quinta-feira, 17 de abril de 2008

Crónicas do filho da p*** (3ª parte)

O grande problema, a grande desorientação, a infelicidade suma do filho da p*** ocorre naqueles momentos de transição, de incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos, naqueles momentos em que a balança está parada por instantes e não se sabe qual o prato de maior peso; é nesses momentos que o filho da p*** se torce e contorce, na busca desesperada de “parâmetros”, dos seus queridos parâmetros, ou simplesmente de uma via, de um rumo, da sua via, do seu rumo de filho da p***.
É nessas ocasiões sobretudo que ele, o filho da p***, se queixa, que aparece em todos os lugares dizendo “isto está mau”, e não adiantando mais nada.
Sim, para o filho da p*** nada pior que não saber qual é a preocupação dos outros, não saber enfim o que os outros pensam, o que os outros acham, o que os outros sabem.
É por isso que organiza testes, toda a espécie de testes, e programas, toda a espécie de programas, e sondagens, toda a espécie de sondagens, e inquéritos, reuniões de grupo, reciclagens, estágios, exames, modos de através de um ritual de perguntas e respostas tentar apurar dos outros o que os outros normalmente tentam também apurar dele: o que pensam, o que acham, o que sabem da vida uns dos outros. Mas quanto mais normalizadas são as perguntas e as respostas, maior é também a sensação que o filho da p*** experimenta de nada saber.
É por isso que cada vez mais promove órgãos de orientação geral, instrumentos para levar a pensar ou a não pensar, a fazer ou a não fazer, a falar ou a não falar, sempre segundo os mesmos critérios nas mesmas circunstâncias.
Serviços técnicos, gabinetes de coordenação, institutos de apoio, centros de divulgação e de documentação, departamentos de planeamento, sectores de estatística, gabinetes de gestão, comissões do ambiente, núcleos de inspecção, canais logísticos, serviços de reconhecimento, postos de fomento, institutos de reorganização, delegações de investigação, grupos de trabalho permanente, “workshops”, centros de observação, serviços coordenadores de estudos, registros centrais, divisões de fiscalização e comissões de apoio às iniciativas centrais.
Por sua vez, estes órgãos são apoiados por outros de mais largo alcance; se, para esse efeito, em certos lugares e épocas utiliza a sua psiquiatria, noutros utiliza a sua inquisição, e noutros serve-se da sua televisão e demais órgãos de qualidade de vida; pode servir-se do seu jornal ou da sua falta de jornal, do seu partido único ou da sua pluralidade de partidos, pode servir-se de prémios ou de castigos, de gratificações ou de transferências. Isso mesmo. Não há nada que o filho da p*** não faça e não há nada que não sirva os seus desígnios.
O filho da p*** é sempre aquilo que os outros filhos da p*** do momento e do lugar são; é, porque é isso que “convém” ser, e portanto é isso que ele é. O filho da p*** insere-se sempre no processo em curso qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho da p***.
O filho da p*** colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho da p* é sempre no mais alto grau possível aquilo que “convém” ser no lugar e no momento em que vive.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

