
sexta-feira, 20 de junho de 2008
sexta-feira, 13 de junho de 2008
O Abel da Chocalha
Não conheci pessoalmente o meu avô materno Abel Nascimento Brito, de sua graça. Quando eu nasci, já ele tinha falecido há cerca de 10 anos. Era pai de quatro raparigas, quatro manas, como eu carinhosamente lhes chamo, até porque uma delas é minha mãe. Teve um filho mais novo, o António, que morreu ainda criança.
O Abel era um senhor dotado de uma calma monástica, que nada o fazia enervar, que nada o apressava, característica que certamente herdou do seu pai Luís Brito, nascido criado e vivido em Segadães, às portas de Valença do Minho. Eu disse que nada o apressava, mas não é totalmente verdade, porque apenas umas saias tinham o condão de espevitar o pachorrento Abel.
O meu avô era conhecido pelo Abel da Chocalha, apelido que herdou da sogra do seu primeiro matrimónio Maria José Gandra, que curiosamente foi sua ama de leite. A Chocalha era de Gontinhães, mas por artes do acaso, foi ter a Segadães onde desempenhou a função de ama de leite do Abel, nascido em 1880 e do Manuel, seu irmão mais velho quatro ou cinco anos.
Esta senhora que era solteira, tinha uma filha de nome Felisbela Gandra, casada com um tal Pereira, do Amonde, que morreu poucos anos volvidos com tuberculose. Deste casamento já tinha nascido o Américo, que ficou órfão ainda catraio, mas que ganhou rapidamente uma madrasta, pois o Abel casou em segundas núpcias com a sua conterrânea Delfina Gomes.
Por essa época já o Abel Brito e a sua ex-sogra estavam estabelecidos em Gontinhães com uma pensão e loja que chamaram Pensão Âncora, mais tarde pensão Meira e actualmente hotel Meira, naquela que é hoje a Rua 5 de Outubro. Não sei se já assim se chamava nessa altura, pois a republica se já estava implantada, estava ainda muito verde.
Do casamento com a Delfina nasceram quatro filhas e um filho a um ritmo praticamente anual. Primeiro a Felisbela, a seguir a Arminda, depois a Maria José e ainda a Julieta. Finalmente o António, o benjamim dos pais e o querido das irmãs que tragicamente morre de doença com dez anos. Era da idade do nosso conterrâneo Sr. Durval Brito, que apesar do apelido, não tem connosco qualquer relacionamento familiar. Outro conterrâneo da mesma idade era o Sr. Luís Gomes, recentemente falecido em acidente de viação.
A filha mais velha, Felisbela casou com Simão Meira e abriram uma pensão na Praça da Republica, no chamado prédio da Assembleia. A Arminda casou em Valença com o António Gomes, seu primo legítimo, filho de um irmão da Delfina. A Maria José, minha mãe, casou com o Ribeiro, caixeiro-viajante e foi viver, embora por pouco tempo, para o Porto, regressando poucos anos depois a Vila Praia de Âncora. A Julieta casou com o Castilho, foi viver para o Porto e por lá ficou.
Mas a personagem principal desta história é o avô Abel, um bonacheirão que metia-se em negócios (mais ou menos da China) e que acabavam sempre por dar fiasco e prejuízo.
Uma vez convenceu o genro Ribeiro, meu saudoso pai, a fazer um negócio de marmelada. O Ribeiro dava o açúcar e o Abel arranjava os marmelos e enlatava a dita. É mesmo, não me enganei, era marmelada enlatada. O resultado foi montes de latas que ninguém comprava e que acabaram por ser abertas e o produto deitado aos porcos. Mas por estranho que pareça ou talvez não, nem os porcos quiseram a marmelada, que teve de ser enterrada no quintal. Muitos anos mais tarde, quando falávamos deste episódio na frente do meu pai, era vê-lo a sair “à francesa”, como se nada fosse com ele.
Outro negócio que correu mal foi uma importação de bicicletas que ele ia buscar a França na sua camioneta e com um intérprete às ordens, um sujeito de Viana que ele convenceu a acompanhá-lo. Naquela época uma viagem a França por estrada, não se fazia com a facilidade de hoje e o Abel gastou mais na aventura, que o valor das bicicletas. Mais uma vez para se ver livre da mercadoria teve de vender com prejuízo e ouvir as recriminações da minha avó, que tremia cada vez que o Abel dizia que andava a matutar num negócio.
