição obtida pelo sextante do Comandante Piño, reconheceram na velha e sebosa carta náutica, a costa de Montedor, onde se destacava a torre quadrada do farol agora apagado. A colina verdejante cortada verticalmente pelo mar observava-os sobranceira e os moinhos rodavam as pás preguiçosas. Na planície, camponeses sachavam o milho que lhes fornecia pão e alimentava o gado nos rigores do inverno.
Os sete passageiros desembarcaram a salvo pelo cabo lançado a terra e a maior parte da tripulação retirou-se do navio que abrira água nos porões da proa. Para a operação de desencalhe, iniciada nessa tarde, bastava a presença dos maquinistas e de mais alguns marinheiros para a manobra dos cabos de reboque. Trabalho vão, que nem o mar estanhado auxiliava. Dos buracos do casco saiam, ao sabor da corrente, os barris de vinho e azeite da Andaluzia, que mãos ávidas, a bordo das masseiras da Praia de Âncora e dos pesqueiros de Viana, retiravam das águas, antes que se escapassem para a praia, onde a chusma de camponeses se metia à rebentação para resgatar tanta fartura.
Não tardou a Guarda-fiscal querer arrecadar o que o mar dava e o engenho do povo subtraía. Negócios se fizeram entre pedras e dunas, barris e caixas eram carregados, o dinheiro mudava de mãos sumindo-se logo nos bolsos negros, enquanto o “Cabo Blanco “afundava lentamente a popa inundada. “Dali já não sai”, diz quem conhece bem os picos fortes e aguçados das rochas do Montedor, “com a graça de Deus, não morreu ninguém” responde quem está habituado às tragédias que o mar provoca.

sábado, 30 de abril de 2011

Pérolas amargas (2ª parte)

