
segunda-feira, 18 de maio de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Crónica ao espelho de um quarto de hotel
Lembrei-me dos tempos em que também vivia mais tempo nos hotéis que em casa por dever de ofício. Dos tempos em que saltava do hotel para o restaurante, da residencial para a tasca, da cidade para a aldeia, da auto-estrada para o sinuoso caminho municipal. Com objectivos, mas sem fim. O ciclo repetia-se uma e outra vez, a ponto de tudo me parecer igual, mesmo diferente. Tal como o quarto de hotel do António.
Nos balcões de recepção onde já era tratado pelo nome, onde me cumprimentavam com modos quase familiares, já não preenchia fichas, recolhia a chave e subia sem precisar de ser orientado dentro do edifício. Também eles sempre iguais, corredores compridos, números nas portas, números altos como tivessem aquela quantidade de quartos…
Sube-se sempre, é algo fantástico, nunca os quartos de hotel são em pisos inferiores. Sempre a subir, abre-se a porta e é sempre o mesmo. O roupeiro com três cruzetas, o espelho e a mesa com o bloco e a esferográfica. A televisão a um canto em frente às duas camas gémeas, a Bíblia na gaveta da mesinha de cabeceira.
Na casa de banho a sanita selada com a tira de papel branco, o rolo do papel higiénico com a dobra em v, as toalhas turcas dobradas sobre o varão, o copo de vidro virado sobre a prateleira ao lado do espelho iluminado. Por falar nisso, prefiro os espelhos dos quartos, como o António.
Com uma moldura fina em madeira, são geralmente mais humanos, dão-nos imagens mais simpáticas, mais quentes que os espelhos da casa de banho. Caras ensonadas, por barbear, cabelos em pé de triste figura. Sem falar nas caretas involuntárias que oferecemos ao espelho cada vez que fazemos a barba, a olhar de lado, a esticar a pele do pescoço ou do queixo, macaquices aproveitada pelos Beans para ridicularizar os espelhos… não a nós.
Mas é com o espelho do quarto de hotel que nós falamos, que apresentamos o problema que durante a tarde nos deixou sem resposta. Quem sabe se esses espelhos são feitos de algum produto especial, com algum magnetismo para nos sugerirem soluções?
Basta sentarmo-nos à sua frente, pousar as mãos sobre a mesa, pegar no bloco e na esferográfica publicitária, nem sequer é preciso fazer uns rabiscos… Desculpem, se calhar convêm, para a concentração.
Quando levantamos a cara para o espelho vemos um sujeito de ar cansado, que não sabe muito bem o que está ali a fazer, que não vê a família há um par de dias, que fala como um papagaio de circo para tipos que tem pouca vontade de o aturar e que também não vêem a família ainda há mais tempo e também dormem em quartos de hotel, com espelhos como este, que todos os dias olham… e não se reconhecem, como eu.
sábado, 7 de março de 2009
Ilha de solidão
Rodo-o entre os dedos, conto doze quadradinhos. Doze ou catorze? Volto a contar, são doze, desvio-o sobre o balcão forrado a madeira, manchada do tinto e da lixívia da Tia Clarisse. Baixo a cabeça, rodo mais um pouco o copo, consigo ver a entrada da loja, se rodar mais um bocadinho até vejo os pipos. Os primeiros a contarem da porta, com o vinho do sul. Inclino-me no banco, para ver através do quadradinho a seguir, vejo a mesa dos que jogam às cartas, à sueca, são sempre os mesmos. Bebo de um trago o que resta no copo. Levanto a mão, faço sinal ao Domingos, ele já sabe… e sem mais, inclina a caneca branca de riscas azuis sobre o copo… o dos quadradinhos.
Agora não vejo nada, o meu mundo está às escuras, como a lua quando é nova. Dura pouco, depois do primeiro gole já vejo pelos quadradinhos de cima, são os maiores, acho que já disse. Mas gosto também dos outros, os da base, fazem uma imagem mais bonita. Mais pequena, mais bonita. Os da mesa ao lado discutem por causa da manilha de copas, fazem barulho por uma dúzia. Raios os partam… É a conversa de sempre, devias ter vindo a trunfo, dei-te sinal para puxares copas, enfim, passam o tempo, como eu.
