terça-feira, 3 de junho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Confusões, não!!! Ao largo...
Estavam a “dar” uns robalos no praial de Âncora e nós tratamos de aproveitar porque não era ano de muita fartura e o verão já estava quase passado. Foi na semana a seguir à festa da Senhora da Agonia de Viana, era final de Agosto, que pela manhã cedo, se tiravam uns robalotes jeitosos, nunca abaixo do meio quilo. É certo que saíam poucos, mas sempre era melhor que nenhum.
Nós corricavamos devagar em longas passagens desde o Moreiro junto ao portinho, até às primeiras pedras do Forte do Cão e fomos fazendo a nossa pesca. Como era habitual, desde que descobrimos o peixe, nos dias seguintes, juntavam-se mais alguns barcos que habitualmente só andavam à “mama”, esperando que os outros encontrassem o peixe para depois eles aparecerem.
Assim foi, quem encontrara o peixe tínhamos sido nós, o Fernando Nelaço e o Tone Rosito, ainda andamos dois dias sossegados a dar neles, até que, ao terceiro dia, quando saímos do portinho, demos de caras com oito barcos a corricar ao longo do praial. A mim deu-me vontade de rir, mas o Zé da Tilde, o meu parceiro, não achou graça nenhuma e fartou-se de “remoer”.
Lá avançamos, cheios de coragem, para o meio do maralhal, ainda demos uma passagem, mas aquilo não era para nós. Corricar com as linhas estendidas oitenta ou cem metros atrás do barco, com os outros gajos a manobrar à toa e a enrascar a cada passo, não era para nós, que gostamos de pescar com tranquilidade e “à larga”.
Afastamo-nos da costa e das rotas dos outros tipos e passamos a corricar praticamente sós, apenas o Arturinho estava perto de nós, pois ele também não gosta dessas confusões. E vimos algumas discussões ao longe, pois havia dois barcos o do Ginho e o do “Olhinhos” que levavam tudo na frente, não sei se por ganância dos melhores locais, se por mera azelhisse.
- São muito burros! Em vez de virarem todos para o mesmo lado, cruzam-se e apanham as linhas uns dos outros – dizia o Zé, que apreciava o bailado confuso dos pequenos barcos, junto à costa.
- E são sempre os mesmos a fazer merda. Olha, já apanharam as linhas do Nel do Cuco! Agora é que vai ser bonito. – dizia eu, pensando que o Cuco ia arranjar uma discussão grossa. Em breve, estavam vários barcos parados, perto uns dos outros, o Nel esbracejava violentamente, devia estar a dizer das boas a alguém.
- Ainda bem que saímos dali. Aqui também se apanham e não vai tardar a fugir-lhes o peixe.
- Pudera, ao movimento e ao barulho que fazem, aposto que já o espantaram.
Parece que nunca tinha dito uma frase tão verdadeira. O peixe falhou-lhes e aos poucos todos se foram embora, deixando-nos sozinhos.
- Vamos lá dentro experimentar, Zé?
- Hum… Acho que é melhor ficar por aqui, o mar tem uma voltinha a mais e aqui também vamos apanhando.
Isso era verdade e já tínhamos engatado um par deles. Aos poucos percebemos que os robalos estavam mais fundo, colocamos chumbeiras maiores nas linhas e reduzimos a velocidade. Assim passamos a manhã e quando nos estávamos a preparar para regressar a terra com sete ou oito peixes no balde, engatamos dois ao mesmo tempo.
Paramos o barco e cada um tratou de meter a bordo o seu robalo. Arrancamos e mal tínhamos largado as linhas novamente, voltamos a engatar mais dois. Repetimos a operação e continuamos, mas não sentimos mais nada.
“Meia volta, que o peixe está para sul, em frente às primeiras escadinhas de madeira”, uma nossa referência. Ao passar lá, demos com eles e continuamos a pescar robalos, se calhar do tal cardume, que tinha aparecido, logo de manhã, junto à rebentação, tinha-se espantado e horas depois regressara.
Com as borrachinhas verde escura e peso suficiente para o estralho ir junto ao fundo de areia, a seis ou sete metros, os cachiços iam “saltando” para dentro do barco.
O Tone Rosito e o filho, o “Chuinga” que já estavam em terra há um par de horas, viram-nos dar tantas voltas sempre no mesmo sítio que desconfiaram, meteram-se novamente no barco e quando chegaram à nossa beira nem foi preciso perguntar nada, porque também já estavam a sentir o peixe nas linhas.
Sem termos feito uma pesca extraordinária, sempre apanhamos mais que qualquer um dos outros e estávamos bem contentes, até porque os robalos tinham o tamanho que mais gostávamos, é chamado peixe de dose, embora tirar um peixe grande dá sempre um gozo extraordinário.
Chegamos a terra já passava da uma da tarde e não estava praticamente ninguém no portinho, por isso a nossa pescaria passou despercebida.
No dia seguinte foi a mesma “pouca-vergonha” com todos amontoados logo ao nascer do dia no praial.
Com as nossas calmas, lá fomos para o pesqueiro bastante mais fora que os outros, onde a espaços, íamos apanhando algum robalote e um ou outro ruivo. O dia estava enfarruscado, sentia-se uma brisa fraca de sudoeste e o mar tinha alguma ondulação de fundo, que convidava a malta a afastar-se da costa e da rebentação.
Ao fim da manhã voltamos a ter o nosso momento de glória, com o peixe a redobrar de actividade. Junto de nós apenas o Rosito e o Nelaço, a quem lhe contáramos o sucedido, no dia anterior.
Voltamos a entrar tarde, já a maré descia há um par de horas e o mar parecia estar a crescer.
Durante a tarde o vento aumentou, o mar era “mais”, à noite já era uma maresia e no dia seguinte nem foi preciso levantar-me cedo.
Como moro junto à avenida marginal, pelo barulho do mar, fiquei a saber que não ia haver pesca para ninguém. Dei meia volta na cama e antes de adormecer, pensei que a nossa pesca já estava feita, de véspera.
