terça-feira, 18 de agosto de 2009

O velho pescador

Era um dia como tantos outros, o velhote saiu pela porta da cozinha, pegou na caixinha da isca, meteu-a cuidadosamente no zote onde já estavam meia dúzia de chumbos, carteirinhas com diversos tipos de anzóis, bobines de fio de nylon e outros acessórios de pesca.
Pôs o zote de verga ao ombro, pegou na cana encostada à parede e abriu o portão da rua. O dia nascia triste, enevoado e húmido, muito húmido. Rapidamente o boné azul ficou pejado de pequeníssimas gotículas brilhantes. Lentamente, arrastando as botas de borracha que lhe chegavam aos joelhos, desceu a avenida marginal. Ainda tinha para uma meia hora, senão mais, para ir até à Guimbra, o sítio onde tencionava passar a manhã a pescar.
Nem apreciava de modo especial aquele pesqueiro, o que lhe agradava era o ambiente que o rodeava. Pelo caminho foi cumprimentando quem conhecia, alguns também iam pescar como ele, mas iam em passo mais ligeiro, eram mais novos. Acenou ao Berto que já estava nas pedras da ribeira com o bicheiro dos polvos. “Ainda tem mais vício que eu, não passa um dia sem vir cá abaixo” e na cara do velho esboça-se um sorriso.
Chegado à Guimbra, pousou o zote no chão e sentou-se numa pedra à beira do caminho. Agora teria de descer até ao mar e aquelas lajes molhadas eram um perigo, tinha de ir com cautela.
Admirou-se por a maré estar tão vazia; ou tinha feito mal as contas ou saíra de casa mais cedo que o costume. A pedra alta de onde costumava pescar estava desocupada, aliás, ali perto não estava ninguém a pescar, apenas duas mulheres, mais a norte, talvez a Ritinha e a filha, que deviam andar na apanha dos percebes e do mexilhão.
“Qualquer dia tenho de ir ao médico da vista, se calhar são cataratas. Ao longe vejo cada vez pior” pensou o Guilhermino enquanto preparava a cana. Primeiro colocou o anzol, depois a chumbeira, iscou com meio caranguejo e lançou suavemente para o mar à sua frente. O isco caiu perto, não mais de trinta metros, já não podia fazer aqueles lançamentos de que tanto se orgulhava quando era novo.
Uma vez apostou que lançava mais de cem metros e como tinham duvidado, logo desafiou os incrédulos para irem à praia tirar as teimas. No primeiro lançamento lançou a cento e vinte e três passos, contados pelo Ticúm que tinha os passos grandes. Quando todos já se davam por satisfeitos o Guilhermino fez outro lançamento a mais de cento e trinta passos. “Bons tempos, nessa altura ainda era novo, hoje não posso com um gato pelo rabo” e sentou-se, depois de pousar a cana, equilibrada numa fenda da rocha.
À sua volta as gaivotas ociosas, ora pousavam, ora levantavam para mais um voo preguiçoso sobre as águas cinzentas.
A névoa tinha levantado e levado com ela a humidade, mas ainda estava fresco, talvez ainda desse para tirar o casaco mais tarde. Nas pequenas poças escavadas nas rochas, a vida tinha o seu ritmo próprio. As anémonas abriam e estendiam os seus filamentos em esforço de caça, pequenos caranguejos moviam-se sem jeito, de lado, como se dançassem. Um ou outro pequeno peixe, cabozes das pedras, corriam para lá e para cá à procura de alimento.
Levantou-se, pegou na cana, recolheu a linha, voltou a iscar, lançou e sentou-se à espera. “Hoje não estão cá, ou se estão não pegam na isca. Antigamente bastava cair na água e logo o peixe se atirava”.
O Guilhermino sabia bem que cada vez havia menos peixe, a ganância do negócio estava a transformar o mar num deserto. Desde que tinham começado a usar as redes de arrasto que tudo destruíam, a sobrevivência de muitas espécies estava ameaçada. “Malditas redes, mil vezes malditas” e escarrou com força, enquanto fixava o olhar no voo rasante de uma gaivota a escassos centímetros da água.
Embora não estivesse sol, já não fazia frio e decidiu tirar o casaco e o impermeável que o tinha protegido da humidade. Assim sentia-se mais à vontade, mais livre. Era por isso que gostava de pescar, mesmo que não apanhasse peixe. Só a sensação que era estar junto ao mar, aquele mar imenso que tinha atravessado dúzias de vezes a bordo dos barcos mercantes onde trabalhara. “Vida dura, meses e meses sem vir a casa, os filhos pequenos, que nem me conheciam quando chegava”, agora podia gozar a merecida reforma e a pesca era mais que um entretimento, era uma forma de estar na vida.
A cana começou a vergar, estremeceu várias vezes e manteve-se dobrada. Com uma velocidade pouco própria para a sua idade, levantou-se e deitou-lhe a mão. Ficou tenso, ansioso até sentir mais alguns puxões dados pelo peixe no outro extremo da linha.
Durou muito tempo a batalha entre estes dois seres, um apenas queria o troféu, o outro lutava pela vida. Valeram todos os truques, todas as manhas, todas as experiências vividas.
O Guilhermino perdeu a noção do tempo que levou até trazer o peixe para junto da pedra, já nem sentia os braços de cansaço, doíam-lhe as pernas do esforço e sentia o suor a escorrer pela cara e pelas costas abaixo.
O peixe, um exemplar soberbo, veio finalmente à tona extenuado com a luta, fazendo brilhar a sua ilharga prateada. Depois de o encostar à pedra, o pescador baixou-se, estendeu a mão e enfiou-lhe dois dedos pelas guelras. Num último esforço puxou-o para seco, desequilibrou-se e caiu para trás, ficando sentado na rocha com o peixe entre as pernas.
Foi o momento decisivo, os dois contendores olharam-se nos olhos, o peixe agonizava em estertores, o Guilhermino arfava devido ao esforço. “Lá entre os teus, também és um velho como eu, se calhar ainda mais velho. Não mereces esta sorte”.
Retirou-lhe o anzol fortemente cravado na mandíbula, pegou-lhe outra vez pelas guelras, tomou-lhe o peso e voltou a pousá-lo suavemente na água.
O velho robalo ventilou lentamente, agitou-se, mas não se afastou. “Vai-te embora, és livre, não voltes a cair no engano, vai”. Com uma palmada da poderosa barbatana caudal, ganhou impulso e afundou-se majestosamente. Duas lágrimas rolavam pela cara do Guilhermino que as limpou com as costas da mão.
Levantou-se penosamente, mas com um sorriso na cara enrugada “ora, para que é que precisava de um peixe tão grande, só para mim e para a Lurdes? Ia ser um desperdício, mais vale assim”.