Ponho as moedas sobre o balcão, parecem-me todas iguais. Não! Há umas mais pequenas e outras maiores…como os quadradinhos. Empurro-as todas em direcção ao Domingos, que separa umas tantas e as deixa cair na gaveta. A que fica com uma parte das minhas contas. O resto entrego à Laurinda… Já deve estar à espera para a ceia. Um prato de caldo, um naco de broa, se houver. Volto a olhar para o copo, ao menos este não me consome o juízo. Posso mexer-lhe, rodá-lo, que não reclama. Levo-o à boca, o vinho enche-me a boca, inunda-me a garganta, fresco, um pouco amargo, a saber a uvas americanas. É melhor que o da semana passada, parecia vinagre, devia ter sido feito com uvas do demónio.
Tenho de ir, levanto-me, dou um olhar de despedida ao meu copo… anda tudo à roda… deixo passar o enjoo. Quero ir para a porta mas as pernas demoram a obedecer. Acho que vou um bocado adornado, faz-me falta o ar fresco do fim da tarde. Os da sueca devem estar a falar de mim, já é costume. Já bebeu de mais, vai assim, vai assado. Merda para eles, que não lhes pedi nada. Aceno uma despedida ao Domingos, componho a boina e a samarra, na rua já faz frio trazido pela brisa do norte. De madrugada, quando arrancarmos para as fanecas, até deve cortar… é a vida.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
O Juca do Chiné
Por exemplo, quando começava a escola, em Outubro, era tempo do pião, semanas depois, passava toda a rapaziada a jogar ao eixo, ao espeto, ao botão ou à bilharda, já não me lembro, como era a sequencia.
Havia no entanto alguns jogos que eram universais e que os utilizávamos a qualquer momento, dependia dos parceiros, se éramos muitos, jogávamos à bola, se éramos poucos, podia-se “andar” às escondidas ou aos “cóbois”.
Os desafios de futebol do Sol Posto eram famosos e às vezes até tinham assistência. Os do Sol Posto desafiavam ou eram desafiados pelos rapazes dos outros lugares. As balizas eram o portão preto da quinta no topo norte e o portão da oficina do Zé Ferreiro ao sul.
Estes desafios só se realizavam depois da oficina fechar ou quando o Zé Ferreiro não estava, pois ele não queria ver a malta a chutar em direcção à oficina e os automóveis que lá estavam, a servirem de guarda-redes. Desde que não lhe mandássemos a bola para dentro da oficina estava tudo bem. O que ele não sabia, é que às vezes, eram os seus empregados que nos pediam para lhes passarmos a bola, de forma a eles também darem uns toques.
Mas também havia rapazes, que embora não morassem naquele zona, estavam sempre por ali e já quase eram do nosso grupo, já não eram estranhos. Lembro-me que o Luís, filho do Zé Ferreiro, mais conhecido pelo “Didon”, estava habitualmente acompanhado pelo Luís Gomes, o “La Rache”, o Ernesto do talho, o Esteves, e mais alguns que agora não recordo. O Dimas também fazia parte do grupo, mas esse morava ali em cima.
Na oficina dos automóveis, trabalhavam o Silvestre e o Berto que eram os mais velhos, recordo-me do “Zotopec” e o Vasco, irmão do Dimas, que moravam a escassos cem metros e eram filhos do tenente Ribeiro. Acho que era o Berto que tinha uma moto pesada, um daqueles modelos ingleses e que era o encanto da miudagem.
Mais tarde, saiu com o Silvestre e estabeleceram-se por conta própria, no fundo da Rua 31 de Janeiro, em frente ao matadouro. Antes deles já tinham saído, também para se estabelecerem por conta própria o Zé Rocha e o Armando, mas disso não me lembro, já não foi no meu tempo.
Quando não dava para um jogo ou outra brincadeira, íamos até ao Juca, vê-lo trabalhar e até nos deixava ajudar. Trabalhava de latoeiro ou funileiro, num barraquito ao lado da casa e era aí que fabricava as caleiras ou algerozes, os cântaros, as bacias e punha uns pingos de solda para vedar qualquer panela furada.
Uma das expressões favoritas do Jucas era: “Também queres que te ponha um pingo”? Perguntava ele com o seu ar malandreco!
