quarta-feira, 23 de julho de 2008

Nas Azenhas de Vilar de Mouros


Estávamos em Julho de 1976 e as aulas já tinham terminado. Para juntar algum dinheiro, a malta costumava ir à ribeira apanhar percebes, mexilhões, musgo e sargaço para vender.
Era um biscate duro, pois andávamos dentro de água horas seguidas a carregar sacos pesados, a escorrer água para tirar o sargaço e levá-lo praia acima até às dunas, para ser estendido e seco. Trinta ou quarenta quilos ao sair da água, que depois de seco ficava nada, um ou dois quilos, no máximo. Uma miséria!
Os percebes eram vendidos nos cafés entre os trinta e quarenta escudos para de seguida serem postos à venda por oitenta ou cem escudos, outra roubalheira, pois nós é que lixávamos as mãos, nós é que ficávamos dentro de água enregelados, pois naquele tempo não havia fatos de neoprene para ninguém. Isso foi uma modernice que apareceu muito depois!
Estávamos divididos por equipas de três ou quatro elementos, pois era mais fácil assim do que individualmente e os meus parceiros eram o Nelson e o Zé da Linha, ambos da Laje. Trabalhávamos habitualmente entre Penedim e o Quintino, apenas íamos a Afife para os percebes.
Ainda hoje acho que fazíamos uma boa equipa, pois alem de nos entendermos bem, tínhamos genica suficiente para deixar os outros a bufar de raiva. Éramos os primeiros a chegar e os últimos a sair da água. Também era verdade que saíamos mais mortos que vivos de tão demolhados estarmos.
Isto vem a propósito de ganharmos algum dinheiro para as nossas “coboiadas” pois os nossos pais não eram ricos e o dinheiro era espremido.
Nesse ano de 1976 decidimos ir acampar uma semana para as Azenhas em Vilar de Mouros e por isso precisávamos de “massa”, apesar de fazermos os abastecimentos principais por descarga directa das despensas das nossas casas.
Depois de algumas hesitações, com desistências à mistura, partimos cinco à aventura. Eu, o Nelson, o Mac, o Tone do Talho e o João. O Nelson já o apresentei, o Mac (quase a minha alma gémea) que é filho da D. Amélia professora, o Tone filho do Sr. Ernesto do Talho e o João que era de Lisboa e que vinha passar férias a Âncora todos os anos.
Ele ainda é parente da mulher do meu primo Fernando Meira e foi assim que nos conhecemos e ficamos amigos.
Já não me lembro bem mas parece-me que eu e o Mac fomos de bicicleta e os outros apanharam boleia com do irmão do Tone, o Ernesto, que foi levar as tralhas no seu reluzente Fiat 128, que ainda possui.
Tínhamos três tendas canadianas que eram ocupadas pelo Nelson e por mim, noutra ficava o Mac e o Tone e na última ficava o João, que adorava o estatuto de ter uma tenda só para ele. Pudera, ninguém queria ficar com ele pois ressonava muito e cheirava a chulé que empestava. Deixem-me dizer que nenhum de nós era muito melhor, mas o João era o que tinha pior fama.
Em 1976 as Azenhas eram um local muito mais recatado que hoje, os carros só com muita dificuldade lá chegavam e praticamente só para lá ia banhar-se a malta da zona, nada de forasteiros.
Nós éramos uma excepção, mas éramos bem aceites pela “fauna” local, pois conhecíamos a malta toda que estudava no Externato de Santa Rita em Caminha ou no Liceu em Viana. E além disso já tínhamos acampado lá nos anos anteriores, pelo que já éramos quase da casa!
Instalámos as tendas no terreno do fundo, que hoje está cheio de silvas e nessa altura era todo relvado, as tendas em linha, com o “rabo” virado ao rio; ao lado da nossa tenda havia (e ainda lá está) um enorme eucalipto, no qual penduramos um pequeno espelho para as nossas vaidades.
Um dia foi preciso fazer arroz (de feijão) para acompanhar umas bifanas que o Tone trouxera e fui o encarregado de preparar o tal arroz. Depois de muitas invenções, o arroz estava como o cimento e só eu e o Mac, por solidariedade, o conseguimos comer. Os outros acabaram por embrulhar as bifanas no pão que sempre era mais macio. Nunca mais me pediram para fazer mais nenhum cozinhado, apenas me cabiam tarefas menores como descascar batatas, ir buscar água ou lavar a louça.
Durante o dia preguiçávamos ali pelas azenhas entre o areal, as tendas e a água, fazíamos (algum) sucesso entre as raparigas (ah, ah) e ao anoitecer íamos até à aldeia por um estreito carreiro entre os campos de milho e o rio Coura.
Hoje passa lá um caminho calcetado e no espaço onde se cultivava o milho realiza-se o Festival de Vilar de Mouros. Mas naquele tempo o caminho era estreito e só por lá se circulava a pé ou de bicicleta com as devidas cautelas.
Na aldeia íamos sempre para um estabelecimento do qual não me recordo o nome e onde também nos abastecíamos, pois no rés-do-chão era a mercearia e o café no andar superior.
Decorria um acontecimento que nos empolgava e nos prendia a atenção durante horas ao televisor, fosse no único canal português, quer na “espanhola”, canal com melhor captação, muito mais nítido e com melhor informação.
Eram os Jogos Olímpicos de 76 em Montreal no Canadá e na ginástica, Nadia Comaneci dava cartas e arrasava a concorrência. Todos gostávamos destas emissões, particularmente o João que era um verdadeiro fanático e que não nos deixava arredar pé enquanto na televisão desse alguma coisa sobre isso. Acho que a partir daí, fiquei um bocado enjoado com os jogos olímpicos…
Bebíamos uns finos, roíam-se uns amendoins e jogava-se às cartas entre uma e outra olhadela à televisão, até a proprietária do café nos “chutar” porta fora, já depois da meia-noite. E lá vínhamos nós para as azenhas, primeiro até à ponte medieval que, permitam-me um parêntesis, precisa urgentemente de ser consolidada, senão qualquer dia passa a ser a ex-ponte medieval e iremos ver uma quantidade de hipócritas a carpir a sua morte.
