
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Gritai meus filhos, gritai...
O relógio da sala deu as quatro horas. A cama rangeu sob o peso do Chico que se levantou às escuras. Ao seu lado o irmão ainda dormia, tinha sorte, iria alar as redes já com o dia, podia dormir descansado mais um par de horas.
Vestiu-se na cozinha à luz do coto da vela, engoliu a broa dura com uns goles de cevada que a mãe deixara na cafeteira, sobre o fogão ainda morno.
No Portinho as gamelas deslizavam sobre os rolos de pinho em direcção ao mar que a brisa encapelava de leve.
- Ao menos não vamos precisar dos remos – diz o Tone Machina, que aos treze anos, tal como o Chico da Caganta, já labutavam no mar o sustento escasso, que o mar consentia dar.
Cedo içaram a vela que empurrou o “Sempre em Frente”, velho barco tipo poveiro, em direcção aos mares de Afife. À sua frente navegava o “Pesse Bucha” que ia procurar sustento para os mesmos lados.
A verga da vela rangia sob o esforço, o vento era mais que em terra, assobiava nos cabos retesados. Ao leme, o César do Baba procurava aproveitar o máximo da força, oferecendo pano às rajadas consecutivas. Cada vez que a direcção do vento mudava, o mestre compensava com um golpe de leme que fazia o barco adornar. A água corria então veloz a escassos dedos da borda, um ou outro salpico invadia o interior já molhado do pequeno barco de pesca.
De súbito, uma rajada de través pôs a tripulação alerta.
- Arreai a vela – grita o mestre vendo o barco inclinar-se perigosamente.
Os homens soltaram a adriça, mas a verga não desceu. Uma volta no cabo de linho duro, não passou no moitão. Desesperadamente puxaram novamente pelo cabo da adriça e soltaram-no de imediato, na esperança de se desfazer a volta do cabo, uma “cocha” na linguagem destes pescadores.
O cabo molhado e rijo voltou a prender e a vela não desceu como todos ansiavam. Com a inclinação a vela tocou na água, o leme soltou-se, o barco rodopiou e tombou de lado.
Os homens caíram ao mar esbracejando em pânico. O nome do Senhor dos Aflitos passou de boca em boca, enquanto se procuravam desembaraçar da roupa grossa que os puxava para o fundo.
Uns agarrados ao mastro tombado, outros seguros às tábuas alcatroadas do barco, gritaram até ficarem roucos, mas a embarcação que os precedia continuou a sua marcha, ignorante da tragédia que se desenrolava na sua esteira.
O tempo passava, os homens na água subiam e desciam ao sabor da ondulação cavada. A terra estava longe e inalcançável, devido ao vento que se fazia e os atirava para sul. Por perto não se vislumbrava qualquer outra embarcação.
Ao fim de uma hora estavam gelados, a água em Fevereiro está sempre fria e o Fininho, doente dos pulmões, desesperado com a ausência de socorro, conseguiu abrir a navalha e dizer ”prefiro matar-me a esperar a morte”, no que foi prontamente contrariado pelos seus companheiros que o demoveram de tão dramática atitude.
- Vamos rapaz, aguenta-te, que os barcos da pescada hão-de estar a passar e algum nos vai socorrer – diz o mestre Cesar do Baba, mais para incutir animo nos seus homens que por convicção.
- Estou a ver uma vela – diz o Chico que se tinha sentado sobre o mastro que acompanhava a ondulação das ondas.
- Gritai meus filhos, gritai… - diz o mestre.
Ao longe, o “Estrela d`Âncora” do Tio Morranga navegava-se sem pressa, as redes estavam perto, o vento estava manhoso e não havia que fiar. O Tó Malhão levantou-se, inclinou a cabeça para um e outro lado, subiu para o banco na tentativa de olhar mais longe.
- Desce daí rapaz, não vês que é perigoso da maneira que está o vento – diz-lhe o pai e mestre da embarcação.
- Estou a ouviu gritos – justifica o Tó.
- Não ouvi nada.
- Eu também não.
- Calai-vos e escutai. Vem daquele lado.
- Tio Morranga, eu também ouvi agora qualquer coisa – diz o Luís da Laparda
- Eu tambem já ouvi! Caça-me a escota que vamos virar para oeste, rápido, é alguém que está naufragado aí fora. Deus queira que cheguemos a tempo…
O Tó continuava à proa, ora debruçado sobre o testeiro, ora subindo ao banco mais próximo até distinguir a mancha escura do barco poveiro voltado.
A vela foi arreada, os remos empunhados por mãos rudes, dedos fortes que se fecharam sobre as empunhaduras com a força do desespero. Na água a tripulação do barco do Baba dava graças às divindades evocadas naquela hora de aflição. O Chico e o Tone da Justa seguravam o Fininho muito debilitado devido ao frio que a doença não repelia.
Depois de todos a salvo, passaram um cabo ao barco naufragado, fundearam-no para mais tarde o recuperarem. Chegaram rapidamente a terra e cada um tratou de ir mudar de roupa e tomar algo quente que afastasse o gelo que sentiam na carne e na alma.
Ao fim da tarde, o “Sempre em Frente” entrava no portinho a reboque de dois outros barcos que o tinham ido resgatar.
Dois dias depois já pescava novamente nos mares de Afife.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Nos mares do Norte III

O barco do Raposo chapinhava a meia dúzia de braças do seu, unidos pela amarra e pelo destino. Na madrugada dos mares do norte o Chico esperava estoicamente a ajuda que os seus camaradas não lhe regateariam.
- Quando a névoa levantar vou encontrá-los. Até pode ser que aviste outro barco, um dos muitos que pescam nestas águas.
O Chico não era muito dado à Igreja, nem a rezas, mas deu por si a pensar no Senhor dos Aflitos, aquele santo que estava no nicho junto ao farol, no Portinho de Âncora.
Amanheceu com a mesma névoa pousada sobre as águas e com a visibilidade reduzida a meia dúzia de metros em redor. Abriu o baú da merenda, comeu as duas postas de peixe frito, metade do pão e um punhado de azeitonas. Rematou a refeição com uns golos de água. Agora estava arrependido de não ter trazido o termos com chá quente, como faziam muitos dos seus camaradas.
Ao cair da tarde comeu o resto da merenda e preparou-se para passar outra noite gélida. De repente levantou-se e puxou a amarra do doris do Raposo. Saltou para o outro barco e tentou levantar o cadáver sem resultado.
O Raposo não se mexeu e o Chico puxou-lhe por um braço mas articulações não funcionavam, o corpo do Raposo estava rijo, parecia de madeira. Desistiu da intenção de tirar a samarra do Raposo, que já não precisava dela e a ele fazia-lhe muita falta. Regressou à sua pequena embarcação levando consigo um bocado de oleado que o Raposo tinha dobrado sob um dos bancos. Sempre lhe daria para se embrulhar nele.
A segunda noite pareceu-lhe mais curta, tendo concluído que tinha dormido alguns bocados, o cansaço era muito. O nascer do novo dia trouxe algo de diferente. O mar tinha já alguma ondulação e corria uma brisa fraca que ao fim de algumas horas varrera o maldito nevoeiro. Em vão perscrutou o horizonte, o vazio era imenso, o silencio oprimia, nem pássaros se viam. A sua água tinha acabado e fora buscar as provisões do Raposo. Tinha de as poupar, nunca se sabia o tempo que ainda tinha de esperar.
Alguns dias depois, o Chico continuava sentado no banco central do seu doris. A barba começava a cerrar-se em volta dos olhos, da boca e dos lábios gretados pelo frio e pelo ambiente salgado. Há muito que a água tinha acabado, durante a noite conseguia recolher algumas gotas no oleado, mas eram insuficientes para lhe matar a sede.
O barco do Raposo continuava a baloiçar no mar ondulante, tinha-lhe dado mais cabo de forma a afastá-lo, pois o corpo do Raposo já exalava um cheiro terrível, à mistura com os bacalhaus pescados, que acabaram por ser devolvidos à água.
Para matar a fome, tinha pescado um bacalhau, prontamente escalado e ao qual lhe devorou os lombos. Agora rezava várias vezes por dia, ao Senhor dos Aflitos e à Senhora de Fátima, uma prece para o livrarem daquela aflição. Lembrava-se muitas vezes dos pais, lá em Âncora e dos irmãos espalhados um pouco por todo o lado. Dois deles em Lisboa, outro também no bacalhau, a irmã a servir em Viana, o mais novo andava ao mar com o pai, à sardinha e à lagosta. Já os teriam avisado pelo rádio que ele estava desaparecido? Provavelmente não, só faziam isso ao fim de uma semana.
- Há quanto tempo ando eu perdido? Quatro, cinco… não, seis dias. Seis dias? Seis dias?... Onde andará o nosso barco?
E o desânimo era cada vez maior, alternava com momentos de esperança e momentos de raiva, uma raiva contra os elementos, o nevoeiro, o mar imenso. Mas uma raiva infinita contra as miseráveis condições de vida dos pescadores do bacalhau. “Ah, se em terra fizessem ideia dos martírios da Terra Nova”, pensava enquanto procurava no horizonte um mastro ou uma chaminé.
Que saudades que tinha da “chora” do cozinheiro, quando antigamente preferia comer um bocado de pão seco ou uma batata cozida, sem mais acompanhamento. Mas a sede é que o agoniava. Fechava os olhos e via a levada do Paredão no Rio Âncora, via a água a cair em cachão e via-se a ele próprio encostado à levada a brincar com a água, a beber a água pura do rio que o viu nascer.
No sobe e desce da ondulação pareceu-lhe ver a oeste um vulto branco, uma alucinação, já não era a primeira. Julgava ver um barco, mas acabava por reconhecer ser apenas espuma branca na crista da onda.
- Não, não estou a sonhar, é um barco.
Levantou-se a custo e acenou na sua direcção. A distância era muita, o mais provável era passar despercebido. Tinha de lhes chamar a atenção. Pegou no oleado do Raposo em que habitualmente se embrulhava à noite, amarrou-o ao mastro e subiu-o o mais alto que pôde. Como era amarelo podia ser visto. Durante muito tempo observou com angustia o barco que seguia imperturbável o seu rumo para, após ter perdido toda a esperança, vê-lo mudar de direcção e vir ao seu encontro, depois de um largo rodeio.
O Chico caiu de joelhos a chorar, um chorar convulsivo, sem lágrimas, que lhe tirava o fôlego. Quando se levantou apreciou o barco próximo, um vapor de carga que arreou um escaler onde tomaram lugar meia dúzia de marinheiros, remos empunhados, remadas decididas levaram a embarcação ao encontro dos pequenos doris. Falaram-lhe numa língua estranha, não percebeu nada.
- Água, por favor – pediu com a voz num sopro.
Um marinheiro prendeu o doris com o croque e outro saltou a bordo. Voltou a dizer-lhe algo e apontou para o outro doris e para o vulto do Raposo.
- Morreu, era bom homem. Dê-me água…
O marinheiro agarrou o cabo que os seus companheiros lhe lançaram e em breve fizeram-no subir a bordo do vapor onde bebeu com avidez longos golos de água, até lhe arrancarem a garrafa das mãos.
O vapor vinha de Boston e ia para Galway, na costa da Irlanda e fôra encontrado a mais de trezentas milhas a sul do pesqueiro. No mesmo dia fizeram o funeral ao Raposo, lançaram-no ao mar com toda as exéquias, já que o vapor não tinha condições para manter mais tempo o cadáver a bordo e a viagem ainda ia durar mais alguns dias.
