segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Externato de Santa Rita em Caminha

Quando saí da escola primária, no longínquo ano de 1967, fui direitinho para o Externato de Santa Rita em Caminha, porque em Vila Praia de Âncora apenas havia uma pequena escola particular, as “freiras” na Quinta do Doutor Queiroz.
Outra alternativa era o Liceu ou a Escola Técnica em Viana, mas a minha mãe não via com bons olhos, que o seu menino (eu!), fosse sozinho, de comboio, vadiar à vontade, para a grande cidade.

Como o Externato tinha boa reputação e tinha uma carrinha que vinha buscar os miúdos às freguesias, os meus pais fizeram o sacrifício de pagar as propinas, acabando por “estacionar” em Caminha durante cinco anos, até ir para o Liceu de Viana do Castelo.
No Externato fiz o quinto ano, actual nono ano, sem problemas de maior, como muitos conterrâneos da mesma idade. Era sem dúvida a escola da moda e evoluiu muito mais depressa que “as freiras” em Vila Praia de Âncora que da Quinta do Queiroz vieram mais tarde para o Lugar do Paraíso, dando origem ao Colégio Nossa Senhora da Assunção, o embrião da actual Ancorensis.
O Externato, no início dos anos oitenta, começou a definhar, acabando por encerrar, estando hoje o edifício, que era alugado, totalmente abandonado e em ruínas. Mete dó olhar para aquela miséria, pelo menos a mim, que tenho ainda e sempre, recordações muito vivas daquele espaço.

No ano que entrei para aquela escola, foi contratado o meu primo Zé Meira, para funcionário da secretaria, tarefa que acumulava com a de motorista de uma das carrinhas, que transportava a rapaziada até casa.
O Zé Meira fazia a parte sul, seja Cristelo, Moledo, V. P. de Âncora, Laje, Vile e Riba D`Âncora, enquanto outra carrinha passava por Venade, V. de Mouros, Seixas, Lanhelas, Gondarem e Cerveira. Pelo menos estas freguesias eram percorridas uma e outra vez, pelas pequenas carrinhas, uma Volswagen e uma Austin, que deviam levar nove passageiros, mas que eram atulhadas com vinte ou trinta putos todos encavalitados uns nos outros. Mais tarde, compraram um pequeno autocarro italiano, um OM e posteriormente, já não é do meu tempo, adquiriram um autocarro Leyland, que acabou os seus dias, no Âncora-Praia.
É curioso que em V. N. de Cerveira só havia escola primária, tendo os alunos que quisessem continuar a estudar, de optar pelos Externatos de Caminha ou Valença; ou então ir para Viana.
O prédio onde estava instalado o Externato de Santa Rita era antigo, mas estava relativamente bem conservado, excepto as águas furtadas, local totalmente proibido para nós. Lembro-me de ter lá ido espreitar uma vez e apenas retenho a ideia de muitas pastas e muitos papéis empilhados.

Dizer que os rapazes e as raparigas não se misturavam e tinham entradas e recreios separados, causa grande estranheza nos jovens de hoje, mas naquela época era natural e eu nem sequer achava nada de estranho, pois vinha habituado a essa segregação da escola primária. Havia algumas turmas que eram mistas mas, mesmo aí, os rapazes ficavam de um lado e as raparigas ficavam do lado contrário. Se houvesse gente para fazer duas turmas é claro que estávamos novamente condenados a ver as raparigas ao longe. Raio de sorte!
Também é verdade que não haviam tantas exigências pedagógicas como agora; a minha turma no terceiro ano, (actual sétimo) tinha quarenta e três ovelhinhas e usava a sala maior do primeiro piso, virada a sul, para Venade e tinha uma pequena varanda.