Mas, dizia eu, que atravessávamos a ponte e virávamos à esquerda pelo tal “carreiro” de que vos falei, todos em fila indiana, o primeiro com um foco e outro, lá para o meio, com outro foco.
Naquele tempo não haviam focos com “leds”, nem pilhas alcalinas, nem focos recarregáveis e muito menos lojas dos chineses para comprar essas “merdas”.
Por isso a luz era escassa e muito poupada. Cedo reparamos que o João, que todos sabíamos medricas, queria ir sempre entalado entre os dois focos e nunca ficava para trás, por motivo algum.
Uma bela noite combinamos pregar-lhe uma partida para lhe meter um “cagaço”. Era uma coisa simples, quando à noite estivéssemos de regresso às tendas, o da frente que habitualmente era o Nelson, apagava a lanterna e todos fugíamos para o meio do milho às escuras e a berrar que nem desalmados.
O nosso amigo sentou-se no chão a tremer e só não chorou porque o medo lhe gelou o sangue e as lágrimas. Quando regressamos ao seu convívio, a rir, todos prazenteiros, o João “pintou-nos a manta” de tão zangado que estava.
Mas esse problema de ser medricas ainda havia de causar outra “cena”, como se diz agora, pois uma noite, às tantas da madrugada, já estávamos a dormir, apareceram uns gajos com várias motorizadas a fazer um cagaçal tremendo, com os motores bem acelerados ali perto das tendas.
Na verdade ninguém se aproximou de nós, nem nos provocou, mas uns rapazes enfiados às escuras dentro de umas frágeis tendas num local recôndito, por muito valentes que sejam ou queiram mostrar que são, acabam sempre por se borrar todos de susto.
Foi o que nos aconteceu; eu e o Nelson tínhamos dentro da tenda uma espingarda de caça submarina (acho que era do Mac) e esticamos os elásticos, por causa das moscas. Na tenda seguinte o Tone e o Mac chamaram baixinho por nós e estabelecemos algum diálogo de vizinhos. Da tenda do João é que nem pio.
A certa altura os gajos lá se foram embora e após algum tempo de expectativa e de sossego, decidimos sair das tendas, até porque o João continuava sem dar acordo de si.
Verificamos com espanto que a tenda dele estava aberta e que ele tinha desaparecido. Foi em vão que o chamamos e como o sono já tinha ido, fizemos uma fogueira à volta da qual nos sentamos.
Muito tempo depois, pelo menos assim nos pareceu, surge o João do meio de um campo de milho que havia na banda de cima do nosso acampamento. Vinha com um ar tranquilo e explicou-nos que tinha ido dar uma volta. É preciso ter lata! Então tinha ido dar uma volta, heim? O gajo tinha-se pirado e certamente ficou encolhido entre espigas e pondões, até ter a certeza que o sobressalto tinha partido para não mais voltar. E ainda por cima vinha tentar meter-nos os dedos nos olhos!
É claro que ninguém mais voltou para a cama, até porque o dia já nascia e havia muito que vadiar.
Um dia assistimos à chegada de mais uns campistas, vários casais com várias tendas, já não me lembro, três ou quatro, que as montaram um pouco mais para o interior do terreno. Ali junto ao rio, só nós! Traziam um belo cão Pastor Alemão que rapidamente acamaradou connosco e logo passou a cirandar por entre as tendas sem que ninguém se sentisse incomodado.
O problema foi quando o descobrimos a mastigar regaladamente um dos frangos que iria ser o nosso jantar. Pelos vistos o ar do campo tinha-lhe aberto o apetite… Ora nós tínhamos dois frangos, o que até nem era muito para aqueles cinco galifões; se o cão tinha comido um deles, estão a ver o problema, ia ser uma barrigada de fome. Lá tínhamos nós de fazer um reforço com mais um par de trigos secos.
O Nelson ficou danado e foi ter com o dono do animal que não acreditou que ele tivesse feito uma maldade dessas. Não acreditou até ver os poucos despojos que sobraram, depois ficou de orelha murcha, pediu desculpas e não teve outro remédio que ir comprar outro frango para nos compensar as perdas. Vá lá que o homem foi consciencioso e trouxe um frango bem maior que o “desaparecido”.
O desgraçado do cão é que passou a ficar amarrado a uma árvore como castigo para tamanha gulodice. Ficou preso, mas pelo menos, estava de barriga cheia!
Um sábado à noite recusamo-nos a ir ver a estopada dos jogos olímpicos e fomos todos ao cinema. Sim, ao cinema em Vilar de Mouros, em 1976.
Havia uma casa, junto ao cruzamento com a estrada que vai para Covas, que hoje está em ruínas, um tipo de Centro Cultural ou Recreativo e que passava uma “fita” aos sábados à noite, sentando-se os espectadores em bancos corridos e cadeiras avulso, tendo como tela um simples lençol branco. Foi daquelas idas ao cinema que nunca mais esqueci, uma maravilha.
Sei que os meus pais ainda foram lá uma vez abastecer-me de mercearia e o Ernesto passou por lá várias vezes descarregando carne para o irmão (e para os amigos esfomeados).
Nunca esta equipa voltou a acampar juntos, apenas eu e o Mac continuamos por mais alguns anos a vadiar, nesta espécie de turismo selvagem, em que tínhamos uma tenda, um saco cama e pouco mais. Claro que as tendas eram canadianas, daquelas baixinhas em que se entra de gatas. Era o que havia!
Apesar que termos deixado de ser parceiros de acampamentos, a amizade ficou e hoje tenho muito gosto em contar estas simples peripécias, que marcaram uma fase da minha, da nossa juventude.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Serra d`Arga