Pela rádio avisaram o Comando Naval do acontecimento e quando atracaram, o Chico tinha à sua espera um representante consular de Portugal. Depois de vários dias à espera para lhe tratarem dos papéis, tomou lugar num cargueiro que o desembarcou em Lisboa, uma semana depois.
No fatídico dia do nevoeiro desapareceram mais dois doris, alem do seu e do Raposo. Esses nunca mais apareceram.
Regressou a Âncora de comboio, descansou uns dias, meteu no saco alguma roupa e passou a salto, primeiro para Espanha, depois para França, onde começou a trabalhar nas obras.
Cinquenta anos depois, já reformado, mantêm-se fiel à promessa de nunca mais desafiar o mar.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Nos Mares do Norte II

Preparou o baú com a merenda, foi buscar a isca para ele e para o Raposo, subiu ao convés para ajudar a arrear os doris, primeiro os mais velhos, por último os “verdes”.
O céu estava encoberto e já se adivinhava alguma névoa. Com o nascer do dia iria levantar, era costume. O Capitão Maldonado tinha-os avisado: “Todos a pescar aqui perto, ninguém se afasta. Se tocar o sino, regressem de imediato”.
Nem era preciso avisar, mesmo os mais afoitos não gostavam de se afastar do navio quando havia névoa.
O Chico aproximou o seu doris da embarcação do Raposo que lhe comunicou a intenção de pescar para lá da popa do lugre. Em poucos minutos estavam em posição, prepararam a isca, as linhas, o bicheiro e largaram os aparelhos. Estavam a pescar a menos de cem braças e quando alavam um dos aparelhos, os bacalhaus subiam regularmente à superfície, presos na armadilha do anzol, acabando a estrebuchar no fundo das frágeis embarcações.
A ligeira névoa matinal mantinha-se, o mar estava raso, quase estanhado, salpicado de pequenos doris em redor do “Senhora da Ajuda”, como a galinha vigiando os seus pintainhos.
- Tio Raposo, no aparelho que larguei por último, deu-me peixe maior. Ó Tio Raposo, está a ouvir?...
O silêncio reinava sobre as águas.
- Tio Raposo, que raio está a fazer, assim, de rabo para o ar?
Do pequeno doris do Raposo, suavemente embalado, não vinha resposta. O Chico alou as linhas que tinha na água, armou os remos e transpôs rapidamente a distância que os separava. Só via as costas do Raposo debruçado sobre o banco, como se procurasse algo no fundo do barco.
Quando encostou de bordo as duas embarcações, pode apreciar que o Raposo não se mexia e tinha a cabeça no chão. Passou um cabo de amarração e saltou com agilidade para o outro barco.
-Tio Raposo, que lhe aconteceu? – E puxou-lhe pelo casaco de oleado de forma a endireitar o seu velho companheiro.
A cabeça do Raposo pendeu sobre o peito e quando o Chico lha levantou pôde ver uns olhos abertos, mas vidrados e um fio de espuma que lhe saía da boca para o queixo. Largou-o como se queimasse, saltou para trás, tropeçou na caixa da isca, indo estatelar-se de costas sobre os bacalhaus recem-capturados.
O Raposo, sem amparo, voltou a escorregar lentamente até apoiar a cabeça no fundo do barco. Levantou-se a custo daquele leito forrado a peixe, aproximou-se do companheiro, voltou a endireitá-lo e procurou algum sinal de vida.
Tomou-lhe o pulso mas como tinha as mãos geladas, desistiu e decidiu-se a desabotoar-lhe o oleado e a samarra que tinha vestido. Tirou o gorro e encostou a orelha ao peito do Raposo, à procura do bater do coração. Não sentiu nada, mudou de posição, voltou a tentar sem resultado.
Sentia-se afogueado apesar do frio cortante que fazia essa manhã. Endireitou-se para acenar ao lugre, para avisar a situação do Raposo, e ficou pasmado com o manto branco de nevoeiro, que tudo cobria. Uma pequena brisa, na qual não tinha reparado, arrastava consigo o maldito nevoeiro.
Distraído no auxílio ao Raposo tinha-se esquecido de vigiar o céu e o mar. Que fazer? Olhou em volta, nada se via. Não tinha ouvido o sino do lugre. Já deviam ter tocado a chamar os homens e a orientá-los para a sua posição.
Os minutos seguintes passou-os num crescendo de angústia, procurando descobrir alguma referência entre as baforadas de nevoeiro que passavam. Suspendeu várias vezes a respiração para melhor ouvir um qualquer ruído que o orientasse. Nada! Absolutamente nada! Não via, não ouvia nada fora dos barcos, amarrados um ao outro.
Saltou para o seu, pegou nos remos, orientou-se pela agulha de marear que o contra mestre Antunes lhe tinha confiado. Tinham-se posicionado a oeste do lugre, pela sua popa. Se remasse para este, teria de dar com ele, pelo menos aproximava-se e ouviria o sino. Provavelmente havia mais pescadores perdidos no nevoeiro. Ou só estariam eles fora? E o Raposo que estava morto, que lhe iam fazer? Continuou a remar lentamente, levando a reboque o outro doris.
Lembrou-se do búzio que tinha na caixa sob o banco, parou de remar, remexeu as tralhas, levou o búzio à boca e soprou com toda a força. O som cavo da concha ecoou no silêncio branco que o rodeava. Esperou a resposta em vão, tornou a tocar o búzio, esperou, tocou, repetiu durante muito tempo este ritual. De vez em quando olhava para o Raposo que repousava encostado ao banco com a cabeça inclinada de lado.
Tinha perdido a conta às horas, tinha sede, bebeu dois goles da garrafa da água, não conseguia comer nada, parecia que tinha a garganta apertada. O Chico pensava na desgraça do Raposo, um homem que vendia saúde e que caiu sem dar um ai. E se o lugre não os encontrasse, que seria feito dele? Para já o frio suportava-se, mas o dia já estava a cair e durante a noite devia ficar tudo gelado. Seria ele capaz de aguentar?
Tirou as luvas, enrolou com dificuldade um cigarro, acendeu-o e soprou o fumo para o ar, vendo-o misturar-se com o nevoeiro que passava.
sábado, 2 de agosto de 2008
Nos mares do Norte I

Fazia a “chora” tão bem ou melhor que o cozinheiro com quem tinha aprendido e não havia nada na cozinha que já não soubesse fazer.
Na terceira viagem o Capitão Maldonado, o “Ferreiro”, como lhe chamavam à boca pequena, debruçado no varandim da amurada, olhou-o com atenção quando cruzou o portaló, com o saco da roupa às costas.
- Vai arrumar isso e anda ter comigo à câmara.
- Sim, senhor Capitão – respondeu o Chico, embaraçado e sentindo-se corar, por aquela súbita chamada à presença do capitão, nenhum pescador gostava de ir, porque geralmente significava aborrecimentos.
De boina na mão apresentou-se ao Capitão Maldonado, um indivíduo franzino, muito moreno, da zona de Ílhavo, filho e neto de pescadores que se tinha alistado novo na Marinha. Estudou e foi aproveitando as oportunidades, chegou a comandar um draga-minas e quando saiu da Marinha de Guerra, tinha à sua espera o lugar de imediato num lugre, onde fez duas viagens à Terra Nova, para aprender os pesqueiros.
Daí para cá tinha comandado o “Senhora da Ajuda”, um lugre de três mastros que, com a graça de Deus e a habilidade dos pescadores, todos os anos, no inicio do Outono atracava carregado com 350 toneladas de bacalhau, nos Cais de Aveiro.
- Tu és o Francisco Gomes, de Âncora, não és? – e sem dar tempo de responder, continuou – Desta vez não vais para a cozinha. Esse borrachão do Sampaio vai ter de arranjar outro ajudante. Vai-te apresentar ao contra mestre Antunes, já tens idade e corpo para ires de “verde”.
O Chico saiu radiante em direcção à coberta da popa, onde o contra mestre dava as suas ordens. A azáfama na véspera da saída é sempre muita, tudo tinha de estar pronto antes da hora de zarparem. Os homens mais experientes passavam revista aos doris, já tinham sido calafetados e pintados, mas podia ter passado alguma deficiência. Os doris eram a principal ferramenta do pescador, o único garante da sua precária segurança, quando pescavam nas águas geladas do Atlântico Norte.
Nos paióis, as linhas, os anzóis e demais utensílios próprios da pesca à linha estavam já guardados e assim ficariam durante quinze dias, o tempo de viagem até ao primeiro banco de pesca.
Quando cruzaram a barra e deixaram para trás o cais salpicado de gente, os familiares e outros pescadores que se vieram despedir, enfrentaram um mar branco de espuma, empurrada pelo vento de sudoeste que rapidamente os afastou da costa. As primeiras horas de navegação não são de falas, todos se recolhem na saudade, na angústia de mais uma viagem, na certeza de uma vida dura e perigosa.
Como “verde”, o Chico passou a acompanhar o Raposo, um homem quase com idade para ser seu avô, que tinha por missão ensinar-lhe a conhecer o mar e os truques da pesca à linha. Quando arreavam os doris, para onde remava o Raposo, logo o Chico partia no seu encalço, sempre atento aos dizeres do velho pescador.
- Ala seguido, rapaz. Não dês puxões, que perdes o peixe. Isso, assim!
- Olhe para este Tio Raposo! É quase do meu tamanho…
- Vá, deixa-te de conversa e olha para o que fazes. Um olho no céu e outro no mar, nunca te esqueças.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Nas Azenhas de Vilar de Mouros

Era um biscate duro, pois andávamos dentro de água horas seguidas a carregar sacos pesados, a escorrer água para tirar o sargaço e levá-lo praia acima até às dunas, para ser estendido e seco. Trinta ou quarenta quilos ao sair da água, que depois de seco ficava nada, um ou dois quilos, no máximo. Uma miséria!
Os percebes eram vendidos nos cafés entre os trinta e quarenta escudos para de seguida serem postos à venda por oitenta ou cem escudos, outra roubalheira, pois nós é que lixávamos as mãos, nós é que ficávamos dentro de água enregelados, pois naquele tempo não havia fatos de neoprene para ninguém. Isso foi uma modernice que apareceu muito depois!
Estávamos divididos por equipas de três ou quatro elementos, pois era mais fácil assim do que individualmente e os meus parceiros eram o Nelson e o Zé da Linha, ambos da Laje. Trabalhávamos habitualmente entre Penedim e o Quintino, apenas íamos a Afife para os percebes.
Ainda hoje acho que fazíamos uma boa equipa, pois alem de nos entendermos bem, tínhamos genica suficiente para deixar os outros a bufar de raiva. Éramos os primeiros a chegar e os últimos a sair da água. Também era verdade que saíamos mais mortos que vivos de tão demolhados estarmos.
Isto vem a propósito de ganharmos algum dinheiro para as nossas “coboiadas” pois os nossos pais não eram ricos e o dinheiro era espremido.
Nesse ano de 1976 decidimos ir acampar uma semana para as Azenhas em Vilar de Mouros e por isso precisávamos de “massa”, apesar de fazermos os abastecimentos principais por descarga directa das despensas das nossas casas.
Depois de algumas hesitações, com desistências à mistura, partimos cinco à aventura. Eu, o Nelson, o Mac, o Tone do Talho e o João. O Nelson já o apresentei, o Mac (quase a minha alma gémea) que é filho da D. Amélia professora, o Tone filho do Sr. Ernesto do Talho e o João que era de Lisboa e que vinha passar férias a Âncora todos os anos.
Ele ainda é parente da mulher do meu primo Fernando Meira e foi assim que nos conhecemos e ficamos amigos.
