domingo, 8 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
O Juca do Chiné
Por exemplo, quando começava a escola, em Outubro, era tempo do pião, semanas depois, passava toda a rapaziada a jogar ao eixo, ao espeto, ao botão ou à bilharda, já não me lembro, como era a sequencia.
Havia no entanto alguns jogos que eram universais e que os utilizávamos a qualquer momento, dependia dos parceiros, se éramos muitos, jogávamos à bola, se éramos poucos, podia-se “andar” às escondidas ou aos “cóbois”.
Os desafios de futebol do Sol Posto eram famosos e às vezes até tinham assistência. Os do Sol Posto desafiavam ou eram desafiados pelos rapazes dos outros lugares. As balizas eram o portão preto da quinta no topo norte e o portão da oficina do Zé Ferreiro ao sul.
Estes desafios só se realizavam depois da oficina fechar ou quando o Zé Ferreiro não estava, pois ele não queria ver a malta a chutar em direcção à oficina e os automóveis que lá estavam, a servirem de guarda-redes. Desde que não lhe mandássemos a bola para dentro da oficina estava tudo bem. O que ele não sabia, é que às vezes, eram os seus empregados que nos pediam para lhes passarmos a bola, de forma a eles também darem uns toques.
Mas também havia rapazes, que embora não morassem naquele zona, estavam sempre por ali e já quase eram do nosso grupo, já não eram estranhos. Lembro-me que o Luís, filho do Zé Ferreiro, mais conhecido pelo “Didon”, estava habitualmente acompanhado pelo Luís Gomes, o “La Rache”, o Ernesto do talho, o Esteves, e mais alguns que agora não recordo. O Dimas também fazia parte do grupo, mas esse morava ali em cima.
Na oficina dos automóveis, trabalhavam o Silvestre e o Berto que eram os mais velhos, recordo-me do “Zotopec” e o Vasco, irmão do Dimas, que moravam a escassos cem metros e eram filhos do tenente Ribeiro. Acho que era o Berto que tinha uma moto pesada, um daqueles modelos ingleses e que era o encanto da miudagem.
Mais tarde, saiu com o Silvestre e estabeleceram-se por conta própria, no fundo da Rua 31 de Janeiro, em frente ao matadouro. Antes deles já tinham saído, também para se estabelecerem por conta própria o Zé Rocha e o Armando, mas disso não me lembro, já não foi no meu tempo.
Quando não dava para um jogo ou outra brincadeira, íamos até ao Juca, vê-lo trabalhar e até nos deixava ajudar. Trabalhava de latoeiro ou funileiro, num barraquito ao lado da casa e era aí que fabricava as caleiras ou algerozes, os cântaros, as bacias e punha uns pingos de solda para vedar qualquer panela furada.
Uma das expressões favoritas do Jucas era: “Também queres que te ponha um pingo”? Perguntava ele com o seu ar malandreco!
Nunca vi aquele homem chateado ou a fazer má cara, fosse para quem fosse, muito menos para os miúdos. É deveras conhecida a história do porco do Juca, na qual ele dizia que o animal estava tão farto, que nem queria comer mais farinha. É tão conhecida como a história do Portela…
Mas este homem tem muitas mais histórias, como por exemplo quando lhe deram uma camisa que estava como nova, excepto nas costas que estava toda rota. Ora o Juca e a Bonança, a mulher, foram ao baile à Sociedade e ele levou a dita camisa, por baixo do casaco. Esqueceu-se que nos bailes da Sociedade, ao fim de pouco tempo, fazia um calor infernal. A sala era pequena, muita gente e mesmo com as janelas abertas o calor abrazava e o Juca a escorrer água.
- Oh Juca, não tens calor? Tira o casaco, homem!
- Deixa estar, estou bem assim.
Mas deixem-me contar-vos a cena do porco, porque ainda há quem não a conheça. O Juca dizia que tinha um porco que comia tanto, que até estava enjoado de farinha, já nem a queria. Claro que ninguém acreditava, porque a farinha era cara e o Juca um pobre, que mal tinha para si e para a família, quanto mais para o porco. Mas ele não desarmava, insistia e até demonstrava:
- Queres ver? Anda daí. – E entrava na corte do porco, tirava um punhado de farinha de um saco e deitava na pia. O porco avançava para a pia, metia o focinho na farinha, fungava e virava costas.
- Estás a ver, eu não te dizia? Já nem quer farinha!
O porco estava com uma “larica” desgraçada, mas ainda não se habituara a comer o serrim de madeira, que o Juca lhe deitava. Pois é, a farinha era serrim…
Uma vez, engataram o Juca para ser da Legião Portuguesa. Foi o “Nequinha” Sottomayor que o “convidou” e o Juca não teve como dizer que não. Naquela época era assim! Como a Legião era uma estrutura muito pouco eficiente e muito desleixada, o Juca também nunca se importou, porque não lhe dava canseira nenhuma e ainda recebia algumas ajudas lá para casa, até que foi nomeado encarregado do fardamento da quina ou lá como se chamava o agrupamento da Legião ancorense.
Já não me lembro como era o fardamento da legião, mas ainda vi uma ou duas vezes no campado, os “nossos” legionários a marcharem. Um dia, alguém foi dizer ao chefe da quina ou do terno, que o Juca vestia as camisas da legião para trabalhar, foi-lhe instaurado um processo disciplinar e acabou mesmo ali a sua brilhante carreira de legionário. Foi expulso da Legião e só lhe restou um cinto ao qual laboriosamente alterou a fivela para não ser reconhecida, senão ainda lhe dava mais chatices.
Anos depois, o Juca chegou a emigrar para França, mas pouco tempo lá esteve, regressou e construiu uma casita na Vista Alegre, onde passou a trabalhar. A Bonança, uma mulher calada e que tinha um coração enorme para aturar as maluqueiras do Juca quer estivesse sóbrio, quer estivesse com os copos, faleceu ainda nova, embora os filhos já estivessem criados.
O mais velho, o Zé, abalou para a França onde ainda vive, o Tòninho que saiu ao pai, amigo do copo, da brincadeira e da palhaçada, depois de trabalhar muitos anos no Hotel Meira, emigrou para Andorra, mas vem até Âncora duas ou três vezes por ano.
