segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Anjo

Este conto constitui a minha participação na colectânea de prosa e poesia "A Arte pela Escrita III" da editora Mosaico de Palavras.

Senti-me observado, incómodo, não estava mais ninguém por perto, mas aquele olhar penetrante, atento, fixo, de uma imobilidade perturbadora, transformou-me numa espécie minúscula, quase microscópica, escalpelizada sob o vidro da lupa, qual verme tentando escapar, ondulante, que é o único andar que conhece. Levantei-me, lentamente, muito lentamente fui em sua direcção, mas não reagiu, Saramago diria que era um anjo, daqueles que não perdoam porque não é essa a sua função, este teria como missão observar-me, talvez fosse dos que castigam. Castigar? Porquê? Não será castigo demais as armas e os barões assinalados, apontados a dedo e filmados, dia após dia, tragédias contemporâneas do berço, da saia, da estrada, do crime sem castigo, que a justiça alem de cega, é surda e manca. Não será demais a contradição do homem, que cresce, aprende saberes que o envaidecem, terminando ele próprio como um destroço arrastado na grande vaga do tempo. Pelo canto do olho procurei o seu olhar, parece-me que se mexeu um pouco, talvez mais para norte, enfrentando a ventania de meia tarde. Agora que estava de perfil podia ver-lhe melhor a cabeça cinzenta e o olho negro atento aos meus movimentos, até aos meus pensamentos, se realmente for o tal anjo. Este deve ser dos que dão as novidades, que levam e trazem as boas novas, ainda à moda antiga, batendo as asas pelos céus, que no paraíso coisas modernas ficam à porta. Mas eu não sou carpinteiro, nem devoto de água benta, não tenho direito a novas por decreto celeste, muito menos por anjos de recado encomendado, Ele tem mais que fazer do que se preocupar com as minhas interrogações. Ao longe, ouvem-se os gritos e risos de quem se banha entre a espuma equilibrada na crista das ondas. As cabeças sobem e descem, desaparecem por instantes como que a purificarem-se das arrelias diárias aforradas nos invernos tristes, sombrios, das vidas sem interesse, sem viço e sem memória. Em volta, olhares ociosos procuram os seus, que a praia é grande e crianças são como areia a escorregar entre os dedos. Outros, transformam a vista no instrumento da cobiça, descarados, dissimuladas, pensamentos dissolutos, que nem o anjo descortina, que essa também não parece ser a sua especialidade. Para isso teria de chamar um de nível superior, um querubim ou se o caso for demasiado grave, um serafim. Agora não vale a pena, a tarde caminha para o crepúsculo, todos se secam, todos se vestem, a cobiça regressa à anterior modorra até ao novo dia, desculpem, não vale mesmo a pena incomodarem-se por isso, é normal e não chegariam todos os anjos do Paraíso para percorrerem as praias do litoral, a meterem juízo nas cabeças, pensamentos pios e castos. Alguns irão à missa das seis, nem se lembram do pecado, se é que isso ainda existe para tão pequena e banal distracção. Se existe não deve ser dos graves, de contrário Ele já se teria aborrecido com tamanha falta de vergonha e não deixaria o assunto nas mãos de um anjo menor, de cabeça cinzenta e olhos negros, que acomoda as asas brancas com um trejeito de ombros e me segue enquanto dou voltas pela sala. Vou à varanda, quero vê-lo de perto, falar-lhe. Talvez tenha alguma mensagem e esteja à minha espera, olá, disse eu, que não sei como cumprimentar um anjo, virou a majestosa cabeça bem de frente, baixou-a um nada, como a avaliar-me, tal como o alfaiate aprecia o freguês. O silêncio quebrado apenas pelos retardatários que na avenida rodeiam as tendas dos gelados, colares e fantasias que tornam mulheres formosas, não perturba o nosso frente a frente. Percebi que não me iria falar, não precisava e eu compreendi finalmente aquele olhar penetrante que me pedia ajuda. Sim, ajuda, era a mensagem daquele ser, agora estou convencido que é um anjo, não dos serafins, nem querubins, mas dos anjos da guarda que apesar do nome não andam armados, para isso temos os bandidos, uns com farda, outros nem isso. Aquecimento global, poluição das águas, desflorestação, derrame de petróleo, ocupação desregrada e corrupta dos solos, que Terra iremos deixar aos nossos filhos? E que filhos estás tu a preparar para esta Terra, diz-me o anjo que não fala, mas eu entendo, já te esqueceste que foram os filhos e os netos dos teus antepassados que nos estão a levar à ruína? Tens razão, e que faz o teu Senhor, não pode lançar um vento que corra com todos os incompetentes, corruptos e demais auxiliares dessa grande confraria. Alea iacta est, que é como quem diz, a sorte está lançada, respondeu-me o anjo, deixando que o vento do crepúsculo lhe acariciasse a alva pelagem. Baixou a cabeça, talvez um saudar, até qualquer dia, abriu as asas e juntou-se ao bando de gaivotas que regressavam à penedia.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Nos trilhos do contrabando VII