Das montanhas te contemplo a passear


quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Gabinardo do Senhor Abade (2ª parte)

- Vem aí um barco de guerra… Já está ao largo de Viana…
- E depois?
- Homem, é um barco dos republicanos… Vem por aí acima para nos bombardear!
- Ora! Então acha que o navio anda para aí aos tiros, sem mais nem menos?
- É o que lhe digo. Escute, – baixou a voz em tom confidencial – o Silvestre veio de Viana no trem da manhã e disse-me que por lá não se fala de outra coisa… Olhe que o Silvestre é homem sério…
- Eu sei, eu sei, mas nem quero acreditar numa coisa dessas. Bahh… Bombardeados! Esta coisa dos Bolcheviques ainda vai chegar aqui…
- Já não digo nada, amigo Celestino, este mundo está perdido…

Há dois dias que não parava de cair uma chuva miudinha, irritante e que se pegava à roupa como visgo. Naquela manhã foi difícil descortinar o fumo que saia da chaminé do “Limpopo”, apesar de navegar a menos de uma milha da costa rochosa de Montedor e Afife. Dobrou o promontório do Forte do Cão, reduziu a velocidade e vogou suavemente frente à praia de Âncora.
A povoação de Gontinhães estendia-se terra dentro, ocupando as terras férteis do Vale do Âncora. Nos últimos anos tinham as construções descido até à praia e com a construção do portinho, muitos pescadores de outras terras tinham vindo habitar para o Lugar da Lagarteira. Foram estes pescadores os primeiros a verem a pequena canhoneira a vapor, que parecia estar a estudar as condições de fundear perto da costa, se calhar com a intenção de baixar algum escaler.
As crianças furavam por entre as pernas dos adultos e algumas não se livraram de levar uns sopapos. Mesmo assim valia a pena para estar na primeira fila. As mulheres benziam-se e os homens seguiam com atenção as manobras do vaso de guerra, que já tinha andado pelas terras de Moçamedes em tempos idos. A chuva continuava a cair e a ninguém parecia importar.
- Deixem passar! Deixem passar! Arreda!!!
Com estas palavras o Tenente Castro desceu até à praia por entre a multidão expectante. Formados a dois e de espingarda ao ombro, a reduzida vanguarda monárquica seguia-o marchando com os passos trocados.
- Senhor tenente, será dos nossos? – perguntou o Afonso, que se benzia todos os dias em frente à fotografia do rei que tinha pendurada na sala, entre o relógio e o oratório.
- Hummm… Acho que não – replicou o Tenente que via perfeitamente a bandeira da República na popa do barco – Se desembarcarem vamos aprisioná-los…
- Só vocês?...
- Sim, os nossos soldados com a inspiração de Sua Alteza e a Graça Divina… E todos os homens de fé e de coragem desta terra!
Quem por ali estava e ouviu as palavras inflamadas do oficial, cedo tratou de se desviar e alguns até desistiram de continuar a observar as movimentações a bordo do vapor, que parecia agora fazer um compasso de espera.