Este “melro” andou na escola comigo e era o meu parceiro para tudo. Como era mais velho que eu, safou-me de algumas enrascadas nas quais eu me metia com “demasiada” facilidade na escola. O Toninho era uma espécie de meu segurança privado, que eu recompensava, ajudando na resolução dos problemas da aritmética.
Acho que lhe paguei tudo o que fez por mim, no dia em que o tirei nas águas dos “Caldeirões” onde ele se ía afogando e todos pensávamos que estava na brincadeira. Todos não, eu achei que não era brincadeira, e não era mesmo. O gajo estava a afogar-se mesmo à nossa frente! Os amigos são para as ocasiões!
Havia aqui em Âncora um homem a quem chamavam o “Cristo” e como o apelido de Juca era Jesus, cada vez que o encontrava, ajoelhava-se e dizia-lhe: - Cristo, dá a tua bênção a Jesus. E o “Cristo” entrava no jogo e respondia – Eu te abençoo-o, Jesus. Vamos beber um copo, hoje pago eu.
Por mera casualidade, a minha mulher abriu uma pequena mercearia na Vista Alegre, em frente da casa do Juca. Às vezes era um cinema, bastava o Juca estar bem disposto ou bem bebido, para haver uma “matiné”, em que ele se metia com todos e era um fartote de tanto rir. Uma ocasião, combinado com a minha mulher, ele chegava à loja e da porta perguntava muito sério:
- Paula, já chegaram as chiolas?
- Ainda não, tio Juca.
- Então, não disseste que chegavam hoje? Estão a fazer-me tanta falta…
Nesta altura havia sempre alguém, alguma freguesa, que se metia na conversa e perguntava:
- Que é isso das chiolas, Juca?
- É um pau com duas bolas.
- Ah… Ai o ordinário…
E o Juca regressava a casa, bastava-lhe atravessar a rua, a rir-se à gargalhada.
Certo dia, o Juca foi à farmácia comprar “camisas”, esperou um momento que não estivesse ninguém, entrou acelerado quando viu a oportunidade e disse para o Durval Brito:
- Arranje-me aí umas “camisas”, sr. Brito.
- Das do costume ou queres umas novas, que são mais baratas.
- E são boas, à mesma?
- É a mesma coisa, só muda a marca – explica o farmacêutico.
- Então dê-me uma dúzia dessas mais baratas.
O Juca lá saiu da farmácia todo contente com o embrulhinho no bolso e quando usou a primeira teve uma surpresa, pois o preservativo era tamanho XXL, quero dizer era grande e saia com muita facilidade. Vou abrir um parêntesis para explicar que esta história, contou-me ele próprio. Então dizia-me ele:
- Oh Brito, as “camisas” pareciam sacos de fazer o café!
- Você é que não punha aquilo direito.
- Punha! Aquilo dava é para um cavalo, tu havias de ver. Mas eu fui lá reclamar à farmácia e quase me chateava com ele.
- Chateava porque? – Perguntava eu que quase chorava de tanto me rir.
- Quando lhe disse que aquilo era muito grande e que se desenfiava, aquele filho da mãe disse-me que eram camisas para a p… de homem. Tu estás a ver?
- Estou, estou… E você, que lhe disse?
- Eu disse-lhe que, se não fosse educado, lhe respondia. Virei as costas e saí.
- Mas afinal, se lhe respondesse o que é que lhe dizia?
- Dizia-lhe que a mulher dele é que ia ver quem tinha p… de homem. Mas não disse nada, só pensei.
Quando enviuvou o Juca passou a viver só, apesar de ter arranjado, tempos depois, uma amiga, a Rosa, que o visitava, mas cada um vivia em sua casa.
Todos os sábados de manhã ia ao cemitério, lavar a campa e pôr flores à “sua” Bonança. Havia mulheres, que também iam ao cemitério e esperavam que ele passasse para o acompanharem, pois parece que eram um pagode aquelas viagens. Imaginem o Juca, só, no meio dum rancho de mulheres. Todas a puxarem por ele, o “paleio” havia de ser bonito!
Uma das expressões que recordo dele, a propósito de mulheres: - Porque é que Deus nos tira a força e não nos tira a ideia?
Outra coisa que achava piada, era quando lhe perguntavam.
- Então Juca, o que comeste hoje?
- Uma lampreia cozida, com hortaliça e umas batatas.
Ou outro disparate qualquer, que lhe viesse à cabeça. Adoeceu, passou a comer dieta, deixou de beber e eu pensei cá para mim, “isto vai arrumar o Juca”. Ainda arribou, durou pouco mais de um ano e foi-se.
Revi o Zé, o seu filho mais velho que já não via há muitos anos. Chorei silenciosamente a morte daquele homem. Tinha perdido um amigo.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
O Largo do Sol Posto
A ajuda veio, mais uma vez, da minha mãe, que aos noventa e um anos, ainda não se esqueceu do que a mim, já não me lembra. Muitas das personagens que vou tentar repor, não são”do meu tempo”, mas outras ainda me são familiares, mesmo que já não consiga definir as suas feições ou outros pormenores.
Quem entrava no Largo do Sol Posto, vindo da rua 5 de Outubro, dava de frente com a casa da Tia Claudina, mais tarde comprada pela Gloria do Libas e que ainda lhe pertence onde vive com o filho, o Hernâni, o mais novo da geração que, como eu, cresceu a brincar no Sol Posto. A Tia Claudina negociava em manteiga que comprava nas feiras e vendia em Valença, provavelmente para seguir para Espanha, deduzo eu. Apesar de solteira, tinha três filhos, o Rui, o Luís e o Zé que abriu uma sapataria onde hoje (ainda) é a loja de fazendas do, recentemente falecido, sr. Luís Gomes.
Para o lado esquerdo (norte) vivia a Taputa, naquela casinha pequena que fica no quintal do Tampa. Alguns dos seus filhos eram mais ou menos da idade das minhas irmãs e eram seus parceiros de brincadeiras. Anos mais tarde, foram viver para o bairro dos pescadores.