Outra coisa que punha a avó em polvorosa eram as repetidas aventuras amorosas do marido. Nunca lhe perdoou ter o facto de uma das amantes, a Felicidade, uma viúva ainda fresca, como dizemos hoje ”que ainda rompia meias solas”, ter ido morar a pouco mais de cinquenta metros da sua casa, mais ou menos onde hoje é a ourivesaria do Catarino.
Outra das suas “amigas”, a Ester da Pelada quando teve um filho, o José Luís que é o mais novo de três, logo disseram que seria filho do Abel. Não há certezas, naquele tempo não se sabia nada sobre ADN, mas outro dos suspeitos da paternidade, seria o Toninho Tinta Fina, que também por lá andava.
O Abel tinha um parceiro que fisicamente ainda era mais avantajado que ele. Pois, eu ainda não vos descrevi o Abel da Chocalha, que era um homenzarrão que embora não fosse muito alto, era forte e barrigudo. O Fontes, o tal parceiro de que vos falei, ainda era mais corpulento, pois media perto de dois metros e acompanhava o Abel, nas suas palavras, para "fazer de contrapeso" na camioneta.
Este Fontes foi faroleiro na Ínsua durante muitos anos, morava mesmo em frente à pensão Âncora, onde hoje é o Hotel Meira. Eram bons amigos e davam grandes passeatas na camioneta do Abel, na companhia dos netos que foram surgindo dos casamentos das filhas. Aqueles que conheceram o avô foram os meus primos Jorge e Zé Meira e as minhas irmãs Julieta e Delfina, conhecidas por Mimi e Fininha respectivamente. O Jorge e a Mimi eram uns vivaços; o Zé e a Fininha, pelo contrário eram muito tranquilos. Muitas vezes ouvi os meus pais dizerem que o neto mais parecido com o Abel da Chocalha era o Zé Meira, não só fisicamente, mas no carácter e na imaginação. O Zé, que era meu padrinho, talvez dê um dia destes um pequeno conto, vamos a ver!
A pachorra do Abel era tanta que quando encostado à parede em frente à sua casa, onde estão as alminhas, e as pombas no beiral do telhado lhe sujavam a cabeça, em vez de se desviar, dizia para a Maria Ninom, mulher do Sr. Barata:
- Oh Maria, empresta-me a boina, que as pombas estão a cagar-me na cabeça.
O avô Abel alem de bom cozinheiro, era também um óptimo fotógrafo, que até possuía câmara escura para revelação das suas fotos. Infelizmente apenas duas ou três fotos da sua autoria chegaram à minha posse e desconheço se alguns dos meus primos possuem mais fotografias tiradas por ele. Tenho bastantes fotos antigas, mas são de estúdio ou tiradas pelo meu pai, já na década de trinta.
Após a morte da minha avó Delfina, o Abel sossegou e dizem que até se deixou de aventuras amorosas. Não sei se isso foi totalmente verdade, mas que ele sentiu muito a falta da esposa, não tenho dúvidas. Ele próprio o reconheceu, mais que uma vez.
Apenas lhe sobreviveu seis anos, sendo vitima dum acidente vascular cerebral, que o deixou totalmente incapacitado, para se repetir poucas semanas depois, causando-lhe a morte.
domingo, 8 de junho de 2008
A Festa do Monte
- O Zé Alfredo comprou uma tenda. Ele disse-te alguma coisa?
Tinha estado uma boa parte da tarde com ele na praia, falamos de mil e um assuntos, mas não me disse absolutamente nada dessa compra.
- Se calhar é para o Rui ou para a Carina – respondi eu, que nunca tinha visto o Zé Alfredo com “queda” para o campismo. Se fossem uns piqueniques com merendeiro à mistura, estava sempre pronto. Agora, campismo a sério, nunca me passaria pela cabeça.
Tinha sido a sua cara-metade, a Cristina que confidenciou à minha mulher, a iniciativa daquele respeitável chefe de família, que adquiriu levianamente um T1 rasteiro, tipo iglô, no qual os seus, também respeitáveis noventa e tal quilos, entravam rastejantes.