Na sala grande, frente ao televisor, uma senhora idosa estava sentada no cadeirão de couro castanho a condizer com a restante mobília. Ao fundo, no fogão de sala, amorrinhavam algumas brasas.
Cabelos brancos, um rosto enrugado onde sobressaíam os olhos negros, com mais vida que o corpo alquebrado. Fez um esforço e ergueu-se apoiada na bengala. Fomos ao seu encontro, instalamo-nos no sofá à sua direita. O Esteves quis oferecer-nos os aperitivos que recusamos. Estava mais interessado em ouvir a anciã e a Paula ainda estava mais curiosa que eu.
- Então foram vocês que encontraram o esqueleto lá em cima?
- Lá em cima? – Perguntei.
- Sim, na Branda da Aveleira.
- Ah!… Sim, fomos nós.
- Ó `Mingos, vai-te lá embora, que tenho que falar com estes senhores.
- Mas avó, não vê…
- Nem mas, nem meio mas… Quando acabar, eu chamo-te. E não te esqueças de dizer à tua mulher para pôr mais dois pratos.
Obedientemente o Esteves saiu e fechou a porta atrás de si. Notava-se que a velhota tinha uma personalidade forte, apesar da idade e que sabia muito bem impor a sua vontade. Encarou-nos com um olhar tão agudo que me incomodou e começou a falar.
- Quero que me prometam nunca dizer a ninguém aquilo que vos vou contar. Mas a ninguém mesmo, compreendem?
- Sim…
- Então prometam!
- Ok, prometemos…
- A senhora também – diz a velhota, olhando a Paula.
- Prometo, mas porque é que nos quer contar não sabemos o quê, se nem nos conhece e nem quer que o seu neto escute?
- Já vos explico tudo, – inclinou-se para a frente, as mãos apoiadas na bengala, a voz mais baixa meio-tom – eu não sou desta terra, mas de uma freguesia perto da raia. Vim para cá depois de casar com o meu Afonso, que Deus tenha… - fez um silêncio significativo em sua memória e prosseguiu – Mas não é disso que vos quero falar. Eu sou de uma aldeia lá mais para riba, perto de Espanha e antigamente nós só sobrevivíamos com a ajuda do contrabando. A terra pouco dava, é como hoje… e a carregar umas coisinhas para lá e para cá, amanhávamos mais uns tostões. Era uma vida miserável, meus filhos! Na aldeia havia um grupo de homens que carregavam os burros e as mulas com o que os verdadeiros contrabandistas queriam, lá iam eles por aqueles montes acima, sempre com medo dos carabineiros espanhóis que eram uns malandros. Os nossos eram melhores, bastava dar-lhes qualquer coisa e fechavam os olhos, coitados, também passavam mal só com o soldo da Guarda. Mas havia um deles, o comandante que era um filho da puta, com a vossa licença e que muito nos apoquentou. Levou preso o meu irmão que era o que dava as ordens aos outros homens. Ainda esteve em Melgaço algumas semanas, já não sei quantas, a passar fome e a levar porrada para falar. Esse Guarda, um tenente, fez-nos a vida negra durante meses e meses, embirrou com a nossa aldeia e com os de Castro Laboreiro onde uma noite a Guarda, por ordem dele, matou dois homens a tiro. Um dia disse para o Alípio, o meu irmão, que tínhamos de apanhar esse cachorro do tenente. Ao princípio ele recusou com medo, mas levei a minha avante e preparamos-lhe uma armadilha. Ninguém mais sabia o que preparávamos, só eu e ele. Conseguimos que o tenente viesse sozinho aqui à Gave, eu levei-o por um carreiro e o Alípio abateu-o com uma cachaporra na cabeça. Morreu ali mesmo e nem lhe valeu ter a pistola na mão. Levamo-lo para a Branda e enterramo-lo ainda durante a noite. Por cautela, matamos a mula que o carregou e deixamo-la a apodrecer por cima da tumba do tenente. Assim, o mau cheiro afastava qualquer um que ali passasse. Logo que acabamos de o enterrar, metemo-nos a caminho para a Espanha pelos caminhos mais difíceis e depois de muitos sacrifícios chegamos a França, onde vivemos mais de trinta anos. Durante mais de uma semana andaram à procura do tenente, mas não encontraram rasto dele. Um dia encontraram o boné e o casaco da sua farda perto de Ourense, fomos nós que a levamos para lá, deixando-a onde era fácil encontrá-la. Só para desviar as suspeitas e eles pensarem que o tenente tinha sido levado para Espanha. Deu resultado porque deixaram de o procurar deste lado. Quando cheguei a França comecei logo a trabalhar, a fazer limpezas e a ajudar no mercado, ainda de madrugada, mas… acabei por abortar. Foi quando conheci o meu Afonso, que trabalhava nas obras do hospital e ia visitar-me sempre que podia. Estive muito mal, quase três meses sem me poder mexer.
- Espere aí! Então abortou mal chegou a França e só depois é que conheceu aquele que iria ser o seu marido? Foi assim?...
- Foi...
- Então quem era o pai? Hum... Desculpe, se calhar não devia ter perguntado...
- Não faz mal, meus filhos. Já passou tanto tempo e eu prefiro contar-vos a verdade que levá-la comigo para o além. O pai era esse filho da puta do tenente, com a vossa licença. Foi ele que me fez o filho e depois negou-o. Assinou a sentença no dia em que se riu na minha cara a dizer-me que não me conhecia de banda nenhuma, a mim, que me entreguei a ele apenas para não voltar a prender o nosso Alípio. Ahhh... mas pagou-as! Só tive medo que ele reconhecesse a minha voz quando o fui chamar, apesar de a ter disfarçado. Estão a ver, se ele me reconhecesse ia o plano por água abaixo, mas tudo correu bem. A história acaba aqui, senhores. O meu irmão já morreu há doze anos e quando se estava a finar, obrigou-me a prometer-lhe que se um dia o cadáver fosse descoberto eu devia contar a verdade a alguém.
- E porque é que nos escolheu Dona… nem sabemos como se chama?
- Chamo-me Maria Rita e escolhi-os porque foram vocês que o descobriram e porque queria conhecê-los.
- Mas nós podíamos agora ir contar tudo à polícia.
- Ora, uma promessa é para se cumprir… e vocês prometeram!
FIM