A seguir morava a Maria de Jesus e o António, pais do Tio Tampa, que depois herdou a casa, na qual ocorreu uma tragédia, quando uma das crianças da Maria de Jesus caiu pelas escadas exteriores e espetou-se com uma tesoura, que lhe causou a morte. Um dos outros filhos, era conhecido pelo “Maldito” e uma das filhas, a Lina Ramos mais tarde teve uma loja na rua Miguel Bombarda. O António Verde era pescador e amigo, parece que em demasia, do “copo”. Nesta casa, anteriormente terá vivido o Pedro Bogalho, que era familiar dos Tampa e seria de origem galega.
Na casa seguinte vivia a Tia Sara, que depois comprou casa na rua 5 de Outubro e vendeu a anterior à Pinotas, que vendia peixe e ao homem que era pescador. Pelo menos um filho dela andou comigo na escola, lembro-me que lhe faltava um dedo do pé.
Depois havia a casa da Tia Maria Chapa e do Tio Manel, ainda o recordo com o baú na mão e os socos a arrastar na calçada, quando vinha do mar. Nessa casa criaram-se muitos filhos e uma rapariga, a única de oito irmãos. Ainda me lembro de alguns, como o Faustino, o Lula, o Manuel e a Carmesinda. Todos eles já tinham idade para serem meus pais.
Onde hoje mora a Apolónia morava a Pataca, cujo marido também era pescador mas não sei o nome. Um dos filhos casou com a Gabina e moravam no Bairro, outro filho era o Vermelho, que abalou para a França. A Pataca, vim agora a saber, era irmã do pai da minha sogra, o Rile.
A última casa era da Pinta e da irmã, a Cassilda. O nome da Pinta era Maria do Gaspar, andava ao jornal e a Cassilda servia na casa do Luís carteiro. Este Luís, morava também no Largo do Sol Posto, na casa que mais tarde foi do sr. Casimiro da Luz. O carteiro tinha fama de ser caloteiro, de abrir correspondência e tirar os valores que traziam. Se calhar não era só fama!
A Pinta tinha um filho e, alem de andar ao jornal, também vendia peixe, indo às vezes na camioneta, com o meu avô Abel. Parece que não iam só vender peixe… A Cassilda tinha uma filha que vivia em Lisboa. Mais tarde venderam a casa ao Rile e à mulher, a Lurdes Pregueira, avós maternos da minha mulher. Hoje a casa pertence à minha sogra.
Lá para cima, só havia a casa do Apolinário, que vivia num autêntico deserto. Só muitos anos depois, o Almirante Ramos Pereira construiu a sua casa, a “casa do monte”, num terreno escarpado, que lhe foi oferecido pelo Larica.
Na quelha, hoje rua Higino Lagido vivia a Cristovinha que era parteira, ou melhor ajudava aos nascimentos, que naquele tempo aconteciam em casa. Foi ela que assistiu à minha avó Delfina durante os cinco partos que teve. Tinha uma filha que casou com um irmão da Cândida Moreira, falecida recentemente e foram morar para Lisboa. A Cristovinha acabou por ir para junto da filha e deixou a casa para o Tenente Ribeiro e a mulher a Rosinha, que ali tiveram e criaram os filhos.
Também ali morava a Tia Deolinda com o filho, o Daniel e o marido, que emigrou para o Brasil. O apelido deles era Brita Aranha, não sei se da parte da mulher, se da parte do marido. Tempos depois, a Tia Deolinda acabou por ter uma filha, de um parente dos Eduardos, de apelido “Caseiros”; essa rapariga a Leonilde, mais tarde casou com o Álvaro, que também ficou conhecido por Brita Aranha.
Quem foi morar para a quelha foi o Chico do Chiné quando casou com a sr. Ingrácia. O Chico era funileiro, como o irmão, o Juca e tinha uma pequena oficina na rua 31 de Janeiro, um pouco abaixo do antigo posto da GNR.
Do outro lado da quelha, morava a Tia Lourença que tinha duas filhas, a Umbelina e a Joaquina; esta ultima, mais tarde, teve uma taberna na rua Laureano Brito, mais conhecida por “rua das árvores”.
A Umbelina casou com um tipo bem parecido, mas um bocado vadiola, que costumava passar os dias pelas tavernas ou a jogar à malha. Deste casamento nasceram três filhos, o Faustino, a Judite e a Soledade que ficou com a casa e hoje vive no Lar de Santa Rita. A Soledade teve, na juventude, um filho do Adérito dos Eduardos, o Fernando Moreira, que apesar de bastante mais velho, ainda brinquei algumas vezes com ele. Digamos que, no meu tempo, o Fernando era o chefe das “tropas” (e o que mais disparates fazia), que pelo Sol Posto andavam.
Na esquina da quelha, com a rua do Sol Posto, ficava a casa do Regedor, homem alto e magro que tinha cinco filhos, a Castorina, a Constança, o Luís, a Maria e o Tone, mais conhecido por Tone Poipa. A Castorina teve dois filhos do Dr. Fanzeres que morava na Praça da Republica, mais ou menos onde hoje é a papelaria; depois esse tal dr. Fanzeres foi viver para a Meadela.
Numa casinha do quintal, morava a Tia Júlia Pelada e a filha a Ester, a quem já me referi num conto anterior, sobre o meu avô. A Tia Júlia, conheci-a já velhinha, mas toda despachada, a entregar os telegramas e a trocar noticias, novidades e outras coscuvilhices, por todo o lado. Não era por acaso que chamavam a Pelada.
Os do Cravo moravam do outro lado da quelha e negociavam em ovelhas e cabras. Havia duas raparigas, a Rosa e a Zulmira que mais tarde foi servir para Lisboa ou para o Brasil. O Zé do Cravo é filho de uma delas e de um indivíduo que era carregador da CP na estação de Viana. Esta casa passou para o Poipa e ainda lá vivem os seus herdeiros.
A Tia Deolinda mais a filha, acabaram por vender a casa da quelha e comprar a casa seguinte, do lado direito, para quem desce a rua do Sol Posto.
A seguir morava o sr. Casimiro da luz, que depois mudou para outra casa, no largo do Sol Posto, em frente à casa da Tia Claudina. Depois era a casa do Cagante e da mulher, a Eva da Cutêla que tinham um barrasco de cobrição. O Cagante era um bocado bronco, não falava com ninguém e mudaram-se, mais tarde, para a zona do Viso.