À noite, após o jantar, encontramo-nos como de costume na avenida marginal de Vila Praia de Âncora, onde moramos, e perguntei-lhe de chofre se era verdade que tinha uma tenda nova.
Mais admirado fiquei quando me contou, com toda a naturalidade, que alem da tenda tinha adquirido mais uma série de equipamentos e tinha até preços de outros equipamentos, que ainda não tinha adquirido porque não sabia bem se eram ou não, boa compra.
É claro que sendo eu um apaixonado pela nobre e salutar “arte” do campismo, tivemos conversa até nos despedirmos, lá para a meia-noite, e rumarmos cada um para a sua casa, que nem são assim tão distantes uma da outra, uns duzentos metros, nem mais.
Nos dias seguintes os planos do Zé Alfredo avançaram e eu ganhei um novo parceiro para as minhas constantes vadiagens de verão. Pelo menos tinha a esperança de ganhar, pois a única vez que ele tinha acampado, tinha sido na tropa, em Beja, salvo erro, e não lhe tinha deixado saudades. Pudera, acampar em Beja no verão…
A Cristina não estava particularmente entusiasmada, mas sempre era uma novidade e para mais contava com a companhia da minha mulher. A Carina é um pouco mais velha que a minha filha Joana, que tinha acabado de fazer treze anos e que é doutorada em campismo, pois desde muito nova que me acompanha, alem de nos últimos anos ter entrado para os escuteiros, o que dá uma enorme experiência nesta matéria. Um enorme background, como dizem as pessoas finas.
Combinada a data e o local, fui dando uns conselhos sobre os materiais e equipamentos a levar, uns fundamentais e indispensáveis, outros que embora não fossem essenciais eram úteis e aqueles que eram supérfluos e até desaconselháveis.
Decidimos sair numa sexta-feira à tarde em meados de Agosto. Lembro-me que o dia 15, que é feriado, calhava na terça-feira seguinte, dia escolhido para regressarmos. O local escolhido foi o parque de campismo de A Guarda, na Galiza, em pleno estuário do rio Minho, a pouco mais de dez quilómetros de nossas casas.
Devo dizer que o facto de ir de férias para um local a cinco quilómetros ou a quinhentos quilómetros de casa, é para mim totalmente indiferente. O que realmente me importa é estar bem naquele sítio e este parque é das coisas melhores que temos no noroeste peninsular. É calmo, espaçoso, muito agradável porque é totalmente arborizado e relvado; as infra-estruturas embora não sendo luxuosas são plenamente satisfatórias e tem uma piscina fantástica. O único senão, são os mosquitos ao anoitecer, nos dias de muito calor. Mas quando cai a noite, eles rumam a outras paragens e deixam de incomodar.
Nessa sexta feira o tempo estava óptimo, pirei-me do trabalho mais cedo um bocado e começamos a carregar o carro com a descontracção de quem já sabe do assunto. Primeiro a tenda, depois a geleira eléctrica, uma modernice que adquiri o ano passado e que dá imenso jeito, depois as mochilas, os sacos camas, o fogão, os tachos, etc..
Toca o telemóvel, era a Cristina a saber se já estávamos prontos, porque o Zé Alfredo bufava dentro do carro, à espera que eu desse ordem de arranque. Como era fácil para mim compreender o nervoso miudinho que o assaltava, disse-lhe que já podia vir até à minha casa, pois já tínhamos a carga quase pronta. Bem, quando vi o carro dele, um Ford Focus atulhado até ao tecto, no qual já quase não se via a mulher e a filha, não me contive e desatei à gargalhada. Havia de tudo, parecia um supermercado.
Mais um compasso de espera para a Paula, a minha mulher, acabar de fritar os panados que seriam o jantar dessa noite e arrancamos finalmente. Em Caminha, ainda paramos para comprar pão, eu lembrei-me de uns folhados que a pastelaria junto aos correios tem e são uma delícia, finalmente rumamos para o cais do ferry-boat.
Aqui começo eu a sentir-me de férias e a reagir em conformidade; nada me enerva, não há pressas e uma cerveja calha sempre bem. Começam a tirar-se as primeiras fotografias, as raparigas trocam os MP3, os telemóveis e não sei que mais, combinam estratégias próprias de miúdas adolescentes, como todos nós, quando tínhamos a idade delas.