Fotografia de Carlos Venade

terça-feira, 8 de julho de 2008

Euclides, o comunista

Este conto é baseado em acontecimentos reais, ocorridos na década de cinquenta do século passado.

O vento chegava em rajadas, era vento de norte, o frio cortava e a rua não oferecia abrigo aos raros peões que se atreviam a sair.
O Domingos Verde aconchegou o grosso sobretudo regulamentar, que vestia sobre o blusão azul-escuro, quase negro, da farda policial. Pesava-lhe o cinturão largo, que suportava a pistola e o casse-tete, doíam-lhe os pés, depois de ter passado quase todo o turno de giro em Leça, desde a praia, até ao quartel dos bombeiros, ziguezagueando por uma infinidade de ruas.
Fez esse percurso várias vezes, só tinha parado ao início da manhã para entrar na leitaria do Esteves e tomar um galão e um pão com manteiga, não esteve parado mais de dez minutos, nunca se sabe quem está a observar, para mais, ele ainda era novo na corporação.

Ao passar junto ao gradeamento do quartel, um carro vem em sentido contrário, afrouxa e pára a meia dúzia de metros. O condutor baixa o vidro e chama o jovem polícia de turno:
- Senhor agente, uma informação. Onde fica a pensão Godinho?
- A pensão Godinho é aqui em Leça, mas, do outro lado. O senhor dá a volta e vai até à rua onde está a farmácia, sabe onde é?
- Não, eu conheço mal esta zona.
- Se seguir por aquela rua vai ter a um jardim; depois de o passar vira à sua esquerda. Essa é a rua da Farmácia. Tem uma loja de ferragens logo à esquina. Quando lá chegar, vira na… deixe-me ver, na tercei…, não, na quarta rua à sua direita, a pensão Godinho é a cinquenta metros. Não tem que se enganar, no início da rua há uma carvoaria.
- Obrigado senhor agente…, mas, eu não o conheço? Você não trabalhou no Lindoso?
- Eu também o estou a conhecer, senhor engenheiro. Trabalhei sim senhor, na barragem.
- Eu bem me parecia, quando vejo uma cara, não costumo enganar-me! Então agora está na polícia?
- É verdade, quando comecei a trabalhar na barragem, já tinha metido os papéis para a polícia, mas como nunca mais me chamavam, aproveitei e ainda lá trabalhei quase nove meses.
- O senhor agente é que me podia fazer um grande favor.
- Se puder, diga senhor engenheiro.
- Você lembra-se do Euclides, o técnico das máquinas?
- Lembro-me perfeitamente.
- O Euclides foi preso e está aqui no Porto.
- Que fez o senhor Euclides para ser preso, ele que era tão boa pessoa?
- Olhe azares da vida, não teve culpa, mas está a ser chateado pela PIDE.
- Oh diabo, então mete a PIDE? Que quer o senhor engenheiro que eu faça?
- Senhor agente, venha comigo à pensão, que eu vou lá ficar com os meus filhos e lá conversamos.
- Não posso ir já, senhor engenheiro. Só termino o serviço à uma da tarde, se quiser encontramo-nos lá às duas, duas e pouco.
- Muito bem, eu fico na pensão à espera. Até logo senhor agente… desculpe mas esqueci-me do seu nome…
- Verde, agente Verde, ao seu dispor, senhor engenheiro.
O Chevrolet negro com o engenheiro Ogando e os dois filhos, arrancou suavemente, contornou o pequeno canteiro em frente aos bombeiros e perdeu-se pela rua em direcção ao jardim. O frio continuava a apertar e por ter estado parado aquele tempo todo a conversar, tinham-lhe arrefecido ainda mais os pés. Lembrava-se que o pai do eng. Ogando, também formado em engenharia civil, fora o responsável técnico pela construção do Casino da Póvoa do Varzim.
Já passava do meio-dia e eram horas de se dirigir calmamente para a esquadra que ainda ficava longe, fazer o relatório e consultar a ordem do próximo serviço, que devia começar à uma da próxima madrugada.