Nunca vi aquele homem chateado ou a fazer má cara, fosse para quem fosse, muito menos para os miúdos. É deveras conhecida a história do porco do Juca, na qual ele dizia que o animal estava tão farto, que nem queria comer mais farinha. É tão conhecida como a história do Portela…
Mas este homem tem muitas mais histórias, como por exemplo quando lhe deram uma camisa que estava como nova, excepto nas costas que estava toda rota. Ora o Juca e a Bonança, a mulher, foram ao baile à Sociedade e ele levou a dita camisa, por baixo do casaco. Esqueceu-se que nos bailes da Sociedade, ao fim de pouco tempo, fazia um calor infernal. A sala era pequena, muita gente e mesmo com as janelas abertas o calor abrazava e o Juca a escorrer água.
- Oh Juca, não tens calor? Tira o casaco, homem!
- Deixa estar, estou bem assim.
Mas deixem-me contar-vos a cena do porco, porque ainda há quem não a conheça. O Juca dizia que tinha um porco que comia tanto, que até estava enjoado de farinha, já nem a queria. Claro que ninguém acreditava, porque a farinha era cara e o Juca um pobre, que mal tinha para si e para a família, quanto mais para o porco. Mas ele não desarmava, insistia e até demonstrava:
- Queres ver? Anda daí. – E entrava na corte do porco, tirava um punhado de farinha de um saco e deitava na pia. O porco avançava para a pia, metia o focinho na farinha, fungava e virava costas.
- Estás a ver, eu não te dizia? Já nem quer farinha!
O porco estava com uma “larica” desgraçada, mas ainda não se habituara a comer o serrim de madeira, que o Juca lhe deitava. Pois é, a farinha era serrim…
Uma vez, engataram o Juca para ser da Legião Portuguesa. Foi o “Nequinha” Sottomayor que o “convidou” e o Juca não teve como dizer que não. Naquela época era assim! Como a Legião era uma estrutura muito pouco eficiente e muito desleixada, o Juca também nunca se importou, porque não lhe dava canseira nenhuma e ainda recebia algumas ajudas lá para casa, até que foi nomeado encarregado do fardamento da quina ou lá como se chamava o agrupamento da Legião ancorense.
Já não me lembro como era o fardamento da legião, mas ainda vi uma ou duas vezes no campado, os “nossos” legionários a marcharem. Um dia, alguém foi dizer ao chefe da quina ou do terno, que o Juca vestia as camisas da legião para trabalhar, foi-lhe instaurado um processo disciplinar e acabou mesmo ali a sua brilhante carreira de legionário. Foi expulso da Legião e só lhe restou um cinto ao qual laboriosamente alterou a fivela para não ser reconhecida, senão ainda lhe dava mais chatices.
Anos depois, o Juca chegou a emigrar para França, mas pouco tempo lá esteve, regressou e construiu uma casita na Vista Alegre, onde passou a trabalhar. A Bonança, uma mulher calada e que tinha um coração enorme para aturar as maluqueiras do Juca quer estivesse sóbrio, quer estivesse com os copos, faleceu ainda nova, embora os filhos já estivessem criados.
O mais velho, o Zé, abalou para a França onde ainda vive, o Tòninho que saiu ao pai, amigo do copo, da brincadeira e da palhaçada, depois de trabalhar muitos anos no Hotel Meira, emigrou para Andorra, mas vem até Âncora duas ou três vezes por ano.
Este “melro” andou na escola comigo e era o meu parceiro para tudo. Como era mais velho que eu, safou-me de algumas enrascadas nas quais eu me metia com “demasiada” facilidade na escola. O Toninho era uma espécie de meu segurança privado, que eu recompensava, ajudando na resolução dos problemas da aritmética.
Acho que lhe paguei tudo o que fez por mim, no dia em que o tirei nas águas dos “Caldeirões” onde ele se ía afogando e todos pensávamos que estava na brincadeira. Todos não, eu achei que não era brincadeira, e não era mesmo. O gajo estava a afogar-se mesmo à nossa frente! Os amigos são para as ocasiões!