IPO

Ontem aconteceu-me algo deveras interessante que não resisto a transcrever. A meio da manhã estava muito sossegado no meu trabalho quando apareceu o meu amigo Pedro a convidar-me para ir com ele ao IPO.
Esclareça-se que o IPO que ele referia era Inspecção Periódica Obrigatória e não o Instituto Português de Oncologia. Acho que é completamente idiota deixarem usar a referência IPO para a inspecção automóvel, quando já existe há décadas um organismo público, ligado à área da saúde com a mesma designação. Só em Portugal!
Mas contava-vos eu que o Pedro ia levar o carro à inspecção e queria companhia. Disse-lhe que não podia ir e ele retorquiu:
- Sabes, é a primeira vez, não sei como aquilo é.
- Ó homem, não tem nada que saber. Vais ali a Campos que eles fazem isso em dez minutos.
- O que é que eles pedem?
- Tens de levar os documentos, põe o triângulo e o colete à mão, tens de verificar se as luzes estão todas em condições.
- Eu acho que isso está tudo bem – diz o Pedro – só os limpa vidros é que tem problema.
- Estão avariados?
- Não, eles trabalham, mas um deles não limpa nada.
- Então tens de os mudar, tens de comprar umas escovas novas.
- Já comprei mas… olha vamos tomar café que eu explico-te.
Fomos à pastelaria, tomamos café, falamos de qualquer coisa e eu nunca mais me lembrei dos limpa vidros. Quando saímos o Pedro arrastou-me até ao parque de estacionamento para eu ver as luzes do “chaço”, um Skoda Octávia que estava a fazer quatro anos e está em óptimo estado.
- Eu comprei as escovas no Feira Nova e como não sabia pô-las pedi ao meu irmão, mas ele disse-me que uma delas não servia. Só conseguiu pôr a do lado do condutor.
- Tu não percebes nada disto – disse eu – mas o teu irmão é outra nódoa. Então não vês que esta escova está posta ao contrário. Repara este deflector é colocado na parte de cima, assim.
Desmontei a escova, virei o adaptador, voltei a colocá-la na posição correcta e pedi-lhe:
- Dá-me a outra que eu ponho isso num instante.
- A outra? Eu não a tenho…
- Não tens? Então que lhe fizeste?
- Deitei-a fora, como o meu irmão disse que não servia…
- Ó pá tu és…
- Já sei, já sei eu e o meu irmão somos dois burros!
- Não! Tu e o teu irmão sois três burros, porque tu vales por dois.
- Agora tenho de comprar outra, não?
- Claro, mas podes ir assim que eles não implicam. Desde que trabalhem…
- Vê-me as luzes.
- Ok, mete-te no carro e liga os mínimos.
Eu na frente do carro comandava:
- Agora liga o pisca da esquerda, agora o da direita.
E por aí fora. Passei para a traseira do carro e cantei a mesma música até chegar à luz de nevoeiro, que teimava em não acender.
- Pedro, a luz de nevoeiro não acende.
- Que é isso da luz de nevoeiro?
- A luz de nevoeiro, pôrra!
- Onde é que se liga?
- O carro é teu, tu é que deves saber.
- Ó pá, eu nunca vi isso.
- Pira-te daí, deixa-me ver.
Conferi todos os comandos e rapidamente encontrei o comando da luz traseira de nevoeiro que estava agrupada com os projectores de nevoeiro, no comutador geral das luzes.
- Pedro, é aqui junto com os faróis de nevoeiro.
- Faróis de nevoeiro? Este modelo não tem.
- Tem sim senhor. Anda cá ver.
Acto contínuo mostrei-lhe onde ligavam as luzes referidas e ficou espantado ao ver os faróis de nevoeiro que estavam a ser acesos pela primeira vez ao fim de quatro anos.
- Brito, pelo menos hoje já aprendi alguma coisa.
Já nem tive coragem de lhe dizer nada.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Crónicas do filho da p*** (2ª parte)


Onde o filho da p*** se sente à-vontade é na política. Está entre os seus e considera-se o maior, quando tem de lidar com os grupos que o elegem. Aí a sua natureza de filho da p*** tem der ser cuidadosamente camuflada sob uma aparência de bonomia, de solidariedade e de partilha dos problemas dos “totós” que vão na conversa. “As bases” como ele gosta de chamar, são sempre difíceis de contentar. Estão sempre a pedir alguma coisa ou, pior ainda, durante as campanhas querem beijinhos e abraços, algo que o filho da p*** abomina, mas que condescende com um sorriso nas beiças. Interessa é que os otários façam a cruzinha no sítio certo. Isso vale todos os sacrifícios.
Mas o filho da p*** tem um drama permanente, pois todos os outros filhos da p*** da política, invejam a sua posição e não se poupam a esforços para o foder.
Por isso, tem de manter-se nas boas graças do chefe, seja ele qual for, o deputado, o presidente da Câmara, o secretário-geral, sei lá, um qualquer filho da p*** graúdo.
A esses cães gordos, o nosso filho da p*** até lhe lambe os sapatos, com um ar de fingida satisfação. Diz sempre “ámen” ao chefe, reitera-lhe repetidamente o seu apoio e está sempre disponível para qualquer biscate de que o chefe o encarregue. Como qualquer bom filho da p*** roí-se todo por dentro com esta subserviência e sonha com a oportunidade de tramar o chefe e, quem sabe, herdar a sua posição. É uma questão de tempo…
Nas reuniões do Partido gosta particularmente de ver o chefe a ser atacado, para poder demonstrar-lhe a sua fidelidade, defendendo-o dos outros filhos da p***. Quando lhe toca a ele dirigir uma reunião, temendo ser atacado, fala, fala, fala até ser tarde e já ninguém estar com paciência para o afrontar.
Não dispensa um séquito de nabos, os “ferrinhos”, para lhe fazerem as vontades e os trabalhos que ele considera indignos da sua posição. Esses, são o seu grupo de “amigos”, que ele lança para a frente dos seus adversários políticos, sempre que lhe convêm. O filho da p*** sabe que esses “amigos” não duram sempre, porque, mais tarde ou mais cedo, topam-no e mandam-no lixar.
Nessas ocasiões o filho da p*** arma-se em vitima e diz que o querem tramar, a ele que é o paladino da verdade, dos pobres, da ecologia, do Benfica… sim do Benfica, porque o chefe também é do Benfica. Mas se o chefe for do Sporting, ele passa a ser “lagarto” convicto.
Ainda no mês passado arranjou uns bilhetes que lhe custaram os olhos da cara e convidou-o para ir à bola, ele que detesta as confusões do estádio, com todos os energúmenos de bandeira e cachecol. Mas foi da maneira que o chefe acabou por lhe arranjar aquele “tacho” naquela empresa pública. Bem, adiante…