A tenda do Zé Alfredo já tinha sido experimentada lá no terraço da casa dele, com a ajuda do Rui, o filho mais velho que terá agora dezanove ou vinte anos, estuda no Porto e tem o mesmo arcaboiço do pai.
Era um iglô baixinho, com um avançado ainda mais baixo, só permitia entradas e saídas de gatas. Até nem foi difícil de montá-la, ao contrário dos receios do seu proprietário.
Acho que o facto da montagem ter corrido bem, deu uma enorme ajuda na autoconfiança dos meus amigos.
Em breve podíamos apreciar o seu iglô equipado com um super colchão, enchido com uma bomba eléctrica que era o máximo. Vou comprar uma bomba desse género, este ano. À entrada estava um foco todo cheio de “nove horas” que ele tinha comprado a um marroquino e que nunca tinha sido usado. Achei muita piada porque a Cristina fez questão de estender os sacos camas com uma dobra muito artística como se tratassem de lençóis de linho bordados, em contraste com os nossos sacos camas atirados à balda para cima do colchão.
Depois do acampamento montado, foi a vez de dar trabalho aos dentes e aos queixos, fazendo desaparecer os panados da Paula, os rissóis, os bolos de bacalhau e não sei que mais da Cristina, os folhados que tinha comprado em Caminha e tudo o que mais viesse.
É um facto que nunca tive falta de apetite, mas no campismo como bastante mais e esta característica é partilhada com todos os que conheço destas andanças. Aquilo dá uma fome! E sede também!...
Uma das características dos meus acampamentos é um projector eléctrico de 500W que ligo todas as noites e que permite, cozinhar, comer, e conviver com uma luz decente, bem ao contrário de alguns tipos, que usam ainda candeeiros a gás ou lanternas a pilhas.
Já ultrapassei esse purismo há bastantes anos e é uma das razões porque deixei definitivamente de acampar fora dos parques. Fiz campismo selvagem durante muitos anos, mas agora acabou-se, já não tenho idade, nem vontade. Não há nada como tirar uma “bejeca” da geleira e saboreá-la, sentado confortavelmente numa cadeira de lona, a conversar ou a ouvir musica e a ler um livro, outra coisa que não dispenso.
Durante a primeira noite acordei várias vezes como é habitual e ouvia o ressonar do meu parceiro na tenda ao lado. "pelo menos não estranhou e não se pode queixar de não conseguir dormir" pensava eu, dando mais uma volta dentro do saco cama.
No dia seguinte, depois da habitual rotina do levantar, fomos às compras para as próximas refeições, sem nenhum de nós ter a menor ideia do que iríamos escolher.
Eu tenho sempre uma ideia, que são as saladas "à Brito" como diz a minha filha, pois levam de tudo um pouco e são temperadas de forma diferente. Não é publicidade, mas não esperem que vá aqui revelar o segredo.
Foi mais ou menos nessa hora, que tivemos a surpresa de ficarmos presos no trânsito na A Guarda, pois era o fim-de-semana das festas do Monte, em honra de Santa Tecla, em galego Santa Trega.
Estas festas são da mais pura raiz popular e enchem a pequena cidade de forasteiros galegos e portugueses. Basicamente não diferem muito das nossas festas e romarias, excepto no consumo de vinho tinto que é um exagero. Durante o dia, os grupos de bombos e gaitas de foles, dúzias de grupos, tocam pelas ruas em despiques animados. À noite duas orquestras animam uma verbena na praça, cujo nome desconheço, mas é onde realizam semanalmente a feira. Pelas ruas principais vedadas ao trânsito automóvel, até aos moradores, espalham-se esplanadas dos restaurantes e bares.
No domingo, é dia da subida ao monte, a acompanhar os grupos de bombos, toda a gente vestida de branco e com um lauto farnel nas cestas e mochilas. Aí é que não pode esquecer o vinho tinto, pois é ou foi transformado, de forma bizarra, no centro das atenções, porque depois de muito beberem, os festeiros regam-se uns aos outros com o precioso carrascão.