Nós corricavamos devagar em longas passagens desde o Moreiro junto ao portinho, até às primeiras pedras do Forte do Cão e fomos fazendo a nossa pesca. Como era habitual, desde que descobrimos o peixe, nos dias seguintes, juntavam-se mais alguns barcos que habitualmente só andavam à “mama”, esperando que os outros encontrassem o peixe para depois eles aparecerem.
Assim foi, quem encontrara o peixe tínhamos sido nós, o Fernando Nelaço e o Tone Rosito, ainda andamos dois dias sossegados a dar neles, até que, ao terceiro dia, quando saímos do portinho, demos de caras com oito barcos a corricar ao longo do praial. A mim deu-me vontade de rir, mas o Zé da Tilde, o meu parceiro, não achou graça nenhuma e fartou-se de “remoer”.
Lá avançamos, cheios de coragem, para o meio do maralhal, ainda demos uma passagem, mas aquilo não era para nós. Corricar com as linhas estendidas oitenta ou cem metros atrás do barco, com os outros gajos a manobrar à toa e a enrascar a cada passo, não era para nós, que gostamos de pescar com tranquilidade e “à larga”.
Afastamo-nos da costa e das rotas dos outros tipos e passamos a corricar praticamente sós, apenas o Arturinho estava perto de nós, pois ele também não gosta dessas confusões. E vimos algumas discussões ao longe, pois havia dois barcos o do Ginho e o do “Olhinhos” que levavam tudo na frente, não sei se por ganância dos melhores locais, se por mera azelhisse.
- São muito burros! Em vez de virarem todos para o mesmo lado, cruzam-se e apanham as linhas uns dos outros – dizia o Zé, que apreciava o bailado confuso dos pequenos barcos, junto à costa.
- E são sempre os mesmos a fazer merda. Olha, já apanharam as linhas do Nel do Cuco! Agora é que vai ser bonito. – dizia eu, pensando que o Cuco ia arranjar uma discussão grossa. Em breve, estavam vários barcos parados, perto uns dos outros, o Nel esbracejava violentamente, devia estar a dizer das boas a alguém.
- Ainda bem que saímos dali. Aqui também se apanham e não vai tardar a fugir-lhes o peixe.
- Pudera, ao movimento e ao barulho que fazem, aposto que já o espantaram.
Parece que nunca tinha dito uma frase tão verdadeira. O peixe falhou-lhes e aos poucos todos se foram embora, deixando-nos sozinhos.
- Vamos lá dentro experimentar, Zé?
- Hum… Acho que é melhor ficar por aqui, o mar tem uma voltinha a mais e aqui também vamos apanhando.
Isso era verdade e já tínhamos engatado um par deles. Aos poucos percebemos que os robalos estavam mais fundo, colocamos chumbeiras maiores nas linhas e reduzimos a velocidade. Assim passamos a manhã e quando nos estávamos a preparar para regressar a terra com sete ou oito peixes no balde, engatamos dois ao mesmo tempo.
Paramos o barco e cada um tratou de meter a bordo o seu robalo. Arrancamos e mal tínhamos largado as linhas novamente, voltamos a engatar mais dois. Repetimos a operação e continuamos, mas não sentimos mais nada.
“Meia volta, que o peixe está para sul, em frente às primeiras escadinhas de madeira”, uma nossa referência. Ao passar lá, demos com eles e continuamos a pescar robalos, se calhar do tal cardume, que tinha aparecido, logo de manhã, junto à rebentação, tinha-se espantado e horas depois regressara.
Com as borrachinhas verde escura e peso suficiente para o estralho ir junto ao fundo de areia, a seis ou sete metros, os cachiços iam “saltando” para dentro do barco.
O Tone Rosito e o filho, o “Chuinga” que já estavam em terra há um par de horas, viram-nos dar tantas voltas sempre no mesmo sítio que desconfiaram, meteram-se novamente no barco e quando chegaram à nossa beira nem foi preciso perguntar nada, porque também já estavam a sentir o peixe nas linhas.
Sem termos feito uma pesca extraordinária, sempre apanhamos mais que qualquer um dos outros e estávamos bem contentes, até porque os robalos tinham o tamanho que mais gostávamos, é chamado peixe de dose, embora tirar um peixe grande dá sempre um gozo extraordinário.
Chegamos a terra já passava da uma da tarde e não estava praticamente ninguém no portinho, por isso a nossa pescaria passou despercebida.
No dia seguinte foi a mesma “pouca-vergonha” com todos amontoados logo ao nascer do dia no praial.
Com as nossas calmas, lá fomos para o pesqueiro bastante mais fora que os outros, onde a espaços, íamos apanhando algum robalote e um ou outro ruivo. O dia estava enfarruscado, sentia-se uma brisa fraca de sudoeste e o mar tinha alguma ondulação de fundo, que convidava a malta a afastar-se da costa e da rebentação.
Ao fim da manhã voltamos a ter o nosso momento de glória, com o peixe a redobrar de actividade. Junto de nós apenas o Rosito e o Nelaço, a quem lhe contáramos o sucedido, no dia anterior.
Voltamos a entrar tarde, já a maré descia há um par de horas e o mar parecia estar a crescer.
Durante a tarde o vento aumentou, o mar era “mais”, à noite já era uma maresia e no dia seguinte nem foi preciso levantar-me cedo.
Como moro junto à avenida marginal, pelo barulho do mar, fiquei a saber que não ia haver pesca para ninguém. Dei meia volta na cama e antes de adormecer, pensei que a nossa pesca já estava feita, de véspera.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Carta por terminar
Gontinhães, Primavera de 1922
Subiu a calçada do Sol Posto, mas ao passar junto da propriedade do Teles parou arquejante. Um cansaço imenso invadia-lhe o corpo, toldava-lhe a mente. O coração batia desordenado, as pernas pesavam, o ar entrava-lhe com dificuldade no peito.
Encostou-se ao muro com o semblante fechado, procurando recobrar alento. O corpo alto e ossudo, as costas algo curvadas, a tez branca, pálida demais para quem vivia à beira mar, descreviam um jovem precocemente envelhecido. Os vinte e dois anos representavam já um fardo pesado para quem perdeu o pai ainda bebé de cueiros e a mãe três anos depois, ambos abatidos pela tuberculose.