domingo, 10 de janeiro de 2010

Nos trilhos do contrabando VI

Peguei na máquina fotográfica e nos binóculos, meti-os na mochila e com ela às costas atravessei a Branda em direcção ao regato. O Snoppy trotava à minha frente, nariz rente ao chão com mil odores por descobrir.

A manhã estava linda, não soprava uma aragem, as folhas das árvores brilhavam em mil reflexos, nas alturas alguns milhafres vigiavam.

Parei junto à fita colorida que os Guardas tinham estendido no dia anterior, vários técnicos trabalhavam no local. O Inspector Peres da Judiciária viu-me e fez sinal para me aproximar dele. Prendi o cachorro com a trela, baixei-me, ultrapassei a fita e pude observar que estavam a escavar utilizando umas ferramentas minúsculas, como as que são usadas na arqueologia.

- Então já descobriram alguma coisa? – Perguntei eu.

- Para já descobrimos que há dois esqueletos, um humano e outro que pertence a um cavalo ou mula.

- Um cavalo?

- Sim, precisamente em cima do cadáver humano.

- Quer dizer que essa pessoa morreu por o cavalo ter caído em cima dele?

- Bem, isso não sei, ainda é muito cedo para se tirarem conclusões. Só depois da autópsia.

- E os cadáveres estão aí há muito tempo?

- Seguramente há muitos anos. Pelo menos vinte ou trinta anos, mas durante a autópsia somos capazes de estabelecer uma data mais aproximada.

- Nós podemos ir embora?

- Claro, não precisamos de vocês para já. No decurso do inquérito é natural que tenham de prestar declarações, mas serão convocados nessa altura.

Os meses foram passando, já nem me lembrava frequentemente do episódio, até que recebemos duas convocatórias do Tribunal de Melgaço para prestarmos declarações na segunda-feira seguinte.

Mais uma vez a enfadonha tarefa de contar como as coisas aconteceram, tudo dito aos soluços, vagarosamente, para dar tempo à funcionária escrever no computador. Finalmente assinamos as declarações e quando saímos, meio-dia estava passado.

Cruzamo-nos no corredor com o inspector Peres da Judiciária, o mesmo que tinha iniciado o inquérito e que conhecêramos na Branda. Após nos cumprimentar, disse-nos que nada de especial tinham descoberto a respeito da identidade e a causa da morte terá sido eventualmente um traumatismo craniano.