Estão a ver o efeito! Calças e camisa branca bem regadas de vinho tinto, a condizer com monumentais bebedeiras, que atiram os mais fracos para um sono retemperador, em qualquer valeta.
Foi a esta festa que nós viemos parar, onde nos divertimos imenso, sem tocar no vinho tinto, nem por dentro, nem por fora. Apesar do iminente risco que a alcoolização dos festeiros (e festeiras) acarreta, também é verdade que não vimos nenhum desacato, nem nada parecido. Nisso acho que os galegos tem melhor temperamento que os portugueses. Não confundem diversão com aborrecimentos.
Entretanto, a nossa vidinha decorria sem sobressaltos de maior dentro do parque, nomeadamente nas refeições, onde todos ajudam, seja a descascar batatas, a tomar conta de qualquer coisa ao lume, seja a lavar a louça.
O Zé Alfredo e a Cristina cada vez que era preciso algo, diziam de imediato "nós trouxemos, está no carro". Mais uma gargalhada irónica aqui do entendido, que se gabava e gaba, de só levar o indispensável. Um dos dias pela manhã, estava eu a fazer a barba, quando me cortei no queixo. Coisas que acontecem. Só que devo ter cortado algum capilar importante e o raio do sangue demorou bastante a estancar. Horas depois ao passar inadvertidamente a mão pelo queixo, vejo-me outra vez a sangrar com abundância.
Mais uma vez, o Zé Alfredo diz "tenho ali no carro um produto que te revolve isso duma vez" e de seguida vai desencantar uma pequena farmácia cheia de tralha (a minha tem adesivo, agua oxigenada e pouco mais) da qual tira um frasquinho, com conta gotas. Lá me aplicou uma gota no queixo e milagrosamente o sangue parou imediatamente de correr.
- É pá, onde arranjaste isso?
- Foi o Brito da farmácia que fez este preparado há mais de dez anos e nunca falha.
- Mas qual é a composição?
Ele explicou-me que era um permanganato qualquer, já não me lembro, um daqueles remédios à moda antiga, que só o meu homónimo farmacêutico ainda seria capaz de fabricar.
Não lhe disse nada no momento, mas dei a mão à palmatória; afinal, ele foi carregado de tralha, eu até gozei com isso, mas acabei por precisar de alguma dessa mesma tralha.
Um dos meus passatempos nos parques de campismo é ver os materiais que os outros apresentam. Comparar tendas, fogões ou acessórios é algo que faço com toda a naturalidade e ao qual o Zé Alfredo se associou de seguida. Às tantas diz-me ele:
- A minha tenda só dá para gente nova. É muito baixa para mim. Gostava de ter uma daquelas.
- Essa não é grande coisa. Aquela, acolá, é bem melhor, é uma Quechua.
Começamos a falar de marcas e de características de material de campismo, como tantos de nós falamos de automóveis ou de telemóveis. “Cavada Nova” para aqui, “Camping Gaz” para acolá, “Mckinley” para a frente, “Coleman” para trás. Depois de muita discussão e várias voltas ao parque, chegamos a um consenso; ambos gostamos de um determinado tipo de tenda e logo combinamos descobrir onde era o representante da tal marca, pois eu também pretendo comprar uma tenda maior. Quando um gajo avança na idade, avança também no comodismo.
A semana passada o Zé Alfredo apareceu lá em casa a convidar-me para ir no dia seguinte, um sábado a Porrino, na Galiza, ver as tais tendas. Tivemos uma desilusão, pois ainda não tem nada em exposição. Por informação do funcionário só lá para o final de Março é que põe à venda esse tipo de materiais. Uma estratégia comercial com a qual não estou, não estamos de acordo e por isso já combinamos ir à Maia, à Decathlon, daqui a uma ou duas semanas. Afinal, já não falta muito, para recomeçar a vadiagem!
terça-feira, 3 de junho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Confusões, não!!! Ao largo...
Nós corricavamos devagar em longas passagens desde o Moreiro junto ao portinho, até às primeiras pedras do Forte do Cão e fomos fazendo a nossa pesca. Como era habitual, desde que descobrimos o peixe, nos dias seguintes, juntavam-se mais alguns barcos que habitualmente só andavam à “mama”, esperando que os outros encontrassem o peixe para depois eles aparecerem.