O farol tornou-se visível mais cedo que as contas feitas pelo capitão, que atribuiu este desfasamento a um amainar do vento e da ondulação, com consequente aumento da velocidade do barco.
- Ilhas Cies à vista, rumo 075, máquina devagar à vante…
- Não se vê nada, senhor. Não seria melhor esperar pela manhã?
- Quantas vezes entrou no porto de Vigo, imediato?
- É a segunda vez…
- Pois eu já aqui entrei mais de vinte… mais de trinta vezes. Quando se atinge aquele farol, o das ilhas Cies, muda-se de rumo, cruzamos devagar e fundeamos aqui – bateu com dedo grosso sobre o mapa – e esperamos piloto para atracar. Menos máquina… menos máquina, pode estar outro barco aí à frente…
O cargueiro deu de bordo à luz bruxuleante do pequeno farol e avançou decidido a entrar nas águas remansosas da Ria de Vigo.
- Marinheiro, largue a sonda… só para verificar…
- Senhor capitão, só temos quatro braças…
- Você está bêbado… meça outra vez.
- A diminuir para três… vamos encalhar.
- Não pode ser… máquina à ré, toda a força – berra o capitão, branco como a cal.
- Máquina à ré… tudo à ré…
A máquina calou-se por instantes e logo se voltaram a ouvir as bielas e cambotas a empurradas violentamente pelo vapor que silvava nos escapes.
Outro barulho se começou a ouvir, primeiro parecia distante, surdo, como se alguém estivesse a arranhar uma chapa para os lados da proa. Em crescendo, o barulho era agora seguido do estremecer de toda a estrutura. Os homens pararam com o trabalho para melhor perceberem o que acontecia. Alguém gritou “encalhamos” e todos se atropelavam para subir ao convés.
- Mais máquina à ré – berrava o capitão.
Ninguém lhe fez caso, todos estavam mais preocupados com as condições do encalhe e o perigo que daí advinha do que nas tentativas desesperadas do capitão em safar o barco. Todos sabiam que um navio quando encalha não sai pelos próprios meios e mesmo com ajuda, raramente se salva.
O “Antinous” estava agora imóvel e da ponte podiam apreciar o mar que rebentava de ambos os bordos do navio. Tinham encalhado sobre um seco de areia, não tinham encontrado pedra, não se ouvira o barulho aterrador da chapa a ser retalhada pelos dentes de granito, o terror, o pesadelo de qualquer marinheiro.
Sentiam-se encurralados mas conscientes que não corriam perigo imediato. As vagas começavam agora a fustigar a popa do navio imóvel. A bombordo continuavam a ver a pequena luz do farol que o capitão Jones tinha tomado por as Ilhas Cies.
Da asa da ponte um dos marinheiros disparou um very light alaranjado que bailou agitado ao vendaval de sudoeste. Ao segundo foguete de sinalização pareceu-lhes ver uma barreira de areia baixa pela proa do vapor.
- Costa Galega não é - resmungou o capitão, que transpirava abundantemente apesar do frio que se fazia sentir.
- Estamos certamente na barra do Rio Lima…
- Não pode ser, senhor Sullivan. Aquele farol é o de uma ilhota, a Ínsua, à entrada do Rio Minho… à nossa frente temos uma praia… temos de esperar auxílio.
Pequenas lanternas bruxuleantes viam-se em movimento pela praia, certamente gente que se tinha apercebido do naufrágio e que, movidos pela curiosidade, tinham descido desde as suas casas, indiferentes à invernia.
Quando o dia clareou surgiu do estuário do rio uma velha canhoneira vomitando fumo pela alta chaminé, chapinhando as rodas laterais nas águas ainda agitadas da foz. Várias manobras de aproximação foram ensaiadas e outras tantas abortadas pelo perigo de um segundo naufrágio. Já a manhã estava avançada quando se avistou a sul um rolo de fumo que rapidamente se aproximou e fácil foi distinguir a silhueta baixa e forte de um rebocador saído a toda a máquina do porto de Viana.
O “Antinous” continuava bem preso no banco de areia, perdido no extenso areal da praia de Moledo a cerca de cento e cinquenta metros da linha de praia mar. Cabos foram lançados pelo rebocador, as manobras duraram toda a tarde e os resultados foram nulos. Ao cair da noite aproveitando um período de acalmia e a viragem da maré, um dos escaleres do navio foi areado e parte da tripulação remou vigorosamente até à praia onde foi recebida com manifestações de carinho pelos populares, que os presenteavam com abundantes porções de bagaço retemperador de frios e emoções.
Durante a noite, o “Antinous” abriu água à ré e de manhã o capitão deu ordem de embarque aos tripulantes que tinham ficado a bordo, depois de desligarem a máquina e ter arrecadado as papeladas do cofre. Desta vez não remaram para terra, mas ao encontro do “Rio Minho” a canhoneira da marinha, representante da autoridade no local, que abrigada pela penedia da Ínsua se mantinha vigilante.
Nessa noite o mar cresceu e na manhã seguinte as águas tingiram-se de amarelo quando o milho arrecadado nos porões rebentados se soltou e vogou ao sabor das correntes.
A Guarda-fiscal ainda tentou impedir o povo de carregar o milho que em vagas sucessivas salpicava a fina areia de Moledo. Em breve a mancha amarela invadia outras praias, Âncora, Afife e Montedor. Destas freguesias surgiam carros de bois e grupos de mulheres que, de cesto de vime à cabeça, gratavam as pérolas douradas que o mar oferecia.
O “Antinous” não mais saiu de Moledo. Foi-se enterrando na areia sempre em movimento no canal entre a ilha da Ínsua e o Bico da Ruiva. Enterrou-se até ficar apenas com a chaminé fora da mortalha arenosa. Onde outrora saía fumo, passaram a viver mexilhões, indiferentes ao passado metálico do alojamento.
Os náufragos foram repatriados e poucas semanas depois já navegavam em outros navios, em outros mares, com mais uma história para contar aos novos camaradas.
O povo que diligentemente tinha recolhido tantas arrobas de milho, amaldiçoou a hora em que tinham encetado tão árdua tarefa, pois o milho grelou e apodreceu depois do contacto prolongado com a água do mar.
Hoje em dia a chaminé do “Antinous” continua erguida, despontando na areia durante a baixa-mar, testemunha solitária e silenciosa, respeitada por pescadores e outros navegantes que se esforçam todos os dias por não errarem o rumo.

Fim

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pérolas Amargas (1ª parte)

O barulho cadenciado da máquina a vapor de tripla expansão adormecia-lhes os sentidos. O barulho e os tragos de aguardente que tinham embarcado discretamente em Buenos Aires, no estuário do Rio da Prata onde tinham recebido os sacos de milho, que enchiam os porões do cargueiro inglês.

A viagem começara com bom tempo, Janeiro era mês de Verão nos mares do sul e tinham apanhado uma verdadeira calmaria até à escala de reabastecimento na ilha do Sal, em Cabo Verde. Uma escala rápida, apenas vinte e quatro horas para encher as tulhas de carvão e os depósitos de água.

Já tinham deixado a Madeira para trás e passavam agora ao largo do Cabo de S. Vicente quando o barómetro começou a cair como uma pedra. O Capitão Jones resmungou uma praga e bateu com os nós dos dedos no mostrador redondo do aparelho, como que a certificar-se do seu bom funcionamento. A oeste, no horizonte, uma estreita faixa cinzenta reflectia sobre as águas azuis uma mancha baça que ia crescendo a cada hora que passava.

- Vamos apanhar borrasca na costa de Portugal, capitão? – pergunta o imediato Sullivan, um galês trigueiro, alto e magro que tinha de se curvar ao passar nas portas do navio.