Quando saiu da esquadra foi directo à casa de pasto do Aníbal, um transmontano de Carrazeda de Ansiães, com porta aberta há mais de vinte anos, uma casa muito asseada, onde comiam a maior parte dos agentes da esquadra de Matosinhos, funcionários das casas comerciais das redondezas e estivadores da doca de Leixões.
Depois de ter engolido uma jardineira fumegante, que a Laurinda lhe apresentou, dirigiu-se para a pensão Godinho, onde o esperava o engenheiro Ogando, que sem mais delongas lhe explicou.
- Pois o nosso amigo Euclides está metido em trabalhos. Tudo começou quando apareceram uns panfletos do Partido Comunista afixados numas árvores, a caminho da barragem. A PIDE foi chamada pela Guarda Republicana, andaram para lá a investigar e encontraram um desses papéis no armário do Euclides. Nem quiseram saber de mais nada. Trouxeram-no para Ponte da Barca e daí transferiram-no para o Porto, desconfio que para a sede da PIDE, você sabe onde é?
- Sei, é na Rua do Heroísmo, perto de Campanhã.
- Pois era isso que eu queria que fizesse, ia comigo à PIDE, ver se me deixavam visitar o Euclides, para lhe perguntar algumas coisas do serviço, que estavam pela mão dele. Como você é polícia, se calhar, é mais fácil deixarem-me vê-lo.
- Se é só isso, não vejo problema, eu vou consigo – diz o jovem agente, convencido do poder persuasor da farda que envergava.
- Então vamos no meu carro, que chegamos lá num instante.

Quando chegaram à Rua do Heroísmo, no Porto, o Domingos apeou-se e dirigiu-se à portaria do edifício, sendo interpelado de imediato, por um plantão da PIDE.
- Que deseja?
- Eu venho saber se está aqui um tipo de Ponte da Barca chamado Euclides, que trabalhava na barragem do Lindoso.
- E para que quer saber?
- Está ali fora o antigo chefe dele, um engenheiro, que queria falar-lhe por causa do serviço lá da barragem.
- Um momento, que vou saber. – Dirigiu-se a um telefone pendurado na parede ao fundo da salinha que fazia de recepção e falou baixo durante breves instantes. Depois de desligar, dirigiu-se ao Domingos, dizendo-lhe para entrar e aguardar na primeira sala do corredor à esquerda.
Não esperou mais de dez minutos, até que um sujeito de meia-idade, com o escasso cabelo empastado de brilhantina, fato negro e voz nasalada entrou na sala e lhe disse à laia de cumprimento:
- Então é você que quer ver o Euclides? Que é que tem a ver com ele, hein? Conhece-o de onde? Vamos lá a identificar-se.
O agente Verde puxa da carteira, tira o cartão da PSP, entrega-o ao PIDE e repete-lhe a história.
- Há quanto tempo está na polícia, hein?
- Fiz a escola e estou em Matosinhos há seis meses.
- Seis meses, hein! Sente-se aí e aguarde.

O tempo ia passando e ninguém mais se aproximou da sala onde o Domingos, só esperava que lhe dissessem alguma coisa. Lá fora o engenheiro devia estar ansioso por novidades. Ainda ninguém lhe tinha confirmado que o Euclides estava lá preso, mas também lhe tinham dito o contrário.
A sala estava aquecida e o tempo de espera dava-lhe sono. Com sorte, hoje ainda podia dormir algumas horas, até entrar outra vez de serviço. O raio do homem é que nunca mais vinha, se calhar estava a consultar o processo ou a pedir instruções a algum superior.
Quase duas horas depois, entrou novamente o PIDE na sala, entregou o cartão de identificação ao Domingos dizendo-lhe:
- Tome lá isto, desapareça e não volte a pôr os pés aqui na directoria a não ser que o chamem. Diga lá ao engenheiro, que o comunista que trabalhou na barragem está aqui e que na cela dele, ainda cabem mais um ou dois, hein. Se quiserem?...
Dito isto, virou costas e saiu tão silenciosamente como tinha chegado. O Domingos sentia-se ruborizado pela forma arrogante como tinha sido tratado, ele que também era uma autoridade e só ali estava para fazer um favor. Saiu do edifício, deixando para trás o sorriso zombeteiro do plantão, que certamente ouvira a conversa, atravessou a rua e entrou no Chevrolet do engenheiro Ogando.
- Então senhor agente que novas me conta.
- Novas?... Eles têm lá o Euclides, fizeram-me esperar este tempo todo, mandaram-me desaparecer e ainda me ameaçaram que na cela dele havia lugar para nós, para mim e para si.
- Então não se pode fazer nada.
- Pois não senhor engenheiro, com estes tipos não se brinca…Vamos embora, que eu preciso de ir dormir e pouco falta para as seis da tarde.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O Abel da Chocalha