Assim foi, quem encontrara o peixe tínhamos sido nós, o Fernando Nelaço e o Tone Rosito, ainda andamos dois dias sossegados a dar neles, até que, ao terceiro dia, quando saímos do portinho, demos de caras com oito barcos a corricar ao longo do praial. A mim deu-me vontade de rir, mas o Zé da Tilde, o meu parceiro, não achou graça nenhuma e fartou-se de “remoer”.
Lá avançamos, cheios de coragem, para o meio do maralhal, ainda demos uma passagem, mas aquilo não era para nós. Corricar com as linhas estendidas oitenta ou cem metros atrás do barco, com os outros gajos a manobrar à toa e a enrascar a cada passo, não era para nós, que gostamos de pescar com tranquilidade e “à larga”.
Afastamo-nos da costa e das rotas dos outros tipos e passamos a corricar praticamente sós, apenas o Arturinho estava perto de nós, pois ele também não gosta dessas confusões. E vimos algumas discussões ao longe, pois havia dois barcos o do Ginho e o do “Olhinhos” que levavam tudo na frente, não sei se por ganância dos melhores locais, se por mera azelhisse.
- São muito burros! Em vez de virarem todos para o mesmo lado, cruzam-se e apanham as linhas uns dos outros – dizia o Zé, que apreciava o bailado confuso dos pequenos barcos, junto à costa.
- E são sempre os mesmos a fazer merda. Olha, já apanharam as linhas do Nel do Cuco! Agora é que vai ser bonito. – dizia eu, pensando que o Cuco ia arranjar uma discussão grossa. Em breve, estavam vários barcos parados, perto uns dos outros, o Nel esbracejava violentamente, devia estar a dizer das boas a alguém.
- Ainda bem que saímos dali. Aqui também se apanham e não vai tardar a fugir-lhes o peixe.
- Pudera, ao movimento e ao barulho que fazem, aposto que já o espantaram.
Parece que nunca tinha dito uma frase tão verdadeira. O peixe falhou-lhes e aos poucos todos se foram embora, deixando-nos sozinhos.
- Vamos lá dentro experimentar, Zé?
- Hum… Acho que é melhor ficar por aqui, o mar tem uma voltinha a mais e aqui também vamos apanhando.
Isso era verdade e já tínhamos engatado um par deles. Aos poucos percebemos que os robalos estavam mais fundo, colocamos chumbeiras maiores nas linhas e reduzimos a velocidade. Assim passamos a manhã e quando nos estávamos a preparar para regressar a terra com sete ou oito peixes no balde, engatamos dois ao mesmo tempo.
Paramos o barco e cada um tratou de meter a bordo o seu robalo. Arrancamos e mal tínhamos largado as linhas novamente, voltamos a engatar mais dois. Repetimos a operação e continuamos, mas não sentimos mais nada.
“Meia volta, que o peixe está para sul, em frente às primeiras escadinhas de madeira”, uma nossa referência. Ao passar lá, demos com eles e continuamos a pescar robalos, se calhar do tal cardume, que tinha aparecido, logo de manhã, junto à rebentação, tinha-se espantado e horas depois regressara.
Com as borrachinhas verde escura e peso suficiente para o estralho ir junto ao fundo de areia, a seis ou sete metros, os cachiços iam “saltando” para dentro do barco.
O Tone Rosito e o filho, o “Chuinga” que já estavam em terra há um par de horas, viram-nos dar tantas voltas sempre no mesmo sítio que desconfiaram, meteram-se novamente no barco e quando chegaram à nossa beira nem foi preciso perguntar nada, porque também já estavam a sentir o peixe nas linhas.
Sem termos feito uma pesca extraordinária, sempre apanhamos mais que qualquer um dos outros e estávamos bem contentes, até porque os robalos tinham o tamanho que mais gostávamos, é chamado peixe de dose, embora tirar um peixe grande dá sempre um gozo extraordinário.
Chegamos a terra já passava da uma da tarde e não estava praticamente ninguém no portinho, por isso a nossa pescaria passou despercebida.
No dia seguinte foi a mesma “pouca-vergonha” com todos amontoados logo ao nascer do dia no praial.
