segunda-feira, 7 de abril de 2008

Crónicas do filho da p*** (2ª parte)


Onde o filho da p*** se sente à-vontade é na política. Está entre os seus e considera-se o maior, quando tem de lidar com os grupos que o elegem. Aí a sua natureza de filho da p*** tem der ser cuidadosamente camuflada sob uma aparência de bonomia, de solidariedade e de partilha dos problemas dos “totós” que vão na conversa. “As bases” como ele gosta de chamar, são sempre difíceis de contentar. Estão sempre a pedir alguma coisa ou, pior ainda, durante as campanhas querem beijinhos e abraços, algo que o filho da p*** abomina, mas que condescende com um sorriso nas beiças. Interessa é que os otários façam a cruzinha no sítio certo. Isso vale todos os sacrifícios.
Mas o filho da p*** tem um drama permanente, pois todos os outros filhos da p*** da política, invejam a sua posição e não se poupam a esforços para o foder.
Por isso, tem de manter-se nas boas graças do chefe, seja ele qual for, o deputado, o presidente da Câmara, o secretário-geral, sei lá, um qualquer filho da p*** graúdo.
A esses cães gordos, o nosso filho da p*** até lhe lambe os sapatos, com um ar de fingida satisfação. Diz sempre “ámen” ao chefe, reitera-lhe repetidamente o seu apoio e está sempre disponível para qualquer biscate de que o chefe o encarregue. Como qualquer bom filho da p*** roí-se todo por dentro com esta subserviência e sonha com a oportunidade de tramar o chefe e, quem sabe, herdar a sua posição. É uma questão de tempo…
Nas reuniões do Partido gosta particularmente de ver o chefe a ser atacado, para poder demonstrar-lhe a sua fidelidade, defendendo-o dos outros filhos da p***. Quando lhe toca a ele dirigir uma reunião, temendo ser atacado, fala, fala, fala até ser tarde e já ninguém estar com paciência para o afrontar.
Não dispensa um séquito de nabos, os “ferrinhos”, para lhe fazerem as vontades e os trabalhos que ele considera indignos da sua posição. Esses, são o seu grupo de “amigos”, que ele lança para a frente dos seus adversários políticos, sempre que lhe convêm. O filho da p*** sabe que esses “amigos” não duram sempre, porque, mais tarde ou mais cedo, topam-no e mandam-no lixar.
Nessas ocasiões o filho da p*** arma-se em vitima e diz que o querem tramar, a ele que é o paladino da verdade, dos pobres, da ecologia, do Benfica… sim do Benfica, porque o chefe também é do Benfica. Mas se o chefe for do Sporting, ele passa a ser “lagarto” convicto.
Ainda no mês passado arranjou uns bilhetes que lhe custaram os olhos da cara e convidou-o para ir à bola, ele que detesta as confusões do estádio, com todos os energúmenos de bandeira e cachecol. Mas foi da maneira que o chefe acabou por lhe arranjar aquele “tacho” naquela empresa pública. Bem, adiante…

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Alô, alô, dizia o croquete para o rissol




- E se fossemos a S. João D`Arga?
- Eh?... Quando é isso? – Perguntei eu, deitado na praia sobre a toalha.
- É na próxima terça à noite – diz o Zé Alfredo, abanando chapéu de palha em frente à cara.
- É uma ideia, já lá não vou há meia dúzia de anos, pelo menos.
- Tal como eu. O Daniel é que ontem me falou nisso, porque costuma ir todos os anos lá jantar.
- Mas janta numa tasca ou leva merendeiro?
A curiosidade aguçada pelo evocar do merendeiro invadia-me a mente. A última vez que lá tinha estado, tinha sido de fugida e não tivera oportunidade de provar o cabrito, nem sequer o famoso bagaço com mel. Por isso a sugestão do Zé Alfredo não estava nada despropositada. Alem disso, tinha passado a maior parte das férias sem pôr o nariz fora da toca e uma noite animada, calha sempre bem.
No dia seguinte voltamos à conversa e o plano ficou mais ou menos delineado. Iríamos nós, mais o Daniel, o Álvaro e respectivas famílias. Convidamos também o Rico e a Cira, uns primos nossos que vivem em Paris e que adoram estas festas.
Marcamos a saída para as cinco da tarde de terça-feira e até essa hora houve treino de culinária.