Apenas podia confirmar sem margem para dúvidas que eram dois esqueletos, de um homem e de um cavalo ou mula. Percebi pelo seu encolher de ombros que também não deveriam ter perdido muito tempo com as investigações, a polícia tem sempre novos casos, muito mais mediáticos e os meios para a investigação são cada vez mais escassos.

Quando nos dirigíamos para o parque de estacionamento onde tínhamos deixado o carro um homem que já tínhamos visto no átrio do tribunal quando entráramos, perguntou-me:

- Foram os senhores que encontraram o cadáver na Aveleira?

- Sim, fomos. Porquê?

O homem hesitou, percebia-se que estava acanhado e não sabia bem onde pousar os olhos. Acabou por nos dizer que era por causa da avó, que desde que soubera que tinham encontrado um cadáver na Aveleira se tinha mostrado muito interessada e não lhe dera mais descanso, pedindo-lhe para ir procurar as pessoas que tinham feito a descoberta.

Enquanto ele falava aproveitei para apreciar o nosso interlocutor. Teria uns quarenta anos, não mais, usava uma roupa rústica, mas asseada. As mãos, com dedos grossos e musculosos, denunciavam o trabalho no campo. Finalmente pediu-nos para visitarmos a velhota, seria um grande favor que lhe faríamos. Ainda argumentamos que não tínhamos comido, mas ele logo atalhou, dizendo que tinha muito gosto em que almoçássemos na sua casa.

- Onde é que mora o senhor...? – Perguntou a Paula.

- Domingos Esteves, minha senhora. Moramos à entrada da Gave. Sabem onde é?

- Mais ou menos, fica perto da Aveleira. Já lá passamos uma ou duas vezes. Vamos lá ver a sua avó, mas não podemos demorar...

Seguimos a carrinha do Esteves e no início da Freguesia de Gave viramos à direita por um caminho calcetado, ladeado de vivendas tipicamente construídas por emigrantes. Aquele estilo espalhafatoso, com marcas e modelos estranhos à região, os telhados negros, as persianas douradas, os barbecues e os repuxos no jardim, chancelas indeléveis de culturas transportadas e mal assimiladas.

A vivenda de dois pisos frente à qual paramos era mais sóbria, folha de pedra à vista, balaustradas em madeira, uma casa de campo com tractor e alfaias à vista, vacaria ao fundo do terreno, galinhas e perus à solta, esgravatando aqui e ali.

- Tem de falar um bocado alto que a avó ouve mal, de resto está muito bem, exceptuando as artroses.

- Quantos anos têm?

- Quase noventa, mas não parece. Entrem, entrem…

(continua)


domingo, 27 de dezembro de 2009

Nos trilhos do contrabando V

Estávamos a almoçar na varanda quando vimos o Nissan Patrol verde serpentear o caminho de acesso à Branda. Alguns minutos depois, convidamos os dois agentes a entrar em casa e voltamos a repetir o acontecimento. Já começava a estar farto de tantas vezes contar a mesma coisa. Mais valia ter usado o pequeno gravador que tinha no carro, assim bastava-me carregar no botão e a estória repetia-se as vezes que fossem precisas.
Pediram-nos para lhes mostrar o achado e quando saíamos de casa, surgiu o Agostinho, proprietário da casa que alugáramos; tinha ido à aldeia levar um grupo de turistas holandeses, que iriam ficar lá alojados alguns dias, mas ao ver o jipe da GNR parado junto à nossa casa, para lá se dirigiu a fim de saber o que tinha acontecido. Mais uma vez contei como tínhamos achado os ossos e logo ele se prontificou a acompanhar-nos.
O Snoopy, qual herói desprezado, ficara na varanda com ar aborrecido, preso à trela, com uma gamela de água e outra de ração à disposição.