Quando lá cheguei, com os meus dez anos acabados de fazer, encontrei uns matulões que lá andavam, que impunham respeito. A nós, os pequenos, não nos permitiam sequer ir às retretes, local onde eles, os grandes, permaneciam para fumar às escondidas, o que nos obrigava a fazer as necessidades de fugida, antes que caísse algum cachaço.
Por falar em cachaços, era prática comum os castigos corporais por parte dos professores, embora me lembre que alguns nunca nos bateram, nem sequer ameaçaram. Havia um vasto leque de castigos corporais desde as bofetadas até à palmatória, passando pelas sempre temíveis canadas. No entanto, a palmatória era o castigo que todos procuravam evitar, em particular a palmatória do Padre Cândido de Âncora, que tinha treze buracos e era conhecida pelo “totobola”. Esse Padre era professor de português e faleceu num acidente de viação. Foi substituído em Âncora pelo Padre Marinho, uma figura castiça, de que hei-de falar um dia.

O professor Laurentino Monteiro, o professor Monteiro para a malta, era simultaneamente o nosso terror e o nosso ídolo, pois se era severo e nos aquecia o pêlo quando calhava, também era o professor que estava sempre pronto para uma piada ou uma história engraçada. Quase quarenta anos volvidos, ainda não conheci ninguém que se sinta magoado com o comportamento desse homem.
Ao longo dos anos, deu-me uma série de disciplinas, o português, história, ciências, francês e geografia, pelo menos. Quando algum professor faltava, o que era raro naquele tempo, se estivesse livre, dava qualquer outra matéria, com todo o à vontade.
Este professor tinha imensas particularidades, uma das quais eram os sumários. Invariavelmente o sumário era “matéria nova”, “continuação da lição anterior” e “chamadas”. As “chamadas” eram umas provas orais, uma série de perguntas, que fazia a quatro desgraçados que ele escolhia pelos números e que se iam sentar nas primeiras carteiras à sua frente.
Eu era habitualmente um dos “Cristos” devido ao meu primeiro nome, António. Como os números eram atribuídos por ordem alfabética eu tinha sempre um número baixo e ele escolhia imensas vezes o 1,2,3,4; e lá ia eu, que fui sempre o 2 ou o 3. Antes de mim só haviam os Alfredos, os Abílios e pouco mais.
Os meus colegas com números altos tinham mais sorte, mas também se tramavam, pois ele sabia muito bem o que fazia, tinha boa memória e não deixava escapar ninguém, até porque as “chamadas” contavam para nota, sendo a nota cuidadosamente apontada na sua caderneta. Alem de nos arriscarmos a uma negativa (sofrível, medíocre e mau) ainda arriscávamos alguma canada na “tola”, se disséssemos algum disparate maior. Lembro-me de ter levado algumas, a propósito das declinações em latim.

Outro professor inesquecível é o Dr. Fonseca, felizmente ainda vivo e de boa saúde, que era o director da escola e professor de matemática. Retenho do Dr. Fonseca uma certa imprevisão do humor ao entrar na sala. Se estivesse bem disposto, tudo corria bem e tinha paciência de santo. Pelo contrário, se vinha com os “azeites”, ia tudo na frente e era realmente mal de aturar.
Estes dois eram o núcleo duro do Externato e a sua alma. Os outros professores e funcionários contribuíam para o sucesso, mas na verdade, na minha verdade, quem puxava o carro eram o Monteiro e o Fonseca.

Recordo a D. Zita, professora dos miúdos da primária (que eram poucos) e professora de desenho, o Dr. Ernesto e a Dr. Rosa que eram casados e foram depois para África. Ele leccionava português e musica, ela era professora de físico-química; a professora Isolina, professora de Francês, cujo marido tinha um Volswagem carocha que a malta achava o máximo, o Dr. Dionísio Marques advogado de Caminha, que dava inglês e que possuía um Citroen DS, um “bico de pato” como ele dizia, o Padre Amorim professor de história e moral. Mais tarde entrou para docente o eng. Cruz que nos deu matemática e que hoje está no Instituto de Estradas em Viana do Castelo. Foi com ele que vi, pela primeira, vez usar uma régua de cálculo, já que ainda não haviam calculadoras.
Não me lembro quem dava Físico-química depois da saída da drª Rosa, talvez o dr. Fonseca. Tive ainda como professor o padre Lourenço Alves em Francês, um apaixonado pela história e pela arqueologia e um óptimo contador de histórias. Estava-me a esquecer do malogrado padre Aparício que dava Religião e Moral e que faleceu de acidente de motorizada, aqui em Vila Praia de Âncora, em plena Praça da Republica. Aquele homem era um santo e ainda hoje o recordo frequentemente com saudade. Após a sua morte foi substituído pelo padre Manuel Afonso.