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Alô, alô, dizia o croquete para o rissol




- E se fossemos a S. João D`Arga?
- Eh?... Quando é isso? – Perguntei eu, deitado na praia sobre a toalha.
- É na próxima terça à noite – diz o Zé Alfredo, abanando chapéu de palha em frente à cara.
- É uma ideia, já lá não vou há meia dúzia de anos, pelo menos.
- Tal como eu. O Daniel é que ontem me falou nisso, porque costuma ir todos os anos lá jantar.
- Mas janta numa tasca ou leva merendeiro?
A curiosidade aguçada pelo evocar do merendeiro invadia-me a mente. A última vez que lá tinha estado, tinha sido de fugida e não tivera oportunidade de provar o cabrito, nem sequer o famoso bagaço com mel. Por isso a sugestão do Zé Alfredo não estava nada despropositada. Alem disso, tinha passado a maior parte das férias sem pôr o nariz fora da toca e uma noite animada, calha sempre bem.
No dia seguinte voltamos à conversa e o plano ficou mais ou menos delineado. Iríamos nós, mais o Daniel, o Álvaro e respectivas famílias. Convidamos também o Rico e a Cira, uns primos nossos que vivem em Paris e que adoram estas festas.
Marcamos a saída para as cinco da tarde de terça-feira e até essa hora houve treino de culinária.

Eu e a Paula fizemos um empadão e uma tortilha, o Rico (lê-se Ricô, porque ele é Italiano) fez uma omoleta de esparguete e já contávamos com os habituais panados, bolos de bacalhau e similares que alguém havia de levar. É infalível!
De qualquer forma, eu e o Zé Alfredo estávamos filados no cabrito e principalmente no sarapatel que, como sabem, é feito com os “miúdos” do dito. À hora marcada lá aparecemos junto ao Centro Cívico e (milagre) ninguém se atrasou, dando-se de imediato a partida. Como era para a festa estava tudo pronto, se fosse para trabalhar…
Ao chegar à freguesia de Arga de S. João ultrapassamos uma coluna de romeiros de Dem e pouco depois começamos a ver os automóveis que já estavam estacionados nas bermas.