Já não me lembro bem mas parece-me que eu e o Mac fomos de bicicleta e os outros apanharam boleia com do irmão do Tone, o Ernesto, que foi levar as tralhas no seu reluzente Fiat 128, que ainda possui.
Tínhamos três tendas canadianas que eram ocupadas pelo Nelson e por mim, noutra ficava o Mac e o Tone e na última ficava o João, que adorava o estatuto de ter uma tenda só para ele. Pudera, ninguém queria ficar com ele pois ressonava muito e cheirava a chulé que empestava. Deixem-me dizer que nenhum de nós era muito melhor, mas o João era o que tinha pior fama.
Em 1976 as Azenhas eram um local muito mais recatado que hoje, os carros só com muita dificuldade lá chegavam e praticamente só para lá ia banhar-se a malta da zona, nada de forasteiros.
Nós éramos uma excepção, mas éramos bem aceites pela “fauna” local, pois conhecíamos a malta toda que estudava no Externato de Santa Rita em Caminha ou no Liceu em Viana. E além disso já tínhamos acampado lá nos anos anteriores, pelo que já éramos quase da casa!
Instalámos as tendas no terreno do fundo, que hoje está cheio de silvas e nessa altura era todo relvado, as tendas em linha, com o “rabo” virado ao rio; ao lado da nossa tenda havia (e ainda lá está) um enorme eucalipto, no qual penduramos um pequeno espelho para as nossas vaidades.
Um dia foi preciso fazer arroz (de feijão) para acompanhar umas bifanas que o Tone trouxera e fui o encarregado de preparar o tal arroz. Depois de muitas invenções, o arroz estava como o cimento e só eu e o Mac, por solidariedade, o conseguimos comer. Os outros acabaram por embrulhar as bifanas no pão que sempre era mais macio. Nunca mais me pediram para fazer mais nenhum cozinhado, apenas me cabiam tarefas menores como descascar batatas, ir buscar água ou lavar a louça.
Hoje passa lá um caminho calcetado e no espaço onde se cultivava o milho realiza-se o Festival de Vilar de Mouros. Mas naquele tempo o caminho era estreito e só por lá se circulava a pé ou de bicicleta com as devidas cautelas.
Na aldeia íamos sempre para um estabelecimento do qual não me recordo o nome e onde também nos abastecíamos, pois no rés-do-chão era a mercearia e o café no andar superior.
Decorria um acontecimento que nos empolgava e nos prendia a atenção durante horas ao televisor, fosse no único canal português, quer na “espanhola”, canal com melhor captação, muito mais nítido e com melhor informação.
Eram os Jogos Olímpicos de 76 em Montreal no Canadá e na ginástica, Nadia Comaneci dava cartas e arrasava a concorrência. Todos gostávamos destas emissões, particularmente o João que era um verdadeiro fanático e que não nos deixava arredar pé enquanto na televisão desse alguma coisa sobre isso. Acho que a partir daí, fiquei um bocado enjoado com os jogos olímpicos…
Bebíamos uns finos, roíam-se uns amendoins e jogava-se às cartas entre uma e outra olhadela à televisão, até a proprietária do café nos “chutar” porta fora, já depois da meia-noite. E lá vínhamos nós para as azenhas, primeiro até à ponte medieval que, permitam-me um parêntesis, precisa urgentemente de ser consolidada, senão qualquer dia passa a ser a ex-ponte medieval e iremos ver uma quantidade de hipócritas a carpir a sua morte.
Mas, dizia eu, que atravessávamos a ponte e virávamos à esquerda pelo tal “carreiro” de que vos falei, todos em fila indiana, o primeiro com um foco e outro, lá para o meio, com outro foco.
Naquele tempo não haviam focos com “leds”, nem pilhas alcalinas, nem focos recarregáveis e muito menos lojas dos chineses para comprar essas “merdas”.
Por isso a luz era escassa e muito poupada. Cedo reparamos que o João, que todos sabíamos medricas, queria ir sempre entalado entre os dois focos e nunca ficava para trás, por motivo algum.
Uma bela noite combinamos pregar-lhe uma partida para lhe meter um “cagaço”. Era uma coisa simples, quando à noite estivéssemos de regresso às tendas, o da frente que habitualmente era o Nelson, apagava a lanterna e todos fugíamos para o meio do milho às escuras e a berrar que nem desalmados.
O nosso amigo sentou-se no chão a tremer e só não chorou porque o medo lhe gelou o sangue e as lágrimas. Quando regressamos ao seu convívio, a rir, todos prazenteiros, o João “pintou-nos a manta” de tão zangado que estava.
Mas esse problema de ser medricas ainda havia de causar outra “cena”, como se diz agora, pois uma noite, às tantas da madrugada, já estávamos a dormir, apareceram uns gajos com várias motorizadas a fazer um cagaçal tremendo, com os motores bem acelerados ali perto das tendas.
Na verdade ninguém se aproximou de nós, nem nos provocou, mas uns rapazes enfiados às escuras dentro de umas frágeis tendas num local recôndito, por muito valentes que sejam ou queiram mostrar que são, acabam sempre por se borrar todos de susto.
Foi o que nos aconteceu; eu e o Nelson tínhamos dentro da tenda uma espingarda de caça submarina (acho que era do Mac) e esticamos os elásticos, por causa das moscas. Na tenda seguinte o Tone e o Mac chamaram baixinho por nós e estabelecemos algum diálogo de vizinhos. Da tenda do João é que nem pio.
A certa altura os gajos lá se foram embora e após algum tempo de expectativa e de sossego, decidimos sair das tendas, até porque o João continuava sem dar acordo de si.
Verificamos com espanto que a tenda dele estava aberta e que ele tinha desaparecido. Foi em vão que o chamamos e como o sono já tinha ido, fizemos uma fogueira à volta da qual nos sentamos.
Muito tempo depois, pelo menos assim nos pareceu, surge o João do meio de um campo de milho que havia na banda de cima do nosso acampamento. Vinha com um ar tranquilo e explicou-nos que tinha ido dar uma volta. É preciso ter lata! Então tinha ido dar uma volta, heim? O gajo tinha-se pirado e certamente ficou encolhido entre espigas e pondões, até ter a certeza que o sobressalto tinha partido para não mais voltar. E ainda por cima vinha tentar meter-nos os dedos nos olhos!
É claro que ninguém mais voltou para a cama, até porque o dia já nascia e havia muito que vadiar.
Um dia assistimos à chegada de mais uns campistas, vários casais com várias tendas, já não me lembro, três ou quatro, que as montaram um pouco mais para o interior do terreno. Ali junto ao rio, só nós! Traziam um belo cão Pastor Alemão que rapidamente acamaradou connosco e logo passou a cirandar por entre as tendas sem que ninguém se sentisse incomodado.
O problema foi quando o descobrimos a mastigar regaladamente um dos frangos que iria ser o nosso jantar. Pelos vistos o ar do campo tinha-lhe aberto o apetite… Ora nós tínhamos dois frangos, o que até nem era muito para aqueles cinco galifões; se o cão tinha comido um deles, estão a ver o problema, ia ser uma barrigada de fome. Lá tínhamos nós de fazer um reforço com mais um par de trigos secos.
O Nelson ficou danado e foi ter com o dono do animal que não acreditou que ele tivesse feito uma maldade dessas. Não acreditou até ver os poucos despojos que sobraram, depois ficou de orelha murcha, pediu desculpas e não teve outro remédio que ir comprar outro frango para nos compensar as perdas. Vá lá que o homem foi consciencioso e trouxe um frango bem maior que o “desaparecido”.
O desgraçado do cão é que passou a ficar amarrado a uma árvore como castigo para tamanha gulodice. Ficou preso, mas pelo menos, estava de barriga cheia!
Um sábado à noite recusamo-nos a ir ver a estopada dos jogos olímpicos e fomos todos ao cinema. Sim, ao cinema em Vilar de Mouros, em 1976.
Havia uma casa, junto ao cruzamento com a estrada que vai para Covas, que hoje está em ruínas, um tipo de Centro Cultural ou Recreativo e que passava uma “fita” aos sábados à noite, sentando-se os espectadores em bancos corridos e cadeiras avulso, tendo como tela um simples lençol branco. Foi daquelas idas ao cinema que nunca mais esqueci, uma maravilha.
Sei que os meus pais ainda foram lá uma vez abastecer-me de mercearia e o Ernesto passou por lá várias vezes descarregando carne para o irmão (e para os amigos esfomeados).
Nunca esta equipa voltou a acampar juntos, apenas eu e o Mac continuamos por mais alguns anos a vadiar, nesta espécie de turismo selvagem, em que tínhamos uma tenda, um saco cama e pouco mais. Claro que as tendas eram canadianas, daquelas baixinhas em que se entra de gatas. Era o que havia!
Apesar que termos deixado de ser parceiros de acampamentos, a amizade ficou e hoje tenho muito gosto em contar estas simples peripécias, que marcaram uma fase da minha, da nossa juventude.
terça-feira, 15 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
Euclides, o comunista
O vento chegava em rajadas, era vento de norte, o frio cortava e a rua não oferecia abrigo aos raros peões que se atreviam a sair.
O Domingos Verde aconchegou o grosso sobretudo regulamentar, que vestia sobre o blusão azul-escuro, quase negro, da farda policial. Pesava-lhe o cinturão largo, que suportava a pistola e o casse-tete, doíam-lhe os pés, depois de ter passado quase todo o turno de giro em Leça, desde a praia, até ao quartel dos bombeiros, ziguezagueando por uma infinidade de ruas.
Fez esse percurso várias vezes, só tinha parado ao início da manhã para entrar na leitaria do Esteves e tomar um galão e um pão com manteiga, não esteve parado mais de dez minutos, nunca se sabe quem está a observar, para mais, ele ainda era novo na corporação.
Ao passar junto ao gradeamento do quartel, um carro vem em sentido contrário, afrouxa e pára a meia dúzia de metros. O condutor baixa o vidro e chama o jovem polícia de turno:
- Senhor agente, uma informação. Onde fica a pensão Godinho?
- A pensão Godinho é aqui em Leça, mas, do outro lado. O senhor dá a volta e vai até à rua onde está a farmácia, sabe onde é?
- Não, eu conheço mal esta zona.
- Se seguir por aquela rua vai ter a um jardim; depois de o passar vira à sua esquerda. Essa é a rua da Farmácia. Tem uma loja de ferragens logo à esquina. Quando lá chegar, vira na… deixe-me ver, na tercei…, não, na quarta rua à sua direita, a pensão Godinho é a cinquenta metros. Não tem que se enganar, no início da rua há uma carvoaria.
- Obrigado senhor agente…, mas, eu não o conheço? Você não trabalhou no Lindoso?
- Eu também o estou a conhecer, senhor engenheiro. Trabalhei sim senhor, na barragem.
- Eu bem me parecia, quando vejo uma cara, não costumo enganar-me! Então agora está na polícia?
- É verdade, quando comecei a trabalhar na barragem, já tinha metido os papéis para a polícia, mas como nunca mais me chamavam, aproveitei e ainda lá trabalhei quase nove meses.
- O senhor agente é que me podia fazer um grande favor.
- Se puder, diga senhor engenheiro.
- Você lembra-se do Euclides, o técnico das máquinas?
- Lembro-me perfeitamente.
- O Euclides foi preso e está aqui no Porto.
- Que fez o senhor Euclides para ser preso, ele que era tão boa pessoa?
- Olhe azares da vida, não teve culpa, mas está a ser chateado pela PIDE.