Na secretaria trabalhava a D. Conceição, irmã da D. Zita e o Zé Meira. Havia uma senhora da limpeza, da qual tenho ideia vaga, mas não me recordo do nome; havia outro motorista alem do Zé Meira, que era o sr. Fernando Costa, mais conhecido, por Fernando dos Pitos, marido da Capitolina, que tinha um supermercado na rua da Corredoura, agora administrado pelo seu filho mais novo, o Carlos. O filho mais velho, Fernando como o pai, é da minha idade e estudou comigo durante aqueles cinco anos; era um dos meus parceiros favoritos. Há muitos anos que não nos encontramos, visto ter emigrado para o Canadá. Não me posso esquecer do Amaro, o motorista que depois substituiu o Fernando dos Pitos e que nos aturava as algazarras que fazíamos dentro do autocarro.
Alem do Fernando dos Pitos filho, guardo na memória muitos outros colegas de turma, como o Vítor Barrocas de Vilar de Mouros, o Desiderio de Dem, o Fernando Lajes e o Rui Fernandes de Lanhelas, o Gonçalves de Cerveira, o Zé Araújo, o Fausto e o Filipe de Caminha, o Frederico de Vile, o Zé João de Riba D`Âncora, o Ernesto de Cristelo que era o ajudante de campo do professor Monteiro. Era ele que lhe fazer os recados e acompanhava-o à feira para carregar as couves!
Alem destes, tínhamos o Nelson, Chico e o Zé da Linha, todos eles de Âncora. O Chico que era primo do Nelson, morreu tragicamente num acidente de motorizada poucos anos depois, na rua 31 de Janeiro, junto à bomba de gasolina.

Alguns destes compinchas ficaram pela zona o que permite algum contacto esporádico. Outros tiveram rumos de vida diversos e perdeu-se todo o relacionamento, mas não se perdeu a memória.
A próxima vez que pegar neste tema será para contar algumas aventuras que ainda me lembro, passadas comigo e com outros colegas de anos e turmas diferentes, mas todos pertencentes à grande “família” do Externato de Santa Rita.



quinta-feira, 8 de maio de 2008

Crónicas do filho da puta (4ª parte)

Há filhos da p*** vocacionados para fazer e filhos da p*** vocacionados para não deixar fazer, e estes são os dois tipos universais e eternos do filho da p***.
Há, naturalmente, subtipos e especializações funcionais com funções especiais: modos de fazer, ou de fingir não fazer e deixar fazer; no entanto, quer os dois tipos, quer os vários subtipos de filhos da p***, todos eles são primariamente e acima de tudo filhos da p*** e disso estão todos bem conscientes.
É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e se entrecruzam e interpenetram.
Apesar de tudo, sim, apesar de tudo o filho da p*** está relativamente contente consigo. Está preocupado com a vida dos outros e descontente com a vida em geral, mas relativamente contente consigo.
O filho da p*** acha sempre que tirou o melhor partido do mau partido que foi ter nascido, e do péssimo partido que é viver. O filho da p*** consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros. Os outros também estão em crise, os outros não passam melhor, os outros não fizeram melhor, os outros também perderam, "lixaram-se", "quilharam-se", diz o filho da p*** exultante.
Nada atrai mais o filho da p***, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.
Enfim, o filho da p*** só se sente feliz com a infelicidade dos outros. Mas morre de muitas maneiras - geralmente da doença que o envenenou toda a vida e que, como ponto máximo da sua carreira, lhe proporciona um final com muito brio, mas atroz sofrimento. O filho da p*** morre sozinho...



quarta-feira, 7 de maio de 2008

sábado, 3 de maio de 2008

Agarra que é ladrão...