Já quase a chegar ao largo, vivia a Pulquéria a quem todos tratavam por Quera e o marido, que acabou por morrer num naufrágio e não tinham filhos. A Quera era muito amiga da srª. Maria, mulher do Casimiro da luz, que viviam com algumas dificuldades; o dinheiro era escasso e muitas as bocas para alimentar. A Quera que vendia peixe por essas freguesias dentro, regressava com algumas ofertas que obtinha nas casas de campo. Ora vinham uns nacos de broa, ora uma talhada de toucinho, às vezes uns ovos, umas couves, sei lá, o que se arranjava. A Quera partia essas dádivas com a amiga e assim ajudou-a a sustentar, aquele rancho de filhos.
Depois da Quera ter ido viver com uns familiares, julgo que a Prudência e o Zé João, do outro lado da passagem de nível dos bombeiros, mudou-se para essa casa o Juca e a Bonança.
O Juca era latoeiro ou funileiro e trabalhava numa divisão ao lado da casa, que era minúscula. Lá nasceram os filhos o Zé e o Tóninho, nossos parceiros de brincadeiras e era uma delícia estar perto do Juca, pois estava sempre bem disposto e pronto para uma boa partida ou para uma piada. É “mundialmente” famosa, a história do porco, que o Juca dizia não gostar de farinha.
Em frente havia uma casa e terreno que eram da Ana do Presa, que vendeu ao Augusto Meira de Afife e à mulher a Ingrácia, que aí tiveram quatro filhos, o Jorge, o Simão, o Álvaro e a Natalina. O Álvaro morreu novo, com vinte anos, de tuberculose, o Jorge casou com a Ana da Botica e o Simão casou com a irmã mais velha da minha mãe, a Felisbela. A Lina Meira que herdou a casa faleceu há poucos anos e era casada com o Toninho carregador.
Ali também vivia o Rogerinho, filho da Maria Bezunza, que apesar de ser bastante mais velho que eu, era óptimo parceiro para a brincadeira.
Já dentro do Largo do Sol Posto, havia um terreno que pertencia ao sr. José Gonçalves e à D. Hermínia, os pais da D. Maria Vitória (Nem), que venderam parte do terreno e da casa na rua 5 de Outubro, ao Zé Ferreiro, que tinha ganho muito dinheiro nos negócios de volfrâmio, lá para os lados de Orbacém. Foi neste terreno que nasceu a oficina de reparação de automóveis, que o Zé Ferreiro montou e que era a nossa catedral de brincadeiras, quando éramos catraios. Quando estava fechada, o portão era uma das balizas, sendo o portão preto da quinta, a outra baliza. Eu já vou falar dessa quinta.
A seguir era a pensão dos meus avós, que fazia esquina com a rua 5 de Outubro. Do outro lado, aquelas casas que tem frente para a rua principal e traseiras para o Sol Posto, numa das quais eu nasci, eram duns parentes da D. Laura, a velha, porque tinha uma filha também chamada Laura. Pois essa D. Laura, herdou aquelas casas, ela que era de Caminha, casada com o Libório das Finanças e, segundo consta, tinha um “amigo” que também era hóspede da sua casa, o Magalhães de Lisboa.
Na época, vendia as casas por 1.500$00 e ninguém quis, nomeadamente o meu avô Abel, a quem ela lhe rogou a venda, várias vezes.
A filha desta senhora, como já disse, tinha o mesmo nome da mãe, foi casada com um funcionário das finanças, o Cardoso.
Finalmente havia a D. Carolina Maia, que tinha vindo do Brasil e era proprietária dos terrenos, a tal quinta com o portão preto, onde hoje está construído o mercado, os arruamentos e a casa principal com a frente para a 5 de Outubro.
O marido desta D. Carolina fez duas filhas, a Henriqueta e a Laida, a uma peixeira, infelizmente não sei o nome, que foram criadas na casa da “madrasta”, se assim se pode dizer. A Carolina Maia, por dificuldades financeiras, começou a pedir dinheiro emprestado à D. Clementina Morais Cabral, que era de Valença, até que esta acabou por ficar com a quinta a troco de 800$00, naquela época 800.000 reis o que era uma ninharia.
A D. Clementina teve dois filhos, um rapaz que chegou a juiz desembargador e a filha morreu em criança. Imagino que a árvore gigantesca, uma Araucária que está no jardim e que é um dos ex libris da nossa terra, tenha sido plantada ainda antes da D. Carolina Maia ter vindo do Brasil.
E pronto, cheguei ao fim, contei-vos aquilo que apurei, se calhar com algumas incorrecções e certamente com muitas omissões. Cada uma destas casas tem uma história, não, cada uma destas casas, tem muitas histórias, tantas como as gerações por lá passaram.
O Largo do Sol Posto com a abertura dos múltiplos arruamentos ao longo dos últimos vinte e tal anos perdeu protagonismo, passa despercebido, quase incógnito perante os apressados automobilistas que o cruzam e voltam a cruzar a toda a hora. Isso não significa que perdeu, de todo, a sua identidade e que não guarda a memória, de tantas vidas.
Vidas como a minha. E eu não quero esquecer!
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Cela 157, Ala Norte, Caxias
O comboio balouçava ao passar cada emenda dos carris. Teria sido uma boa maneira de passar o tempo se não tivesse na cabeça um turbilhão de pensamentos. De cada lado sentava-se um agente da PIDE repousando os pés deles sobre os seus próprios sapatos, uma medida de segurança, tinham-lhe dito, uma humilhação pensava o Álvaro.
Tinham-no detido na fronteira em Valença, quando regressava da Bélgica para passar uns dias de férias com a mãe e os amigos, em Âncora, pequena vila encostada ao mar. O mar que o viu nascer e crescer, a terra que lhe negou o sustento digno e suficiente, obrigando-o a emigrar para longe, para o norte, junto ao mar, como em Âncora.
Por lá foi aprendendo os porquês da emigração, ficou a saber que as Províncias Ultramarinas que o regime dizia que eram nossas, quando todo o mundo dizia o contrário e condenava Portugal como potencia colonial. Por lá assistira a reuniões de opositores ao regime, que pregavam a liberdade e a democracia. Nunca se envolvera muito, o trabalho estava primeiro e a vida de emigrante não deixa tempo livre.