- Oh diabo, então mete a PIDE? Que quer o senhor engenheiro que eu faça?
- Senhor agente, venha comigo à pensão, que eu vou lá ficar com os meus filhos e lá conversamos.
- Não posso ir já, senhor engenheiro. Só termino o serviço à uma da tarde, se quiser encontramo-nos lá às duas, duas e pouco.
- Muito bem, eu fico na pensão à espera. Até logo senhor agente… desculpe mas esqueci-me do seu nome…
- Verde, agente Verde, ao seu dispor, senhor engenheiro.
O Chevrolet negro com o engenheiro Ogando e os dois filhos, arrancou suavemente, contornou o pequeno canteiro em frente aos bombeiros e perdeu-se pela rua em direcção ao jardim. O frio continuava a apertar e por ter estado parado aquele tempo todo a conversar, tinham-lhe arrefecido ainda mais os pés. Lembrava-se que o pai do eng. Ogando, também formado em engenharia civil, fora o responsável técnico pela construção do Casino da Póvoa do Varzim.
Já passava do meio-dia e eram horas de se dirigir calmamente para a esquadra que ainda ficava longe, fazer o relatório e consultar a ordem do próximo serviço, que devia começar à uma da próxima madrugada.
Quando saiu da esquadra foi directo à casa de pasto do Aníbal, um transmontano de Carrazeda de Ansiães, com porta aberta há mais de vinte anos, uma casa muito asseada, onde comiam a maior parte dos agentes da esquadra de Matosinhos, funcionários das casas comerciais das redondezas e estivadores da doca de Leixões.
Depois de ter engolido uma jardineira fumegante, que a Laurinda lhe apresentou, dirigiu-se para a pensão Godinho, onde o esperava o engenheiro Ogando, que sem mais delongas lhe explicou.
- Pois o nosso amigo Euclides está metido em trabalhos. Tudo começou quando apareceram uns panfletos do Partido Comunista afixados numas árvores, a caminho da barragem. A PIDE foi chamada pela Guarda Republicana, andaram para lá a investigar e encontraram um desses papéis no armário do Euclides. Nem quiseram saber de mais nada. Trouxeram-no para Ponte da Barca e daí transferiram-no para o Porto, desconfio que para a sede da PIDE, você sabe onde é?
- Sei, é na Rua do Heroísmo, perto de Campanhã.
- Pois era isso que eu queria que fizesse, ia comigo à PIDE, ver se me deixavam visitar o Euclides, para lhe perguntar algumas coisas do serviço, que estavam pela mão dele. Como você é polícia, se calhar, é mais fácil deixarem-me vê-lo.
- Se é só isso, não vejo problema, eu vou consigo – diz o jovem agente, convencido do poder persuasor da farda que envergava.
- Então vamos no meu carro, que chegamos lá num instante.
Quando chegaram à Rua do Heroísmo, no Porto, o Domingos apeou-se e dirigiu-se à portaria do edifício, sendo interpelado de imediato, por um plantão da PIDE.
- Que deseja?
- Eu venho saber se está aqui um tipo de Ponte da Barca chamado Euclides, que trabalhava na barragem do Lindoso.
- E para que quer saber?
- Está ali fora o antigo chefe dele, um engenheiro, que queria falar-lhe por causa do serviço lá da barragem.
- Um momento, que vou saber. – Dirigiu-se a um telefone pendurado na parede ao fundo da salinha que fazia de recepção e falou baixo durante breves instantes. Depois de desligar, dirigiu-se ao Domingos, dizendo-lhe para entrar e aguardar na primeira sala do corredor à esquerda.
Não esperou mais de dez minutos, até que um sujeito de meia-idade, com o escasso cabelo empastado de brilhantina, fato negro e voz nasalada entrou na sala e lhe disse à laia de cumprimento:
- Então é você que quer ver o Euclides? Que é que tem a ver com ele, hein? Conhece-o de onde? Vamos lá a identificar-se.
O agente Verde puxa da carteira, tira o cartão da PSP, entrega-o ao PIDE e repete-lhe a história.
- Há quanto tempo está na polícia, hein?
- Fiz a escola e estou em Matosinhos há seis meses.
- Seis meses, hein! Sente-se aí e aguarde.
O tempo ia passando e ninguém mais se aproximou da sala onde o Domingos, só esperava que lhe dissessem alguma coisa. Lá fora o engenheiro devia estar ansioso por novidades. Ainda ninguém lhe tinha confirmado que o Euclides estava lá preso, mas também lhe tinham dito o contrário.
A sala estava aquecida e o tempo de espera dava-lhe sono. Com sorte, hoje ainda podia dormir algumas horas, até entrar outra vez de serviço. O raio do homem é que nunca mais vinha, se calhar estava a consultar o processo ou a pedir instruções a algum superior.
Quase duas horas depois, entrou novamente o PIDE na sala, entregou o cartão de identificação ao Domingos dizendo-lhe:
- Tome lá isto, desapareça e não volte a pôr os pés aqui na directoria a não ser que o chamem. Diga lá ao engenheiro, que o comunista que trabalhou na barragem está aqui e que na cela dele, ainda cabem mais um ou dois, hein. Se quiserem?...
Dito isto, virou costas e saiu tão silenciosamente como tinha chegado. O Domingos sentia-se ruborizado pela forma arrogante como tinha sido tratado, ele que também era uma autoridade e só ali estava para fazer um favor. Saiu do edifício, deixando para trás o sorriso zombeteiro do plantão, que certamente ouvira a conversa, atravessou a rua e entrou no Chevrolet do engenheiro Ogando.
- Então senhor agente que novas me conta.
- Novas?... Eles têm lá o Euclides, fizeram-me esperar este tempo todo, mandaram-me desaparecer e ainda me ameaçaram que na cela dele havia lugar para nós, para mim e para si.
- Então não se pode fazer nada.
- Pois não senhor engenheiro, com estes tipos não se brinca…Vamos embora, que eu preciso de ir dormir e pouco falta para as seis da tarde.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
sexta-feira, 13 de junho de 2008
O Abel da Chocalha
Não conheci pessoalmente o meu avô materno Abel Nascimento Brito, de sua graça. Quando eu nasci, já ele tinha falecido há cerca de 10 anos. Era pai de quatro raparigas, quatro manas, como eu carinhosamente lhes chamo, até porque uma delas é minha mãe. Teve um filho mais novo, o António, que morreu ainda criança.
O Abel era um senhor dotado de uma calma monástica, que nada o fazia enervar, que nada o apressava, característica que certamente herdou do seu pai Luís Brito, nascido criado e vivido em Segadães, às portas de Valença do Minho. Eu disse que nada o apressava, mas não é totalmente verdade, porque apenas umas saias tinham o condão de espevitar o pachorrento Abel.
O meu avô era conhecido pelo Abel da Chocalha, apelido que herdou da sogra do seu primeiro matrimónio Maria José Gandra, que curiosamente foi sua ama de leite. A Chocalha era de Gontinhães, mas por artes do acaso, foi ter a Segadães onde desempenhou a função de ama de leite do Abel, nascido em 1880 e do Manuel, seu irmão mais velho quatro ou cinco anos.
Esta senhora que era solteira, tinha uma filha de nome Felisbela Gandra, casada com um tal Pereira, do Amonde, que morreu poucos anos volvidos com tuberculose. Deste casamento já tinha nascido o Américo, que ficou órfão ainda catraio, mas que ganhou rapidamente uma madrasta, pois o Abel casou em segundas núpcias com a sua conterrânea Delfina Gomes.
Por essa época já o Abel Brito e a sua ex-sogra estavam estabelecidos em Gontinhães com uma pensão e loja que chamaram Pensão Âncora, mais tarde pensão Meira e actualmente hotel Meira, naquela que é hoje a Rua 5 de Outubro. Não sei se já assim se chamava nessa altura, pois a republica se já estava implantada, estava ainda muito verde.
Do casamento com a Delfina nasceram quatro filhas e um filho a um ritmo praticamente anual. Primeiro a Felisbela, a seguir a Arminda, depois a Maria José e ainda a Julieta. Finalmente o António, o benjamim dos pais e o querido das irmãs que tragicamente morre de doença com dez anos. Era da idade do nosso conterrâneo Sr. Durval Brito, que apesar do apelido, não tem connosco qualquer relacionamento familiar. Outro conterrâneo da mesma idade era o Sr. Luís Gomes, recentemente falecido em acidente de viação.
A filha mais velha, Felisbela casou com Simão Meira e abriram uma pensão na Praça da Republica, no chamado prédio da Assembleia. A Arminda casou em Valença com o António Gomes, seu primo legítimo, filho de um irmão da Delfina. A Maria José, minha mãe, casou com o Ribeiro, caixeiro-viajante e foi viver, embora por pouco tempo, para o Porto, regressando poucos anos depois a Vila Praia de Âncora. A Julieta casou com o Castilho, foi viver para o Porto e por lá ficou.
Mas a personagem principal desta história é o avô Abel, um bonacheirão que metia-se em negócios (mais ou menos da China) e que acabavam sempre por dar fiasco e prejuízo.
Uma vez convenceu o genro Ribeiro, meu saudoso pai, a fazer um negócio de marmelada. O Ribeiro dava o açúcar e o Abel arranjava os marmelos e enlatava a dita. É mesmo, não me enganei, era marmelada enlatada. O resultado foi montes de latas que ninguém comprava e que acabaram por ser abertas e o produto deitado aos porcos. Mas por estranho que pareça ou talvez não, nem os porcos quiseram a marmelada, que teve de ser enterrada no quintal. Muitos anos mais tarde, quando falávamos deste episódio na frente do meu pai, era vê-lo a sair “à francesa”, como se nada fosse com ele.
Outro negócio que correu mal foi uma importação de bicicletas que ele ia buscar a França na sua camioneta e com um intérprete às ordens, um sujeito de Viana que ele convenceu a acompanhá-lo. Naquela época uma viagem a França por estrada, não se fazia com a facilidade de hoje e o Abel gastou mais na aventura, que o valor das bicicletas. Mais uma vez para se ver livre da mercadoria teve de vender com prejuízo e ouvir as recriminações da minha avó, que tremia cada vez que o Abel dizia que andava a matutar num negócio.
Outra coisa que punha a avó em polvorosa eram as repetidas aventuras amorosas do marido. Nunca lhe perdoou ter o facto de uma das amantes, a Felicidade, uma viúva ainda fresca, como dizemos hoje ”que ainda rompia meias solas”, ter ido morar a pouco mais de cinquenta metros da sua casa, mais ou menos onde hoje é a ourivesaria do Catarino.
Outra das suas “amigas”, a Ester da Pelada quando teve um filho, o José Luís que é o mais novo de três, logo disseram que seria filho do Abel. Não há certezas, naquele tempo não se sabia nada sobre ADN, mas outro dos suspeitos da paternidade, seria o Toninho Tinta Fina, que também por lá andava.
O Abel tinha um parceiro que fisicamente ainda era mais avantajado que ele. Pois, eu ainda não vos descrevi o Abel da Chocalha, que era um homenzarrão que embora não fosse muito alto, era forte e barrigudo. O Fontes, o tal parceiro de que vos falei, ainda era mais corpulento, pois media perto de dois metros e acompanhava o Abel, nas suas palavras, para "fazer de contrapeso" na camioneta.