O Daniel parou para estacionar, o Álvaro ultrapassou-o e continuou em marcha lenta. Eu vinha a seguir também continuei à procura de um local em que pudesse fazer (com segurança) inversão de marcha, de forma que, à noite, tivesse o carro apontado para a saída. Numa curva onde havia um recanto, deu-me a possibilidade de fazer a manobra e o Zé Alfredo, que me seguia fez o mesmo. O Álvaro continuou a descer em direcção ao Convento.
- Onde vai aquele gajo? – Disse eu ao ver a descontracção com que se metia no meio da confusão.
Descarregamos as tralhas, mochilas com agasalhos para a noite, mantas para o chão e os comes e bebes, aguardamos pelo Daniel que tinha ficado para trás umas centenas de metros e aí vamos nós, estrada fora.
Quando chegamos ao recinto junto da antiga casa florestal deparamos com mais de uma dúzia de auto caravanas a um canto do parque e bastantes tendas de campismo, o que para mim constituiu a primeira novidade, pois da ultima vez que lá tinha estado não haviam auto caravanas e tendas não me lembro de ter visto alguma.
A segunda surpresa veio logo de seguida com as roulottes das farturas, do pão com chouriço e tendas que vendiam sapatos, quadros, roupas e todo o bric a brac a que estamos habituados nas festas “da cidade”.
Para mim foi uma surpresa ver aquele estenderete em S. João D`Arga, tudo bem iluminado à custa de inúmeros geradores que faziam um barulho do caraças. Acho que S. João D`Arga não precisava nada daquela tralha e que só vieram adulterar uma romaria genuína.

O nosso objectivo era arranjar um lugar para “acampar” dentro do recinto e, por isso, lá fomos descendo, furando e empurrando. Já estava bastante gente mas ainda se circulava razoavelmente.
Começaram a aparecer as primeiras caras conhecidas, trocaram-se os primeiros cumprimentos. Ao fundo, detrás da capela, havia um espaço que parecia estar à espera de dono e foi mesmo aí que estendemos as mantas. A vizinhança tinha ar simpático e estávamos perto de tudo, mas desviados da confusão.
Tirei algumas fotografias, dei umas voltas sem destino, tipo perdigueiro de nariz no ar e apeteceu-me urinar o que até nem constituiu preocupação porque estava perto dos sanitários.
Só que havia bicha (de mulheres) para o xixi e nos sanitários já se entrava de calças arregaçadas ou de barco (com o fundo chato). Decidi ir à natureza, como tantos outros, desci uma ladeira para “regar” umas giestas, falharam-me os “patins” sobre a relva húmida e lá vou eu, por ali a baixo, com o cu a rasto. Pouco faltou para ir ter à ribeira de S. João!
Estava já de pé a sacudir-me quando passa outro melro ainda mais embalado, que só parou lá mais em baixo.

No final da missa saiu a procissão que faz um percurso até ao cruzeiro do caminho antigo e regressa à capela, percorrendo no total pouco mais de duzentos metros, mas que representa o que de genuíno encontrei nesta romaria popular.
Entretanto o Álvaro e a Bina ainda não tinham chegado, nem atendiam o telefone. Começava a escurecer e, depois de metermos paleio com os donos de uma tasca e vermos o que se preparava na cozinha, decidimos comprar ali o cabrito e o sarapatel.
Como não tínhamos levado pratos nem talheres o senhor da tasca pôs-nos logo o material à disposição, muito agradecido por não irmos ocupar uma das suas preciosas e escassas mesas.
No grelhador deste estabelecimento estava o nosso velho amigo Clemente, um grande cantador da Serra D`Arga e, pelo visto, também um grande grelhador de frangos, costela de porco e bacalhau.

Tínhamos combinado começar o jantar às oito e eis que chega o Álvaro e a Bina, que de orelha caída, nos explicam que seguiram sempre para baixo até que um elemento da GNR já não os deixou dar meia volta na estrada, obrigando-os a seguir em direcção a Arga de Baixo.
Como só encontraram lugar para estacionar a mais de três ou quatro quilómetros decidiram ir até Covas, virar para Vilar de Mouros e voltar outra vez por Dem, estacionando finalmente o automóvel perto do Daniel. Com esta habilidade andaram mais de hora e meia às voltas e fizeram cerca de vinte quilómetros desnecessários!!!
Claro que depois de nos terem contado esta aventura, o mais simpático que chamamos ao Álvaro foi “parolo”. Agora imaginem o que ele disse do polícia…