Na fronteira, quando entregou o passaporte ao funcionário da alfândega, nunca pensou que estariam à sua espera e lembra-se de apenas desejar que o comboio partisse logo, para abraçar a sua velha mãe, agora tão perto.
Os PIDES apresentaram-se sem alarido, nada de cenas à moda de Hollywood, simplesmente perguntaram-lhe o nome, como se não soubessem, e deram-lhe voz de prisão em tom perfeitamente casual. Antes de se sentarem ao seu lado, um deles fez questão de lhe mostrar disfarçadamente a arma que trazia ao cinto dizendo em voz baixa, “ o último que levei para o Porto quis fugir e tive que lhe dar dois tiros”.
Aquilo gelou-lhe o coração, a ameaça dita sem sentimento, como quem atira um caroço pela janela, o ar indiferente como os esbirros da polícia política encaravam a prisão de alguém que eles não conheciam, que não tinha cometido nenhum crime, que nem sequer tinha tomado parte em acções subversivas, que apenas tinha aprendido a desprezar a ordem imposta sobre um povo ignorante.
No Porto passou a noite na sede da R. do Heroísmo e no dia seguinte foi metido numa carrinha fechada com mais três indivíduos. Horas depois, meio cego com a luz forte de uma tarde de Julho, entrou na sinistra sede da Rua António Maria Cardoso em Lisboa.
Ao empurrão introduziram-no na sala onde um agente preencheu uma ficha com os seus dados pessoais. Quando terminaram, foi informado que ia ao médico, limitando-se este a examinar os papéis recem preenchidos. Perguntou-lhe se se queixava de alguma coisa e a rematar a consulta atirou-lhe com ar cínico “veja lá, não se queixe muito quando um dia sair daqui”. Mais outro balde de água fria a juntar aos anteriores, mas o que mais o apoquentava era a incerteza do que se iria passar, o desconhecido, mais até que o medo da tortura, que ouvira falar nas reuniões, na Bélgica. Como estava longe a Bélgica, era agora parte do passado e só de lá tinha saído há três dias.
Foi levado para uma pequena sala quase vazia, apenas uma velha e carunchosa secretária ocupava um dos cantos. Mandaram-no permanecer de pé várias horas, ao fim das quais começaram a interrogá-lo. Dois tipos, as ameaças de mil e um terrores se não respondesse com verdade a tudo.
O que fazia, com quem trabalhava, que portugueses é que conhecia na Bélgica, a quem escrevia para Portugal, quem eram os delegados sindicais da fábrica onde trabalhava, como se chamavam os homens do Partido Comunista, o que faziam os agitadores, onde viviam, como contactavam… Mil perguntas, mil vezes repetidas.
Só uma vez o PIDE que o estava a interrogar lhe deu uma bofetada. Mais para o acordar do que para doer. Preferiam pisar-lhe os pés, já massacrados pelas horas incontáveis de interrogatório e de estátua. Várias vezes se foi abaixo das pernas, logo espevitados com umas caneladas sabiamente aplicadas.
Quando o agente ameaçador saía por instantes da sala, logo o outro que se mantinha quase sempre em silêncio, vinha solicito tentar convencê-lo a falar, “sabe como é, tenho colegas violentos, que não tem paciência para nada. O melhor era você dizer tudo o que sabe para eu poder ajudá-lo”. Tudo falso, tudo combinado entre eles, que muitas vezes colocavam um bufo na cela dos novos para os ouvir “despejar o saco” entre eles.
Eles revezavam-se, voltavam as ameaças, as pisadelas, nunca batiam onde pudessem ficar marcas, tornava a escutar os conselhos do PIDE que dizia querer ajudar. Queria-se rir, chamar-lhes filhos da puta, já lhe disse sem conta que não conhecia ninguém do Partido Comunista, nem estudantes, nem operários, nem nada… Só venho a Portugal de férias para ver a minha mãe. O meu irmão anda embarcado num barco mercante… Sei lá qual é o barco!
Recorda-se de o terem levado para a cela, os pés inchados, quase não conseguia tirar os sapatos, não sabe a que horas entrou, quanto tempo o deixaram descansar, um sono agitado, sonhou que caía a um poço, talvez o tivessem empurrado, nunca mais chegava lá abaixo.
Voltaram a metê-lo dentro de uma carrinha fechada, desta vez só, sentia-se dentro do poço do sonho, percebia as voltas, muitas voltas que deu até se encontrar dentro do Forte de Caxias.
Tudo pintado de branco, o Álvaro avançava penosamente, arrastando os pés, os olhos ardiam-lhe da intensidade da luz. Mais papéis para preencher, um molho de roupa, “vamos” disse-lhe o guarda, virando-lhe as costas sem se importar em saber se o seguia ou não.
A cela branca, a cama em cimento com estrado de madeira, uma luz fraca, um balde. Dois metros para lá, dois metros para cá. Um dia no isolamento pareceu-lhe uma semana, a semana pareceu-lhe um mês. Voltou à sala de interrogatório, os camaradas das celas vizinhas disseram palavras de alento “Aguenta-te rapaz que eles não valem nada”.
Aguentou-se, também não tinha nada para contar, disse-lhes tantas vezes “vocês prenderam-me por engano”, riram-se, não acreditavam. Os pés, as pernas, os joelhos estavam novamente inchados, quase não conseguia andar no regresso à cela. Teve de ser amparado pelo guarda que o levou para outra cela, a 157. Já lá estavam três prisioneiros que o olharam com desconfiança.
- De onde és, pá?
- De Âncora.
- Onde fica isso?
- No norte, perto de Viana.
- Aquela é a tua cama. Vai-te deitar que tens essas pernas uma miséria. Cambada de filhos da puta. Não adiantou nada o velho ter caído da cadeira, o Marcello é a mesma merda!
Não regressou aos interrogatórios, parecia que se tinham esquecido dele. O irmão visitou-o duas vezes enquanto o barco esteve atracado em Lisboa. As semanas passaram, aprendeu muito de política nesses dias, em conversa com os seus companheiros.
“Senhor Álvaro, pegue nas suas coisas e venha comigo” dissera-lhe o guarda que o conduziu à portaria sul onde o esperavam para o meter, junto com a mala que trouxera da Bélgica, na malfadada carrinha fechada.