Quando a mãe enviuvou, cedo lhe deu um padrasto, o Abel, que era como um verdadeiro pai para ele. Foi com ele e a avó Maria Chocalha que ficou a viver quando a mãe se finou, pouco depois.
A mãe que procurava recordar, mas de quem não tinha uma leve recordação para guardar. Apenas a fotografia dos pais no dia do casamento perpetuava a imagem destes seres, tragicamente ceifados pela doença implacável. Pouco depois de enviuvar, também o padrasto tinha casado com a Delfina, que o aceitou, e dele tratou com esmero, lado a lado com as filhas naturais que iam surgindo, a Bela, a Minda, a Quinhas, a Letinha, agora vinha mais um a caminho. A Delfina tinha anunciado há poucos dias que estava novamente de esperanças.
Aos poucos recuperou a respiração, mas um ataque de tosse trouxe-lhe um vómito à boca. Limpou o escarro com o lenço, uma pequena mancha encarnada tingia o pano. Já era a segunda vez que lhe acontecia.
Retomou a marcha, um passo lento, quase de velho, até aos Poços de Vilarinho por entre caminhos bordejados de giestas floridas. Sentou-se à sombra de um velho plátano, vendo à sua frente o casario que se estendia até ao mar. Lá em baixo, a beijar a areia do portinho, esperavam as gamelas da sardinha, prontas para a faina, logo mais à tardinha.
Desceu vagarosamente a Gontinhães, terra onde a Delfina e o Abel tinham uma loja e pensão de hóspedes, que era também a sua casa. As crianças brincavam no Largo do Sol Posto ao lado da pensão. Jogavam à riola, outras saltavam à corda.
- Américo, joga aqui connosco – pediu a Letinha, a mais nova do grupo.
- Sim, sim, Américo joga connosco – fizeram coro as demais.
- Agora não posso, tenho de ir tomar conta da loja e falar à avó Maria. Mais logo jogo convosco e ganho-vos a todas!
Entrou na loja fresca e sombria, sentiu-se melhor, já nem lhe ardia o peito ao respirar. Não encontrou a avó em parte alguma. Uma das criadas informou-o que a tinha visto a descer a rua em direcção à praça.
- Se calhar foi à Igreja – concluiu o Américo.
- Que queres à avó, Américo? – Pergunta a Delfina que descia as escadas, vinda dos quartos e que tinha ouvido parte da conversa.
- Nada Tia Fina, nada. Era só para saber dela.
- Américo, estás tão pálido, andas outra vez a comer pouco. Pareces um pisco! Vem comigo, vou fazer-te uma gemada com vinho fino, a ver se te dá novas cores.
- Mas não me apetece nada…
- Não sejas teimoso, tens que te alimentar. Vamos lá para a cozinha!
No dia seguinte estava a Delfina a servir os almoços para os hóspedes quando entrou na cozinha a Gracinda, uma das lavadeiras da pensão.
- D. Delfina, quando puder chegue ao lavadouro.
- Ó mulher, não vês que estou a servir os almoços… Que raio, não fazeis nada sozinhas. Afinal o que aconteceu?
- É que… bom… é melhor a senhora passar lá.
- Deixas-me em cuidados, mas agora…
- Não há pressa D. Delfina. O que é pode esperar…
- Vá lá D. Delfina, eu acabo de servir. Já faltam poucos – intervêm a Maria Ferrinha, a ajudante de confiança da dona da pensão.
Passaram à copa, subiram os degraus que conduziam ao terreno onde estavam os lavadouros. Dois tanques enormes em cantaria de granito onde eram asseados os lençóis, toalhas e cobertores da pensão, assim como as roupas dos hospedes e dos proprietários.
- Que se passa mulher, parece que te surgiu uma alma danada.
- Olhe para este lenço…
- Tem sangue. De quem é?
- Tem sangue mas é no escarro – esclarece a Gracinda.
- Cruzes, de quem é o lenço?
- Do… do menino Américo…
- Tens a certeza?
- Se tenho, minha senhora! Fui eu que abri a trouxa dele. Olhe o resto da roupa, a camisa, as ceroulas, não enganam. São do menino e aqui está outro lenço também manchado de sangue.
- Deus me valha, onde é que ele está?
O Américo foi procurado imediatamente por toda a casa, acabou por aparecer pouco depois com um cesto de figos que recolhera da figueira grande. “Está tão carregada que os galhos estão dobrados quase até ao chão” contava o Américo, enquanto pousava o cesto sobre a comprida mesa da cozinha.
A Delfina pegou-lhe suavemente por um braço levando-o para a salinha, contigua à cozinha, onde o interrogou sobre o sangue no lenço de bolso.
- Pois foi Tia Fina, já é a segunda vez que me acontece. Depois de tossir sai-me um escarro com sangue misturado.
- Ai filho, tu estás doente. Bem me parecia que a tua cor era esquisita. Já mandei chamar o Dr. Luís, mas está para Afife. Só mais logo é que regressa. Enquanto ele não chega tens de te recolher ao quarto. Pode ser doença que se pegue às crianças…
- Oh não! Às crianças não…
- Por isso, vais para o teu quarto até chegar o Dr. Luís, que eu levo-te lá o comer.
O diagnóstico feito pelo Dr. Luís Ramos Pereira foi peremptório, o mal estava instalado nos pulmões e pouco havia a fazer. Foi dada ordem para queimar as roupas de cama e escaldar e apartar a louça onde o rapaz comia.
No dia seguinte foi para o Amonde, acompanhado da avó Maria Chocalha, instalou-se na casa da sua tia Joaquina, irmã do seu falecido pai. Isolamento, ar do monte e uns remédios aviados na botica eram a única esperança.
- Talvez ainda não esteja muito adiantado. – Dizia com ar de dúvida o médico – Olha que se os ares do Amonde não o curarem, nada mais o cura.
Todas as semanas a Tia Leonarda carregava à cabeça um cesto de mantimentos e o jornal para o Américo ler. A viagem fazia-a a pé, duas léguas para cada lado, nada que assustasse esta mulher, habituada como estava a carregar feixes de lenha e outras mercadorias o dia inteiro. Na volta trazia sempre uma carta que o doente escrevia para a sua mãe de adopção, a Tia Fina como ele carinhosamente lhe chamava.