O homem da tasca encheu um par de travessas de cabrito e sarapatel e quando “tocou o pau no balde” eu, o Zé Alfredo e a Paula regalamo-nos com aquele pitéu serrano, enquanto os outros iam aligeirando os tapewares de bifanas, rissóis e empadas. O Rico e a Cira que nunca tinham provado sarapatel, provaram, gostaram e ficaram clientes.
A Bina tinha acamaradado com as nossas vizinhas e já saboreava uns nacos de coelho estufado, que tinham o sabor lá dos lados de Vitorino de Piães.
Barrigas cheias, hora de tomar café e provar o bagaço com mel, antigamente um néctar dos deuses, hoje uma aguardente comercial, baptizada com água e adoçada com mel e açúcar amarelo. Enfim, bebia-se…
As bandas de Lanhelas e de Moreira já tocavam ao despique e depois de levarmos algumas dúzias de empurrões, pisadelas e apertanços, desistimos de ver e ouvir as bandas de perto, cada um acabou por procurar um lugar mais calmo para assistir ao espectáculo, o que, diga-se em abono da verdade, valia a pena.
O concerto das bandas não tem nada a ver com os habituais concertos de outras festas, pois os reportórios são completamente diferentes, mais ligeiros, mais populares, menos formais e com o publico a apoiar e a “puxar” pela banda da sua preferência.
Do outro lado da capela, vários grupos de tocadores de concertina juntam à sua volta multidões para ouvirem cantar ao desafio ou até para darem um pé de dança.
E assim se passou até depois da uma da manhã, quando a banda de Lanhelas se despediu e saiu do recinto, ficando alguns elementos da banda de Moreira em total autogestão (já sem maestro) a tocar em cima de um dos coretos. Aquilo já era mais jazz vadio que outra coisa qualquer!

Entretanto íamos circulando e volta e meia íamos até ao local onde tínhamos as tralhas, quando soubemos que tinha desaparecido o telemóvel ao Álvaro.
- Talvez o tenhas deixado cair?
- Já procuraste bem?
- É pá, ou me caiu do bolso ou mo roubaram. Sei lá, no meio desta confusão… Só tenho pena é dos contactos que lá tinha. Estou tramado! – Desabafava o Álvaro completamente desconsolado com mais este percalço.
- Vamos à cabine de som para eles anunciarem, pode ser que alguém o encontre…
Foi o Zé Alfredo com ele, mas os tipos da comissão de festas disseram logo que não valia a pena, só anunciavam desaparecimento de carteiras por causa dos documentos.
Decidimos vir embora, reuniu-se a malta e toca de arrumar tudo, pois ainda tinha sobrado muita comida, alguma bebida e era preciso encher as mochilas.
- Olhai o que está aqui dentro deste tapeware – diz a Bina
Era o telefone do Álvaro que estava bem aconchegado dentro de uma marmita, entre os rissóis e os croquetes, o que motivou mais umas sonoras gargalhadas e mais uma vez uns mimos para o nosso Alvarinho. Há dias que um gajo não pode sair de casa!

Fizemos o caminho de regresso, recuperamos os carros e fomos barrados pela Brigada de Transito na rotunda de Dem, que nos mandou encostar para controle documental e de alcoolémia.
O Álvaro como compensação dos azares anteriores, foi o único que mandaram embora sem bufar. Todos os outros bufaram e foram mandados em paz (não sei como) e com votos de boa viagem.
Depois do susto, já a descer na A-28, pensei que por pouco não tinha ido beber mais um “fino” antes de vir embora.
Mas um pressentimento travou a minha ida à tasca mais próxima. Agora é que acredito que o último copo é sempre o mais perigoso. Ainda bem que só tomei o penúltimo!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Crónicas do filho da puta (1ª parte)

Estas crónicas do filho da p*** são apenas uma mera cópia de uns originais que li há muitos anos e que procurei reproduzir o melhor que pude, introduzindo novas variedades, novas espécies de filhos da p***, uma raça em constante evolução.

O filho da p*** existe e encontra-se em todos os sítios e em todos os ambientes. Do pouco que se sabe acerca dele, de como a sua roupa e a sua figura não basta para o definir, restam alguns traços que o caracterizam - os seus gostos e lugares preferidos, as suas grandes especializações, o seu sistema de entreajuda, perguntas que faz, a sua sempre escondida vida particular, a sua casa lar como lugar excelso, os seus modos de recreio e diversão, os seus tiques e aspectos anedóticos, os seus temores e receios, enfim, de como é, acima de tudo, um filho da p***.
A grande dúvida que ainda existe em relação ao filho da p*** é se ele já nasce filho da p*** ou se a vida é que o faz...