Com as nossas calmas, lá fomos para o pesqueiro bastante mais fora que os outros, onde a espaços, íamos apanhando algum robalote e um ou outro ruivo. O dia estava enfarruscado, sentia-se uma brisa fraca de sudoeste e o mar tinha alguma ondulação de fundo, que convidava a malta a afastar-se da costa e da rebentação.
Ao fim da manhã voltamos a ter o nosso momento de glória, com o peixe a redobrar de actividade. Junto de nós apenas o Rosito e o Nelaço, a quem lhe contáramos o sucedido, no dia anterior.
Voltamos a entrar tarde, já a maré descia há um par de horas e o mar parecia estar a crescer.
Durante a tarde o vento aumentou, o mar era “mais”, à noite já era uma maresia e no dia seguinte nem foi preciso levantar-me cedo.
Como moro junto à avenida marginal, pelo barulho do mar, fiquei a saber que não ia haver pesca para ninguém. Dei meia volta na cama e antes de adormecer, pensei que a nossa pesca já estava feita, de véspera.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Carta por terminar
Subiu a calçada do Sol Posto, mas ao passar junto da propriedade do Teles parou arquejante. Um cansaço imenso invadia-lhe o corpo, toldava-lhe a mente. O coração batia desordenado, as pernas pesavam, o ar entrava-lhe com dificuldade no peito.
Encostou-se ao muro com o semblante fechado, procurando recobrar alento. O corpo alto e ossudo, as costas algo curvadas, a tez branca, pálida demais para quem vivia à beira mar, descreviam um jovem precocemente envelhecido. Os vinte e dois anos representavam já um fardo pesado para quem perdeu o pai ainda bebé de cueiros e a mãe três anos depois, ambos abatidos pela tuberculose.
Quando a mãe enviuvou, cedo lhe deu um padrasto, o Abel, que era como um verdadeiro pai para ele. Foi com ele e a avó Maria Chocalha que ficou a viver quando a mãe se finou, pouco depois.
A mãe que procurava recordar, mas de quem não tinha uma leve recordação para guardar. Apenas a fotografia dos pais no dia do casamento perpetuava a imagem destes seres, tragicamente ceifados pela doença implacável. Pouco depois de enviuvar, também o padrasto tinha casado com a Delfina, que o aceitou, e dele tratou com esmero, lado a lado com as filhas naturais que iam surgindo, a Bela, a Minda, a Quinhas, a Letinha, agora vinha mais um a caminho. A Delfina tinha anunciado há poucos dias que estava novamente de esperanças.
Aos poucos recuperou a respiração, mas um ataque de tosse trouxe-lhe um vómito à boca. Limpou o escarro com o lenço, uma pequena mancha encarnada tingia o pano. Já era a segunda vez que lhe acontecia.
Retomou a marcha, um passo lento, quase de velho, até aos Poços de Vilarinho por entre caminhos bordejados de giestas floridas. Sentou-se à sombra de um velho plátano, vendo à sua frente o casario que se estendia até ao mar. Lá em baixo, a beijar a areia do portinho, esperavam as gamelas da sardinha, prontas para a faina, logo mais à tardinha.
Desceu vagarosamente a Gontinhães, terra onde a Delfina e o Abel tinham uma loja e pensão de hóspedes, que era também a sua casa. As crianças brincavam no Largo do Sol Posto ao lado da pensão. Jogavam à riola, outras saltavam à corda.
- Américo, joga aqui connosco – pediu a Letinha, a mais nova do grupo.
- Sim, sim, Américo joga connosco – fizeram coro as demais.
- Agora não posso, tenho de ir tomar conta da loja e falar à avó Maria. Mais logo jogo convosco e ganho-vos a todas!
Entrou na loja fresca e sombria, sentiu-se melhor, já nem lhe ardia o peito ao respirar. Não encontrou a avó em parte alguma. Uma das criadas informou-o que a tinha visto a descer a rua em direcção à praça.
- Se calhar foi à Igreja – concluiu o Américo.
- Que queres à avó, Américo? – Pergunta a Delfina que descia as escadas, vinda dos quartos e que tinha ouvido parte da conversa.
- Nada Tia Fina, nada. Era só para saber dela.