Fomos todos no jipe das autoridades até ao início do carreiro, que partia da pequena ponte, construída apenas com grossas pranchas de pedra xistosa, assentes em pilares do mesmo material. Não me admiraria se a datassem da Idade Média.
O primeiro cuidado que tiveram foi delimitar a área com fita plástica e fotografar, minuciosamente o maxilar e os restantes ossos visíveis. Depois recolheram tudo para uns sacos plásticos aos quais lhes colaram umas etiquetas numeradas. Um dos agentes usou uma pequena espátula semelhante a uma colher de pedreiro e com ela retirou mais terra do buraco iniciado pelo cachorro.
Em breves instantes escavou o suficiente para pôr à vista à vista a caveira à qual certamente pertencia o maxilar. O agente endireitou-se e disse para o colega:
- Liga para o comandante e diz-lhe que temos aqui um cadáver com ossos à superfície e outros enterrados. Diz-lhe também que encontramos o crânio.
O agente regressou ao jipe, sentou-se ao volante e depois de vencer as resistências da estática conseguiu ligação rádio, tendo contado as novidades ao superior, com uma linguagem onde abundavam os termos técnicos e o habitual “escuto” de cada vez que dava a palavra.
Aproximou-se do nosso pequeno grupo que aguardava à sombra de um amieiro e informou-nos que viria uma equipa técnica, provavelmente de Braga, para continuar as investigações. Até à chegada desses técnicos, os dois agentes iriam manter-se de guarda ao local. Pela cara deles via-se logo que estavam aborrecidos com a tarefa, mas não tinham outro remédio senão obedecer.

Regressamos a pé, em conversa com o Agostinho que nos contou a história daquelas paragens, como os pastores levavam os rebanhos na primavera para a Branda e lá permaneciam durante todo o Verão, regressando às aldeias apenas a meados de Setembro.
Durante a tarde passeamos pelos montes, percorremos um sem número de caminhos e carreiros, demos um mergulho retemperador na pequena presa à entrada da aldeia, onde já estavam, alem dos holandeses, mais duas famílias com grande profusão de crianças pequenas.
Ao final da tarde bateu-nos à porta um indivíduo que se identificou como sendo da Polícia Judiciária, o Inspector Peres, ao qual voltei a contar como se tinham descoberto as ossadas.
Ao contrário dos agentes da GNR que só tinham aceitado um café, este aceitou uma cerveja bem fria, tomada confortavelmente na varanda, enquanto tomava notas num caderninho de capa amarela.
Findo o interrogatório, já estava o sol no ocaso, convidei-o para outra cerveja que recusou e retirou-se, deixando-nos com a sensação de um fim-de-semana mais movimentado do que o desejado. Pelo menos não poderíamos dizer que nos tínhamos entediado, sem nada para fazer no meio do monte.

Quando a Paula me perguntou o que queria jantar, encolhi os ombros e propus-lhe ir ao restaurante de Valdepoldros a dois ou três quilómetros de distância.
Jantamos uma posta barrosã deliciosa, bem regada com um tinto do Douro, tudo rematado com umas rabanadas de ovos, um licor para a Paula e uma aguardente caseira para mim. Regressados a casa, refastelei-me na cadeira de lona olhando a escuridão que escondia o vale estendido à nossa frente. Que segredos esconderia aquele vale, histórias com muitos anos, séculos até, de pastores, de contrabandistas, de caçadores, gente que viveu e morreu sem conhecer o mar, sem conhecer a cidade, isolados no cosmos que era e é, a serra. Abri uma cerveja, brindei aos grilos e cigarras que cantarolavam por perto, senti o sono a invadir-me.
Desta vez dormi tudo de um sono só, acordei já o sol ia alto e a Paula já preparava o café. Tinha na boca um sabor amargo que procurei extirpar com um duche bem quente, dois croissants e uma grande chávena de café.
- Ressonaste tanto que parecias um comboio.
- Ora, daqui a nada dizes que até apitava!
- Apitar, não. Mas assobiavas. Devia ser nas descidas…
- Ah, ah, ah. Que piada... – digo eu, interiormente divertido, mas apresentando cara feia.
- Os tipos da polícia estão lá em baixo.
- Onde? Junto ao regato?
- Claro, onde querias que estivessem?
- Vamos lá para saber as novidades? – propus eu.
- Vai lá tu, eu fico aqui na varanda a ler.
(continua)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Nos trilhos do contrabando IV