- Parece que sim… Vá lá abaixo e diga ao chefe que dê o que puder na máquina… A ver se chegamos a Vigo sem levar muito…

Na sala da máquina o calor era infernal, os maquinistas de almotolia em punho lubrificavam bielas e chumaceiras, enquanto os fogueiros se afadigavam a alimentar a fornalha da caldeira. Ao escutar as novas ordens, o grego que superintendia a maquinaria encolheu os ombros e aumentou dois pontos à pressão da máquina, perante o olhar furibundo dos fogueiros que adivinharam um ritmo maior de trabalho. Um deles não se inibiu de escarrar e bater ostensivamente com um pé no chão metálico e fuliginoso como que a discordar da opção do chefe.

Durante a noite, empurrado pelo vento, o mar ia aumentando, tinha já vaga de quatro metros, nada que assustasse estes marinheiros confiantes na experiencia de muitas viagens, confiantes na robustez do “Antinous”, construído quinze anos antes nos estaleiros Thompson, R. de Southwick, na Inglaterra.

De manhã, o Capitão Jones tinha os olhos vermelhos da falta de descanso e dos inúmeros grogues feitos à base de aguardente argentina, bem melhor que a cachaça de cana brasileira.

Da máquina viera a informação que tinham de reduzir drasticamente o andamento porque uma válvula de retorno não funcionava convenientemente. Uma ladainha de pragas e mais um gole na caneca de alumínio foi a resposta eloquente do capitão, que deitou uma olhada ao mapa estendido sobre a mesa na salinha anexa à ponte de comando.

A meio da tarde a chuva que até aí se fizera sentir ligeira, aumentou de intensidade fustigando impiedosamente as chapas metálicas do “Antinous”. A visibilidade ficou reduzida a poucas dezenas de metros e um marinheiro foi guarnecer o sino de bronze que repicava a cada trinta segundos.

Os homens que não estavam de serviço deixavam-se ficar nos catres, acabrunhados com a tempestade que tanto elevava como afundava o navio nas ondas coroadas de alva espuma. As chapas rangiam e qualquer novato se atemorizaria com este som lugrebe. Mas não estes, que já tinham passado por muitas tempestades de meter medo. Apenas se aborreciam porque não conseguiam dormir com o balanço, com o barulho da máquina, da chuva e do sino, uma combinação infernal, mesmo para quem fazia do mar a sua casa.

O telegrafista entregou ao capitão uma mensagem proveniente do Comando Naval, a informar que as barras de Portugal estavam encerradas, excepto Lisboa e Setúbal. A mensagem terminava com a informação que o mau tempo se iria manter por mais vinte e quatro horas.

Amarrotou impaciente o bilhete e pensou que teria de seguir em frente até ao destino, abandonando em definitivo a ideia de se abrigar na barra do Douro, apesar do perigo que constituía a sua entrada com mar grosso.

- Vamos para as Rias… Merda de país, que nem um porto de abrigo tem…

Deixou-se cair exausto no seu cadeirão ainda com o aviso telegrafado na mão. O Imediato Sullivan pigarreou e quando o capitão levantou a cabeça disse-lhe:

- Porque é que não vai descansar uma ou duas horas, senhor? Eu fico aqui e se houver algum problema chamo-o…

- Não, Senhor Sullivan… é meu dever estar ao comando. Vou sentar-me aqui um bocado… isso basta-me. Envie um marinheiro à cozinha para me trazer alguma coisa de comer… e de beber.

As horas passaram, o mar continuava grosso e a chuva caía com abundância, como nunca se viu em terra firme. Entre períodos de modorra e espertina, o Capitão Jones manteve-se no cadeirão de comando instalado na ponte, mesmo ao lado da enorme roda do leme. A noite cerrou-se e um clarão fugaz adivinhava-se, mais do que se via, a leste, entre a cortina de chuva que nada fazia abrandar.

- Capitão… senhor – chamou o imediato – vê-se um clarão a estibordo… certamente um farol.

O Capitão Jones aguardou alguns minutos com a cabeça encostada ao vidro de uma janela lateral da ponte, com as mãos a fazerem uma concha junto aos olhos. Debruçou-se sobre o mapa e apontou para um ponto na costa portuguesa e correu o dedo até outro ponto. Abriu o compasso, mediu na escala, calculou mentalmente o tempo que demoraria a travessia e concluiu:

- Três horas… Daqui a três horas temos abrigo. Marinheiros, olhos bem abertos ao próximo farol… e quero o sineiro a tocar como um homem… parece um rabeta a fazer-lhe cócegas…

(continua)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Anjo

Este conto constitui a minha participação na colectânea de prosa e poesia "A Arte pela Escrita III" da editora Mosaico de Palavras.