Havia aqui em Âncora um homem a quem chamavam o “Cristo” e como o apelido de Juca era Jesus, cada vez que o encontrava, ajoelhava-se e dizia-lhe: - Cristo, dá a tua bênção a Jesus. E o “Cristo” entrava no jogo e respondia – Eu te abençoo-o, Jesus. Vamos beber um copo, hoje pago eu.
Por mera casualidade, a minha mulher abriu uma pequena mercearia na Vista Alegre, em frente da casa do Juca. Às vezes era um cinema, bastava o Juca estar bem disposto ou bem bebido, para haver uma “matiné”, em que ele se metia com todos e era um fartote de tanto rir. Uma ocasião, combinado com a minha mulher, ele chegava à loja e da porta perguntava muito sério:
- Paula, já chegaram as chiolas?
- Ainda não, tio Juca.
- Então, não disseste que chegavam hoje? Estão a fazer-me tanta falta…
Nesta altura havia sempre alguém, alguma freguesa, que se metia na conversa e perguntava:
- Que é isso das chiolas, Juca?
- É um pau com duas bolas.
- Ah… Ai o ordinário…
E o Juca regressava a casa, bastava-lhe atravessar a rua, a rir-se à gargalhada.
Certo dia, o Juca foi à farmácia comprar “camisas”, esperou um momento que não estivesse ninguém, entrou acelerado quando viu a oportunidade e disse para o Durval Brito:
- Arranje-me aí umas “camisas”, sr. Brito.
- Das do costume ou queres umas novas, que são mais baratas.
- E são boas, à mesma?
- É a mesma coisa, só muda a marca – explica o farmacêutico.
- Então dê-me uma dúzia dessas mais baratas.
O Juca lá saiu da farmácia todo contente com o embrulhinho no bolso e quando usou a primeira teve uma surpresa, pois o preservativo era tamanho XXL, quero dizer era grande e saia com muita facilidade. Vou abrir um parêntesis para explicar que esta história, contou-me ele próprio. Então dizia-me ele:
- Oh Brito, as “camisas” pareciam sacos de fazer o café!
- Você é que não punha aquilo direito.
- Punha! Aquilo dava é para um cavalo, tu havias de ver. Mas eu fui lá reclamar à farmácia e quase me chateava com ele.
- Chateava porque? – Perguntava eu que quase chorava de tanto me rir.
- Quando lhe disse que aquilo era muito grande e que se desenfiava, aquele filho da mãe disse-me que eram camisas para a p… de homem. Tu estás a ver?
- Estou, estou… E você, que lhe disse?
- Eu disse-lhe que, se não fosse educado, lhe respondia. Virei as costas e saí.
- Mas afinal, se lhe respondesse o que é que lhe dizia?
- Dizia-lhe que a mulher dele é que ia ver quem tinha p… de homem. Mas não disse nada, só pensei.
Quando enviuvou o Juca passou a viver só, apesar de ter arranjado, tempos depois, uma amiga, a Rosa, que o visitava, mas cada um vivia em sua casa.
Todos os sábados de manhã ia ao cemitério, lavar a campa e pôr flores à “sua” Bonança. Havia mulheres, que também iam ao cemitério e esperavam que ele passasse para o acompanharem, pois parece que eram um pagode aquelas viagens. Imaginem o Juca, só, no meio dum rancho de mulheres. Todas a puxarem por ele, o “paleio” havia de ser bonito!
Uma das expressões que recordo dele, a propósito de mulheres: - Porque é que Deus nos tira a força e não nos tira a ideia?
Outra coisa que achava piada, era quando lhe perguntavam.
- Então Juca, o que comeste hoje?
- Uma lampreia cozida, com hortaliça e umas batatas.
Ou outro disparate qualquer, que lhe viesse à cabeça. Adoeceu, passou a comer dieta, deixou de beber e eu pensei cá para mim, “isto vai arrumar o Juca”. Ainda arribou, durou pouco mais de um ano e foi-se.
Revi o Zé, o seu filho mais velho que já não via há muitos anos. Chorei silenciosamente a morte daquele homem. Tinha perdido um amigo.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
O Largo do Sol Posto
A ajuda veio, mais uma vez, da minha mãe, que aos noventa e um anos, ainda não se esqueceu do que a mim, já não me lembra. Muitas das personagens que vou tentar repor, não são”do meu tempo”, mas outras ainda me são familiares, mesmo que já não consiga definir as suas feições ou outros pormenores.