Não conheci pessoalmente o meu avô materno Abel Nascimento Brito, de sua graça. Quando eu nasci, já ele tinha falecido há cerca de 10 anos. Era pai de quatro raparigas, quatro manas, como eu carinhosamente lhes chamo, até porque uma delas é minha mãe. Teve um filho mais novo, o António, que morreu ainda criança.
O Abel era um senhor dotado de uma calma monástica, que nada o fazia enervar, que nada o apressava, característica que certamente herdou do seu pai Luís Brito, nascido criado e vivido em Segadães, às portas de Valença do Minho. Eu disse que nada o apressava, mas não é totalmente verdade, porque apenas umas saias tinham o condão de espevitar o pachorrento Abel.
O meu avô era conhecido pelo Abel da Chocalha, apelido que herdou da sogra do seu primeiro matrimónio Maria José Gandra, que curiosamente foi sua ama de leite. A Chocalha era de Gontinhães, mas por artes do acaso, foi ter a Segadães onde desempenhou a função de ama de leite do Abel, nascido em 1880 e do Manuel, seu irmão mais velho quatro ou cinco anos.
Esta senhora que era solteira, tinha uma filha de nome Felisbela Gandra, casada com um tal Pereira, do Amonde, que morreu poucos anos volvidos com tuberculose. Deste casamento já tinha nascido o Américo, que ficou órfão ainda catraio, mas que ganhou rapidamente uma madrasta, pois o Abel casou em segundas núpcias com a sua conterrânea Delfina Gomes.
Por essa época já o Abel Brito e a sua ex-sogra estavam estabelecidos em Gontinhães com uma pensão e loja que chamaram Pensão Âncora, mais tarde pensão Meira e actualmente hotel Meira, naquela que é hoje a Rua 5 de Outubro. Não sei se já assim se chamava nessa altura, pois a republica se já estava implantada, estava ainda muito verde.
Do casamento com a Delfina nasceram quatro filhas e um filho a um ritmo praticamente anual. Primeiro a Felisbela, a seguir a Arminda, depois a Maria José e ainda a Julieta. Finalmente o António, o benjamim dos pais e o querido das irmãs que tragicamente morre de doença com dez anos. Era da idade do nosso conterrâneo Sr. Durval Brito, que apesar do apelido, não tem connosco qualquer relacionamento familiar. Outro conterrâneo da mesma idade era o Sr. Luís Gomes, recentemente falecido em acidente de viação.
A filha mais velha, Felisbela casou com Simão Meira e abriram uma pensão na Praça da Republica, no chamado prédio da Assembleia. A Arminda casou em Valença com o António Gomes, seu primo legítimo, filho de um irmão da Delfina. A Maria José, minha mãe, casou com o Ribeiro, caixeiro-viajante e foi viver, embora por pouco tempo, para o Porto, regressando poucos anos depois a Vila Praia de Âncora. A Julieta casou com o Castilho, foi viver para o Porto e por lá ficou.
Mas a personagem principal desta história é o avô Abel, um bonacheirão que metia-se em negócios (mais ou menos da China) e que acabavam sempre por dar fiasco e prejuízo.
Uma vez convenceu o genro Ribeiro, meu saudoso pai, a fazer um negócio de marmelada. O Ribeiro dava o açúcar e o Abel arranjava os marmelos e enlatava a dita. É mesmo, não me enganei, era marmelada enlatada. O resultado foi montes de latas que ninguém comprava e que acabaram por ser abertas e o produto deitado aos porcos. Mas por estranho que pareça ou talvez não, nem os porcos quiseram a marmelada, que teve de ser enterrada no quintal. Muitos anos mais tarde, quando falávamos deste episódio na frente do meu pai, era vê-lo a sair “à francesa”, como se nada fosse com ele.
Outro negócio que correu mal foi uma importação de bicicletas que ele ia buscar a França na sua camioneta e com um intérprete às ordens, um sujeito de Viana que ele convenceu a acompanhá-lo. Naquela época uma viagem a França por estrada, não se fazia com a facilidade de hoje e o Abel gastou mais na aventura, que o valor das bicicletas. Mais uma vez para se ver livre da mercadoria teve de vender com prejuízo e ouvir as recriminações da minha avó, que tremia cada vez que o Abel dizia que andava a matutar num negócio.
Outra coisa que punha a avó em polvorosa eram as repetidas aventuras amorosas do marido. Nunca lhe perdoou ter o facto de uma das amantes, a Felicidade, uma viúva ainda fresca, como dizemos hoje ”que ainda rompia meias solas”, ter ido morar a pouco mais de cinquenta metros da sua casa, mais ou menos onde hoje é a ourivesaria do Catarino.
Outra das suas “amigas”, a Ester da Pelada quando teve um filho, o José Luís que é o mais novo de três, logo disseram que seria filho do Abel. Não há certezas, naquele tempo não se sabia nada sobre ADN, mas outro dos suspeitos da paternidade, seria o Toninho Tinta Fina, que também por lá andava.
O Abel tinha um parceiro que fisicamente ainda era mais avantajado que ele. Pois, eu ainda não vos descrevi o Abel da Chocalha, que era um homenzarrão que embora não fosse muito alto, era forte e barrigudo. O Fontes, o tal parceiro de que vos falei, ainda era mais corpulento, pois media perto de dois metros e acompanhava o Abel, nas suas palavras, para "fazer de contrapeso" na camioneta.
Este Fontes foi faroleiro na Ínsua durante muitos anos, morava mesmo em frente à pensão Âncora, onde hoje é o Hotel Meira. Eram bons amigos e davam grandes passeatas na camioneta do Abel, na companhia dos netos que foram surgindo dos casamentos das filhas. Aqueles que conheceram o avô foram os meus primos Jorge e Zé Meira e as minhas irmãs Julieta e Delfina, conhecidas por Mimi e Fininha respectivamente. O Jorge e a Mimi eram uns vivaços; o Zé e a Fininha, pelo contrário eram muito tranquilos. Muitas vezes ouvi os meus pais dizerem que o neto mais parecido com o Abel da Chocalha era o Zé Meira, não só fisicamente, mas no carácter e na imaginação. O Zé, que era meu padrinho, talvez dê um dia destes um pequeno conto, vamos a ver!
A pachorra do Abel era tanta que quando encostado à parede em frente à sua casa, onde estão as alminhas, e as pombas no beiral do telhado lhe sujavam a cabeça, em vez de se desviar, dizia para a Maria Ninom, mulher do Sr. Barata:
- Oh Maria, empresta-me a boina, que as pombas estão a cagar-me na cabeça.
O avô Abel alem de bom cozinheiro, era também um óptimo fotógrafo, que até possuía câmara escura para revelação das suas fotos. Infelizmente apenas duas ou três fotos da sua autoria chegaram à minha posse e desconheço se alguns dos meus primos possuem mais fotografias tiradas por ele. Tenho bastantes fotos antigas, mas são de estúdio ou tiradas pelo meu pai, já na década de trinta.
Após a morte da minha avó Delfina, o Abel sossegou e dizem que até se deixou de aventuras amorosas. Não sei se isso foi totalmente verdade, mas que ele sentiu muito a falta da esposa, não tenho dúvidas. Ele próprio o reconheceu, mais que uma vez.
Apenas lhe sobreviveu seis anos, sendo vitima dum acidente vascular cerebral, que o deixou totalmente incapacitado, para se repetir poucas semanas depois, causando-lhe a morte.