Tinha acabado de descarregar o carro e já a Paula me chamava para a ajudar em qualquer tarefa na cozinha.
- Já vou, já vou! Bolas, nem me dás tempo de apreciar a paisagem…
- É só para arrumares as bebidas no frigorífico, mais nada. Depois vamos dar uma volta?
- Claro, vamos correr esses caminhos todos!
Tínhamos decidido passar um fim-de-semana na montanha, uns dias retemperadores, na solidão, no silêncio, na tranquilidade de uma pequena casa de turismo rural, implantada na isolada Branda da Aveleira, um antigo abrigo estival de pastores e rebanhos. Alguns proprietários tinham recuperado as casinhas de aspecto rústico, mas dotadas de todas as comodidades fundamentais e alugavam-nas agora aos turistas.
Da varanda da casa ainda se podiam ver por perto as manadas de garranos selvagens, o gado pastando em total liberdade e os montes ponteados de grandes torres que agitavam as suas pás ao vento, esperando em fila, as investidas de um qualquer D. Quixote gigantesco.
Atirei com a mochila para cima da cama, desci as escadas de madeira, assobiei à procura do cão, que surgiu disparado, vindo do wc.
- Vamos Snoopy – e o pequeno caniche seguiu-me excitado pela novidade, sempre com o nariz colado ao chão.
Apenas demos uma pequena volta de reconhecimento nos arredores do nosso alojamento e logo voltamos a tempo de ouvir a Paula dizer “já estou pronta”.
- Está bem, mas agora espera, pois vi umas cadeiras na arrecadação e vou pô-las na varanda.
Separei duas cadeiras de lona, montei-as e fui buscar uma cerveja e uma tónica ao frigorífico.
Sentamo-nos na varanda, à sombra, com as bebidas frescas a escorregar nas gargantas, aplacando a sede, não o calor, que esse só iria com a chegada da noite.

Descemos em direcção ao regato que corria no fundo do vale, queria ver se tinha condições para ter trutas. Confirmei que havia sítios relativamente profundos e acompanhamos o curso do regato durante algum tempo. Entramos por um carreiro, ladeado de vegetação ripícula, salgueiros e amieiros que só medram perto de água. Um ou outro carvalho espalhava sombra, pelo chão amontoavam-se excrementos dos garranos, das vacas e dos coelhos. Mais à frente encontramos uma área que devia ter ardido há pouco tempo, talvez na primavera, as ervas finas, brotavam do negro tapete que o fogo tecera.
- Snoopy, anda aqui, vai ficar preto como o carvão. Mais valia tê-lo prendido com a trela – dizia a Paula ao ver como os caracóis brancos do pêlo do cão escureciam rapidamente.
- Não importa, chegando a casa damos-lhe banho.
A poucos metros do caminho o caniche escavava furiosamente, parando apenas para enfiar o focinho no buraco, como que a confirmar a presença do odor que o excitava.
- Vá, deixa isso. Snoopy, vamos embora.
Mas o animal fazia orelhas moucas o que me levou a ir ao seu encontro, com a intenção de lhe pegar ao colo. Junto dele estavam espalhados alguns ossos esbranquiçados, com aspecto de lá estarem já há muitos anos.
- Eu vi logo. Há aqui ossos!
- Não o deixes pegar nessa porcaria – diz-me a Paula com um esgar de nojo.
- Vamos embora, pá.
Com um derradeiro esforço o cão levantou com a boca o osso que tanta fadiga lhe dera e identifiquei, com espanto o que parecia ser um maxilar humano.
- Larga! – Berrei-lhe de tal forma que ele se encolheu amedrontado e deixou cair o despojo entre as patas dianteiras.
- Anda cá ver isto, nem vais acreditar!
Não havia dúvida nenhuma, o Snoopy tinha encontrado um maxilar humano e à vista estavam também mais alguns fragmentos de ossos, impossíveis de identificar por leigos como nós. E eu que pensara serem ossos de um qualquer animal, uma cabra ou um garrano.

Regressamos a casa sem saber bem o que fazer. Por um lado sentíamos a responsabilidade de ter que avisar as autoridades, mas por outro lado não nos apetecia nada sermos incomodados, tínhamos tirado o fim-de-semana para descansar e não para aturarmos uma diligência policial, por mais simples que fosse.
Ao jantar decidimos telefonar para a GNR de Melgaço, mas só no dia seguinte. Mais uma noite ao relento não iria fazer mal àquele esqueleto ou ao que restava dele. Contrariamente à expectativa nem sequer dormimos bem, sempre sobressaltados, eu sonhei com lobos a despedaçar pastores e ovelhas e mais algumas barbaridades do género. De manhã a Paula contou-me que também tivera sonhos semelhantes aos meus, o que atribuímos à descoberta do dia anterior. Quem parecia não ter ficado nada abalado era o Snoopy, que continuava animadíssimo.
Como desconhecia o número do posto policial de Melgaço liguei para o 112 e depois de dez minutos de interrogatório, fingiram acreditar na minha história.
Duas horas depois, andávamos nós a passear o mais longe possível do regato, toca o telemóvel, era do posto de Melgaço da GNR a quererem confirmar a veracidade do que tinha contado ao operador do 112. Sentei-me numa pedra e repeti mais uma vez o essencial da história, tendo-me sido pedido para aguardar uma patrulha que viria à Aveleira tomar conta da ocorrência.
(continua)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Nos trilhos do contrabando III

No domingo à noite o pequeno automóvel da Guarda serpenteou os montes, desceu e subiu encostas, os faróis mortiços iluminavam poucos metros à sua frente, mas suficientes para dirigir vagarosamente o velho Ford até à Gave, uma aldeia com 300 habitantes, uma das maiores da região. Parou a viatura no largo da igreja, poucos metros adiante estava o cruzeiro, não se via viva alma, apenas a candeia de azeite iluminava fracamente o nicho da Senhora da Natividade.