Uma vez o Abel ainda levou as crianças até ao Amonde, viram ao longe a casa e o Américo, não se aproximaram com receio do contágio.
Nem os ares do monte, nem os cuidados de quantos o rodeavam lhe valeram. Escrevia mais uma carta para a Delfina, grávida de oito meses, quando a pena lhe escorregou dos dedos. Já não terminou a frase “Deus o crie para a boa…”.
Subiu a calçada do Sol Posto, mas ao passar junto da propriedade do Teles parou arquejante. Um cansaço imenso invadia-lhe o corpo, toldava-lhe a mente. O coração batia desordenado, as pernas pesavam, o ar entrava-lhe com dificuldade no peito.
Encostou-se ao muro com o semblante fechado, procurando recobrar alento. O corpo alto e ossudo, as costas algo curvadas, a tez branca, pálida demais para quem vivia à beira mar, descreviam um jovem precocemente envelhecido. Os vinte e dois anos representavam já um fardo pesado para quem perdeu o pai ainda bebé de cueiros e a mãe três anos depois, ambos abatidos pela tuberculose.
Quando a mãe enviuvou, cedo lhe deu um padrasto, o Abel, que era como um verdadeiro pai para ele. Foi com ele e a avó Maria Chocalha que ficou a viver quando a mãe se finou, pouco depois.
A mãe que procurava recordar, mas de quem não tinha uma leve recordação para guardar. Apenas a fotografia dos pais no dia do casamento perpetuava a imagem destes seres, tragicamente ceifados pela doença implacável. Pouco depois de enviuvar, também o padrasto tinha casado com a Delfina, que o aceitou, e dele tratou com esmero, lado a lado com as filhas naturais que iam surgindo, a Bela, a Minda, a Quinhas, a Letinha, agora vinha mais um a caminho. A Delfina tinha anunciado há poucos dias que estava novamente de esperanças.
Aos poucos recuperou a respiração, mas um ataque de tosse trouxe-lhe um vómito à boca. Limpou o escarro com o lenço, uma pequena mancha encarnada tingia o pano. Já era a segunda vez que lhe acontecia.
Retomou a marcha, um passo lento, quase de velho, até aos Poços de Vilarinho por entre caminhos bordejados de giestas floridas. Sentou-se à sombra de um velho plátano, vendo à sua frente o casario que se estendia até ao mar. Lá em baixo, a beijar a areia do portinho, esperavam as gamelas da sardinha, prontas para a faina, logo mais à tardinha.
Desceu vagarosamente a Gontinhães, terra onde a Delfina e o Abel tinham uma loja e pensão de hóspedes, que era também a sua casa. As crianças brincavam no Largo do Sol Posto ao lado da pensão. Jogavam à riola, outras saltavam à corda.
- Américo, joga aqui connosco – pediu a Letinha, a mais nova do grupo.
- Sim, sim, Américo joga connosco – fizeram coro as demais.
- Agora não posso, tenho de ir tomar conta da loja e falar à avó Maria. Mais logo jogo convosco e ganho-vos a todas!
Entrou na loja fresca e sombria, sentiu-se melhor, já nem lhe ardia o peito ao respirar. Não encontrou a avó em parte alguma. Uma das criadas informou-o que a tinha visto a descer a rua em direcção à praça.
- Se calhar foi à Igreja – concluiu o Américo.
- Que queres à avó, Américo? – Pergunta a Delfina que descia as escadas, vinda dos quartos e que tinha ouvido parte da conversa.
- Nada Tia Fina, nada. Era só para saber dela.
- Américo, estás tão pálido, andas outra vez a comer pouco. Pareces um pisco! Vem comigo, vou fazer-te uma gemada com vinho fino, a ver se te dá novas cores.
- Mas não me apetece nada…
- Não sejas teimoso, tens que te alimentar. Vamos lá para a cozinha!
No dia seguinte estava a Delfina a servir os almoços para os hóspedes quando entrou na cozinha a Gracinda, uma das lavadeiras da pensão.
- D. Delfina, quando puder chegue ao lavadouro.
- Ó mulher, não vês que estou a servir os almoços… Que raio, não fazeis nada sozinhas. Afinal o que aconteceu?
- É que… bom… é melhor a senhora passar lá.
- Deixas-me em cuidados, mas agora…
- Não há pressa D. Delfina. O que é pode esperar…
- Vá lá D. Delfina, eu acabo de servir. Já faltam poucos – intervêm a Maria Ferrinha, a ajudante de confiança da dona da pensão.
Passaram à copa, subiram os degraus que conduziam ao terreno onde estavam os lavadouros. Dois tanques enormes em cantaria de granito onde eram asseados os lençóis, toalhas e cobertores da pensão, assim como as roupas dos hospedes e dos proprietários.
- Que se passa mulher, parece que te surgiu uma alma danada.
- Olhe para este lenço…
- Tem sangue. De quem é?
- Tem sangue mas é no escarro – esclarece a Gracinda.
- Cruzes, de quem é o lenço?
- Do… do menino Américo…
- Tens a certeza?
- Se tenho, minha senhora! Fui eu que abri a trouxa dele. Olhe o resto da roupa, a camisa, as ceroulas, não enganam. São do menino e aqui está outro lenço também manchado de sangue.
- Deus me valha, onde é que ele está?
O Américo foi procurado imediatamente por toda a casa, acabou por aparecer pouco depois com um cesto de figos que recolhera da figueira grande. “Está tão carregada que os galhos estão dobrados quase até ao chão” contava o Américo, enquanto pousava o cesto sobre a comprida mesa da cozinha.
A Delfina pegou-lhe suavemente por um braço levando-o para a salinha, contigua à cozinha, onde o interrogou sobre o sangue no lenço de bolso.
- Pois foi Tia Fina, já é a segunda vez que me acontece. Depois de tossir sai-me um escarro com sangue misturado.
- Ai filho, tu estás doente. Bem me parecia que a tua cor era esquisita. Já mandei chamar o Dr. Luís, mas está para Afife. Só mais logo é que regressa. Enquanto ele não chega tens de te recolher ao quarto. Pode ser doença que se pegue às crianças…
- Oh não! Às crianças não…
- Por isso, vais para o teu quarto até chegar o Dr. Luís, que eu levo-te lá o comer.