Quem entrava no Largo do Sol Posto, vindo da rua 5 de Outubro, dava de frente com a casa da Tia Claudina, mais tarde comprada pela Gloria do Libas e que ainda lhe pertence onde vive com o filho, o Hernâni, o mais novo da geração que, como eu, cresceu a brincar no Sol Posto. A Tia Claudina negociava em manteiga que comprava nas feiras e vendia em Valença, provavelmente para seguir para Espanha, deduzo eu. Apesar de solteira, tinha três filhos, o Rui, o Luís e o Zé que abriu uma sapataria onde hoje (ainda) é a loja de fazendas do, recentemente falecido, sr. Luís Gomes.
Para o lado esquerdo (norte) vivia a Taputa, naquela casinha pequena que fica no quintal do Tampa. Alguns dos seus filhos eram mais ou menos da idade das minhas irmãs e eram seus parceiros de brincadeiras. Anos mais tarde, foram viver para o bairro dos pescadores.
A seguir morava a Maria de Jesus e o António, pais do Tio Tampa, que depois herdou a casa, na qual ocorreu uma tragédia, quando uma das crianças da Maria de Jesus caiu pelas escadas exteriores e espetou-se com uma tesoura, que lhe causou a morte. Um dos outros filhos, era conhecido pelo “Maldito” e uma das filhas, a Lina Ramos mais tarde teve uma loja na rua Miguel Bombarda. O António Verde era pescador e amigo, parece que em demasia, do “copo”. Nesta casa, anteriormente terá vivido o Pedro Bogalho, que era familiar dos Tampa e seria de origem galega.
Na casa seguinte vivia a Tia Sara, que depois comprou casa na rua 5 de Outubro e vendeu a anterior à Pinotas, que vendia peixe e ao homem que era pescador. Pelo menos um filho dela andou comigo na escola, lembro-me que lhe faltava um dedo do pé.
Depois havia a casa da Tia Maria Chapa e do Tio Manel, ainda o recordo com o baú na mão e os socos a arrastar na calçada, quando vinha do mar. Nessa casa criaram-se muitos filhos e uma rapariga, a única de oito irmãos. Ainda me lembro de alguns, como o Faustino, o Lula, o Manuel e a Carmesinda. Todos eles já tinham idade para serem meus pais.
Onde hoje mora a Apolónia morava a Pataca, cujo marido também era pescador mas não sei o nome. Um dos filhos casou com a Gabina e moravam no Bairro, outro filho era o Vermelho, que abalou para a França. A Pataca, vim agora a saber, era irmã do pai da minha sogra, o Rile.
A última casa era da Pinta e da irmã, a Cassilda. O nome da Pinta era Maria do Gaspar, andava ao jornal e a Cassilda servia na casa do Luís carteiro. Este Luís, morava também no Largo do Sol Posto, na casa que mais tarde foi do sr. Casimiro da Luz. O carteiro tinha fama de ser caloteiro, de abrir correspondência e tirar os valores que traziam. Se calhar não era só fama!
A Pinta tinha um filho e, alem de andar ao jornal, também vendia peixe, indo às vezes na camioneta, com o meu avô Abel. Parece que não iam só vender peixe… A Cassilda tinha uma filha que vivia em Lisboa. Mais tarde venderam a casa ao Rile e à mulher, a Lurdes Pregueira, avós maternos da minha mulher. Hoje a casa pertence à minha sogra.
Lá para cima, só havia a casa do Apolinário, que vivia num autêntico deserto. Só muitos anos depois, o Almirante Ramos Pereira construiu a sua casa, a “casa do monte”, num terreno escarpado, que lhe foi oferecido pelo Larica.
Na quelha, hoje rua Higino Lagido vivia a Cristovinha que era parteira, ou melhor ajudava aos nascimentos, que naquele tempo aconteciam em casa. Foi ela que assistiu à minha avó Delfina durante os cinco partos que teve. Tinha uma filha que casou com um irmão da Cândida Moreira, falecida recentemente e foram morar para Lisboa. A Cristovinha acabou por ir para junto da filha e deixou a casa para o Tenente Ribeiro e a mulher a Rosinha, que ali tiveram e criaram os filhos.