O Tenente empunhou o revólver, desceu e deu a volta à pequena praça, sempre atento ao menor movimento. Nada!

Após alguns minutos de espera sentiu o barulho de passos no saibro da praça. Engatilhou o revólver, encostou-se ao automóvel, disfarçando a silhueta na penumbra. Um vulto aproximou-se e a meia dúzia de passos de distância perguntou:

- Vossemecê é que é o da Guarda?

O Tenente admirou-se por ouvir a voz nasalada de uma mulher, mas não desviou o revólver.

- Sou, e você quem é?

- Eu venho buscá-lo para o levar junto do meu patrão, que quer confirmar se veio só e não lhe quer mal. Venha comigo.

- Onde? O local combinado era aqui.

- Ele está à saída da aldeia e fale baixo para não acordar ninguém. Já basta o barulho que o carro fez para chegar até aqui.

- Vai à minha frente e lembra-te que se me estão a preparar alguma, abro caminho a tiro.

- Nada tema senhor, o meu patrão apenas quer falar consigo.

Tomaram o caminho que subia para Valdepoldros, a mulher à frente, o Tenente meia dúzia de passos mais atrás, continuando a empunhar a arma.

- Estamos quase a chegar, senhor – avisa a mulher ao fim de poucos minutos de caminhada na escuridão serrana, quando passavam entre azevinhos centenários.

De repente algo assobiou nos ares e abateu-se sobre o Tenente que caiu de imediato. Outra pancada e mais outra zurzem o corpo estendido no caminho. O Alípio arfava do esforço e da emoção de ter arreado no oficial da guarda com o seu pau ferrado. Dera-lhe com ganas, que o malandro merecia.

- Procura a pistola Rita, ele tinha-a na mão.

- Já a tenho comigo. Vê lá se ele é vivo ou morto…

- Diabos o levem, está cheio de sangue. Acho que não respira.

- De certeza?

- Sim… De certeza – conclui o Alípio.

- Então vai buscar os animais para sairmos daqui.

Os dois cavalos e a mula estavam presos ali perto e num pulo o Alípio trouxe-os pelas rédeas. Atravessaram o corpo do Tenente no dorso da mula, cobriram-no com uma manta e amarraram-no de forma a não escorregar em andamento.

No silêncio apenas quebrado pelas patas dos animais, os dois irmãos montaram e arrastaram a mula, caminho acima, em direcção a Valdepoldros.

(continua)

sábado, 28 de novembro de 2009

Nos trilhos do contrabando II

O Alípio e o Tone da Águas estiveram presos duas semanas em Melgaço, depois da guarnição da guarda-fiscal ter passado pela aldeia e revirado tudo sem nada encontrar que incriminasse quem quer que fosse.
Estes dois foram levados como podiam ter sido outros, que todos sabiam contrabandistas, se contrabandista se pode chamar aos passadores de mercadorias para lá e para cá e que apenas ganhavam a jorna. Os verdadeiros contrabandistas eram outros que, tal como hoje, não davam a cara e raramente se aproximavam da raia.
Pelo meio, viviam os guardas, quase todos recebiam uma parte dos ganhos para fazerem vista grossa e para os avisarem quando havia perigo.
De vez em quando aparecia um ou outro guarda que combatia ferozmente o estado das coisas, mas que invariavelmente acabava por ser “amaciado”. No caso de ser um graduado era mais difícil, geralmente tinham de esperar que fosse transferido para outro lado.
O país estava em efervescência, as eleições presidenciais tinham sido disputadas pelo Humberto Delgado e a vitória do novo delfim de Salazar, o Almirante Américo Thomaz, tinha o gosto e o cheiro acre da fraude eleitoral. A repressão policial não se fez esperar e os oposicionistas foram implacavelmente perseguidos.
Na cadeia, o Alípio levou algumas bastonadas mas aguentou firme, repetiu sempre a mesma cantiga, “trabalho no campo de sol a sol, não tenho tempo para contrabandos”, “isso é nas outras aldeias, na minha aldeia não há disso”, “não sei de nada, de noite estou a dormir”. O tenente quando viu que nada lhes conseguia tirar e que apenas tinha entre mãos peixe miúdo, libertou-os com a ameaça dos maiores castigos e tormentos, se lhes pusesse outra vez a vista em cima.