domingo, 8 de junho de 2008

A Festa do Monte

Estávamos a jantar, quando a minha mulher me disse:
- O Zé Alfredo comprou uma tenda. Ele disse-te alguma coisa?
Tinha estado uma boa parte da tarde com ele na praia, falamos de mil e um assuntos, mas não me disse absolutamente nada dessa compra.
- Se calhar é para o Rui ou para a Carina – respondi eu, que nunca tinha visto o Zé Alfredo com “queda” para o campismo. Se fossem uns piqueniques com merendeiro à mistura, estava sempre pronto. Agora, campismo a sério, nunca me passaria pela cabeça.
Tinha sido a sua cara-metade, a Cristina que confidenciou à minha mulher, a iniciativa daquele respeitável chefe de família, que adquiriu levianamente um T1 rasteiro, tipo iglô, no qual os seus, também respeitáveis noventa e tal quilos, entravam rastejantes.
À noite, após o jantar, encontramo-nos como de costume na avenida marginal de Vila Praia de Âncora, onde moramos, e perguntei-lhe de chofre se era verdade que tinha uma tenda nova.
Mais admirado fiquei quando me contou, com toda a naturalidade, que alem da tenda tinha adquirido mais uma série de equipamentos e tinha até preços de outros equipamentos, que ainda não tinha adquirido porque não sabia bem se eram ou não, boa compra.
É claro que sendo eu um apaixonado pela nobre e salutar “arte” do campismo, tivemos conversa até nos despedirmos, lá para a meia-noite, e rumarmos cada um para a sua casa, que nem são assim tão distantes uma da outra, uns duzentos metros, nem mais.
Nos dias seguintes os planos do Zé Alfredo avançaram e eu ganhei um novo parceiro para as minhas constantes vadiagens de verão. Pelo menos tinha a esperança de ganhar, pois a única vez que ele tinha acampado, tinha sido na tropa, em Beja, salvo erro, e não lhe tinha deixado saudades. Pudera, acampar em Beja no verão…
A Cristina não estava particularmente entusiasmada, mas sempre era uma novidade e para mais contava com a companhia da minha mulher. A Carina é um pouco mais velha que a minha filha Joana, que tinha acabado de fazer treze anos e que é doutorada em campismo, pois desde muito nova que me acompanha, alem de nos últimos anos ter entrado para os escuteiros, o que dá uma enorme experiência nesta matéria. Um enorme background, como dizem as pessoas finas.
Combinada a data e o local, fui dando uns conselhos sobre os materiais e equipamentos a levar, uns fundamentais e indispensáveis, outros que embora não fossem essenciais eram úteis e aqueles que eram supérfluos e até desaconselháveis.
Decidimos sair numa sexta-feira à tarde em meados de Agosto. Lembro-me que o dia 15, que é feriado, calhava na terça-feira seguinte, dia escolhido para regressarmos. O local escolhido foi o parque de campismo de A Guarda, na Galiza, em pleno estuário do rio Minho, a pouco mais de dez quilómetros de nossas casas.
Devo dizer que o facto de ir de férias para um local a cinco quilómetros ou a quinhentos quilómetros de casa, é para mim totalmente indiferente. O que realmente me importa é estar bem naquele sítio e este parque é das coisas melhores que temos no noroeste peninsular. É calmo, espaçoso, muito agradável porque é totalmente arborizado e relvado; as infra-estruturas embora não sendo luxuosas são plenamente satisfatórias e tem uma piscina fantástica. O único senão, são os mosquitos ao anoitecer, nos dias de muito calor. Mas quando cai a noite, eles rumam a outras paragens e deixam de incomodar.
Nessa sexta feira o tempo estava óptimo, pirei-me do trabalho mais cedo um bocado e começamos a carregar o carro com a descontracção de quem já sabe do assunto. Primeiro a tenda, depois a geleira eléctrica, uma modernice que adquiri o ano passado e que dá imenso jeito, depois as mochilas, os sacos camas, o fogão, os tachos, etc..
Toca o telemóvel, era a Cristina a saber se já estávamos prontos, porque o Zé Alfredo bufava dentro do carro, à espera que eu desse ordem de arranque. Como era fácil para mim compreender o nervoso miudinho que o assaltava, disse-lhe que já podia vir até à minha casa, pois já tínhamos a carga quase pronta. Bem, quando vi o carro dele, um Ford Focus atulhado até ao tecto, no qual já quase não se via a mulher e a filha, não me contive e desatei à gargalhada. Havia de tudo, parecia um supermercado.
Mais um compasso de espera para a Paula, a minha mulher, acabar de fritar os panados que seriam o jantar dessa noite e arrancamos finalmente. Em Caminha, ainda paramos para comprar pão, eu lembrei-me de uns folhados que a pastelaria junto aos correios tem e são uma delícia, finalmente rumamos para o cais do ferry-boat.
Aqui começo eu a sentir-me de férias e a reagir em conformidade; nada me enerva, não há pressas e uma cerveja calha sempre bem. Começam a tirar-se as primeiras fotografias, as raparigas trocam os MP3, os telemóveis e não sei que mais, combinam estratégias próprias de miúdas adolescentes, como todos nós, quando tínhamos a idade delas.
A tenda do Zé Alfredo já tinha sido experimentada lá no terraço da casa dele, com a ajuda do Rui, o filho mais velho que terá agora dezanove ou vinte anos, estuda no Porto e tem o mesmo arcaboiço do pai.
Era um iglô baixinho, com um avançado ainda mais baixo, só permitia entradas e saídas de gatas. Até nem foi difícil de montá-la, ao contrário dos receios do seu proprietário.
Acho que o facto da montagem ter corrido bem, deu uma enorme ajuda na autoconfiança dos meus amigos.