O diagnóstico feito pelo Dr. Luís Ramos Pereira foi peremptório, o mal estava instalado nos pulmões e pouco havia a fazer. Foi dada ordem para queimar as roupas de cama e escaldar e apartar a louça onde o rapaz comia.
No dia seguinte foi para o Amonde, acompanhado da avó Maria Chocalha, instalou-se na casa da sua tia Joaquina, irmã do seu falecido pai. Isolamento, ar do monte e uns remédios aviados na botica eram a única esperança.
- Talvez ainda não esteja muito adiantado. – Dizia com ar de dúvida o médico – Olha que se os ares do Amonde não o curarem, nada mais o cura.
Todas as semanas a Tia Leonarda carregava à cabeça um cesto de mantimentos e o jornal para o Américo ler. A viagem fazia-a a pé, duas léguas para cada lado, nada que assustasse esta mulher, habituada como estava a carregar feixes de lenha e outras mercadorias o dia inteiro. Na volta trazia sempre uma carta que o doente escrevia para a sua mãe de adopção, a Tia Fina como ele carinhosamente lhe chamava.
Uma vez o Abel ainda levou as crianças até ao Amonde, viram ao longe a casa e o Américo, não se aproximaram com receio do contágio.
Nem os ares do monte, nem os cuidados de quantos o rodeavam lhe valeram. Escrevia mais uma carta para a Delfina, grávida de oito meses, quando a pena lhe escorregou dos dedos. Já não terminou a frase “Deus o crie para a boa…”.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
O Externato de Santa Rita em Caminha
Quando saí da escola primária, no longínquo ano de 1967, fui direitinho para o Externato de Santa Rita em Caminha, porque em Vila Praia de Âncora apenas havia uma pequena escola particular, as “freiras” na Quinta do Doutor Queiroz.
Outra alternativa era o Liceu ou a Escola Técnica em Viana, mas a minha mãe não via com bons olhos, que o seu menino (eu!), fosse sozinho, de comboio, vadiar à vontade, para a grande cidade.
Como o Externato tinha boa reputação e tinha uma carrinha que vinha buscar os miúdos às freguesias, os meus pais fizeram o sacrifício de pagar as propinas, acabando por “estacionar” em Caminha durante cinco anos, até ir para o Liceu de Viana do Castelo.
No Externato fiz o quinto ano, actual nono ano, sem problemas de maior, como muitos conterrâneos da mesma idade. Era sem dúvida a escola da moda e evoluiu muito mais depressa que “as freiras” em Vila Praia de Âncora que da Quinta do Queiroz vieram mais tarde para o Lugar do Paraíso, dando origem ao Colégio Nossa Senhora da Assunção, o embrião da actual Ancorensis.
O Externato, no início dos anos oitenta, começou a definhar, acabando por encerrar, estando hoje o edifício, que era alugado, totalmente abandonado e em ruínas. Mete dó olhar para aquela miséria, pelo menos a mim, que tenho ainda e sempre, recordações muito vivas daquele espaço.
No ano que entrei para aquela escola, foi contratado o meu primo Zé Meira, para funcionário da secretaria, tarefa que acumulava com a de motorista de uma das carrinhas, que transportava a rapaziada até casa.
O Zé Meira fazia a parte sul, seja Cristelo, Moledo, V. P. de Âncora, Laje, Vile e Riba D`Âncora, enquanto outra carrinha passava por Venade, V. de Mouros, Seixas, Lanhelas, Gondarem e Cerveira. Pelo menos estas freguesias eram percorridas uma e outra vez, pelas pequenas carrinhas, uma Volswagen e uma Austin, que deviam levar nove passageiros, mas que eram atulhadas com vinte ou trinta putos todos encavalitados uns nos outros. Mais tarde, compraram um pequeno autocarro italiano, um OM e posteriormente, já não é do meu tempo, adquiriram um autocarro Leyland, que acabou os seus dias, no Âncora-Praia.
É curioso que em V. N. de Cerveira só havia escola primária, tendo os alunos que quisessem continuar a estudar, de optar pelos Externatos de Caminha ou Valença; ou então ir para Viana.
O prédio onde estava instalado o Externato de Santa Rita era antigo, mas estava relativamente bem conservado, excepto as águas furtadas, local totalmente proibido para nós. Lembro-me de ter lá ido espreitar uma vez e apenas retenho a ideia de muitas pastas e muitos papéis empilhados.
Dizer que os rapazes e as raparigas não se misturavam e tinham entradas e recreios separados, causa grande estranheza nos jovens de hoje, mas naquela época era natural e eu nem sequer achava nada de estranho, pois vinha habituado a essa segregação da escola primária. Havia algumas turmas que eram mistas mas, mesmo aí, os rapazes ficavam de um lado e as raparigas ficavam do lado contrário. Se houvesse gente para fazer duas turmas é claro que estávamos novamente condenados a ver as raparigas ao longe. Raio de sorte!
Também é verdade que não haviam tantas exigências pedagógicas como agora; a minha turma no terceiro ano, (actual sétimo) tinha quarenta e três ovelhinhas e usava a sala maior do primeiro piso, virada a sul, para Venade e tinha uma pequena varanda.
Quando lá cheguei, com os meus dez anos acabados de fazer, encontrei uns matulões que lá andavam, que impunham respeito. A nós, os pequenos, não nos permitiam sequer ir às retretes, local onde eles, os grandes, permaneciam para fumar às escondidas, o que nos obrigava a fazer as necessidades de fugida, antes que caísse algum cachaço.
Por falar em cachaços, era prática comum os castigos corporais por parte dos professores, embora me lembre que alguns nunca nos bateram, nem sequer ameaçaram. Havia um vasto leque de castigos corporais desde as bofetadas até à palmatória, passando pelas sempre temíveis canadas. No entanto, a palmatória era o castigo que todos procuravam evitar, em particular a palmatória do Padre Cândido de Âncora, que tinha treze buracos e era conhecida pelo “totobola”. Esse Padre era professor de português e faleceu num acidente de viação. Foi substituído em Âncora pelo Padre Marinho, uma figura castiça, de que hei-de falar um dia.