Ao chegarem à aldeia um profundo silencio os acolheu. Estavam todos reunidos em frente à igreja e o Alípio depois de abraçar a mulher, os filhos e a irmã, foi sucessivamente abraçado por todos os presentes.
A certa altura interrogou-se “será que o Judas também me veio beijar”, mas afastou esse pensamento, pois agora estava quase convencido que apenas tivera muito azar, o mais certo era terem tropeçado neles quando procuravam outros contrabandistas mais importantes.
Durante meses a rede de passadores da aldeia esteve inactiva, o tenente volta e meia reaparecia e redobrava as ameaças, na expectativa de obter informações. Soube-se que tinham matado dois homens para os lados de Castro Laboreiro e os carabineiros espanhóis tinham feito uma rusga na qual prenderam mais de uma dúzia de mulas carregadas com ovos, café em grão e barras de sabão.
Murmurava-se que o tenente tinha forçado os espanhóis a agir. Seria verdade? Era o que constava e o Alípio que tinha ido a Lamas de Mouro comprar semente para a próxima primavera, ouvira esta versão na venda do Grémio.
O tempo passava devagar e a tensão subia lentamente.
Nunca a pressão da Guarda tinha sido tão intensa, nem a incerteza no futuro tinha sido tão grande. Falava-se agora em ir trabalhar para França, já tinham ido alguns, sem papéis e sem haveres, ao Deus dará. Parte deles tinham sido apanhados e devolvidos pelos espanhóis, um grupo já estava a passar os Pirenéus, que diziam ser maiores que o Gerês, maiores que a Serra da Estrela.

Todos matutavam na forma de apartar o tenente do caminho e vingar as humilhações sofridas ao longo dos últimos meses. Um dia o Alípio foi a Melgaço e no posto da Guarda-fiscal pediu para falar com o tenente, mas informaram-no que não estava, tinha ido em serviço a Monção, só devia voltar passados dois ou três dias. Montou o cavalo e regressou a tempo de ajudar a Olímpia a lavrar o”Beirado de Baixo”, o terreno onde, ano após ano semeavam batatas, as melhores das redondezas.
Na semana seguinte voltou a procurar o comandante do posto e, depois de esperar mais de duas horas, fizeram-no entrar no gabinete onde o tenente o esperava.
- Então, que queres?
- Lembra-se de mim, senhor tenente?
- Achas que me ia esquecer de um malandro como tu? Diz o que queres, que não tenho a tua vida.
- O senhor não quer informações sobre os contrabandistas?
- Hum… E tu o que é que sabes? Bem me parecia que sabias mais do que dizias! Fala!
- Eu não sei nada, venho apenas dar-lhe um recado.
- Um recado? De quem?
- Sei lá, não o conheço.
- O quê? Estás a gozar comigo?
- Deus me livre, senhor tenente. Eu explico, na semana passada apareceu um homem em Lamas de Mouro, lá na venda e propôs-me vir aqui dar-lhe um recado. Pediu-me para lhe dizer que os contrabandistas que você persegue o tinham expulsado sem motivo e ele queria vingar-se. Por isso está disposto a falar, a dizer-lhe tudo o que sabe.
- Ai sim? E quem é esse tipo?
- Já lhe disse que não sei, mas ouvi dizer na venda que era de Caminha ou Seixas, não sei bem.
- Então diz lá a esse tipo que pode vir aqui.
- Não!
- Não? – Admira-se o tenente.
- Se ele quisesse vir aqui não me tinha dado cem mil reis pelo frete.
- Então que raio quer ele? Não sabe que eu é que sou o comandante…
- Sabe sim, senhor tenente, mas é que ele tem medo dos seus companheiros, quer dizer dos seus antigos companheiros. Ele disse-me que espera por si no próximo domingo na aldeia da Gave ao pé do cruzeiro, às dez da noite. Se aparecer só e me prometer que não lhe faz mal e o deixa ir em paz, ele lá estará à sua espera. De contrário não há acordo.
- Então o patife ainda dá ordens?
- Isso não sei, não é nada comigo. Então que lhe digo?
- Diz-lhe que estarei lá, mas à mínima suspeita, abato-o logo com um tiro.
- Esteja tranquilo senhor tenente, ele não me pareceu homem de violências.
(continua)