Em breve podíamos apreciar o seu iglô equipado com um super colchão, enchido com uma bomba eléctrica que era o máximo. Vou comprar uma bomba desse género, este ano. À entrada estava um foco todo cheio de “nove horas” que ele tinha comprado a um marroquino e que nunca tinha sido usado. Achei muita piada porque a Cristina fez questão de estender os sacos camas com uma dobra muito artística como se tratassem de lençóis de linho bordados, em contraste com os nossos sacos camas atirados à balda para cima do colchão.
Depois do acampamento montado, foi a vez de dar trabalho aos dentes e aos queixos, fazendo desaparecer os panados da Paula, os rissóis, os bolos de bacalhau e não sei que mais da Cristina, os folhados que tinha comprado em Caminha e tudo o que mais viesse.
É um facto que nunca tive falta de apetite, mas no campismo como bastante mais e esta característica é partilhada com todos os que conheço destas andanças. Aquilo dá uma fome! E sede também!...
Uma das características dos meus acampamentos é um projector eléctrico de 500W que ligo todas as noites e que permite, cozinhar, comer, e conviver com uma luz decente, bem ao contrário de alguns tipos, que usam ainda candeeiros a gás ou lanternas a pilhas.
Já ultrapassei esse purismo há bastantes anos e é uma das razões porque deixei definitivamente de acampar fora dos parques. Fiz campismo selvagem durante muitos anos, mas agora acabou-se, já não tenho idade, nem vontade. Não há nada como tirar uma “bejeca” da geleira e saboreá-la, sentado confortavelmente numa cadeira de lona, a conversar ou a ouvir musica e a ler um livro, outra coisa que não dispenso.
Durante a primeira noite acordei várias vezes como é habitual e ouvia o ressonar do meu parceiro na tenda ao lado. "pelo menos não estranhou e não se pode queixar de não conseguir dormir" pensava eu, dando mais uma volta dentro do saco cama.
No dia seguinte, depois da habitual rotina do levantar, fomos às compras para as próximas refeições, sem nenhum de nós ter a menor ideia do que iríamos escolher.
Eu tenho sempre uma ideia, que são as saladas "à Brito" como diz a minha filha, pois levam de tudo um pouco e são temperadas de forma diferente. Não é publicidade, mas não esperem que vá aqui revelar o segredo.
Foi mais ou menos nessa hora, que tivemos a surpresa de ficarmos presos no trânsito na A Guarda, pois era o fim-de-semana das festas do Monte, em honra de Santa Tecla, em galego Santa Trega.
Estas festas são da mais pura raiz popular e enchem a pequena cidade de forasteiros galegos e portugueses. Basicamente não diferem muito das nossas festas e romarias, excepto no consumo de vinho tinto que é um exagero. Durante o dia, os grupos de bombos e gaitas de foles, dúzias de grupos, tocam pelas ruas em despiques animados. À noite duas orquestras animam uma verbena na praça, cujo nome desconheço, mas é onde realizam semanalmente a feira. Pelas ruas principais vedadas ao trânsito automóvel, até aos moradores, espalham-se esplanadas dos restaurantes e bares.
No domingo, é dia da subida ao monte, a acompanhar os grupos de bombos, toda a gente vestida de branco e com um lauto farnel nas cestas e mochilas. Aí é que não pode esquecer o vinho tinto, pois é ou foi transformado, de forma bizarra, no centro das atenções, porque depois de muito beberem, os festeiros regam-se uns aos outros com o precioso carrascão.
Estão a ver o efeito! Calças e camisa branca bem regadas de vinho tinto, a condizer com monumentais bebedeiras, que atiram os mais fracos para um sono retemperador, em qualquer valeta.
Foi a esta festa que nós viemos parar, onde nos divertimos imenso, sem tocar no vinho tinto, nem por dentro, nem por fora. Apesar do iminente risco que a alcoolização dos festeiros (e festeiras) acarreta, também é verdade que não vimos nenhum desacato, nem nada parecido. Nisso acho que os galegos tem melhor temperamento que os portugueses. Não confundem diversão com aborrecimentos.
Entretanto, a nossa vidinha decorria sem sobressaltos de maior dentro do parque, nomeadamente nas refeições, onde todos ajudam, seja a descascar batatas, a tomar conta de qualquer coisa ao lume, seja a lavar a louça.
O Zé Alfredo e a Cristina cada vez que era preciso algo, diziam de imediato "nós trouxemos, está no carro". Mais uma gargalhada irónica aqui do entendido, que se gabava e gaba, de só levar o indispensável. Um dos dias pela manhã, estava eu a fazer a barba, quando me cortei no queixo. Coisas que acontecem. Só que devo ter cortado algum capilar importante e o raio do sangue demorou bastante a estancar. Horas depois ao passar inadvertidamente a mão pelo queixo, vejo-me outra vez a sangrar com abundância.
Mais uma vez, o Zé Alfredo diz "tenho ali no carro um produto que te revolve isso duma vez" e de seguida vai desencantar uma pequena farmácia cheia de tralha (a minha tem adesivo, agua oxigenada e pouco mais) da qual tira um frasquinho, com conta gotas. Lá me aplicou uma gota no queixo e milagrosamente o sangue parou imediatamente de correr.
- É pá, onde arranjaste isso?
- Foi o Brito da farmácia que fez este preparado há mais de dez anos e nunca falha.
- Mas qual é a composição?
Ele explicou-me que era um permanganato qualquer, já não me lembro, um daqueles remédios à moda antiga, que só o meu homónimo farmacêutico ainda seria capaz de fabricar.
Não lhe disse nada no momento, mas dei a mão à palmatória; afinal, ele foi carregado de tralha, eu até gozei com isso, mas acabei por precisar de alguma dessa mesma tralha.