- Américo, estás tão pálido, andas outra vez a comer pouco. Pareces um pisco! Vem comigo, vou fazer-te uma gemada com vinho fino, a ver se te dá novas cores.
- Mas não me apetece nada…
- Não sejas teimoso, tens que te alimentar. Vamos lá para a cozinha!
No dia seguinte estava a Delfina a servir os almoços para os hóspedes quando entrou na cozinha a Gracinda, uma das lavadeiras da pensão.
- D. Delfina, quando puder chegue ao lavadouro.
- Ó mulher, não vês que estou a servir os almoços… Que raio, não fazeis nada sozinhas. Afinal o que aconteceu?
- É que… bom… é melhor a senhora passar lá.
- Deixas-me em cuidados, mas agora…
- Não há pressa D. Delfina. O que é pode esperar…
- Vá lá D. Delfina, eu acabo de servir. Já faltam poucos – intervêm a Maria Ferrinha, a ajudante de confiança da dona da pensão.
Passaram à copa, subiram os degraus que conduziam ao terreno onde estavam os lavadouros. Dois tanques enormes em cantaria de granito onde eram asseados os lençóis, toalhas e cobertores da pensão, assim como as roupas dos hospedes e dos proprietários.
- Que se passa mulher, parece que te surgiu uma alma danada.
- Olhe para este lenço…
- Tem sangue. De quem é?
- Tem sangue mas é no escarro – esclarece a Gracinda.
- Cruzes, de quem é o lenço?
- Do… do menino Américo…
- Tens a certeza?
- Se tenho, minha senhora! Fui eu que abri a trouxa dele. Olhe o resto da roupa, a camisa, as ceroulas, não enganam. São do menino e aqui está outro lenço também manchado de sangue.
- Deus me valha, onde é que ele está?
O Américo foi procurado imediatamente por toda a casa, acabou por aparecer pouco depois com um cesto de figos que recolhera da figueira grande. “Está tão carregada que os galhos estão dobrados quase até ao chão” contava o Américo, enquanto pousava o cesto sobre a comprida mesa da cozinha.
A Delfina pegou-lhe suavemente por um braço levando-o para a salinha, contigua à cozinha, onde o interrogou sobre o sangue no lenço de bolso.
- Pois foi Tia Fina, já é a segunda vez que me acontece. Depois de tossir sai-me um escarro com sangue misturado.
- Ai filho, tu estás doente. Bem me parecia que a tua cor era esquisita. Já mandei chamar o Dr. Luís, mas está para Afife. Só mais logo é que regressa. Enquanto ele não chega tens de te recolher ao quarto. Pode ser doença que se pegue às crianças…
- Oh não! Às crianças não…
- Por isso, vais para o teu quarto até chegar o Dr. Luís, que eu levo-te lá o comer.
O diagnóstico feito pelo Dr. Luís Ramos Pereira foi peremptório, o mal estava instalado nos pulmões e pouco havia a fazer. Foi dada ordem para queimar as roupas de cama e escaldar e apartar a louça onde o rapaz comia.
No dia seguinte foi para o Amonde, acompanhado da avó Maria Chocalha, instalou-se na casa da sua tia Joaquina, irmã do seu falecido pai. Isolamento, ar do monte e uns remédios aviados na botica eram a única esperança.
- Talvez ainda não esteja muito adiantado. – Dizia com ar de dúvida o médico – Olha que se os ares do Amonde não o curarem, nada mais o cura.
Todas as semanas a Tia Leonarda carregava à cabeça um cesto de mantimentos e o jornal para o Américo ler. A viagem fazia-a a pé, duas léguas para cada lado, nada que assustasse esta mulher, habituada como estava a carregar feixes de lenha e outras mercadorias o dia inteiro. Na volta trazia sempre uma carta que o doente escrevia para a sua mãe de adopção, a Tia Fina como ele carinhosamente lhe chamava.
Uma vez o Abel ainda levou as crianças até ao Amonde, viram ao longe a casa e o Américo, não se aproximaram com receio do contágio.
Nem os ares do monte, nem os cuidados de quantos o rodeavam lhe valeram. Escrevia mais uma carta para a Delfina, grávida de oito meses, quando a pena lhe escorregou dos dedos. Já não terminou a frase “Deus o crie para a boa…”.