Catrapum… O barulho ecoou na noite fria de Março. Depois, regressou o silêncio. Ao longe ouvia-se o mar, em suaves investidas contra o praial.
A Tia Ana Rosa desencostou a cabeça do travesseiro, mas não ouvia nada a não ser o ressonar ritmado e tranquilo do marido, ao seu lado.
- Domingos, oh Domingos, acorda homem.
- Ah… que foi?
- Tu não ouviste?
- O quê?
- Não ouviste o barulho?
- Não mulher. Deixa-me dormir, se calhar foi algum gato no telhado…
- Não foi nada. Foi cá dentro.
- Aqui na casa? – Duvidava o Domingos Verde.
- Sim, aqui na casa. Levanta-te e vai ver na sala e na cozinha. Se calhar foi o oratório que caiu na sala.
- Raios partam a minha sorte, logo agora que estava tão bem a dormir.
- Despacha-te!
O Domingos acendeu a vela que estava na mesinha de cabeceira, vestiu a samarra sobre a camiseta e as ceroulas, caminhou até à sala. Levantou a vela para melhor enxergar, não viu nada de anormal, o oratório estava no sítio, dirigiu-se para a cozinha, repetiu o movimento da vela e disse em voz alta.
- Não vejo nada de estranho.
- Vê lá a gaveta do dinheiro?
- Está na mesma.
A Tia Ana Rosa é que não se convencia e já se levantava para confirmar. Deitou a mão ao avental que estava pendurado na cabeceira da cama e teve um arrepio. A chave da gaveta, não estava no bolso do avental.
- Fomos roubados, Domingos.
Saiu do quarto direita ao móvel onde estava o oratório, que fazia de cómoda, com três gavetas logo a seguir ao tampo e dois gavetões por baixo, onde guardava a roupa da casa.
O tampo estava coberto por uma toalha alva, que caía para a frente, escondendo a fila das gavetas.
Levantou a toalha e no lugar da gaveta do meio, ficara o buraco negro onde ela deslizava.
- Tinhas razão, fomos roubados, mas como?
- E foram ao nosso quarto buscar a chave! – Dizia a Tia Ana Rosa – Foi o barulho da janela que eu ouvi.
As janelas eram de guilhotina e nunca estavam travadas. Acenderam o candeeiro de petróleo, foram observar a janela e descobriram, do lado de fora, um par de sapatos e pegadas frescas na areia macia da rua.
- Vai chamar ajuda, vai acordar os teus camaradas, temos de dar caça ao ladrão, senão estamos desgraçados. Lá se vai o apuro da semana.
A Tia Ana Rosa é que tomava nota das contas da companha, que recebia o dinheiro da venda, contas que eram partidas ao sábado. Parte do barco, parte do arrais, o Domingos e parte de cada pescador.
O Domingos sai de casa, munido dum sarrafo que encontrara na cozinha, nunca se sabe, até podia dar com o ladrão, ali por perto.


Em breve estavam à porta de casa vários homens, dispostos a dar caça ao gatuno que lhes surripiara o dinheiro. Ele já era tão pouco e havia de acontecer uma desgraça destas, logo esta semana, que as pescas até nem tinham sido más, dera muita pescada nas costas de Montedor.
Ao observarem os sapatos achados do lado de fora da janela, um dos homens exclama:
- Eu vi um tipo com estes sapatos. Não te lembras, João? O que esteve a jogar às cartas connosco, lá na loja.
- Pois foi, ele tinha uns sapatos assim, tinha.
Tinham estado com mais alguns pescadores da vizinhança a jogar às cartas, na loja da Chocalha, até tarde e esse fulano tinha acamaradado com eles, mas não o conheciam. Pensaram ser alguém de uma freguesia próxima, que estava ali a passar um bocado, a beber umas malgas de vinho, bom vinho que a Chocalha mandava vir de Outeiro.
Distribuíram-se em grupos e saíram ansiosos, na busca daquele desconhecido. A madrugada ia alta, ainda faltavam, pelo menos, duas horas para amanhecer.
Um dos grupos, foi directamente à loja da Chocalha, ali perto, onde mais tarde haviam de construir o quartel dos bombeiros, que naturalmente estava fechada e às escuras.
Continuaram para sul pela rua e ao chegar à alvariça, onde depois o Pinheiro construiu a oficina, hoje é a Caixa Geral de Depósitos, encontraram junto a umas silvas a gaveta desaparecida. Só faltava o dinheiro, os outros papeis tinham ficado.