Mais voltas pela cidade, pára a viatura, abre-se a porta traseira, é-lhe dito para sair. A carrinha arranca novamente, o Álvaro vê-se só na rua de prédios antigos, ao fundo o rio, muito ao fundo.
Passa um táxi, faz-lhe sinal, manda-o seguir para Santa Apolónia. Era noite quando chegou a casa, os amigos vieram visitá-lo, logo que souberam da sua chegada. Não lhe apetecia sair, não queria sair de casa, passava horas deitado sobre a cama a olhar para o tecto, vendo as espirais de fumo do cigarro perderem-se no ar.
Ainda voltou a ser ameaçado pelo agente da PIDE de Caminha, o Mendes que lhe disse com ar de superioridade, “veja lá senhor Álvaro, veja lá, é melhor não se meter mais em problemas”.
Devolveram-lhe o passaporte, no dia seguinte meteu-se no comboio em direcção a Bruxelas. Voltou a Portugal em Agosto de 1974, quando os PIDES já estavam presos ou em fuga.
domingo, 19 de outubro de 2008
Morte na alta roda II
O banqueiro ficou escandalizado quando lhe entregaram o mandato que autorizava a perícia à sua viatura. Ligou para o advogado que o aconselhou a colaborar e a retirar-se para o recato da sua moradia, antes que os jornalistas farejassem o acontecimento.
Uma aturada vistoria à viatura permitiu encontrar vestígios de sémen nos tapetes traseiros, alguns cabelos e vários conjuntos de impressões que se provou pertencerem à vítima. No tapete do lugar do condutor foram encontrados uns fragmentos minúsculos de saibro idêntico ao do Jardim de Arca d`Água.
Face a este conjunto de indícios o insigne banqueiro foi detido para interrogatório e quando saiu cinco horas depois, já tinha sido constituído arguido, com termo de identidade e residência como medida de coacção. Durante o interrogatório manteve uma postura calma e respondeu com notória poupança de palavras a tudo o que o juiz lhe perguntou.
Sustentou sempre que não conhecia o rapaz, negou ter estado nos últimos vinte anos no jardim de Arca d`Água e negou ter disparado a pistola assassina. Declarou ter estado em casa toda a noite, não ter saído e ter adormecido perto da uma da manhã, declarações confirmadas pela esposa que dormia no quarto ao lado e que o ouviu ressonar regularmente.
O meio da alta finança acordou abalado com o escândalo provocado por um dos seus pares mais conceituado. As acções do Banco de Investimento desceram seis pontos, alguns clientes importantes encerraram as suas contas, o Conselho de Administração reuniu de emergência para analisar a crise provocada pelo escândalo e pela demissão pedida pelo seu presidente. Telejornais abriram, com directos da tranquila avenida onde o arguido residia e onde se supunha estar refugiado.
- Ó pá, é demasiado simples. Há muito que já deixei de acreditar em tudo o que me põe em frente do nariz… E esta merda cheira mal de cada vez que lhe tocamos. – dizia o Cabral enquanto rolava um palito entre os dentes.
- Isso é verdade, mas os indícios são muito fortes e o velho não tem um álibi em condições. Tanto podia estar a dormir como a enrabar algum puto – concorda o Ramos, recostado na cadeira.
- Ou a ser enrabado… - resmunga o Cabral.
- Meus amigos, fiquei com a impressão que o Dr. Bacelar não disse tudo durante o interrogatório e o juiz também ficou com a mesma impressão. Aquela capa de indiferença está a camuflar algo mais profundo. Há várias hipóteses. Pode ter sido ele a apagar o miúdo ou está a proteger alguém. Também pode estar a ser tramado…
- Por quem, carago? – pergunta o Ramos.
- Por algum filho da puta do banco que o quer foder! – explica o Cabral com a habitual profusão de vocabulário vernáculo.
- Não pode ser. Estás a esquecer-te que a arma do crime estava na gaveta fechada à chave no quarto dele e ao BMW só tem acesso o motorista. A propósito algum de vocês interrogou o segurança sobre esse aspecto.
- Falei eu com ele e confirmou que o BMW ficou estacionado na rua em frente à casa – diz o Cabral.
- Mas porque é que não o recolheram na garagem?
- Porque esteve a fazer revisão e só à noite é que um mecânico o veio trazer. Já não é a primeira vez que assim acontece e é habitual deixá-lo estacionado em frente à casa e meter as chaves na caixa do correio.
- Detesto estas coisas da alta sociedade. Nunca são o que parecem…
- Tirando o dinheiro, ainda são mais fodidos que nós, os tesos! – sentencia o Cabral.
O telemóvel do inspector Maurício tocou, era o Dr. Lacerda a dizer-lhe que tinha algo a comunicar e pedia-lhe que passasse por sua casa a qualquer hora.
- Fala-se no diabo e ele aparece. Bem, vou lá ver o que ele quer, mas palpita-me que vai começar a levantar a tampa – diz o Maurício levantando-se.
- Eu conhecia o miúdo. Lamento ter dito que não o conhecia mas estava assustado e… hum… segui o conselho do meu advogado. Ele nem sonha que estou a ter esta conversa consigo.
- Quero informá-lo que tudo o que me transmitir terei de fazer constar dos autos do processo…
- Eu sei, mas não posso deixar que este crime horroroso fique impune e eu passe por criminoso. Como lhe dizia eu conheço, melhor, conhecia o miúdo. Soube da existência dele há três meses por um conjunto de circunstâncias desagradáveis, mas…
- Desculpe interromper, mas se quer informar-me de todos os factos que dispõe, tem de deixar-se de rodeios e ir directamente aos factos.