As crianças mais velhas, a Bela e a Minda estavam sentadas junto da mãe que vigiava o trabalho de bordado que ambas se esforçavam por fazer. A Delfina abanava a cabeça, silenciosamente desapontada perante a falta de jeito que a Bela, apesar de mais velha, tinha para tudo o que implicasse cozer ou bordar. A bebé dormia na cama da mãe e a outra miúda, com quatro anos, tinha ido com a Rosa até ao moinho, onde a senhora Maria transformava grão em farinha.
- Que sossego – pensou a Delfina, cruzando as mãos sobre o regaço – Como se estarão a ver na pensão? Deve estar tudo uma confusão… O Abel não liga nenhuma, a velhota, coitada, não chega para as encomendas… Melhor tivesse eu ficado e vinha a avó com elas… Aqui um sossego e lá uma confusão! Deus me livre, quando lá chegar até tenho medo de dar em doida com o que encontrar… ahhh! Mas vão ouvir-me!
- Mãe, isto não fica direito – queixa-se a Bela – e já me espetei.
- Deixa-me ver… Estes pontos estão muito grandes! Jesus! Parecem comboios… Tens de fazer assim… estás a ver! Parece-me que estou a ouvir a bebé, deve ter acordado.
Levantou-se e empurrou de mansinho a porta do quarto onde a Letinha repousava. A criança ainda dormia e a extremosa mãe decidiu colocar outro cobertor sobre a criança.
Haviam cobertores no guarda-fatos, já os tinha visto no primeiro dia. Abriu a porta do roupeiro, escolheu uma manta aos quadrados verdes, segurou a roupa que estava por cima e puxou-a para fora. Junto com a manta veio uma peça de roupa preta. Levantou-a do chão para a dobrar e arrumar no mesmo sítio, quando reparou na interminável fila de botões muito juntos.
- Mas que raio… parece a sotaina… ora esta…é a sotaina do padre.
Levantou a sotaina, virou-a várias vezes para melhor a apreciar, dobrou-a apressada, sentindo-se afogueada. Voltou a colocá-la sob a rima de cobertores e fechou cuidadosamente o roupeiro que guardava o grande segredo. Há muito que corria, à boca pequena, o boato que a senhora Maria se entendia com o padre Correia. Não se falava na freguesia, mas as comadres cochichavam e os homens trocavam aqueles olhares de sabedoria.

Uma pequena nuvem de fumo saiu da proa do “Limpopo” e um silvo agudo passou sobre as cabeças dos espectadores. Do mar veio o barulho semelhante ao trovão, que deixou todos atónitos.
- Que foi, mãe? – pergunta a pequenita agarrada com todas as forças à saia da mãe.
- Fujam, fujam, estão a bombardear – gritou alguém.
- Estão a bombardear-nos… Fujam!!! – era o que mais de ouvia.
Como impulsionados por uma mola, todos se viraram para terra e correram. Novos, velhos, mulheres, crianças… todos procuraram abrigo entre o casario baixo, pobre e rústico da Lagarteira.
Novo silvo agudo e novo estrondo vieram do mar, pouco mais longe que o Sabugo.
- Dispararam outra vez – informa alguém, como se os outros não soubessem.
Passados os primeiros momentos de pânico, o Tenente Castro que fora dos primeiros a fugir, recobrou animo, tirou o boné, passou a mão pelo cabelo, voltou a enfiar o boné, olhou para as botas sempre reluzentes e agora emporcalhadas da areia, puxou as mangas do dolman e decidiu-se a tomar conta da situação.
- Cabo Simões, reúna os homens.
- Eles estão aqui, senhor tenente.
- Sim? Onde está a sua arma? – pergunta o oficial ao soldado gordo que arquejava com o esforço da corrida.
- A ar… arma?!!!... Hum… Acho que… que ficou ali em baixo – responde o atarantado soldado, apontando para o sítio onde tinham estado a observar o navio republicano.
- Perder a arma!!!... Você vai a conselho de guerra. Devia ser fuzilado imediatamente – berra o tenente descontrolado.
- Eu vou… eu vou já buscá-la – responde-lhe o soldado afastando-se ligeiro.
Entretanto mais um tiro de canhão foi disparado e todos se encolheram pois o impacto dera-se ali perto.
- Fujam, eles vão destruir tudo! – gritou alguém, levando a nova correria pelas ruelas, entre as casas.
- Soldados! – berrou o tenente de pistola em punho – Carregar armas. Vamos ripostar. Espalhem-se para parecer que somos muitos. Depressa!!! Ao meu comando… fogo!
Uma descarga de Mauser atingiu o “Limpopo” onde, descontraidamente, a tripulação assistia do convés, aos disparos do canhão da proa. Um marinheiro caiu, ficando na coberta a gemer, enquanto os outros de abrigavam do lado do mar e nova saraivada de balas batia nas chapas carcomidas da velha canhonheira.