Um dos meus passatempos nos parques de campismo é ver os materiais que os outros apresentam. Comparar tendas, fogões ou acessórios é algo que faço com toda a naturalidade e ao qual o Zé Alfredo se associou de seguida. Às tantas diz-me ele:
- A minha tenda só dá para gente nova. É muito baixa para mim. Gostava de ter uma daquelas.
- Essa não é grande coisa. Aquela, acolá, é bem melhor, é uma Quechua.
Começamos a falar de marcas e de características de material de campismo, como tantos de nós falamos de automóveis ou de telemóveis. “Cavada Nova” para aqui, “Camping Gaz” para acolá, “Mckinley” para a frente, “Coleman” para trás. Depois de muita discussão e várias voltas ao parque, chegamos a um consenso; ambos gostamos de um determinado tipo de tenda e logo combinamos descobrir onde era o representante da tal marca, pois eu também pretendo comprar uma tenda maior. Quando um gajo avança na idade, avança também no comodismo.
A semana passada o Zé Alfredo apareceu lá em casa a convidar-me para ir no dia seguinte, um sábado a Porrino, na Galiza, ver as tais tendas. Tivemos uma desilusão, pois ainda não tem nada em exposição. Por informação do funcionário só lá para o final de Março é que põe à venda esse tipo de materiais. Uma estratégia comercial com a qual não estou, não estamos de acordo e por isso já combinamos ir à Maia, à Decathlon, daqui a uma ou duas semanas. Afinal, já não falta muito, para recomeçar a vadiagem!



terça-feira, 3 de junho de 2008