Eu e a Paula fizemos um empadão e uma tortilha, o Rico (lê-se Ricô, porque ele é Italiano) fez uma omoleta de esparguete e já contávamos com os habituais panados, bolos de bacalhau e similares que alguém havia de levar. É infalível!
De qualquer forma, eu e o Zé Alfredo estávamos filados no cabrito e principalmente no sarapatel que, como sabem, é feito com os “miúdos” do dito. À hora marcada lá aparecemos junto ao Centro Cívico e (milagre) ninguém se atrasou, dando-se de imediato a partida. Como era para a festa estava tudo pronto, se fosse para trabalhar…
Ao chegar à freguesia de Arga de S. João ultrapassamos uma coluna de romeiros de Dem e pouco depois começamos a ver os automóveis que já estavam estacionados nas bermas.

O Daniel parou para estacionar, o Álvaro ultrapassou-o e continuou em marcha lenta. Eu vinha a seguir também continuei à procura de um local em que pudesse fazer (com segurança) inversão de marcha, de forma que, à noite, tivesse o carro apontado para a saída. Numa curva onde havia um recanto, deu-me a possibilidade de fazer a manobra e o Zé Alfredo, que me seguia fez o mesmo. O Álvaro continuou a descer em direcção ao Convento.
- Onde vai aquele gajo? – Disse eu ao ver a descontracção com que se metia no meio da confusão.
Descarregamos as tralhas, mochilas com agasalhos para a noite, mantas para o chão e os comes e bebes, aguardamos pelo Daniel que tinha ficado para trás umas centenas de metros e aí vamos nós, estrada fora.
Quando chegamos ao recinto junto da antiga casa florestal deparamos com mais de uma dúzia de auto caravanas a um canto do parque e bastantes tendas de campismo, o que para mim constituiu a primeira novidade, pois da ultima vez que lá tinha estado não haviam auto caravanas e tendas não me lembro de ter visto alguma.
A segunda surpresa veio logo de seguida com as roulottes das farturas, do pão com chouriço e tendas que vendiam sapatos, quadros, roupas e todo o bric a brac a que estamos habituados nas festas “da cidade”.
Para mim foi uma surpresa ver aquele estenderete em S. João D`Arga, tudo bem iluminado à custa de inúmeros geradores que faziam um barulho do caraças. Acho que S. João D`Arga não precisava nada daquela tralha e que só vieram adulterar uma romaria genuína.

O nosso objectivo era arranjar um lugar para “acampar” dentro do recinto e, por isso, lá fomos descendo, furando e empurrando. Já estava bastante gente mas ainda se circulava razoavelmente.
Começaram a aparecer as primeiras caras conhecidas, trocaram-se os primeiros cumprimentos. Ao fundo, detrás da capela, havia um espaço que parecia estar à espera de dono e foi mesmo aí que estendemos as mantas. A vizinhança tinha ar simpático e estávamos perto de tudo, mas desviados da confusão.
Tirei algumas fotografias, dei umas voltas sem destino, tipo perdigueiro de nariz no ar e apeteceu-me urinar o que até nem constituiu preocupação porque estava perto dos sanitários.
Só que havia bicha (de mulheres) para o xixi e nos sanitários já se entrava de calças arregaçadas ou de barco (com o fundo chato). Decidi ir à natureza, como tantos outros, desci uma ladeira para “regar” umas giestas, falharam-me os “patins” sobre a relva húmida e lá vou eu, por ali a baixo, com o cu a rasto. Pouco faltou para ir ter à ribeira de S. João!
Estava já de pé a sacudir-me quando passa outro melro ainda mais embalado, que só parou lá mais em baixo.