O primeiro tiro do canhão fez o Abel dar um salto no banco da loja que funcionava no piso térreo da sua pensão. O projéctil tinha caído ali perto. Muito perto, no lado do Sol Posto. Veio à porta olhou para o céu e viu na varanda, sobre a sua cabeça, a bandeira azul e branca que os soldados tinham desfraldado.
- Américo, vai lá acima e tira aquela bandeira. Estão a disparar contra ela! Depressa!
Neste momento ouviu-se outro impacto mais afastado e pouco depois chegou o enteado com a bandeira nos braços. Os disparos seguintes foram para outros alvos e o coração do Abel começou a serenar.
- Foi na casa da Tia Claudina – diz alguém que passa na rua a correr.
- Ó diabo! Matou alguém?
- Não… Ela tinha ido à horta apanhar um braçado de couves para os coelhos.
A batalha foi curta e ao fim de meia dúzia de disparos, a canhoneira vomitou umas baforadas de fumo pela chaminé, afastou-se da costa e rumou para norte. Fosse pela resposta dos soldados em terra que, bem abrigados pelos muros de pedra dispararam as suas armas, fosse por qualquer outro motivo, o certo é que não houve nenhuma tentativa de desembarque e ao fim de pouco tempo o “Limpopo” deixava de ser visto.
Ainda houve quem fosse ao Espilrro espreitar, não mudassem de ideias ou fosse uma armadilha para apanhar os atiradores distraídos, mas viram o barco seguir a direito até à Ínsua.

No Amonde só souberam destes acontecimentos dois dias depois, graças à visita da Tia Leonarda, que depois de retemperar forças com uma caneca de vinho branco, um par de pataniscas e um naco de broa, lhes contou como a casa da Tia Claudina, no Largo do Sol Posto tinha levado um tiro de canhão, que entrara pelo telhado e rebentado com o alguidar onde demolhavam umas postas de bacalhau. A Delfina teve um arrepio só de pensar no que podia ter acontecido, se o projéctil se tivesse desviado quarenta ou cinquenta metros, caindo sobre a pensão.
Outro dos edifícios atingidos foi a estação dos caminhos-de-ferro, pois era bem visível do mar a enorme bandeira monárquica que lá tinham hasteado. Um dos quartos da residência do chefe da estação tinha ficado destruído e a esposa desse ferroviário tinha-se salvo por milagre, pois estava na dependência imediata.
A Defina que estava desejosa de regressar a casa, ponderou nos perigos cada vez maiores deste conflito político. Teriam de ficar mais algum tempo, apesar de contrariada por estar afastada da sua cozinha, local onde passava a maior parte do tempo e onde se sentia como peixe na água. Também a descoberta que fizera no roupeiro da senhora Maria a constrangia muito, principalmente quando ficava a sós com a sua anfitriã.

A 13 de Fevereiro o exército republicano entrou na cidade do Porto e o Reino da Traulitânea ruiu como um castelo de cartas. Os soldados envolvidos na revolta regressaram aos quartéis, os chefes do golpe foram encarcerados e a bandeira verde e rubra voltou flutuar em todo o país.
O tenente Castro quando recebeu das mãos de um estafeta a cavalo, a ordem para se dirigir imediatamente a Viana e pôr-se à disposição do comandante do Regimento de Artilharia Ligeira do Forte de Santiago da Barra, compreendeu que estava tudo perdido. Esmagou lentamente a cigarrilha com a biqueira da bota reluzente, subiu ao seu quarto, escreveu uma nota dirigida ao seu comandante de divisão, pegou no revolver e deu um tiro na cabeça.
Ao barulho da detonação acorreram várias criadas da pensão e dois dos soldados que se entretinham a jogar à bisca na loja do rés-do-chão. Em breve, todos sabiam que o nervoso tenente Castro tinha preferido suicidar-se a ter de reconhecer a derrota, enfrentar a prisão e o exílio provável nas colónias africanas.
- E agora, que fazemos? – pergunta um dos soldados, perante o cadáver do tenente.
- Agora – responde o Abel – peguem nele e enterrem-no! Ou pensam que vou ser eu a tratar disso? Já me chega ter-vos sustentado durante duas semanas… Andando daqui para fora!!! Levem o tenente e… levem o raio da bandeira convosco!