Este Fontes foi faroleiro na Ínsua durante muitos anos, morava mesmo em frente à pensão Âncora, onde hoje é o Hotel Meira. Eram bons amigos e davam grandes passeatas na camioneta do Abel, na companhia dos netos que foram surgindo dos casamentos das filhas. Aqueles que conheceram o avô foram os meus primos Jorge e Zé Meira e as minhas irmãs Julieta e Delfina, conhecidas por Mimi e Fininha respectivamente. O Jorge e a Mimi eram uns vivaços; o Zé e a Fininha, pelo contrário eram muito tranquilos. Muitas vezes ouvi os meus pais dizerem que o neto mais parecido com o Abel da Chocalha era o Zé Meira, não só fisicamente, mas no carácter e na imaginação. O Zé, que era meu padrinho, talvez dê um dia destes um pequeno conto, vamos a ver!
A pachorra do Abel era tanta que quando encostado à parede em frente à sua casa, onde estão as alminhas, e as pombas no beiral do telhado lhe sujavam a cabeça, em vez de se desviar, dizia para a Maria Ninom, mulher do Sr. Barata:
- Oh Maria, empresta-me a boina, que as pombas estão a cagar-me na cabeça.
O avô Abel alem de bom cozinheiro, era também um óptimo fotógrafo, que até possuía câmara escura para revelação das suas fotos. Infelizmente apenas duas ou três fotos da sua autoria chegaram à minha posse e desconheço se alguns dos meus primos possuem mais fotografias tiradas por ele. Tenho bastantes fotos antigas, mas são de estúdio ou tiradas pelo meu pai, já na década de trinta.
Após a morte da minha avó Delfina, o Abel sossegou e dizem que até se deixou de aventuras amorosas. Não sei se isso foi totalmente verdade, mas que ele sentiu muito a falta da esposa, não tenho dúvidas. Ele próprio o reconheceu, mais que uma vez.
Apenas lhe sobreviveu seis anos, sendo vitima dum acidente vascular cerebral, que o deixou totalmente incapacitado, para se repetir poucas semanas depois, causando-lhe a morte.
domingo, 8 de junho de 2008
A Festa do Monte
- O Zé Alfredo comprou uma tenda. Ele disse-te alguma coisa?
Tinha estado uma boa parte da tarde com ele na praia, falamos de mil e um assuntos, mas não me disse absolutamente nada dessa compra.
- Se calhar é para o Rui ou para a Carina – respondi eu, que nunca tinha visto o Zé Alfredo com “queda” para o campismo. Se fossem uns piqueniques com merendeiro à mistura, estava sempre pronto. Agora, campismo a sério, nunca me passaria pela cabeça.
Tinha sido a sua cara-metade, a Cristina que confidenciou à minha mulher, a iniciativa daquele respeitável chefe de família, que adquiriu levianamente um T1 rasteiro, tipo iglô, no qual os seus, também respeitáveis noventa e tal quilos, entravam rastejantes.
À noite, após o jantar, encontramo-nos como de costume na avenida marginal de Vila Praia de Âncora, onde moramos, e perguntei-lhe de chofre se era verdade que tinha uma tenda nova.
Mais admirado fiquei quando me contou, com toda a naturalidade, que alem da tenda tinha adquirido mais uma série de equipamentos e tinha até preços de outros equipamentos, que ainda não tinha adquirido porque não sabia bem se eram ou não, boa compra.
É claro que sendo eu um apaixonado pela nobre e salutar “arte” do campismo, tivemos conversa até nos despedirmos, lá para a meia-noite, e rumarmos cada um para a sua casa, que nem são assim tão distantes uma da outra, uns duzentos metros, nem mais.
Nos dias seguintes os planos do Zé Alfredo avançaram e eu ganhei um novo parceiro para as minhas constantes vadiagens de verão. Pelo menos tinha a esperança de ganhar, pois a única vez que ele tinha acampado, tinha sido na tropa, em Beja, salvo erro, e não lhe tinha deixado saudades. Pudera, acampar em Beja no verão…
A Cristina não estava particularmente entusiasmada, mas sempre era uma novidade e para mais contava com a companhia da minha mulher. A Carina é um pouco mais velha que a minha filha Joana, que tinha acabado de fazer treze anos e que é doutorada em campismo, pois desde muito nova que me acompanha, alem de nos últimos anos ter entrado para os escuteiros, o que dá uma enorme experiência nesta matéria. Um enorme background, como dizem as pessoas finas.
Combinada a data e o local, fui dando uns conselhos sobre os materiais e equipamentos a levar, uns fundamentais e indispensáveis, outros que embora não fossem essenciais eram úteis e aqueles que eram supérfluos e até desaconselháveis.
Decidimos sair numa sexta-feira à tarde em meados de Agosto. Lembro-me que o dia 15, que é feriado, calhava na terça-feira seguinte, dia escolhido para regressarmos. O local escolhido foi o parque de campismo de A Guarda, na Galiza, em pleno estuário do rio Minho, a pouco mais de dez quilómetros de nossas casas.
Devo dizer que o facto de ir de férias para um local a cinco quilómetros ou a quinhentos quilómetros de casa, é para mim totalmente indiferente. O que realmente me importa é estar bem naquele sítio e este parque é das coisas melhores que temos no noroeste peninsular. É calmo, espaçoso, muito agradável porque é totalmente arborizado e relvado; as infra-estruturas embora não sendo luxuosas são plenamente satisfatórias e tem uma piscina fantástica. O único senão, são os mosquitos ao anoitecer, nos dias de muito calor. Mas quando cai a noite, eles rumam a outras paragens e deixam de incomodar.
Nessa sexta feira o tempo estava óptimo, pirei-me do trabalho mais cedo um bocado e começamos a carregar o carro com a descontracção de quem já sabe do assunto. Primeiro a tenda, depois a geleira eléctrica, uma modernice que adquiri o ano passado e que dá imenso jeito, depois as mochilas, os sacos camas, o fogão, os tachos, etc..
Toca o telemóvel, era a Cristina a saber se já estávamos prontos, porque o Zé Alfredo bufava dentro do carro, à espera que eu desse ordem de arranque. Como era fácil para mim compreender o nervoso miudinho que o assaltava, disse-lhe que já podia vir até à minha casa, pois já tínhamos a carga quase pronta. Bem, quando vi o carro dele, um Ford Focus atulhado até ao tecto, no qual já quase não se via a mulher e a filha, não me contive e desatei à gargalhada. Havia de tudo, parecia um supermercado.
Mais um compasso de espera para a Paula, a minha mulher, acabar de fritar os panados que seriam o jantar dessa noite e arrancamos finalmente. Em Caminha, ainda paramos para comprar pão, eu lembrei-me de uns folhados que a pastelaria junto aos correios tem e são uma delícia, finalmente rumamos para o cais do ferry-boat.
Aqui começo eu a sentir-me de férias e a reagir em conformidade; nada me enerva, não há pressas e uma cerveja calha sempre bem. Começam a tirar-se as primeiras fotografias, as raparigas trocam os MP3, os telemóveis e não sei que mais, combinam estratégias próprias de miúdas adolescentes, como todos nós, quando tínhamos a idade delas.
A tenda do Zé Alfredo já tinha sido experimentada lá no terraço da casa dele, com a ajuda do Rui, o filho mais velho que terá agora dezanove ou vinte anos, estuda no Porto e tem o mesmo arcaboiço do pai.
Era um iglô baixinho, com um avançado ainda mais baixo, só permitia entradas e saídas de gatas. Até nem foi difícil de montá-la, ao contrário dos receios do seu proprietário.
Acho que o facto da montagem ter corrido bem, deu uma enorme ajuda na autoconfiança dos meus amigos.
Em breve podíamos apreciar o seu iglô equipado com um super colchão, enchido com uma bomba eléctrica que era o máximo. Vou comprar uma bomba desse género, este ano. À entrada estava um foco todo cheio de “nove horas” que ele tinha comprado a um marroquino e que nunca tinha sido usado. Achei muita piada porque a Cristina fez questão de estender os sacos camas com uma dobra muito artística como se tratassem de lençóis de linho bordados, em contraste com os nossos sacos camas atirados à balda para cima do colchão.
Depois do acampamento montado, foi a vez de dar trabalho aos dentes e aos queixos, fazendo desaparecer os panados da Paula, os rissóis, os bolos de bacalhau e não sei que mais da Cristina, os folhados que tinha comprado em Caminha e tudo o que mais viesse.
É um facto que nunca tive falta de apetite, mas no campismo como bastante mais e esta característica é partilhada com todos os que conheço destas andanças. Aquilo dá uma fome! E sede também!...
Uma das características dos meus acampamentos é um projector eléctrico de 500W que ligo todas as noites e que permite, cozinhar, comer, e conviver com uma luz decente, bem ao contrário de alguns tipos, que usam ainda candeeiros a gás ou lanternas a pilhas.
Já ultrapassei esse purismo há bastantes anos e é uma das razões porque deixei definitivamente de acampar fora dos parques. Fiz campismo selvagem durante muitos anos, mas agora acabou-se, já não tenho idade, nem vontade. Não há nada como tirar uma “bejeca” da geleira e saboreá-la, sentado confortavelmente numa cadeira de lona, a conversar ou a ouvir musica e a ler um livro, outra coisa que não dispenso.
Durante a primeira noite acordei várias vezes como é habitual e ouvia o ressonar do meu parceiro na tenda ao lado. "pelo menos não estranhou e não se pode queixar de não conseguir dormir" pensava eu, dando mais uma volta dentro do saco cama.
No dia seguinte, depois da habitual rotina do levantar, fomos às compras para as próximas refeições, sem nenhum de nós ter a menor ideia do que iríamos escolher.
Eu tenho sempre uma ideia, que são as saladas "à Brito" como diz a minha filha, pois levam de tudo um pouco e são temperadas de forma diferente. Não é publicidade, mas não esperem que vá aqui revelar o segredo.
Foi mais ou menos nessa hora, que tivemos a surpresa de ficarmos presos no trânsito na A Guarda, pois era o fim-de-semana das festas do Monte, em honra de Santa Tecla, em galego Santa Trega.
Estas festas são da mais pura raiz popular e enchem a pequena cidade de forasteiros galegos e portugueses. Basicamente não diferem muito das nossas festas e romarias, excepto no consumo de vinho tinto que é um exagero. Durante o dia, os grupos de bombos e gaitas de foles, dúzias de grupos, tocam pelas ruas em despiques animados. À noite duas orquestras animam uma verbena na praça, cujo nome desconheço, mas é onde realizam semanalmente a feira. Pelas ruas principais vedadas ao trânsito automóvel, até aos moradores, espalham-se esplanadas dos restaurantes e bares.
No domingo, é dia da subida ao monte, a acompanhar os grupos de bombos, toda a gente vestida de branco e com um lauto farnel nas cestas e mochilas. Aí é que não pode esquecer o vinho tinto, pois é ou foi transformado, de forma bizarra, no centro das atenções, porque depois de muito beberem, os festeiros regam-se uns aos outros com o precioso carrascão.
Estão a ver o efeito! Calças e camisa branca bem regadas de vinho tinto, a condizer com monumentais bebedeiras, que atiram os mais fracos para um sono retemperador, em qualquer valeta.
Foi a esta festa que nós viemos parar, onde nos divertimos imenso, sem tocar no vinho tinto, nem por dentro, nem por fora. Apesar do iminente risco que a alcoolização dos festeiros (e festeiras) acarreta, também é verdade que não vimos nenhum desacato, nem nada parecido. Nisso acho que os galegos tem melhor temperamento que os portugueses. Não confundem diversão com aborrecimentos.
Entretanto, a nossa vidinha decorria sem sobressaltos de maior dentro do parque, nomeadamente nas refeições, onde todos ajudam, seja a descascar batatas, a tomar conta de qualquer coisa ao lume, seja a lavar a louça.