O professor Laurentino Monteiro, o professor Monteiro para a malta, era simultaneamente o nosso terror e o nosso ídolo, pois se era severo e nos aquecia o pêlo quando calhava, também era o professor que estava sempre pronto para uma piada ou uma história engraçada. Quase quarenta anos volvidos, ainda não conheci ninguém que se sinta magoado com o comportamento desse homem.
Ao longo dos anos, deu-me uma série de disciplinas, o português, história, ciências, francês e geografia, pelo menos. Quando algum professor faltava, o que era raro naquele tempo, se estivesse livre, dava qualquer outra matéria, com todo o à vontade.
Este professor tinha imensas particularidades, uma das quais eram os sumários. Invariavelmente o sumário era “matéria nova”, “continuação da lição anterior” e “chamadas”. As “chamadas” eram umas provas orais, uma série de perguntas, que fazia a quatro desgraçados que ele escolhia pelos números e que se iam sentar nas primeiras carteiras à sua frente.
Eu era habitualmente um dos “Cristos” devido ao meu primeiro nome, António. Como os números eram atribuídos por ordem alfabética eu tinha sempre um número baixo e ele escolhia imensas vezes o 1,2,3,4; e lá ia eu, que fui sempre o 2 ou o 3. Antes de mim só haviam os Alfredos, os Abílios e pouco mais.
Os meus colegas com números altos tinham mais sorte, mas também se tramavam, pois ele sabia muito bem o que fazia, tinha boa memória e não deixava escapar ninguém, até porque as “chamadas” contavam para nota, sendo a nota cuidadosamente apontada na sua caderneta. Alem de nos arriscarmos a uma negativa (sofrível, medíocre e mau) ainda arriscávamos alguma canada na “tola”, se disséssemos algum disparate maior. Lembro-me de ter levado algumas, a propósito das declinações em latim.
Outro professor inesquecível é o Dr. Fonseca, felizmente ainda vivo e de boa saúde, que era o director da escola e professor de matemática. Retenho do Dr. Fonseca uma certa imprevisão do humor ao entrar na sala. Se estivesse bem disposto, tudo corria bem e tinha paciência de santo. Pelo contrário, se vinha com os “azeites”, ia tudo na frente e era realmente mal de aturar.
Estes dois eram o núcleo duro do Externato e a sua alma. Os outros professores e funcionários contribuíam para o sucesso, mas na verdade, na minha verdade, quem puxava o carro eram o Monteiro e o Fonseca.
Recordo a D. Zita, professora dos miúdos da primária (que eram poucos) e professora de desenho, o Dr. Ernesto e a Dr. Rosa que eram casados e foram depois para África. Ele leccionava português e musica, ela era professora de físico-química; a professora Isolina, professora de Francês, cujo marido tinha um Volswagem carocha que a malta achava o máximo, o Dr. Dionísio Marques advogado de Caminha, que dava inglês e que possuía um Citroen DS, um “bico de pato” como ele dizia, o Padre Amorim professor de história e moral. Mais tarde entrou para docente o eng. Cruz que nos deu matemática e que hoje está no Instituto de Estradas em Viana do Castelo. Foi com ele que vi, pela primeira, vez usar uma régua de cálculo, já que ainda não haviam calculadoras.
Não me lembro quem dava Físico-química depois da saída da drª Rosa, talvez o dr. Fonseca. Tive ainda como professor o padre Lourenço Alves em Francês, um apaixonado pela história e pela arqueologia e um óptimo contador de histórias. Estava-me a esquecer do malogrado padre Aparício que dava Religião e Moral e que faleceu de acidente de motorizada, aqui em Vila Praia de Âncora, em plena Praça da Republica. Aquele homem era um santo e ainda hoje o recordo frequentemente com saudade. Após a sua morte foi substituído pelo padre Manuel Afonso.
Na secretaria trabalhava a D. Conceição, irmã da D. Zita e o Zé Meira. Havia uma senhora da limpeza, da qual tenho ideia vaga, mas não me recordo do nome; havia outro motorista alem do Zé Meira, que era o sr. Fernando Costa, mais conhecido, por Fernando dos Pitos, marido da Capitolina, que tinha um supermercado na rua da Corredoura, agora administrado pelo seu filho mais novo, o Carlos. O filho mais velho, Fernando como o pai, é da minha idade e estudou comigo durante aqueles cinco anos; era um dos meus parceiros favoritos. Há muitos anos que não nos encontramos, visto ter emigrado para o Canadá. Não me posso esquecer do Amaro, o motorista que depois substituiu o Fernando dos Pitos e que nos aturava as algazarras que fazíamos dentro do autocarro.
Alem do Fernando dos Pitos filho, guardo na memória muitos outros colegas de turma, como o Vítor Barrocas de Vilar de Mouros, o Desiderio de Dem, o Fernando Lajes e o Rui Fernandes de Lanhelas, o Gonçalves de Cerveira, o Zé Araújo, o Fausto e o Filipe de Caminha, o Frederico de Vile, o Zé João de Riba D`Âncora, o Ernesto de Cristelo que era o ajudante de campo do professor Monteiro. Era ele que lhe fazer os recados e acompanhava-o à feira para carregar as couves!
Alem destes, tínhamos o Nelson, Chico e o Zé da Linha, todos eles de Âncora. O Chico que era primo do Nelson, morreu tragicamente num acidente de motorizada poucos anos depois, na rua 31 de Janeiro, junto à bomba de gasolina.
Alguns destes compinchas ficaram pela zona o que permite algum contacto esporádico. Outros tiveram rumos de vida diversos e perdeu-se todo o relacionamento, mas não se perdeu a memória.
A próxima vez que pegar neste tema será para contar algumas aventuras que ainda me lembro, passadas comigo e com outros colegas de anos e turmas diferentes, mas todos pertencentes à grande “família” do Externato de Santa Rita.
Outra alternativa era o Liceu ou a Escola Técnica em Viana, mas a minha mãe não via com bons olhos, que o seu menino (eu!), fosse sozinho, de comboio, vadiar à vontade, para a grande cidade.