A Tia Leonarda já tinha o gado atrelado ao carro, a Rosa descera as bagagens, a Delfina estava a despedir-se da senhora Maria e as crianças brincavam com os cães da propriedade.
A Delfina descia as escadas exteriores de pedra, quando voltou para trás e disse em voz baixa para a Senhora Maria, que estava debruçada na balaustrada.
- Esqueci-me de lhe dizer que cozi os botões que estavam soltos no gabinardo do Senhor Abade... mas não se preocupe, pois voltei a arrumá-lo entre os cobertores.
Fim

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O gabinardo do Senhor Abade (1ª parte)

O eixo chiava de forma aflitiva. Um guincho quase animal, que lembrava o porco no estertor da morte sob a faca do matador. Lentamente, o carro puxado pela junta de vacas galegas, pachorrentas e teimosas, avançava passo a passo.
Sobre a plataforma de madeira escura, as crianças mais velhas divertiam-se com a novidade da viagem. A mais nova, ainda de colo, embrulhada no xaile de borlas castanhas, brincava com o cordão de ouro que volteava o pescoço da mãe. Com elas viajava a Rosa, criada da pensão, que viera de Coura ainda criança, para servir e fazer-se mulher.
Tinham partido de manhã, ao nascer do dia, preparados para cobrir pouco mais de duas léguas até ao Amonde, onde iriam viver nos próximos dias.
A Tia Leonarda que segurava o temoeiro de couro, fez parar as vacas com uma pancada seca da vara. Do bolso do avental tirou um naco de sabão que passou pelo eixo ressequido do carro. Logo retomaram a marcha sem mais demora, apesar dos protestos das crianças que queriam sair do carro e dar uns pinotes.
- Vamos, vamos, senão chegaremos noite dentro. Os dias são curtos… Ande lá Tia Leonarda, espevite-me estes animais!
- Já lá vamos, Dona Delfina! Os bichos ainda ficam com a língua de fora… Há anos despariu-me uma vaca por causa das pressas…
Tinham passado pela veiga da Baralha, deixado para trás a Matriz de Soutelo e atravessavam agora os montes da Esturranha. Os carvalhos, loureiros, azevinhos e sobreiros que bordejavam o caminho, corriam monte acima até às bandas de S. Pedro Varais.
O eixo já não chiava, as duas raparigas mais velhas iniciaram uma discussão por causa da boneca de trapos. Com mão ligeira, a mãe deu um tabefe a cada uma e a ordem regressou ao pequeno espaço do carro de vacas.

Estávamos em Janeiro de 1919 e a sublevação monárquica tinha-se espalhado pelo norte. Enquanto os republicanos se entretinham em questiúnculas, os saudosistas do rei tinham conspirado e aplicado um golpe audacioso na frágil ordem que tinha sobrevivido ao assassinato do Sidónio Pais.
A 19 de Janeiro, a Junta do Norte proclamou, no Porto, a restauração da Monarquia, anunciando a constituição de uma Junta Governativa. Esta era presidida por Paiva Couceiro e geraram-se focos de resistência ao poder republicano em vários pontos do País. Em Viana do Castelo, o regime monárquico foi aclamado das varandas da Câmara Municipal e a multidão reunida em volta do chafariz deu vivas ao rei.
Grupos de soltados aderentes à revolta, foram distribuídos pelas principais povoações minhotas. Gontinhães não foi excepção e um grupo de meia dúzia de soldados, comandados por um tenente, assentaram arraiais na localidade.
À falta de instalações próprias para acantonarem, optaram por se hospedarem na Pensão Âncora.

Montado no seu cavalo ruço, o regedor de Riba D’Âncora cruzou-se com aquele carro cheio de mulheres e crianças. Descobriu-se perante a senhora e seguindo caminho murmurou com os seus botões, “Mais uma família que se põe a bom recato. Como irá acabar esta loucura?”
- Dona Delfina, temos de parar no rio para o gado beber e repousar – avisa a Tia Leonarda, muito ciente do conforto dos seus animais.
- É melhor! As crianças também precisam espairecer e já estão cheias de fome.
Pararam na Ponte de Saim, puseram os pés em terra com os agasalhos bem fechados, embora o frio não apertasse ao fim da manhã, sentia-se a humidade no ar.
Com as crianças a correrem à volta do carro, a Tia Leonarda desengatou os animais e desceu com eles à beirada do Rio para os saciar. Deixou-os a pastar num pequeno paul da Vitória, que morava ali perto. Já era costume e a Vitória até costumava presenteá-la com algumas laranjas sumarentas colhidas no seu lugar.
- Meninas, venham comer – chamou a mãe, que abrira a sesta de verga carregada de lauto farnel; frango assado, panadinhos de vitela, um tachinho de arroz no forno, presunto, postas de bacalhau frito para a Leonarda e para a Rosa, pão cozido no dia anterior e um garrafão de vinho. A bebé iria comer papas de arroz, cuidadosamente acondicionadas na pequena marmita de esmalte. Uma pucarinha de barro com água da Fonte da Retorta, colhida de manhã bem cedo, por uma das criadas da pensão, iria mitigar a secura das crianças.
Ao longe um sino deu as doze badaladas, talvez em Orbacém, quiçá em Outeiro, que o vento estava a favor. O sol espreitou fugaz entre as nuvens que passavam apressadas. A refeição foi rápida, os animais regressaram à canga, a Tia Leonarda tornou a ensaboar o eixo. Em breve passaram as primeiras casas de Orbacém, deram a volta pelo Arnado.
Na última volta da pequena colina sobranceira ao Rio Âncora surgiu a Ponte de Tourim, tão velha que diziam ter sido construída pelos romanos nos tempos de Cristo.
Pela veiga de Tourim acima, juntas de bois puxavam os arados, mulheres manejavam as enxadas enquanto os homens podavam e atavam as vinhas, que ano após ano, se carregavam de uvas escuras e miúdas.