O Zé Alfredo e a Cristina cada vez que era preciso algo, diziam de imediato "nós trouxemos, está no carro". Mais uma gargalhada irónica aqui do entendido, que se gabava e gaba, de só levar o indispensável. Um dos dias pela manhã, estava eu a fazer a barba, quando me cortei no queixo. Coisas que acontecem. Só que devo ter cortado algum capilar importante e o raio do sangue demorou bastante a estancar. Horas depois ao passar inadvertidamente a mão pelo queixo, vejo-me outra vez a sangrar com abundância.
Mais uma vez, o Zé Alfredo diz "tenho ali no carro um produto que te revolve isso duma vez" e de seguida vai desencantar uma pequena farmácia cheia de tralha (a minha tem adesivo, agua oxigenada e pouco mais) da qual tira um frasquinho, com conta gotas. Lá me aplicou uma gota no queixo e milagrosamente o sangue parou imediatamente de correr.
- É pá, onde arranjaste isso?
- Foi o Brito da farmácia que fez este preparado há mais de dez anos e nunca falha.
- Mas qual é a composição?
Ele explicou-me que era um permanganato qualquer, já não me lembro, um daqueles remédios à moda antiga, que só o meu homónimo farmacêutico ainda seria capaz de fabricar.
Não lhe disse nada no momento, mas dei a mão à palmatória; afinal, ele foi carregado de tralha, eu até gozei com isso, mas acabei por precisar de alguma dessa mesma tralha.
Um dos meus passatempos nos parques de campismo é ver os materiais que os outros apresentam. Comparar tendas, fogões ou acessórios é algo que faço com toda a naturalidade e ao qual o Zé Alfredo se associou de seguida. Às tantas diz-me ele:
- A minha tenda só dá para gente nova. É muito baixa para mim. Gostava de ter uma daquelas.
- Essa não é grande coisa. Aquela, acolá, é bem melhor, é uma Quechua.
Começamos a falar de marcas e de características de material de campismo, como tantos de nós falamos de automóveis ou de telemóveis. “Cavada Nova” para aqui, “Camping Gaz” para acolá, “Mckinley” para a frente, “Coleman” para trás. Depois de muita discussão e várias voltas ao parque, chegamos a um consenso; ambos gostamos de um determinado tipo de tenda e logo combinamos descobrir onde era o representante da tal marca, pois eu também pretendo comprar uma tenda maior. Quando um gajo avança na idade, avança também no comodismo.
A semana passada o Zé Alfredo apareceu lá em casa a convidar-me para ir no dia seguinte, um sábado a Porrino, na Galiza, ver as tais tendas. Tivemos uma desilusão, pois ainda não tem nada em exposição. Por informação do funcionário só lá para o final de Março é que põe à venda esse tipo de materiais. Uma estratégia comercial com a qual não estou, não estamos de acordo e por isso já combinamos ir à Maia, à Decathlon, daqui a uma ou duas semanas. Afinal, já não falta muito, para recomeçar a vadiagem!
terça-feira, 3 de junho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Confusões, não!!! Ao largo...
Nós corricavamos devagar em longas passagens desde o Moreiro junto ao portinho, até às primeiras pedras do Forte do Cão e fomos fazendo a nossa pesca. Como era habitual, desde que descobrimos o peixe, nos dias seguintes, juntavam-se mais alguns barcos que habitualmente só andavam à “mama”, esperando que os outros encontrassem o peixe para depois eles aparecerem.
Assim foi, quem encontrara o peixe tínhamos sido nós, o Fernando Nelaço e o Tone Rosito, ainda andamos dois dias sossegados a dar neles, até que, ao terceiro dia, quando saímos do portinho, demos de caras com oito barcos a corricar ao longo do praial. A mim deu-me vontade de rir, mas o Zé da Tilde, o meu parceiro, não achou graça nenhuma e fartou-se de “remoer”.
Lá avançamos, cheios de coragem, para o meio do maralhal, ainda demos uma passagem, mas aquilo não era para nós. Corricar com as linhas estendidas oitenta ou cem metros atrás do barco, com os outros gajos a manobrar à toa e a enrascar a cada passo, não era para nós, que gostamos de pescar com tranquilidade e “à larga”.
Afastamo-nos da costa e das rotas dos outros tipos e passamos a corricar praticamente sós, apenas o Arturinho estava perto de nós, pois ele também não gosta dessas confusões. E vimos algumas discussões ao longe, pois havia dois barcos o do Ginho e o do “Olhinhos” que levavam tudo na frente, não sei se por ganância dos melhores locais, se por mera azelhisse.
- São muito burros! Em vez de virarem todos para o mesmo lado, cruzam-se e apanham as linhas uns dos outros – dizia o Zé, que apreciava o bailado confuso dos pequenos barcos, junto à costa.
- E são sempre os mesmos a fazer merda. Olha, já apanharam as linhas do Nel do Cuco! Agora é que vai ser bonito. – dizia eu, pensando que o Cuco ia arranjar uma discussão grossa. Em breve, estavam vários barcos parados, perto uns dos outros, o Nel esbracejava violentamente, devia estar a dizer das boas a alguém.
- Ainda bem que saímos dali. Aqui também se apanham e não vai tardar a fugir-lhes o peixe.
- Pudera, ao movimento e ao barulho que fazem, aposto que já o espantaram.
Parece que nunca tinha dito uma frase tão verdadeira. O peixe falhou-lhes e aos poucos todos se foram embora, deixando-nos sozinhos.
- Vamos lá dentro experimentar, Zé?
- Hum… Acho que é melhor ficar por aqui, o mar tem uma voltinha a mais e aqui também vamos apanhando.
Isso era verdade e já tínhamos engatado um par deles. Aos poucos percebemos que os robalos estavam mais fundo, colocamos chumbeiras maiores nas linhas e reduzimos a velocidade. Assim passamos a manhã e quando nos estávamos a preparar para regressar a terra com sete ou oito peixes no balde, engatamos dois ao mesmo tempo.
Paramos o barco e cada um tratou de meter a bordo o seu robalo. Arrancamos e mal tínhamos largado as linhas novamente, voltamos a engatar mais dois. Repetimos a operação e continuamos, mas não sentimos mais nada.
“Meia volta, que o peixe está para sul, em frente às primeiras escadinhas de madeira”, uma nossa referência. Ao passar lá, demos com eles e continuamos a pescar robalos, se calhar do tal cardume, que tinha aparecido, logo de manhã, junto à rebentação, tinha-se espantado e horas depois regressara.
Com as borrachinhas verde escura e peso suficiente para o estralho ir junto ao fundo de areia, a seis ou sete metros, os cachiços iam “saltando” para dentro do barco.
O Tone Rosito e o filho, o “Chuinga” que já estavam em terra há um par de horas, viram-nos dar tantas voltas sempre no mesmo sítio que desconfiaram, meteram-se novamente no barco e quando chegaram à nossa beira nem foi preciso perguntar nada, porque também já estavam a sentir o peixe nas linhas.
Sem termos feito uma pesca extraordinária, sempre apanhamos mais que qualquer um dos outros e estávamos bem contentes, até porque os robalos tinham o tamanho que mais gostávamos, é chamado peixe de dose, embora tirar um peixe grande dá sempre um gozo extraordinário.
Chegamos a terra já passava da uma da tarde e não estava praticamente ninguém no portinho, por isso a nossa pescaria passou despercebida.
No dia seguinte foi a mesma “pouca-vergonha” com todos amontoados logo ao nascer do dia no praial.
Com as nossas calmas, lá fomos para o pesqueiro bastante mais fora que os outros, onde a espaços, íamos apanhando algum robalote e um ou outro ruivo. O dia estava enfarruscado, sentia-se uma brisa fraca de sudoeste e o mar tinha alguma ondulação de fundo, que convidava a malta a afastar-se da costa e da rebentação.
Ao fim da manhã voltamos a ter o nosso momento de glória, com o peixe a redobrar de actividade. Junto de nós apenas o Rosito e o Nelaço, a quem lhe contáramos o sucedido, no dia anterior.
Voltamos a entrar tarde, já a maré descia há um par de horas e o mar parecia estar a crescer.
Durante a tarde o vento aumentou, o mar era “mais”, à noite já era uma maresia e no dia seguinte nem foi preciso levantar-me cedo.
Como moro junto à avenida marginal, pelo barulho do mar, fiquei a saber que não ia haver pesca para ninguém. Dei meia volta na cama e antes de adormecer, pensei que a nossa pesca já estava feita, de véspera.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Carta por terminar
Subiu a calçada do Sol Posto, mas ao passar junto da propriedade do Teles parou arquejante. Um cansaço imenso invadia-lhe o corpo, toldava-lhe a mente. O coração batia desordenado, as pernas pesavam, o ar entrava-lhe com dificuldade no peito.
Encostou-se ao muro com o semblante fechado, procurando recobrar alento. O corpo alto e ossudo, as costas algo curvadas, a tez branca, pálida demais para quem vivia à beira mar, descreviam um jovem precocemente envelhecido. Os vinte e dois anos representavam já um fardo pesado para quem perdeu o pai ainda bebé de cueiros e a mãe três anos depois, ambos abatidos pela tuberculose.
Quando a mãe enviuvou, cedo lhe deu um padrasto, o Abel, que era como um verdadeiro pai para ele. Foi com ele e a avó Maria Chocalha que ficou a viver quando a mãe se finou, pouco depois.
A mãe que procurava recordar, mas de quem não tinha uma leve recordação para guardar. Apenas a fotografia dos pais no dia do casamento perpetuava a imagem destes seres, tragicamente ceifados pela doença implacável. Pouco depois de enviuvar, também o padrasto tinha casado com a Delfina, que o aceitou, e dele tratou com esmero, lado a lado com as filhas naturais que iam surgindo, a Bela, a Minda, a Quinhas, a Letinha, agora vinha mais um a caminho. A Delfina tinha anunciado há poucos dias que estava novamente de esperanças.
Aos poucos recuperou a respiração, mas um ataque de tosse trouxe-lhe um vómito à boca. Limpou o escarro com o lenço, uma pequena mancha encarnada tingia o pano. Já era a segunda vez que lhe acontecia.
Retomou a marcha, um passo lento, quase de velho, até aos Poços de Vilarinho por entre caminhos bordejados de giestas floridas. Sentou-se à sombra de um velho plátano, vendo à sua frente o casario que se estendia até ao mar. Lá em baixo, a beijar a areia do portinho, esperavam as gamelas da sardinha, prontas para a faina, logo mais à tardinha.
Desceu vagarosamente a Gontinhães, terra onde a Delfina e o Abel tinham uma loja e pensão de hóspedes, que era também a sua casa. As crianças brincavam no Largo do Sol Posto ao lado da pensão. Jogavam à riola, outras saltavam à corda.
- Américo, joga aqui connosco – pediu a Letinha, a mais nova do grupo.
- Sim, sim, Américo joga connosco – fizeram coro as demais.
- Agora não posso, tenho de ir tomar conta da loja e falar à avó Maria. Mais logo jogo convosco e ganho-vos a todas!
Entrou na loja fresca e sombria, sentiu-se melhor, já nem lhe ardia o peito ao respirar. Não encontrou a avó em parte alguma. Uma das criadas informou-o que a tinha visto a descer a rua em direcção à praça.
- Se calhar foi à Igreja – concluiu o Américo.
- Que queres à avó, Américo? – Pergunta a Delfina que descia as escadas, vinda dos quartos e que tinha ouvido parte da conversa.
- Nada Tia Fina, nada. Era só para saber dela.