Como o Externato tinha boa reputação e tinha uma carrinha que vinha buscar os miúdos às freguesias, os meus pais fizeram o sacrifício de pagar as propinas, acabando por “estacionar” em Caminha durante cinco anos, até ir para o Liceu de Viana do Castelo.
No Externato fiz o quinto ano, actual nono ano, sem problemas de maior, como muitos conterrâneos da mesma idade. Era sem dúvida a escola da moda e evoluiu muito mais depressa que “as freiras” em Vila Praia de Âncora que da Quinta do Queiroz vieram mais tarde para o Lugar do Paraíso, dando origem ao Colégio Nossa Senhora da Assunção, o embrião da actual Ancorensis.
O Externato, no início dos anos oitenta, começou a definhar, acabando por encerrar, estando hoje o edifício, que era alugado, totalmente abandonado e em ruínas. Mete dó olhar para aquela miséria, pelo menos a mim, que tenho ainda e sempre, recordações muito vivas daquele espaço.
No ano que entrei para aquela escola, foi contratado o meu primo Zé Meira, para funcionário da secretaria, tarefa que acumulava com a de motorista de uma das carrinhas, que transportava a rapaziada até casa.
O Zé Meira fazia a parte sul, seja Cristelo, Moledo, V. P. de Âncora, Laje, Vile e Riba D`Âncora, enquanto outra carrinha passava por Venade, V. de Mouros, Seixas, Lanhelas, Gondarem e Cerveira. Pelo menos estas freguesias eram percorridas uma e outra vez, pelas pequenas carrinhas, uma Volswagen e uma Austin, que deviam levar nove passageiros, mas que eram atulhadas com vinte ou trinta putos todos encavalitados uns nos outros. Mais tarde, compraram um pequeno autocarro italiano, um OM e posteriormente, já não é do meu tempo, adquiriram um autocarro Leyland, que acabou os seus dias, no Âncora-Praia.
É curioso que em V. N. de Cerveira só havia escola primária, tendo os alunos que quisessem continuar a estudar, de optar pelos Externatos de Caminha ou Valença; ou então ir para Viana.
O prédio onde estava instalado o Externato de Santa Rita era antigo, mas estava relativamente bem conservado, excepto as águas furtadas, local totalmente proibido para nós. Lembro-me de ter lá ido espreitar uma vez e apenas retenho a ideia de muitas pastas e muitos papéis empilhados.
Dizer que os rapazes e as raparigas não se misturavam e tinham entradas e recreios separados, causa grande estranheza nos jovens de hoje, mas naquela época era natural e eu nem sequer achava nada de estranho, pois vinha habituado a essa segregação da escola primária. Havia algumas turmas que eram mistas mas, mesmo aí, os rapazes ficavam de um lado e as raparigas ficavam do lado contrário. Se houvesse gente para fazer duas turmas é claro que estávamos novamente condenados a ver as raparigas ao longe. Raio de sorte!
Também é verdade que não haviam tantas exigências pedagógicas como agora; a minha turma no terceiro ano, (actual sétimo) tinha quarenta e três ovelhinhas e usava a sala maior do primeiro piso, virada a sul, para Venade e tinha uma pequena varanda.
Quando lá cheguei, com os meus dez anos acabados de fazer, encontrei uns matulões que lá andavam, que impunham respeito. A nós, os pequenos, não nos permitiam sequer ir às retretes, local onde eles, os grandes, permaneciam para fumar às escondidas, o que nos obrigava a fazer as necessidades de fugida, antes que caísse algum cachaço.
Por falar em cachaços, era prática comum os castigos corporais por parte dos professores, embora me lembre que alguns nunca nos bateram, nem sequer ameaçaram. Havia um vasto leque de castigos corporais desde as bofetadas até à palmatória, passando pelas sempre temíveis canadas. No entanto, a palmatória era o castigo que todos procuravam evitar, em particular a palmatória do Padre Cândido de Âncora, que tinha treze buracos e era conhecida pelo “totobola”. Esse Padre era professor de português e faleceu num acidente de viação. Foi substituído em Âncora pelo Padre Marinho, uma figura castiça, de que hei-de falar um dia.
O professor Laurentino Monteiro, o professor Monteiro para a malta, era simultaneamente o nosso terror e o nosso ídolo, pois se era severo e nos aquecia o pêlo quando calhava, também era o professor que estava sempre pronto para uma piada ou uma história engraçada. Quase quarenta anos volvidos, ainda não conheci ninguém que se sinta magoado com o comportamento desse homem.
Ao longo dos anos, deu-me uma série de disciplinas, o português, história, ciências, francês e geografia, pelo menos. Quando algum professor faltava, o que era raro naquele tempo, se estivesse livre, dava qualquer outra matéria, com todo o à vontade.
Este professor tinha imensas particularidades, uma das quais eram os sumários. Invariavelmente o sumário era “matéria nova”, “continuação da lição anterior” e “chamadas”. As “chamadas” eram umas provas orais, uma série de perguntas, que fazia a quatro desgraçados que ele escolhia pelos números e que se iam sentar nas primeiras carteiras à sua frente.
Eu era habitualmente um dos “Cristos” devido ao meu primeiro nome, António. Como os números eram atribuídos por ordem alfabética eu tinha sempre um número baixo e ele escolhia imensas vezes o 1,2,3,4; e lá ia eu, que fui sempre o 2 ou o 3. Antes de mim só haviam os Alfredos, os Abílios e pouco mais.
Os meus colegas com números altos tinham mais sorte, mas também se tramavam, pois ele sabia muito bem o que fazia, tinha boa memória e não deixava escapar ninguém, até porque as “chamadas” contavam para nota, sendo a nota cuidadosamente apontada na sua caderneta. Alem de nos arriscarmos a uma negativa (sofrível, medíocre e mau) ainda arriscávamos alguma canada na “tola”, se disséssemos algum disparate maior. Lembro-me de ter levado algumas, a propósito das declinações em latim.
Outro professor inesquecível é o Dr. Fonseca, felizmente ainda vivo e de boa saúde, que era o director da escola e professor de matemática. Retenho do Dr. Fonseca uma certa imprevisão do humor ao entrar na sala. Se estivesse bem disposto, tudo corria bem e tinha paciência de santo. Pelo contrário, se vinha com os “azeites”, ia tudo na frente e era realmente mal de aturar.