Em Gontinhães, na pensão Âncora, os soldados ocuparam dois dos quartos virados à rua e o tenente ficou com o quarto número um, ao cimo das escadas. Durante o dia davam umas voltas pela localidade, uma espécie de patrulha, perante o olhar curioso de uns e indiferente de outros. Quase todos pensavam que o Reino da Traulitânea não iria resistir às forças republicanas que haviam de vir de Lisboa.
O tenente Castro era um monárquico convicto, apoiante do Integralismo Lusitano e parente afastado de um dos seus mais destacados dirigentes, Pequito Rebelo.
Botas e calções de montar, dolman de colarinho direito recentemente brunido, faziam dele uma figura elegante. Apesar da face picada das bexigas, o porte marcial destacava-se naturalmente.
Luvas de pelica, pingalim com cabo de alpaca lavrada e boné regulamentar com botões dourados, completavam a indumentária do novo representante do poder real nas terras do Vale do Âncora. A bandeira azul e branca ondulava ao sabor da aragem nos mastros da estação do caminho-de-ferro, na Junta de Freguesia e na varanda da pensão, para preocupação do seu proprietário, que não se queria ver imiscuído nas complexas e instáveis questões de regime.
Fora essa a gota de água que tinha levado que a esposa e as filhas se retirassem para o Amonde, uma aldeia próxima, mas suficientemente distante destes problemas.
- Não vá algum maluco anarquista atirar-nos uma bomba por causa da bandeira – dizia o Abel, rolando o palito que mantinha entre os dentes.
Decidiram que a pensão ficaria entregue ao Abel, à Maria Chocalha, sua sogra por parte do primeiro casamento e ao Américo, neto da Chocalha e enteado do Abel. A Delfina iria passar uns tempos ao Amonde, para a casa de uma família amiga, levando as quatro filhas e a Rosa para ajudar.
A Tia Leonarda, velha carrejona que nunca calçara sapatos, trabalhadora incansável, sempre pronta para esvaziar um copo, ficaria encarregue de levar regularmente os abastecimentos à casa dos Fulueiros no Amonde.

- Ainda falta muito, Tia Leonarda?
- Estamos a chegar. Ao virar ali em cima entramos no caminho para o fulão…
- Até que enfim, tenho os ossos maçados.
- Olha!... A senhora Maria veio esperar-nos, à beira do caminho… Ora viva, então como está tudo por aqui?
- Com a Graça de Nosso Senhor, minha senhora. Fizeram boa viagem?
- Fizemos, mas as crianças já estão aborrecidas de estarem tanto tempo presas entre os varais do carro.
- Ah… Elas já vão fartar-se de pular e de reinar pelo lugar fora – diz a senhora Maria, uma solteirona a chegar à meia-idade, dona do fulão e de mais uma mão cheia de propriedades espalhadas pela aldeia, herança dos pais e da madrinha.
- E a sua irmã Joana e o marido?...
- Lá em baixo, para as bandas do Arnado a lavrarem. Está a chegar o tempo da batata, Dona Delfina. Quem não semeia, não colhe…