De regresso a casa, decidiram que dois grupos iriam apanhar os primeiros comboios pelas sete da manhã, que se cruzavam na estação de Gontinhães e iriam até Caminha e até Afife ou Montedor.
Os que foram de comboio até Caminha, apuraram que já por lá tinha passado um indivíduo desconhecido e que andava descalço. Como o olharam com desconfiança, ele tinha desaparecido.
Decidiram entrar no próximo comboio e seguir para norte. Desanimados por ninguém o ter visto nas estações seguintes, decidiram sair em S. Pedro da Torre e esperar pelo comboio em sentido contrário, para os trazer de volta a casa.
Que grande surpresa tiveram ao entrar na carruagem, ao ver entre os passageiros o tal fulano, que tinha estado no dia anterior, na tasca da Chocalha. Sem denunciarem as suspeitas que tinham, entabularam facilmente conversa com o homem que já exibia uns sapatos e um casaco novo.
Ao chegarem à estação de Gontinhães, deitaram-lhe a mão e arrastaram-no para a gare, onde o imobilizaram, enquanto pediam para irem chamar a Guarda.
O homem confessou o roubo e a audácia de ir a uma casa desconhecida, às escuras, procurar uma chave, abrir a gaveta e sair furtivamente. O que estragou o golpe, foi ter as mãos ocupadas com a gaveta e a janela ter caído, sem contar. Por isso teve de correr e deixar no local os sapatos.


Esta história foi contada, muitos anos depois, pela Tia Ana Rosa, já velhota, quando se reuniam à noite os filhos, os netos e outros familiares ou vizinhos, para tecerem o linho ou para qualquer outro trabalho.
Sabem para que servia o fio de linho que elas teciam? Era para as redes do sável. Essas redes eram feitas em linho, não um linho qualquer, mas linho do Brasil, que vinha já seco em estrigas ou seja, em molhos de fibras com dois palmos de comprimento, que tinham de ser passados pelo sedeiro.
O sedeiro era um cepo de madeira com uma espécie de pregos virados para cima, onde se batiam as estrigas, para separar as fibras do linho que eram ligadas e fiadas, para de seguida irem para a dobadeira.
Depois de dobada, saía para as agulhas e só então se fabricavam as redes. Naquela época não havia material já fabricado, tudo era feito em casa.
As redes de que vos falo eram redes volantes de tresmalho com albitanas. Em linguagem corrente, quero dizer que eram redes que pescavam à superfície, tal como as lampreeiras e que se deslocavam ao sabor da corrente.
O que fazia flutuar a rede era a cortiçada feita em cortiça segundeira, nunca da virgem e o peso que a mantinha aberta e vertical, era feito com os pandulhos, uns pequenos e esguios sacos de pano cru, cheios de areia grossa, que se apanhava no Espilrro.
Também se apanhavam sáveis com redes de algerife, redes de cerco que eram puxadas para terra nos diversos portos do rio Minho. Os primeiros portos do Minho eram o das Oliveiras, o do Baixinho e da Candosa, já a meio caminho de Seixas. Estas redes eram fabricadas em fio do norte que era mais robusto que o linho.
Pois é, falam do sável, do arroz de debulho, mas não sabiam o trabalho que dava para o apanharem. Se calhar nem sabiam que haviam redes feitas de linho.
Isto foi-me contado pelo Domingos Verde, não o do conto, mas o seu neto, o Pinga, que ainda hoje recorda os serões de Inverno, que passava na casa dos seus pais, que recorda as histórias passadas no mar, os naufrágios, as misérias, as mortes, mas também a alegria das pescarias, da fartura, da sardinha, as histórias da vida.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A tentação (Epílogo)

O Padre Maia olhou em volta e com um gesto convidou a Conceição e a Celeste a sentarem-se. Esta continuava com o bebé ao colo e instalou-se na ponta de uma cadeira.
- Eu não sei o que dizer – começou o padre Maia, - fui apanhado de surpresa. Tenho mesmo uma filha?
- Si cura. Uma hija mui guapa.
- Mas porque não me disseste?
- Não podia. Lo prometi a mi padre.
- Prometeste a quem? Ao teu padre?
- No! Prometi a mi papá, entendes?
- Mas quem é o teu pai, Celeste?
- D. Artur.
- Qual D. Artur?
- Tu bispo, cura. Tu bispo…