- Tem razão. É um velho hábito do meu meio. Descobri que o Tomé era meu neto. Quando ainda era solteiro, na casa de meus pais tive um… tive uma… uma relação com uma empregada. Ela ficou grávida e foi para a terra, algures no norte e a vida continuou. A minha mãe foi muito generosa com a rapariga, ela ficou bem, tanto quanto sei e eu fui enviado para Londres e lá fiquei durante um par de anos. Quando regressei casei com uma senhora que faleceu pouco depois e uni-me em segundas núpcias com a minha actual esposa, da qual tenho três filhos. A nossa antiga empregada teve uma filha e nunca lhe disse quem era o pai, tinha sido o acordo feito pela minha mãe. A criança cresceu na aldeia, fez-se mulher, sei agora que se chamava Aurora, veio para o Porto, casou com um desgraçado qualquer e andou a prostituir-se por aí até que a mataram há uns meses. É capaz de se lembrar do caso inspector…
- Sim, Aurora… recordo uma mulher estrangulada na Via Norte. Nunca se descobriu quem foi, provavelmente um cliente…
- Talvez sim, talvez não… O certo é que era minha filha e quando ela faleceu o Tomé foi informado, trabalhava numa fábrica de móveis. No funeral parece que encontrou um tio, melhor, um tio-avô, irmão da nossa antiga empregada, que lhe contou a história da família, com nomes e tudo. Um dia o rapaz apareceu-me aqui à porta, o segurança correu com ele, mas voltou e insistiu nos dias seguintes até que disse que era meu neto. O segurança informou-me e imagine como eu fiquei ao ouvir da sua boca coisas que eu pensava já ter esquecido. Dei-lhe algum dinheiro e pedi algum tempo para reflectir. Voltou mais duas vezes e da última contou-me algo arrepiante…
- Algo relacionado com a prostituição masculina? – perguntou o inspector Maurício.
- Sim. Ele tinha-se iniciado na prostituição muito novo quando ainda estava no reformatório. Um dos seus clientes habituais… desculpe, nem lhe ofereci uma bebida.
- Não, obrigado. Continue…
- Mas eu preciso de uma bebida… forte.
Serviu-se de uma garrafa de cristal contendo um líquido âmbar, deixou verter longamente no copo e emborcou metade da porção de um trago. Via-se pela contracção do rosto que não estava habituado a beber dessa forma, mas as circunstâncias eram excepcionais.
- Bem… Dizia eu, que me contou que estava no negócio da prostituição masculina e que tinha um cliente com um carro como o meu e parecido comigo a quem ele roubou uma pasta com documentos. Levou para casa e viu que aparecia o meu nome em vários papeis… Sabe o que isto quer dizer?
- Que pediu dinheiro pelos papéis – conclui o inspector Maurício.
- Não, o miúdo nunca tentou fazer chantagem. Eu acho que ele queria apenas um pouco de atenção, se calhar uma família. Aquilo que ele nunca teve.
- Então quem é o dono do outro carro, o tal que era cliente?
- É o meu filho mais velho, que também pertence ao conselho de administração do banco. Todos os administradores têm viaturas de serviço iguais. O carro dele é exactamente igual ao meu, só muda a matrícula. Foi um choque muito grande para mim saber que frequentava os meios da prostituição masculina, a prostituição infantil. Muito duro, inspector, muito duro para um pai! Mas o pior ainda estava para vir, pois eu confrontei-o com os factos, ele negou sempre e dois dias depois o rapaz… o meu neto estava morto e eu suspeito de homicídio e de práticas… práticas nojentas. Usou a minha arma e o meu automóvel para me incriminar, para afastar-me do banco e eliminar um herdeiro inesperado, pois eu comuniquei-lhe a intenção de tomar conta do rapaz e dar-lhe uma educação adequada, se ainda fosse a tempo… A minha vida está arruinada, mas isso pouco me importa, nos dois últimos dias passei a ver vida com outros olhos.
- Dr. Lacerda tenho que proceder à detenção do seu filho imediatamente e solicitar-lhe que me acompanhe para registar as suas declarações.
- Sim, sim, mas mais logo inspector. Peço-lhe apenas duas horas, talvez três horas… O meu filho deve estar a chegar e quero ter uma conversa tranquila com ele. Depois pode levá-lo preso, até me pode levar a mim.
- Muito bem senhor doutor, vou manter esta casa sob vigilância e logo que termine a conferência com o seu filho peço-lhe que me telefone para proceder à detenção com a maior discrição possível.t
Às 19,45 o segurança da propriedade ouviu vários estampidos provenientes do escritório e face à ausência de resposta do interior, arrombou a porta deparando com os cadáveres do pai e do filho. No chão, ao lado do Dr. Lacerda, estava uma pistola Browning 6,35 ainda quente.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Morte na alta roda (1ª parte)
Aquele homicídio estava a dar-lhe água pela barba e ainda por cima não podia trabalhar à vontade, pois estava envolvida gente da alta sociedade, tipos com ligações às mais altas esferas do poder político e financeiro. Tinha de os tratar com toda a delicadeza e quase subserviência, o que o deixava hesitante e pouco seguro.
O cadáver tinha sido encontrado no Jardim de Arca d`Água, um jovem assassinado a tiro, com marcas da entrada dos projécteis nas costas. Segundo apuraram no local, rapidamente vedado aos mirones, o rapaz devia ter sido alvejado quando fugia de alguém, que após a queda do alvo voltou a disparar à queima-roupa mais duas vezes. Estes dois projécteis atravessaram-lhe o dorso e enterraram-se alguns centímetros no saibro da álea onde o cadáver foi encontrado.
Ninguém ouvira os tiros e o cadáver tinha sido identificado pelas impressões digitais como Tomé Alves Rodrigues, dezassete anos, um longo curriculum de pequenos delitos desde os nove anos, idade com que saiu de casa, sufocado com a indiferença da mãe que se prostituía no Bonjardim e do pai que se embebedava onde calhava. Internado na Oficina de S. José fugiu diversas vezes, mas deixava-se apanhar sempre, como que de um jogo se tratasse. Pelo menos ali não passava fome.
Aos dezasseis anos saiu do Lar para ir trabalhar numa fábrica em Paços de Ferreira e perdia-se a pista durante longos meses.
Na zona de Arca d`Água ninguém o conhecia, mas acabaram por descobrir através de um antigo colega da Oficina, que nas últimas semanas o Tomé tinha dormido numa residencial manhosa, para os lados da Areosa.
A surpresa instalou-se na cara dos agentes da Judiciária que procediam à recolha de indícios no quarto da residencial, ao depararem com alguns milhares de euros em notas dentro de uma mochila e uma pasta com documentos do Dr. João Baltar Lacerda, presidente do Conselho de Administração do Banco de Investimento, figura muito conhecida do jet-set portuense.
Quando confrontado com o achado, o Dr. Lacerda mostrou-se reservadamente indiferente, dizendo apenas que eram papeis sem importância, que provavelmente qualquer dos seus colaboradores a tinha perdido, não fazendo ideia de quem seria o dinheiro encontrado.