Em Gontinhães, a 30 de Janeiro, a Junta de Freguesia tinha-se demitido ao saber que em Viana a monarquia tinha sido aclamada e o Governador Civil exonerado.
A Guarda Republicana estava recolhida nos quartéis das cidades e em Gontinhães o poder chamava-se Tenente Castro. A ele acorriam constantemente meia dúzia de velhos monárquicos, dando-lhe conta dos movimentos e alcovitices da terra, além das últimas novidades trazidas pelos raros viajantes que o comboio transportava.
Pelo Largo das Necessidades, renomeado de Praça da República em 1910 e que os locais chamavam apenas “Largo”, juntavam-se grupos para comentar a situação política do país e da região em particular.
- Diz-se que vem aí um batalhão de lanceiros para darem cabo dos azuis – dizia o Cannas encostado à porta da botica.
- Ora, não vão ter mais que fazer que virem de propósito para prenderem meia dúzia de rufiões, que não tem onde caírem de mortos… Ora!
- É verdade, compadre! É o que corre em Viana… Os da república querem limpar o terreno até Valença. Parece que aí a coisa está mais preta. São muitos e tem o grupo das metralhadoras com eles.
- Pois eu também já ouvi isso – intervem o João Brito, proprietário da botica, poiso habitual dos tertulianos – Meus amigos, isto ainda acaba mal… Esse Paiva Couceiro é maluco e ainda nos vai atirar para uma guerra civil. Não se esqueçam do que lhes digo!
- Eu até mandei a mulher e as crianças para a aldeia – diz o Abel, que estava recostado com as pernas estendidas no comprido banco exterior do estabelecimento.
- E fez vossemecê muito bem, senhor Abel! Ter as suas crianças com aqueles soldados todos lá em casa… fez muito bem.
- E eu vou fazer o mesmo! – diz o Manuel Presa – tenho uns primos em Lanheses, vou hoje mesmo escrever-lhes a dizer que seguimos daqui a dias.

O ambiente geral era de expectativa e muita apreensão. A cada dia que passava, circulavam os mais disparatados rumores, desde dizerem que viria uma armada inglesa apoiar a revolta trazendo a bordo o exilado rei D. Manuel II, a notícias da eminente chegada de tropas republicanas, que tudo poriam a ferro e fogo.
Os soldados da guarnição pareciam pouco preocupados e entre algumas patrulhas e umas tigelas de vinho que bebiam pelas tascas onde passavam, sobrava-lhes pouco tempo para montarem guarda ou zelarem pela segurança no caso de serem atacados. O Tenente Castro, com a interminável cigarrilha no canto da boca, mostrava o peso da responsabilidade e acusava um nervosismo indisfarçável.
- Espero ordens – dizia ele, tentando convencer-se e convencer os demais que estava tudo bem – Amanhã deve chegar um estafeta de Viana. Até novas ordens, devemos manter-nos aqui e garantir a segurança…
- E eu quero saber quem garante o pagamento das diárias – resmunga a Maria Chocalha que não ia à missa com a cara do Tenente.

Durante a noite o tempo arrefecia e só as achas de carvalho que amorrinhavam na lareira da cozinha, conseguiam manter algum conforto na rústica casa de lavoura.
A senhora Maria, como boa anfitriã, tinha cedido o seu quarto à Delfina e à filha mais nova que tinha apenas anos e meio. No quarto ao lado, dormiam a Rosa e uma das pequenas numa cama, enquanto as restantes partilhavam o outro leito.
Duas vezes por semana, a Tia Leonarda vinha trazer carne e peixe fresco, transportado à cabeça no cesto de verga. Só uma vez foi necessário trazer o carro com os animais para transportar mais roupa. As crianças sujavam-se imenso a brincarem no campo e o tempo chuvoso não ajudava para secar a roupa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Crónica ao espelho de um quarto de hotel

Há dias li uma crónica do António Lobo Antunes onde fazia uma reflexão frente ao espelho de um qualquer quarto de hotel. Para dizer a verdade já não me lembro muito bem sobre o propósito da reflexão, mas retive a ideia que o quarto era sempre o mesmo só mudava de terra e de país sucessivamente. A mesma cama, o mesmo espelho, os mesmos cortinados em volta da janela. A mesma cadeira onde ele se sentava para escrever a crónica, um misto de obrigação contratual com a revista e a vontade de escrever qualquer coisa, só para não perder a mão.
Lembrei-me dos tempos em que também vivia mais tempo nos hotéis que em casa por dever de ofício. Dos tempos em que saltava do hotel para o restaurante, da residencial para a tasca, da cidade para a aldeia, da auto-estrada para o sinuoso caminho municipal. Com objectivos, mas sem fim. O ciclo repetia-se uma e outra vez, a ponto de tudo me parecer igual, mesmo diferente. Tal como o quarto de hotel do António.
Nos balcões de recepção onde já era tratado pelo nome, onde me cumprimentavam com modos quase familiares, já não preenchia fichas, recolhia a chave e subia sem precisar de ser orientado dentro do edifício. Também eles sempre iguais, corredores compridos, números nas portas, números altos como tivessem aquela quantidade de quartos…
Sube-se sempre, é algo fantástico, nunca os quartos de hotel são em pisos inferiores. Sempre a subir, abre-se a porta e é sempre o mesmo. O roupeiro com três cruzetas, o espelho e a mesa com o bloco e a esferográfica. A televisão a um canto em frente às duas camas gémeas, a Bíblia na gaveta da mesinha de cabeceira.
Na casa de banho a sanita selada com a tira de papel branco, o rolo do papel higiénico com a dobra em v, as toalhas turcas dobradas sobre o varão, o copo de vidro virado sobre a prateleira ao lado do espelho iluminado. Por falar nisso, prefiro os espelhos dos quartos, como o António.
Com uma moldura fina em madeira, são geralmente mais humanos, dão-nos imagens mais simpáticas, mais quentes que os espelhos da casa de banho. Caras ensonadas, por barbear, cabelos em pé de triste figura. Sem falar nas caretas involuntárias que oferecemos ao espelho cada vez que fazemos a barba, a olhar de lado, a esticar a pele do pescoço ou do queixo, macaquices aproveitada pelos Beans para ridicularizar os espelhos… não a nós.
Mas é com o espelho do quarto de hotel que nós falamos, que apresentamos o problema que durante a tarde nos deixou sem resposta. Quem sabe se esses espelhos são feitos de algum produto especial, com algum magnetismo para nos sugerirem soluções?
Basta sentarmo-nos à sua frente, pousar as mãos sobre a mesa, pegar no bloco e na esferográfica publicitária, nem sequer é preciso fazer uns rabiscos… Desculpem, se calhar convêm, para a concentração.
Quando levantamos a cara para o espelho vemos um sujeito de ar cansado, que não sabe muito bem o que está ali a fazer, que não vê a família há um par de dias, que fala como um papagaio de circo para tipos que tem pouca vontade de o aturar e que também não vêem a família ainda há mais tempo e também dormem em quartos de hotel, com espelhos como este, que todos os dias olham… e não se reconhecem, como eu.