Pois, o filho da p*** também vai à pesca. Encontramo-lo por aí, sozinho ou em grupos de que apenas faz parte por pouco tempo, com a cana na mão. Digo que apenas faz parte por pouco tempo, porque é breve o espaço temporal que o grupo leva a descobrir que por lá paira um filho da p*** e, tal como a uma purulenta borbulha, procede à sua excisão, normalmente de forma gradual e pouco notada, até que o próprio filho da p*** já não tenha coragem de voltar, pois sabe que ali não se safa...
O filho da p*** nunca se define à primeira vista - esta é, aliás, uma das suas principais características.
À primeira vista, o filho da p*** faz tudo para mostrar a disponibilidade que acha própria, e ocultar a própria indisponibilidade. À primeira vista, o filho da p*** diz quase sempre que “está bem”, que "se vai ver", o filho da p*** é quase sempre assim, “sim senhor”.
É só depois, às vezes muito depois, que o filho da p***, por vocação superior e para constar, diz que "não, não senhor", e mostra que não está na disposição: nem de viver nem de deixar viver.
Por isso, ele, o filho da p***, ocupa-se e preocupa-se sobretudo com os outros, e uma das coisas que mais o ocupa e preocupa é a despreocupação dos outros, e esse é a segunda das suas principais características. Até se pode dizer que nada preocupa tanto o filho da p*** como a despreocupação dos outros, que nada o incomoda tanto, nada o perturba de tal modo como a despreocupação dos outros.
Ele, o filho da p***, tem por máxima preocupação construir toda a espécie de mais valias, e assim ocupa a vida com essa preocupação, isto é, ocupa a vida ocupando-se com o modo de conseguir sempre o que mais valia, sacrificando-se para conseguir sempre o que mais vale...
O filho da p*** não gosta de viver, mas gosta de reviver, gosta mais de reviver que de viver, e assim ocupa grande parte do seu tempo. Deste modo se entende que seja sempre imensa a saudade que ele, filho da p***, tem do passado, imenso o seu desejo de ambição de regressar (se possível) ao estado embrional, esse estado em que ia para todos os lugares sem chegar a sair do mesmo lugar.
Na pesca, o filho da p*** quer sempre pescar mais que os outros, seja lá como for. Se alguém apanha algum peixe, o filho da p*** logo a ele se encosta para pescar no mesmo lugar e vai apertando, sem quaisquer contemplações, até que o outro se afaste. Se estiver longe irá lançar exactamente para a frente do outro, de modo a incomodá-lo...
Quando não apanha nada é porque é um tipo com azar, porque os outros ficaram nos melhores locais e tinham melhor isco - para o filho da p*** cada pescaria é um concurso - e se fica mal "classificado" não consegue esconder o mau humor e a filha da putice que o envenena. é nesta altura que deixa de se controlar e não consegue evitar o focinho coberto de ódio contra tudo e todos.

Para o filho da p*** a captura de espécies que não irá aproveitar para a mesa é a forma de vingança contra o mundo e contra os outros - e os pontapés, pisadelas e outras formas de crueldade contra o desgraçado do peixe surgem, incontroláveis, proporcionando um sorriso escondido e um acalmar imediato, mas por pouco tempo, dos recalcamentos e do ódio latente nas suas entranhas...
Lançar lixo à água ou deixá-lo nos pesqueiro é um dos gozos supremos do filho da p*** na pesca - saber que quem vier a seguir vai encontrar toda a merda que lá deixou, e que contribuiu com mais algum lixo para a poluição das águas, fá-lo sentir-se importante - e o prazer de saber que incomodará os outros leva-o a um êxtase indescritível, já que ele vive basicamente para lixar a vida aos outros.
O filho da p*** utiliza material de pesca barato - porque que iria dar uma pipa de massa por uma boa cana ou carreto? Porquê gastar dinheiro nestas merdas, encher o cú a esses chulos das casas de pesca? Nem pensar!!! Ele é um gajo com azar e o dinheiro faz-lhe muita falta...
A técnica do filho da p*** muda de época para época e de lugar para lugar. A felicidade e o gosto pela vida que os outros manifestam é incompreensível para si - porque é que os outros não têm tanto azar como ele? Que mal é que ele, filho da p***, fez, para ter tanto azar????
(Continua)