Senti-me observado, incómodo, não estava mais ninguém por perto, mas aquele olhar penetrante, atento, fixo, de uma imobilidade perturbadora, transformou-me numa espécie minúscula, quase microscópica, escalpelizada sob o vidro da lupa, qual verme tentando escapar, ondulante, que é o único andar que conhece. Levantei-me, lentamente, muito lentamente fui em sua direcção, mas não reagiu, Saramago diria que era um anjo, daqueles que não perdoam porque não é essa a sua função, este teria como missão observar-me, talvez fosse dos que castigam. Castigar? Porquê? Não será castigo demais as armas e os barões assinalados, apontados a dedo e filmados, dia após dia, tragédias contemporâneas do berço, da saia, da estrada, do crime sem castigo, que a justiça alem de cega, é surda e manca. Não será demais a contradição do homem, que cresce, aprende saberes que o envaidecem, terminando ele próprio como um destroço arrastado na grande vaga do tempo. Pelo canto do olho procurei o seu olhar, parece-me que se mexeu um pouco, talvez mais para norte, enfrentando a ventania de meia tarde. Agora que estava de perfil podia ver-lhe melhor a cabeça cinzenta e o olho negro atento aos meus movimentos, até aos meus pensamentos, se realmente for o tal anjo. Este deve ser dos que dão as novidades, que levam e trazem as boas novas, ainda à moda antiga, batendo as asas pelos céus, que no paraíso coisas modernas ficam à porta. Mas eu não sou carpinteiro, nem devoto de água benta, não tenho direito a novas por decreto celeste, muito menos por anjos de recado encomendado, Ele tem mais que fazer do que se preocupar com as minhas interrogações. Ao longe, ouvem-se os gritos e risos de quem se banha entre a espuma equilibrada na crista das ondas. As cabeças sobem e descem, desaparecem por instantes como que a purificarem-se das arrelias diárias aforradas nos invernos tristes, sombrios, das vidas sem interesse, sem viço e sem memória. Em volta, olhares ociosos procuram os seus, que a praia é grande e crianças são como areia a escorregar entre os dedos. Outros, transformam a vista no instrumento da cobiça, descarados, dissimuladas, pensamentos dissolutos, que nem o anjo descortina, que essa também não parece ser a sua especialidade. Para isso teria de chamar um de nível superior, um querubim ou se o caso for demasiado grave, um serafim. Agora não vale a pena, a tarde caminha para o crepúsculo, todos se secam, todos se vestem, a cobiça regressa à anterior modorra até ao novo dia, desculpem, não vale mesmo a pena incomodarem-se por isso, é normal e não chegariam todos os anjos do Paraíso para percorrerem as praias do litoral, a meterem juízo nas cabeças, pensamentos pios e castos. Alguns irão à missa das seis, nem se lembram do pecado, se é que isso ainda existe para tão pequena e banal distracção. Se existe não deve ser dos graves, de contrário Ele já se teria aborrecido com tamanha falta de vergonha e não deixaria o assunto nas mãos de um anjo menor, de cabeça cinzenta e olhos negros, que acomoda as asas brancas com um trejeito de ombros e me segue enquanto dou voltas pela sala. Vou à varanda, quero vê-lo de perto, falar-lhe. Talvez tenha alguma mensagem e esteja à minha espera, olá, disse eu, que não sei como cumprimentar um anjo, virou a majestosa cabeça bem de frente, baixou-a um nada, como a avaliar-me, tal como o alfaiate aprecia o freguês. O silêncio quebrado apenas pelos retardatários que na avenida rodeiam as tendas dos gelados, colares e fantasias que tornam mulheres formosas, não perturba o nosso frente a frente. Percebi que não me iria falar, não precisava e eu compreendi finalmente aquele olhar penetrante que me pedia ajuda. Sim, ajuda, era a mensagem daquele ser, agora estou convencido que é um anjo, não dos serafins, nem querubins, mas dos anjos da guarda que apesar do nome não andam armados, para isso temos os bandidos, uns com farda, outros nem isso. Aquecimento global, poluição das águas, desflorestação, derrame de petróleo, ocupação desregrada e corrupta dos solos, que Terra iremos deixar aos nossos filhos? E que filhos estás tu a preparar para esta Terra, diz-me o anjo que não fala, mas eu entendo, já te esqueceste que foram os filhos e os netos dos teus antepassados que nos estão a levar à ruína? Tens razão, e que faz o teu Senhor, não pode lançar um vento que corra com todos os incompetentes, corruptos e demais auxiliares dessa grande confraria. Alea iacta est, que é como quem diz, a sorte está lançada, respondeu-me o anjo, deixando que o vento do crepúsculo lhe acariciasse a alva pelagem. Baixou a cabeça, talvez um saudar, até qualquer dia, abriu as asas e juntou-se ao bando de gaivotas que regressavam à penedia.