Estes dois eram o núcleo duro do Externato e a sua alma. Os outros professores e funcionários contribuíam para o sucesso, mas na verdade, na minha verdade, quem puxava o carro eram o Monteiro e o Fonseca.
Recordo a D. Zita, professora dos miúdos da primária (que eram poucos) e professora de desenho, o Dr. Ernesto e a Dr. Rosa que eram casados e foram depois para África. Ele leccionava português e musica, ela era professora de físico-química; a professora Isolina, professora de Francês, cujo marido tinha um Volswagem carocha que a malta achava o máximo, o Dr. Dionísio Marques advogado de Caminha, que dava inglês e que possuía um Citroen DS, um “bico de pato” como ele dizia, o Padre Amorim professor de história e moral. Mais tarde entrou para docente o eng. Cruz que nos deu matemática e que hoje está no Instituto de Estradas em Viana do Castelo. Foi com ele que vi, pela primeira, vez usar uma régua de cálculo, já que ainda não haviam calculadoras.
Não me lembro quem dava Físico-química depois da saída da drª Rosa, talvez o dr. Fonseca. Tive ainda como professor o padre Lourenço Alves em Francês, um apaixonado pela história e pela arqueologia e um óptimo contador de histórias. Estava-me a esquecer do malogrado padre Aparício que dava Religião e Moral e que faleceu de acidente de motorizada, aqui em Vila Praia de Âncora, em plena Praça da Republica. Aquele homem era um santo e ainda hoje o recordo frequentemente com saudade. Após a sua morte foi substituído pelo padre Manuel Afonso.
Na secretaria trabalhava a D. Conceição, irmã da D. Zita e o Zé Meira. Havia uma senhora da limpeza, da qual tenho ideia vaga, mas não me recordo do nome; havia outro motorista alem do Zé Meira, que era o sr. Fernando Costa, mais conhecido, por Fernando dos Pitos, marido da Capitolina, que tinha um supermercado na rua da Corredoura, agora administrado pelo seu filho mais novo, o Carlos. O filho mais velho, Fernando como o pai, é da minha idade e estudou comigo durante aqueles cinco anos; era um dos meus parceiros favoritos. Há muitos anos que não nos encontramos, visto ter emigrado para o Canadá. Não me posso esquecer do Amaro, o motorista que depois substituiu o Fernando dos Pitos e que nos aturava as algazarras que fazíamos dentro do autocarro.
Alem do Fernando dos Pitos filho, guardo na memória muitos outros colegas de turma, como o Vítor Barrocas de Vilar de Mouros, o Desiderio de Dem, o Fernando Lajes e o Rui Fernandes de Lanhelas, o Gonçalves de Cerveira, o Zé Araújo, o Fausto e o Filipe de Caminha, o Frederico de Vile, o Zé João de Riba D`Âncora, o Ernesto de Cristelo que era o ajudante de campo do professor Monteiro. Era ele que lhe fazer os recados e acompanhava-o à feira para carregar as couves!
Alem destes, tínhamos o Nelson, Chico e o Zé da Linha, todos eles de Âncora. O Chico que era primo do Nelson, morreu tragicamente num acidente de motorizada poucos anos depois, na rua 31 de Janeiro, junto à bomba de gasolina.
Alguns destes compinchas ficaram pela zona o que permite algum contacto esporádico. Outros tiveram rumos de vida diversos e perdeu-se todo o relacionamento, mas não se perdeu a memória.
A próxima vez que pegar neste tema será para contar algumas aventuras que ainda me lembro, passadas comigo e com outros colegas de anos e turmas diferentes, mas todos pertencentes à grande “família” do Externato de Santa Rita.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Crónicas do filho da puta (4ª parte)
Há filhos da p*** vocacionados para fazer e filhos da p*** vocacionados para não deixar fazer, e estes são os dois tipos universais e eternos do filho da p***.
Há, naturalmente, subtipos e especializações funcionais com funções especiais: modos de fazer, ou de fingir não fazer e deixar fazer; no entanto, quer os dois tipos, quer os vários subtipos de filhos da p***, todos eles são primariamente e acima de tudo filhos da p*** e disso estão todos bem conscientes.
É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e se entrecruzam e interpenetram.
Apesar de tudo, sim, apesar de tudo o filho da p*** está relativamente contente consigo. Está preocupado com a vida dos outros e descontente com a vida em geral, mas relativamente contente consigo.
O filho da p*** acha sempre que tirou o melhor partido do mau partido que foi ter nascido, e do péssimo partido que é viver. O filho da p*** consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros. Os outros também estão em crise, os outros não passam melhor, os outros não fizeram melhor, os outros também perderam, "lixaram-se", "quilharam-se", diz o filho da p*** exultante.
Nada atrai mais o filho da p***, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.
Enfim, o filho da p*** só se sente feliz com a infelicidade dos outros. Mas morre de muitas maneiras - geralmente da doença que o envenenou toda a vida e que, como ponto máximo da sua carreira, lhe proporciona um final com muito brio, mas atroz sofrimento. O filho da p*** morre sozinho...
É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e se entrecruzam e interpenetram.
Apesar de tudo, sim, apesar de tudo o filho da p*** está relativamente contente consigo. Está preocupado com a vida dos outros e descontente com a vida em geral, mas relativamente contente consigo.
O filho da p*** acha sempre que tirou o melhor partido do mau partido que foi ter nascido, e do péssimo partido que é viver. O filho da p*** consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros. Os outros também estão em crise, os outros não passam melhor, os outros não fizeram melhor, os outros também perderam, "lixaram-se", "quilharam-se", diz o filho da p*** exultante.
Nada atrai mais o filho da p***, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.
Enfim, o filho da p*** só se sente feliz com a infelicidade dos outros. Mas morre de muitas maneiras - geralmente da doença que o envenenou toda a vida e que, como ponto máximo da sua carreira, lhe proporciona um final com muito brio, mas atroz sofrimento. O filho da p*** morre sozinho...
quarta-feira, 7 de maio de 2008
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