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A tentação (1ª parte)

O Padre Maia guardou uns segundos de silêncio, abençoou os fieis ao mesmo tempo que repetia a habitual despedida, “ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”.
Fechou a Bíblia encadernada a couro encarnado pousada sobre o altar e encaminhou-se para a sacristia. Os seus paroquianos que tinham assistido à missa, começaram a sair da igreja. Cá fora juntaram-se em pequenos grupos, que rapidamente retomavam as conversas interrompidas pelo ofício vespertino.
O sol ainda ia alto, fazia calor e a sombra projectada pelas oliveiras e pelos ciprestes do adro davam conforto aos corpos suados. Ali ao fundo, alguns homens discutiam futebol, falavam do último jogo do Benfica que voltara a perder, desta vez na Madeira, mais além, um grupo de raparigas trocava confidências sobre os namorados, aqui perto umas beatas já idosas, cochichavam sobre os rumores que davam como certo, mais um par de cornos para o Amílcar Padeiro, desta vez a mulher andaria com um tipo da Guarda Republicana, que era novo no posto.
No ambiente fresco e obscurecido da sacristia, o Padre Maia tirou os paramentos, dobrou-os cuidadosamente e arrumou tudo no armário. Penteou-se ao espelho, compôs a fralda da camisa azul de manga curta, pegou na pasta e saiu.

Ao chegar ao seu escritório olhou para o velho relógio de parede. Já passava das sete da tarde e o calor continuava sufocante. Dispôs-se a ler mais umas páginas de “O último papa” um livro que falava da vida no Vaticano e das lutas pelo poder que se travavam nos seus corredores. Estavam na moda as novelas históricas, onde a Igreja era frequentemente atacada, principalmente o Vaticano, que parecia ser povoada por monstros malignos, na pena desses escribas.
- É sempre a mesma conversa, Jesus era casado, teve filhos com a Maria Madalena, Judas afinal era dos bons, o João Baptista é que era o Mestre, que mais estes tipos irão inventar! – Falava para si o padre, enquanto procurava o marcador entre as páginas.
Algum tempo depois a Conceição, sua governanta, apareceu à porta do gabinete e repetiu o de sempre, “ o jantar está servido, Sr. Padre”.
- Obrigado Conceição.
Fechou o livro, pousou os óculos sobre ele e foi para a sala de jantar. A mesa estava posta apenas para si, a Conceição teimava em cear na cozinha, apesar de ele ter insistido várias vezes para que lhe fizesse companhia na sala.
- Não Sr. Padre. O senhor tem o tempo da refeição para pensar e eu tenho outros afazeres, nem iria comer tranquila.
A Conceição devia andar pelos setenta anos e era sua governanta há mais de vinte. Viera consigo de Pinhel, onde a Conceição já era sua governanta, depois de ter chegado aos ouvidos do bispo um falatório acerca do padre Maia e da antiga empregada.
Enquanto comia a sopa, pensou mais uma vez na Celeste, a doce Celeste que quase o fez virar as costas à Igreja.
O seu envolvimento durara poucos meses, ele era um jovem padre, tinha sido ordenado três ou quatro anos antes, quando a contratou para criada externa. Já nem estava certo se a tinha procurado ou se ela lá tinha ido oferecer-se.
Aos poucos, a confiança entre eles tinha solidificado e nascera uma paixão que em breve a levava a passar algumas noites no passal.
Estas coisas acabam sempre por se saber e os bispos têm muitos olhos e ouvidos. Alguém tinha ido com o conto, ele foi chamado à sua presença, tiveram uma conversa franca, sem recriminações, nem arrependimentos. O bispo propôs-lhe passar algumas semanas de reflexão no Seminário de Évora e prometeu-lhe que dariam um futuro digno à rapariga, na condição de ele a esquecer e não a tentar encontrar.
Acabou por concordar e quando regressou à sua paróquia, encontrou lá a Conceição a dirigir a residência paroquial.
Rapidamente percebeu que era uma mulher com um certo nível cultural e que devia encerrar um segredo qualquer, mas nem em confissão se abria. “Curioso, ela nem sequer é muito religiosa. Missa só aos domingos e nem sempre”.
Enquanto a sua velha colaboradora pousava uma travessa de bacalhau cozido e hortaliça fumegante, pensou o pouco que sabia dela ao cabo de tantos anos de convivência. O mesmo se passava com a Celeste, nunca soube nada dela, de onde viera, para onde fora enviada.
Parece que ainda estava a ver a Celeste com o longo cabelo negro apanhado num “puxo”, olhos grandes e escuros, boca bem desenhada e lábios carnudos. O corpo era forte, mas bem torneado, como só as moças do campo tem.
- Isso são coisas do passado, nem sei porque me lembro disto, já há-de estar casada, se calhar já tem netos. Já não se lembra de mim…
Acabou o jantar concentrando a atenção nas notícias do telejornal, tomou o café e foi para o centro paroquial, onde iria presidir a uma reunião da Fábrica da Igreja. Nessa noite dormiu sobressaltado e por várias vezes acordou com a sua antiga criada no pensamento.