sábado, 7 de março de 2009

Ilha de solidão

Pareciam todos iguais, mas não eram! Quadradinhos maiores e mais pequenos. Os maiores por cima, os mais pequenos na base. Estreita, quase fina para um vidro tão grosso. Nem se via a luz de lado a lado, apenas uma claridade baça quando estava vazio. Nos últimos tempos dá-me para isso… Concentrei-me nos quadrados que distorciam a imagem reflectida. Passei-lhe o polegar para os aclarar. Em vão, tudo ficou na mesma, talvez a imagem esteja mais pequena. Já tinha reparado nisso! Quanto mais bebo mais pequena ficava a imagem. Não… não pode ser, o copo é outro… Não pode ser o mesmo, o do costume.
Rodo-o entre os dedos, conto doze quadradinhos. Doze ou catorze? Volto a contar, são doze, desvio-o sobre o balcão forrado a madeira, manchada do tinto e da lixívia da Tia Clarisse. Baixo a cabeça, rodo mais um pouco o copo, consigo ver a entrada da loja, se rodar mais um bocadinho até vejo os pipos. Os primeiros a contarem da porta, com o vinho do sul. Inclino-me no banco, para ver através do quadradinho a seguir, vejo a mesa dos que jogam às cartas, à sueca, são sempre os mesmos. Bebo de um trago o que resta no copo. Levanto a mão, faço sinal ao Domingos, ele já sabe… e sem mais, inclina a caneca branca de riscas azuis sobre o copo… o dos quadradinhos.
Agora não vejo nada, o meu mundo está às escuras, como a lua quando é nova. Dura pouco, depois do primeiro gole já vejo pelos quadradinhos de cima, são os maiores, acho que já disse. Mas gosto também dos outros, os da base, fazem uma imagem mais bonita. Mais pequena, mais bonita. Os da mesa ao lado discutem por causa da manilha de copas, fazem barulho por uma dúzia. Raios os partam… É a conversa de sempre, devias ter vindo a trunfo, dei-te sinal para puxares copas, enfim, passam o tempo, como eu.
Ponho as moedas sobre o balcão, parecem-me todas iguais. Não! Há umas mais pequenas e outras maiores…como os quadradinhos. Empurro-as todas em direcção ao Domingos, que separa umas tantas e as deixa cair na gaveta. A que fica com uma parte das minhas contas. O resto entrego à Laurinda… Já deve estar à espera para a ceia. Um prato de caldo, um naco de broa, se houver. Volto a olhar para o copo, ao menos este não me consome o juízo. Posso mexer-lhe, rodá-lo, que não reclama. Levo-o à boca, o vinho enche-me a boca, inunda-me a garganta, fresco, um pouco amargo, a saber a uvas americanas. É melhor que o da semana passada, parecia vinagre, devia ter sido feito com uvas do demónio.
Tenho de ir, levanto-me, dou um olhar de despedida ao meu copo… anda tudo à roda… deixo passar o enjoo. Quero ir para a porta mas as pernas demoram a obedecer. Acho que vou um bocado adornado, faz-me falta o ar fresco do fim da tarde. Os da sueca devem estar a falar de mim, já é costume. Já bebeu de mais, vai assim, vai assado. Merda para eles, que não lhes pedi nada. Aceno uma despedida ao Domingos, componho a boina e a samarra, na rua já faz frio trazido pela brisa do norte. De madrugada, quando arrancarmos para as fanecas, até deve cortar… é a vida.