- Américo, estás tão pálido, andas outra vez a comer pouco. Pareces um pisco! Vem comigo, vou fazer-te uma gemada com vinho fino, a ver se te dá novas cores.
- Mas não me apetece nada…
- Não sejas teimoso, tens que te alimentar. Vamos lá para a cozinha!
No dia seguinte estava a Delfina a servir os almoços para os hóspedes quando entrou na cozinha a Gracinda, uma das lavadeiras da pensão.
- D. Delfina, quando puder chegue ao lavadouro.
- Ó mulher, não vês que estou a servir os almoços… Que raio, não fazeis nada sozinhas. Afinal o que aconteceu?
- É que… bom… é melhor a senhora passar lá.
- Deixas-me em cuidados, mas agora…
- Não há pressa D. Delfina. O que é pode esperar…
- Vá lá D. Delfina, eu acabo de servir. Já faltam poucos – intervêm a Maria Ferrinha, a ajudante de confiança da dona da pensão.
Passaram à copa, subiram os degraus que conduziam ao terreno onde estavam os lavadouros. Dois tanques enormes em cantaria de granito onde eram asseados os lençóis, toalhas e cobertores da pensão, assim como as roupas dos hospedes e dos proprietários.
- Que se passa mulher, parece que te surgiu uma alma danada.
- Olhe para este lenço…
- Tem sangue. De quem é?
- Tem sangue mas é no escarro – esclarece a Gracinda.
- Cruzes, de quem é o lenço?
- Do… do menino Américo…
- Tens a certeza?
- Se tenho, minha senhora! Fui eu que abri a trouxa dele. Olhe o resto da roupa, a camisa, as ceroulas, não enganam. São do menino e aqui está outro lenço também manchado de sangue.
- Deus me valha, onde é que ele está?
O Américo foi procurado imediatamente por toda a casa, acabou por aparecer pouco depois com um cesto de figos que recolhera da figueira grande. “Está tão carregada que os galhos estão dobrados quase até ao chão” contava o Américo, enquanto pousava o cesto sobre a comprida mesa da cozinha.
A Delfina pegou-lhe suavemente por um braço levando-o para a salinha, contigua à cozinha, onde o interrogou sobre o sangue no lenço de bolso.
- Pois foi Tia Fina, já é a segunda vez que me acontece. Depois de tossir sai-me um escarro com sangue misturado.
- Ai filho, tu estás doente. Bem me parecia que a tua cor era esquisita. Já mandei chamar o Dr. Luís, mas está para Afife. Só mais logo é que regressa. Enquanto ele não chega tens de te recolher ao quarto. Pode ser doença que se pegue às crianças…
- Oh não! Às crianças não…
- Por isso, vais para o teu quarto até chegar o Dr. Luís, que eu levo-te lá o comer.
O diagnóstico feito pelo Dr. Luís Ramos Pereira foi peremptório, o mal estava instalado nos pulmões e pouco havia a fazer. Foi dada ordem para queimar as roupas de cama e escaldar e apartar a louça onde o rapaz comia.
No dia seguinte foi para o Amonde, acompanhado da avó Maria Chocalha, instalou-se na casa da sua tia Joaquina, irmã do seu falecido pai. Isolamento, ar do monte e uns remédios aviados na botica eram a única esperança.
- Talvez ainda não esteja muito adiantado. – Dizia com ar de dúvida o médico – Olha que se os ares do Amonde não o curarem, nada mais o cura.
Todas as semanas a Tia Leonarda carregava à cabeça um cesto de mantimentos e o jornal para o Américo ler. A viagem fazia-a a pé, duas léguas para cada lado, nada que assustasse esta mulher, habituada como estava a carregar feixes de lenha e outras mercadorias o dia inteiro. Na volta trazia sempre uma carta que o doente escrevia para a sua mãe de adopção, a Tia Fina como ele carinhosamente lhe chamava.
Uma vez o Abel ainda levou as crianças até ao Amonde, viram ao longe a casa e o Américo, não se aproximaram com receio do contágio.
Nem os ares do monte, nem os cuidados de quantos o rodeavam lhe valeram. Escrevia mais uma carta para a Delfina, grávida de oito meses, quando a pena lhe escorregou dos dedos. Já não terminou a frase “Deus o crie para a boa…”.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
O Externato de Santa Rita em Caminha
Outra alternativa era o Liceu ou a Escola Técnica em Viana, mas a minha mãe não via com bons olhos, que o seu menino (eu!), fosse sozinho, de comboio, vadiar à vontade, para a grande cidade.
Como o Externato tinha boa reputação e tinha uma carrinha que vinha buscar os miúdos às freguesias, os meus pais fizeram o sacrifício de pagar as propinas, acabando por “estacionar” em Caminha durante cinco anos, até ir para o Liceu de Viana do Castelo.
No Externato fiz o quinto ano, actual nono ano, sem problemas de maior, como muitos conterrâneos da mesma idade. Era sem dúvida a escola da moda e evoluiu muito mais depressa que “as freiras” em Vila Praia de Âncora que da Quinta do Queiroz vieram mais tarde para o Lugar do Paraíso, dando origem ao Colégio Nossa Senhora da Assunção, o embrião da actual Ancorensis.
O Externato, no início dos anos oitenta, começou a definhar, acabando por encerrar, estando hoje o edifício, que era alugado, totalmente abandonado e em ruínas. Mete dó olhar para aquela miséria, pelo menos a mim, que tenho ainda e sempre, recordações muito vivas daquele espaço.
No ano que entrei para aquela escola, foi contratado o meu primo Zé Meira, para funcionário da secretaria, tarefa que acumulava com a de motorista de uma das carrinhas, que transportava a rapaziada até casa.
O Zé Meira fazia a parte sul, seja Cristelo, Moledo, V. P. de Âncora, Laje, Vile e Riba D`Âncora, enquanto outra carrinha passava por Venade, V. de Mouros, Seixas, Lanhelas, Gondarem e Cerveira. Pelo menos estas freguesias eram percorridas uma e outra vez, pelas pequenas carrinhas, uma Volswagen e uma Austin, que deviam levar nove passageiros, mas que eram atulhadas com vinte ou trinta putos todos encavalitados uns nos outros. Mais tarde, compraram um pequeno autocarro italiano, um OM e posteriormente, já não é do meu tempo, adquiriram um autocarro Leyland, que acabou os seus dias, no Âncora-Praia.
É curioso que em V. N. de Cerveira só havia escola primária, tendo os alunos que quisessem continuar a estudar, de optar pelos Externatos de Caminha ou Valença; ou então ir para Viana.
O prédio onde estava instalado o Externato de Santa Rita era antigo, mas estava relativamente bem conservado, excepto as águas furtadas, local totalmente proibido para nós. Lembro-me de ter lá ido espreitar uma vez e apenas retenho a ideia de muitas pastas e muitos papéis empilhados.
Dizer que os rapazes e as raparigas não se misturavam e tinham entradas e recreios separados, causa grande estranheza nos jovens de hoje, mas naquela época era natural e eu nem sequer achava nada de estranho, pois vinha habituado a essa segregação da escola primária. Havia algumas turmas que eram mistas mas, mesmo aí, os rapazes ficavam de um lado e as raparigas ficavam do lado contrário. Se houvesse gente para fazer duas turmas é claro que estávamos novamente condenados a ver as raparigas ao longe. Raio de sorte!
Também é verdade que não haviam tantas exigências pedagógicas como agora; a minha turma no terceiro ano, (actual sétimo) tinha quarenta e três ovelhinhas e usava a sala maior do primeiro piso, virada a sul, para Venade e tinha uma pequena varanda.
Quando lá cheguei, com os meus dez anos acabados de fazer, encontrei uns matulões que lá andavam, que impunham respeito. A nós, os pequenos, não nos permitiam sequer ir às retretes, local onde eles, os grandes, permaneciam para fumar às escondidas, o que nos obrigava a fazer as necessidades de fugida, antes que caísse algum cachaço.
Por falar em cachaços, era prática comum os castigos corporais por parte dos professores, embora me lembre que alguns nunca nos bateram, nem sequer ameaçaram. Havia um vasto leque de castigos corporais desde as bofetadas até à palmatória, passando pelas sempre temíveis canadas. No entanto, a palmatória era o castigo que todos procuravam evitar, em particular a palmatória do Padre Cândido de Âncora, que tinha treze buracos e era conhecida pelo “totobola”. Esse Padre era professor de português e faleceu num acidente de viação. Foi substituído em Âncora pelo Padre Marinho, uma figura castiça, de que hei-de falar um dia.
O professor Laurentino Monteiro, o professor Monteiro para a malta, era simultaneamente o nosso terror e o nosso ídolo, pois se era severo e nos aquecia o pêlo quando calhava, também era o professor que estava sempre pronto para uma piada ou uma história engraçada. Quase quarenta anos volvidos, ainda não conheci ninguém que se sinta magoado com o comportamento desse homem.
Ao longo dos anos, deu-me uma série de disciplinas, o português, história, ciências, francês e geografia, pelo menos. Quando algum professor faltava, o que era raro naquele tempo, se estivesse livre, dava qualquer outra matéria, com todo o à vontade.
Este professor tinha imensas particularidades, uma das quais eram os sumários. Invariavelmente o sumário era “matéria nova”, “continuação da lição anterior” e “chamadas”. As “chamadas” eram umas provas orais, uma série de perguntas, que fazia a quatro desgraçados que ele escolhia pelos números e que se iam sentar nas primeiras carteiras à sua frente.
Eu era habitualmente um dos “Cristos” devido ao meu primeiro nome, António. Como os números eram atribuídos por ordem alfabética eu tinha sempre um número baixo e ele escolhia imensas vezes o 1,2,3,4; e lá ia eu, que fui sempre o 2 ou o 3. Antes de mim só haviam os Alfredos, os Abílios e pouco mais.
Os meus colegas com números altos tinham mais sorte, mas também se tramavam, pois ele sabia muito bem o que fazia, tinha boa memória e não deixava escapar ninguém, até porque as “chamadas” contavam para nota, sendo a nota cuidadosamente apontada na sua caderneta. Alem de nos arriscarmos a uma negativa (sofrível, medíocre e mau) ainda arriscávamos alguma canada na “tola”, se disséssemos algum disparate maior. Lembro-me de ter levado algumas, a propósito das declinações em latim.
Outro professor inesquecível é o Dr. Fonseca, felizmente ainda vivo e de boa saúde, que era o director da escola e professor de matemática. Retenho do Dr. Fonseca uma certa imprevisão do humor ao entrar na sala. Se estivesse bem disposto, tudo corria bem e tinha paciência de santo. Pelo contrário, se vinha com os “azeites”, ia tudo na frente e era realmente mal de aturar.
Estes dois eram o núcleo duro do Externato e a sua alma. Os outros professores e funcionários contribuíam para o sucesso, mas na verdade, na minha verdade, quem puxava o carro eram o Monteiro e o Fonseca.
Recordo a D. Zita, professora dos miúdos da primária (que eram poucos) e professora de desenho, o Dr. Ernesto e a Dr. Rosa que eram casados e foram depois para África. Ele leccionava português e musica, ela era professora de físico-química; a professora Isolina, professora de Francês, cujo marido tinha um Volswagem carocha que a malta achava o máximo, o Dr. Dionísio Marques advogado de Caminha, que dava inglês e que possuía um Citroen DS, um “bico de pato” como ele dizia, o Padre Amorim professor de história e moral. Mais tarde entrou para docente o eng. Cruz que nos deu matemática e que hoje está no Instituto de Estradas em Viana do Castelo. Foi com ele que vi, pela primeira, vez usar uma régua de cálculo, já que ainda não haviam calculadoras.