Também ali morava a Tia Deolinda com o filho, o Daniel e o marido, que emigrou para o Brasil. O apelido deles era Brita Aranha, não sei se da parte da mulher, se da parte do marido. Tempos depois, a Tia Deolinda acabou por ter uma filha, de um parente dos Eduardos, de apelido “Caseiros”; essa rapariga a Leonilde, mais tarde casou com o Álvaro, que também ficou conhecido por Brita Aranha.
Quem foi morar para a quelha foi o Chico do Chiné quando casou com a sr. Ingrácia. O Chico era funileiro, como o irmão, o Juca e tinha uma pequena oficina na rua 31 de Janeiro, um pouco abaixo do antigo posto da GNR.
Do outro lado da quelha, morava a Tia Lourença que tinha duas filhas, a Umbelina e a Joaquina; esta ultima, mais tarde, teve uma taberna na rua Laureano Brito, mais conhecida por “rua das árvores”.
A Umbelina casou com um tipo bem parecido, mas um bocado vadiola, que costumava passar os dias pelas tavernas ou a jogar à malha. Deste casamento nasceram três filhos, o Faustino, a Judite e a Soledade que ficou com a casa e hoje vive no Lar de Santa Rita. A Soledade teve, na juventude, um filho do Adérito dos Eduardos, o Fernando Moreira, que apesar de bastante mais velho, ainda brinquei algumas vezes com ele. Digamos que, no meu tempo, o Fernando era o chefe das “tropas” (e o que mais disparates fazia), que pelo Sol Posto andavam.
Na esquina da quelha, com a rua do Sol Posto, ficava a casa do Regedor, homem alto e magro que tinha cinco filhos, a Castorina, a Constança, o Luís, a Maria e o Tone, mais conhecido por Tone Poipa. A Castorina teve dois filhos do Dr. Fanzeres que morava na Praça da Republica, mais ou menos onde hoje é a papelaria; depois esse tal dr. Fanzeres foi viver para a Meadela.
Numa casinha do quintal, morava a Tia Júlia Pelada e a filha a Ester, a quem já me referi num conto anterior, sobre o meu avô. A Tia Júlia, conheci-a já velhinha, mas toda despachada, a entregar os telegramas e a trocar noticias, novidades e outras coscuvilhices, por todo o lado. Não era por acaso que chamavam a Pelada.
Os do Cravo moravam do outro lado da quelha e negociavam em ovelhas e cabras. Havia duas raparigas, a Rosa e a Zulmira que mais tarde foi servir para Lisboa ou para o Brasil. O Zé do Cravo é filho de uma delas e de um indivíduo que era carregador da CP na estação de Viana. Esta casa passou para o Poipa e ainda lá vivem os seus herdeiros.
A Tia Deolinda mais a filha, acabaram por vender a casa da quelha e comprar a casa seguinte, do lado direito, para quem desce a rua do Sol Posto.
A seguir morava o sr. Casimiro da luz, que depois mudou para outra casa, no largo do Sol Posto, em frente à casa da Tia Claudina. Depois era a casa do Cagante e da mulher, a Eva da Cutêla que tinham um barrasco de cobrição. O Cagante era um bocado bronco, não falava com ninguém e mudaram-se, mais tarde, para a zona do Viso.
Já quase a chegar ao largo, vivia a Pulquéria a quem todos tratavam por Quera e o marido, que acabou por morrer num naufrágio e não tinham filhos. A Quera era muito amiga da srª. Maria, mulher do Casimiro da luz, que viviam com algumas dificuldades; o dinheiro era escasso e muitas as bocas para alimentar. A Quera que vendia peixe por essas freguesias dentro, regressava com algumas ofertas que obtinha nas casas de campo. Ora vinham uns nacos de broa, ora uma talhada de toucinho, às vezes uns ovos, umas couves, sei lá, o que se arranjava. A Quera partia essas dádivas com a amiga e assim ajudou-a a sustentar, aquele rancho de filhos.
Depois da Quera ter ido viver com uns familiares, julgo que a Prudência e o Zé João, do outro lado da passagem de nível dos bombeiros, mudou-se para essa casa o Juca e a Bonança.