Uma semana depois, estava no seu escritório a ler umas actas antigas das “Memórias Paroquiais” quando ouviu a campainha da porta. Passados alguns segundos a campainha voltou a tocar, levantou-se e foi atender. À porta estava uma senhora com um bebé ao colo, que lhe perguntou pela D. Conceição Andrade.
- Ela deve estar para o quintal. Faz favor de entrar e esperar um momento, que eu vou chamá-la.
Acto contínuo atravessou a cozinha, abriu a porta das traseiras e chamou a Conceição que lavava roupa no tanque.
- Conceição, está no átrio uma senhora que quer falar consigo.
- Uma senhora?
- Sim, com um bebé ao colo.
- Já vou, já vou – e limpava as mãos ao avental enquanto subia as escadas para a cozinha.
O Padre Maia voltou para o seu escritório sem deixar de passar pelo átrio e dizer à visitante que a Conceição estava a chegar.
Pela primeira vez deu atenção àquele rosto. As feições não lhe eram desconhecidas e foi a pensar nisso que retomou a leitura das actas. Instantes depois desistiu, porque o pensamento voava em círculos, cada vez mais amplos, qual falcão em busca da presa.
- Dá licença Sr. Padre? – Interrompeu a Conceição, da porta.
- Diga, Conceição.
- Eu… hum… eu, queria, hum… Não sei como dizer-lhe.
- Mas diga senhora, diga. Passou-se alguma coisa?
- Não! Quer dizer… sim. Passou. Aquela senhora que está lá fora é minha filha.
- Você tem uma filha? Não sabia, nunca me tinha dito nada!
- Pois não…
- Mas há algum problema, Conceição?
- Não Sr. Padre, mas ela quer cumprimentá-lo e mostrar-lhe o bebé.
- Então, é preciso ficar assim atrapalhada por causa disso? Mande entrar a sua filha, ande lá.
- Deus me valha, Deus me valha!
Saiu do aposento, regressando de imediato com a filha e a criança ao colo. O Padre Maia inclinou-se para poder apreciar o bebé que não teria mais de cinco ou seis meses e sorriu para ambas.
- Gracias por me receber e à mi nieto.
- A senhora esteve em Espanha muito tempo?
- Si, vivo em Espanha à mas de vinte anos, por isso hablo mas Espanhol que Português.
- E está de visita a Portugal ou veio para ficar?
- Vim tão solo mostrar mi nieto a mi madre e me vou mañana a Granada. Usted não me conhece, Cura?
- Não… bem, a sua cara não me é estranha, mas… Virgem Santíssima, tu… a Celeste!!! Tu és a Celeste!
- Por supuesto, Cura, eu sou a Celeste, se recuerda de mi.
- Como não… Assim, com o cabelo louro, já se passaram tantos anos. Casaste, tiveste filhos. Eu… Eu continuei com a Igreja.
- Si, casei há oito anos.
- Mas então, se esse bebé é teu neto, como é…
- Si, mi nieto, pero también tu nieto, hombre!
- Hum…
- Ai Jesus… - gemeu a Conceição.
- Este niño es hijo de nostra hija, Cura!