Não me lembro quem dava Físico-química depois da saída da drª Rosa, talvez o dr. Fonseca. Tive ainda como professor o padre Lourenço Alves em Francês, um apaixonado pela história e pela arqueologia e um óptimo contador de histórias. Estava-me a esquecer do malogrado padre Aparício que dava Religião e Moral e que faleceu de acidente de motorizada, aqui em Vila Praia de Âncora, em plena Praça da Republica. Aquele homem era um santo e ainda hoje o recordo frequentemente com saudade. Após a sua morte foi substituído pelo padre Manuel Afonso.
Na secretaria trabalhava a D. Conceição, irmã da D. Zita e o Zé Meira. Havia uma senhora da limpeza, da qual tenho ideia vaga, mas não me recordo do nome; havia outro motorista alem do Zé Meira, que era o sr. Fernando Costa, mais conhecido, por Fernando dos Pitos, marido da Capitolina, que tinha um supermercado na rua da Corredoura, agora administrado pelo seu filho mais novo, o Carlos. O filho mais velho, Fernando como o pai, é da minha idade e estudou comigo durante aqueles cinco anos; era um dos meus parceiros favoritos. Há muitos anos que não nos encontramos, visto ter emigrado para o Canadá. Não me posso esquecer do Amaro, o motorista que depois substituiu o Fernando dos Pitos e que nos aturava as algazarras que fazíamos dentro do autocarro.
Alem do Fernando dos Pitos filho, guardo na memória muitos outros colegas de turma, como o Vítor Barrocas de Vilar de Mouros, o Desiderio de Dem, o Fernando Lajes e o Rui Fernandes de Lanhelas, o Gonçalves de Cerveira, o Zé Araújo, o Fausto e o Filipe de Caminha, o Frederico de Vile, o Zé João de Riba D`Âncora, o Ernesto de Cristelo que era o ajudante de campo do professor Monteiro. Era ele que lhe fazer os recados e acompanhava-o à feira para carregar as couves!
Alem destes, tínhamos o Nelson, Chico e o Zé da Linha, todos eles de Âncora. O Chico que era primo do Nelson, morreu tragicamente num acidente de motorizada poucos anos depois, na rua 31 de Janeiro, junto à bomba de gasolina.
Alguns destes compinchas ficaram pela zona o que permite algum contacto esporádico. Outros tiveram rumos de vida diversos e perdeu-se todo o relacionamento, mas não se perdeu a memória.
A próxima vez que pegar neste tema será para contar algumas aventuras que ainda me lembro, passadas comigo e com outros colegas de anos e turmas diferentes, mas todos pertencentes à grande “família” do Externato de Santa Rita.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Crónicas do filho da puta (4ª parte)
É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e se entrecruzam e interpenetram.
Apesar de tudo, sim, apesar de tudo o filho da p*** está relativamente contente consigo. Está preocupado com a vida dos outros e descontente com a vida em geral, mas relativamente contente consigo.
O filho da p*** acha sempre que tirou o melhor partido do mau partido que foi ter nascido, e do péssimo partido que é viver. O filho da p*** consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros. Os outros também estão em crise, os outros não passam melhor, os outros não fizeram melhor, os outros também perderam, "lixaram-se", "quilharam-se", diz o filho da p*** exultante.
Nada atrai mais o filho da p***, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.
Enfim, o filho da p*** só se sente feliz com a infelicidade dos outros. Mas morre de muitas maneiras - geralmente da doença que o envenenou toda a vida e que, como ponto máximo da sua carreira, lhe proporciona um final com muito brio, mas atroz sofrimento. O filho da p*** morre sozinho...
quarta-feira, 7 de maio de 2008
sábado, 3 de maio de 2008
Agarra que é ladrão...
A Tia Ana Rosa desencostou a cabeça do travesseiro, mas não ouvia nada a não ser o ressonar ritmado e tranquilo do marido, ao seu lado.
- Domingos, oh Domingos, acorda homem.
- Ah… que foi?
- Tu não ouviste?
- O quê?
- Não ouviste o barulho?
- Não mulher. Deixa-me dormir, se calhar foi algum gato no telhado…
- Não foi nada. Foi cá dentro.
- Aqui na casa? – Duvidava o Domingos Verde.
- Sim, aqui na casa. Levanta-te e vai ver na sala e na cozinha. Se calhar foi o oratório que caiu na sala.
- Raios partam a minha sorte, logo agora que estava tão bem a dormir.
- Despacha-te!
O Domingos acendeu a vela que estava na mesinha de cabeceira, vestiu a samarra sobre a camiseta e as ceroulas, caminhou até à sala. Levantou a vela para melhor enxergar, não viu nada de anormal, o oratório estava no sítio, dirigiu-se para a cozinha, repetiu o movimento da vela e disse em voz alta.
- Não vejo nada de estranho.
- Vê lá a gaveta do dinheiro?
- Está na mesma.
A Tia Ana Rosa é que não se convencia e já se levantava para confirmar. Deitou a mão ao avental que estava pendurado na cabeceira da cama e teve um arrepio. A chave da gaveta, não estava no bolso do avental.
- Fomos roubados, Domingos.
Saiu do quarto direita ao móvel onde estava o oratório, que fazia de cómoda, com três gavetas logo a seguir ao tampo e dois gavetões por baixo, onde guardava a roupa da casa.
O tampo estava coberto por uma toalha alva, que caía para a frente, escondendo a fila das gavetas.
Levantou a toalha e no lugar da gaveta do meio, ficara o buraco negro onde ela deslizava.
- Tinhas razão, fomos roubados, mas como?
- E foram ao nosso quarto buscar a chave! – Dizia a Tia Ana Rosa – Foi o barulho da janela que eu ouvi.
As janelas eram de guilhotina e nunca estavam travadas. Acenderam o candeeiro de petróleo, foram observar a janela e descobriram, do lado de fora, um par de sapatos e pegadas frescas na areia macia da rua.
- Vai chamar ajuda, vai acordar os teus camaradas, temos de dar caça ao ladrão, senão estamos desgraçados. Lá se vai o apuro da semana.
A Tia Ana Rosa é que tomava nota das contas da companha, que recebia o dinheiro da venda, contas que eram partidas ao sábado. Parte do barco, parte do arrais, o Domingos e parte de cada pescador.
O Domingos sai de casa, munido dum sarrafo que encontrara na cozinha, nunca se sabe, até podia dar com o ladrão, ali por perto.
Em breve estavam à porta de casa vários homens, dispostos a dar caça ao gatuno que lhes surripiara o dinheiro. Ele já era tão pouco e havia de acontecer uma desgraça destas, logo esta semana, que as pescas até nem tinham sido más, dera muita pescada nas costas de Montedor.
Ao observarem os sapatos achados do lado de fora da janela, um dos homens exclama:
- Eu vi um tipo com estes sapatos. Não te lembras, João? O que esteve a jogar às cartas connosco, lá na loja.
- Pois foi, ele tinha uns sapatos assim, tinha.
Tinham estado com mais alguns pescadores da vizinhança a jogar às cartas, na loja da Chocalha, até tarde e esse fulano tinha acamaradado com eles, mas não o conheciam. Pensaram ser alguém de uma freguesia próxima, que estava ali a passar um bocado, a beber umas malgas de vinho, bom vinho que a Chocalha mandava vir de Outeiro.
Distribuíram-se em grupos e saíram ansiosos, na busca daquele desconhecido. A madrugada ia alta, ainda faltavam, pelo menos, duas horas para amanhecer.
Um dos grupos, foi directamente à loja da Chocalha, ali perto, onde mais tarde haviam de construir o quartel dos bombeiros, que naturalmente estava fechada e às escuras.
Continuaram para sul pela rua e ao chegar à alvariça, onde depois o Pinheiro construiu a oficina, hoje é a Caixa Geral de Depósitos, encontraram junto a umas silvas a gaveta desaparecida. Só faltava o dinheiro, os outros papeis tinham ficado.
De regresso a casa, decidiram que dois grupos iriam apanhar os primeiros comboios pelas sete da manhã, que se cruzavam na estação de Gontinhães e iriam até Caminha e até Afife ou Montedor.
Os que foram de comboio até Caminha, apuraram que já por lá tinha passado um indivíduo desconhecido e que andava descalço. Como o olharam com desconfiança, ele tinha desaparecido.
Decidiram entrar no próximo comboio e seguir para norte. Desanimados por ninguém o ter visto nas estações seguintes, decidiram sair em S. Pedro da Torre e esperar pelo comboio em sentido contrário, para os trazer de volta a casa.
Que grande surpresa tiveram ao entrar na carruagem, ao ver entre os passageiros o tal fulano, que tinha estado no dia anterior, na tasca da Chocalha. Sem denunciarem as suspeitas que tinham, entabularam facilmente conversa com o homem que já exibia uns sapatos e um casaco novo.
Ao chegarem à estação de Gontinhães, deitaram-lhe a mão e arrastaram-no para a gare, onde o imobilizaram, enquanto pediam para irem chamar a Guarda.
O homem confessou o roubo e a audácia de ir a uma casa desconhecida, às escuras, procurar uma chave, abrir a gaveta e sair furtivamente. O que estragou o golpe, foi ter as mãos ocupadas com a gaveta e a janela ter caído, sem contar. Por isso teve de correr e deixar no local os sapatos.
Esta história foi contada, muitos anos depois, pela Tia Ana Rosa, já velhota, quando se reuniam à noite os filhos, os netos e outros familiares ou vizinhos, para tecerem o linho ou para qualquer outro trabalho.
Sabem para que servia o fio de linho que elas teciam? Era para as redes do sável. Essas redes eram feitas em linho, não um linho qualquer, mas linho do Brasil, que vinha já seco em estrigas ou seja, em molhos de fibras com dois palmos de comprimento, que tinham de ser passados pelo sedeiro.
O sedeiro era um cepo de madeira com uma espécie de pregos virados para cima, onde se batiam as estrigas, para separar as fibras do linho que eram ligadas e fiadas, para de seguida irem para a dobadeira.
Depois de dobada, saía para as agulhas e só então se fabricavam as redes. Naquela época não havia material já fabricado, tudo era feito em casa.
As redes de que vos falo eram redes volantes de tresmalho com albitanas. Em linguagem corrente, quero dizer que eram redes que pescavam à superfície, tal como as lampreeiras e que se deslocavam ao sabor da corrente.
O que fazia flutuar a rede era a cortiçada feita em cortiça segundeira, nunca da virgem e o peso que a mantinha aberta e vertical, era feito com os pandulhos, uns pequenos e esguios sacos de pano cru, cheios de areia grossa, que se apanhava no Espilrro.
Também se apanhavam sáveis com redes de algerife, redes de cerco que eram puxadas para terra nos diversos portos do rio Minho. Os primeiros portos do Minho eram o das Oliveiras, o do Baixinho e da Candosa, já a meio caminho de Seixas. Estas redes eram fabricadas em fio do norte que era mais robusto que o linho.
Pois é, falam do sável, do arroz de debulho, mas não sabiam o trabalho que dava para o apanharem. Se calhar nem sabiam que haviam redes feitas de linho.
Isto foi-me contado pelo Domingos Verde, não o do conto, mas o seu neto, o Pinga, que ainda hoje recorda os serões de Inverno, que passava na casa dos seus pais, que recorda as histórias passadas no mar, os naufrágios, as misérias, as mortes, mas também a alegria das pescarias, da fartura, da sardinha, as histórias da vida.