O inspector Maurício registou uma brevíssima perturbação do banqueiro, quando o informou sobre o destino trágico do rapaz que possuía os documentos e o dinheiro.
Quando solicitou ao juiz um mandato judicial para investigar o telefone do banqueiro, deparou com uma negativa peremptória e quase foi corrido do gabinete do magistrado, que, certamente, tinha na melhor conta a figura do Dr. Lacerda.
Estava atado de pés e mãos, restava-lhe investigar os últimos dias do rapaz. Conseguiu saber que o Tomé se tinha despedido há três meses e que uma ou duas vezes foi visto entrar para um enorme BMW preto.
O antigo colega que tinha estado com ele nas Oficinas de S. José, acabou por dizer que ele tinha “umas cenas maradas com gajos de massa que gostam de putos”. Quando ligou para o Lopes, um inspector pouco mais velho que ele e que era sistematicamente destacado para casos que envolviam pedofilia, o semblante carregou-se pois o nome do banqueiro nunca tinha sido associado a tais práticas.
Deixou-se ficar recostado na cadeira a pensar qual seria o próximo passo a dar. Tinha a convicção de que se não avançasse depressa com algum facto novo o processo seria ultrapassado por outro e mais tarde ou mais cedo seria arquivado, ficando mais um caso por resolver.
Do laboratório tinham-lhe enviado um e-mail informando que a arma do crime era um revolver de calibre trinta e dois, o que pouco ajudava, pois há milhares de armas deste calibre espalhadas por todo o lado. Ligou para a central do departamento e pediu a um estagiário que verificasse se o Dr. Lacerda tinha alguma arma registada em seu nome.
Estava a almoçar no restaurante habitual, perto da directoria, quando o estagiário lhe confirmou por telefone que o Dr. Bacelar tinha registado em seu nome várias armas, entre as quais, um revolver de calibre 32.
De regresso ao edifício da Judiciária ligou ao principal suspeito do crime que estava a investigar.
- Sabemos que o senhor possui um revolver calibre 32 e gostaríamos de o ver.
- O crime foi cometido com uma arma desse tipo? – perguntou o Dr. Lacerda.
- É provável. Quando posso ter acesso à arma?
- Daqui a meia hora. Estou a sair de um almoço e passo por casa. Pode mandar alguém ir lá recolhê-la.
- Obrigado, irei eu próprio.
Esperou à porta da magnífica propriedade do Dr. Lacerda na Maia, pouco depois chegou o reluzente BMW conduzido por um motorista. O banqueiro apeou-se e fez um sinal aos Inspector Maurício para o seguir até casa, uma discreta mansão escondida entre pinheiros mansos e longos relvados. Dispensou os cuidados de uma criada que correu a recebê-los, subiram a escadaria curva e entraram no seu quarto de dormir, certamente maior que muitos apartamentos médios. Abriu uma das gavetas, retirou um estojo de couro que entregou ao Inspector.
- Aqui tem o revólver. Tenho também ali uma pistola Browning de calibre 6.35. Não sei se também quer ver…
- Não, apenas preciso dos documentos desta arma, se os tiver aí.
- Com certeza. Eu tenho estas armas e nunca as usei fora de casa. São mais como… como tranquilizantes de consciência, do que uma protecção efectiva. Aliás, o senhor sabe que nós temos segurança privada na propriedade.
- Sim, sim. Já verificamos.
- Vou levar esta arma ao laboratório para ser analisada.
Ao final da tarde já lhe davam o relatório preliminar, que confirmava ser aquela a arma do crime. No tambor nem sequer tinham sido substituídos os cartuchos disparados e a comparação das estrias revelou-se positiva. A arma tinha sido recentemente disparada, não tinha sido limpa e as únicas impressões digitais pertenciam ao seu proprietário, embora houvessem vestígios de ter sido manuseada com luvas de látex, provavelmente quando foi disparada pela última vez.
O técnico prometeu enviar-lhe o relatório por e-mail, ligou para o Lopes a saber se tinha descoberto alguma coisa nos meios da prostituição masculina ou nos meios ainda mais restritos da pedofilia.
Apenas tinha confirmado a existência de um BMW de alta gama, vidros escuros do qual ninguém parecia conhecer o condutor. Circulava lentamente, às vezes parava, baixava o vidro, algum dos rapazes aproximava-se, o condutor permanecia na sombra. Conversas escassas se geravam, prazeres se combinavam, as notas mudavam de mão, nunca faltavam.
- Bolas! – resmunga o Inspector desmoralizado com a insuficiência das informações dadas pelo colega.
Chegou a casa poucos minutos depois da Rosa, enfermeira no S. João, com quem vivia há três anos. Jantaram em silêncio, sentaram-se a ver um filme antigo, beberam cerveja, fizeram amor no chão da sala, deitaram-se já depois da meia-noite.
Antes de adormecer ainda pensou que no dia seguinte voltaria ao gabinete do juiz com o relatório do laboratório, para lhe solicitar novamente o mandato, que lhe permitiria analisar as chamadas telefónicas feitas e recebidas pelo principal suspeito, assim como examinar pericialmente o famoso BMW na busca de algo que provasse a presença do Tomé na viatura.
Na manhã seguinte foi chamado ao gabinete do Inspector Chefe Peres, que sem delongas lhe apontou para a primeira página do “24ª Hora”, um jornal sensacionalista que parecia farejar todos os assuntos que exalam mau cheiro. “Banqueiro suspeito de homicídio de um jovem prostituto” e seguia-se uma foto do visado com ar austero, a sair da sede do banco.
- Ó Maurício, como é que estes filhos da puta tiveram acesso a esta informação? Que grande bronca…
- Isso queria eu saber. A investigação tem sido feita no máximo sigilo, conforme nos indicou e que eu saiba, do nosso lado não pode ter havido fuga. Ainda por cima só estou eu, o Ramos e o Cabral a trabalhar nisso e apenas fiz meia dúzia de perguntas ao Lopes sobre os meandros da pedofilia, mais nada.
- Bem, de algum lado saiu, que esses cabrões não iam adivinhar sozinhos. Diga-me lá o que apuraram.
(continua)