O Juca era latoeiro ou funileiro e trabalhava numa divisão ao lado da casa, que era minúscula. Lá nasceram os filhos o Zé e o Tóninho, nossos parceiros de brincadeiras e era uma delícia estar perto do Juca, pois estava sempre bem disposto e pronto para uma boa partida ou para uma piada. É “mundialmente” famosa, a história do porco, que o Juca dizia não gostar de farinha.
Em frente havia uma casa e terreno que eram da Ana do Presa, que vendeu ao Augusto Meira de Afife e à mulher a Ingrácia, que aí tiveram quatro filhos, o Jorge, o Simão, o Álvaro e a Natalina. O Álvaro morreu novo, com vinte anos, de tuberculose, o Jorge casou com a Ana da Botica e o Simão casou com a irmã mais velha da minha mãe, a Felisbela. A Lina Meira que herdou a casa faleceu há poucos anos e era casada com o Toninho carregador.
Ali também vivia o Rogerinho, filho da Maria Bezunza, que apesar de ser bastante mais velho que eu, era óptimo parceiro para a brincadeira.
Já dentro do Largo do Sol Posto, havia um terreno que pertencia ao sr. José Gonçalves e à D. Hermínia, os pais da D. Maria Vitória (Nem), que venderam parte do terreno e da casa na rua 5 de Outubro, ao Zé Ferreiro, que tinha ganho muito dinheiro nos negócios de volfrâmio, lá para os lados de Orbacém. Foi neste terreno que nasceu a oficina de reparação de automóveis, que o Zé Ferreiro montou e que era a nossa catedral de brincadeiras, quando éramos catraios. Quando estava fechada, o portão era uma das balizas, sendo o portão preto da quinta, a outra baliza. Eu já vou falar dessa quinta.
A seguir era a pensão dos meus avós, que fazia esquina com a rua 5 de Outubro. Do outro lado, aquelas casas que tem frente para a rua principal e traseiras para o Sol Posto, numa das quais eu nasci, eram duns parentes da D. Laura, a velha, porque tinha uma filha também chamada Laura. Pois essa D. Laura, herdou aquelas casas, ela que era de Caminha, casada com o Libório das Finanças e, segundo consta, tinha um “amigo” que também era hóspede da sua casa, o Magalhães de Lisboa.
Na época, vendia as casas por 1.500$00 e ninguém quis, nomeadamente o meu avô Abel, a quem ela lhe rogou a venda, várias vezes.
A filha desta senhora, como já disse, tinha o mesmo nome da mãe, foi casada com um funcionário das finanças, o Cardoso.
Finalmente havia a D. Carolina Maia, que tinha vindo do Brasil e era proprietária dos terrenos, a tal quinta com o portão preto, onde hoje está construído o mercado, os arruamentos e a casa principal com a frente para a 5 de Outubro.
O marido desta D. Carolina fez duas filhas, a Henriqueta e a Laida, a uma peixeira, infelizmente não sei o nome, que foram criadas na casa da “madrasta”, se assim se pode dizer. A Carolina Maia, por dificuldades financeiras, começou a pedir dinheiro emprestado à D. Clementina Morais Cabral, que era de Valença, até que esta acabou por ficar com a quinta a troco de 800$00, naquela época 800.000 reis o que era uma ninharia.
A D. Clementina teve dois filhos, um rapaz que chegou a juiz desembargador e a filha morreu em criança. Imagino que a árvore gigantesca, uma Araucária que está no jardim e que é um dos ex libris da nossa terra, tenha sido plantada ainda antes da D. Carolina Maia ter vindo do Brasil.
E pronto, cheguei ao fim, contei-vos aquilo que apurei, se calhar com algumas incorrecções e certamente com muitas omissões. Cada uma destas casas tem uma história, não, cada uma destas casas, tem muitas histórias, tantas como as gerações por lá passaram.
O Largo do Sol Posto com a abertura dos múltiplos arruamentos ao longo dos últimos vinte e tal anos perdeu protagonismo, passa despercebido, quase incógnito perante os apressados automobilistas que o cruzam e voltam a cruzar a toda a hora. Isso não significa que perdeu, de todo, a sua identidade e que não guarda a memória, de tantas vidas.
Vidas como a minha. E eu não quero esquecer!