No final da missa saiu a procissão que faz um percurso até ao cruzeiro do caminho antigo e regressa à capela, percorrendo no total pouco mais de duzentos metros, mas que representa o que de genuíno encontrei nesta romaria popular.
Entretanto o Álvaro e a Bina ainda não tinham chegado, nem atendiam o telefone. Começava a escurecer e, depois de metermos paleio com os donos de uma tasca e vermos o que se preparava na cozinha, decidimos comprar ali o cabrito e o sarapatel.
Como não tínhamos levado pratos nem talheres o senhor da tasca pôs-nos logo o material à disposição, muito agradecido por não irmos ocupar uma das suas preciosas e escassas mesas.
No grelhador deste estabelecimento estava o nosso velho amigo Clemente, um grande cantador da Serra D`Arga e, pelo visto, também um grande grelhador de frangos, costela de porco e bacalhau.

Tínhamos combinado começar o jantar às oito e eis que chega o Álvaro e a Bina, que de orelha caída, nos explicam que seguiram sempre para baixo até que um elemento da GNR já não os deixou dar meia volta na estrada, obrigando-os a seguir em direcção a Arga de Baixo.
Como só encontraram lugar para estacionar a mais de três ou quatro quilómetros decidiram ir até Covas, virar para Vilar de Mouros e voltar outra vez por Dem, estacionando finalmente o automóvel perto do Daniel. Com esta habilidade andaram mais de hora e meia às voltas e fizeram cerca de vinte quilómetros desnecessários!!!
Claro que depois de nos terem contado esta aventura, o mais simpático que chamamos ao Álvaro foi “parolo”. Agora imaginem o que ele disse do polícia…

O homem da tasca encheu um par de travessas de cabrito e sarapatel e quando “tocou o pau no balde” eu, o Zé Alfredo e a Paula regalamo-nos com aquele pitéu serrano, enquanto os outros iam aligeirando os tapewares de bifanas, rissóis e empadas. O Rico e a Cira que nunca tinham provado sarapatel, provaram, gostaram e ficaram clientes.
A Bina tinha acamaradado com as nossas vizinhas e já saboreava uns nacos de coelho estufado, que tinham o sabor lá dos lados de Vitorino de Piães.
Barrigas cheias, hora de tomar café e provar o bagaço com mel, antigamente um néctar dos deuses, hoje uma aguardente comercial, baptizada com água e adoçada com mel e açúcar amarelo. Enfim, bebia-se…
As bandas de Lanhelas e de Moreira já tocavam ao despique e depois de levarmos algumas dúzias de empurrões, pisadelas e apertanços, desistimos de ver e ouvir as bandas de perto, cada um acabou por procurar um lugar mais calmo para assistir ao espectáculo, o que, diga-se em abono da verdade, valia a pena.
O concerto das bandas não tem nada a ver com os habituais concertos de outras festas, pois os reportórios são completamente diferentes, mais ligeiros, mais populares, menos formais e com o publico a apoiar e a “puxar” pela banda da sua preferência.
Do outro lado da capela, vários grupos de tocadores de concertina juntam à sua volta multidões para ouvirem cantar ao desafio ou até para darem um pé de dança.
E assim se passou até depois da uma da manhã, quando a banda de Lanhelas se despediu e saiu do recinto, ficando alguns elementos da banda de Moreira em total autogestão (já sem maestro) a tocar em cima de um dos coretos. Aquilo já era mais jazz vadio que outra coisa qualquer!

Entretanto íamos circulando e volta e meia íamos até ao local onde tínhamos as tralhas, quando soubemos que tinha desaparecido o telemóvel ao Álvaro.
- Talvez o tenhas deixado cair?
- Já procuraste bem?
- É pá, ou me caiu do bolso ou mo roubaram. Sei lá, no meio desta confusão… Só tenho pena é dos contactos que lá tinha. Estou tramado! – Desabafava o Álvaro completamente desconsolado com mais este percalço.
- Vamos à cabine de som para eles anunciarem, pode ser que alguém o encontre…
Foi o Zé Alfredo com ele, mas os tipos da comissão de festas disseram logo que não valia a pena, só anunciavam desaparecimento de carteiras por causa dos documentos.
Decidimos vir embora, reuniu-se a malta e toca de arrumar tudo, pois ainda tinha sobrado muita comida, alguma bebida e era preciso encher as mochilas.
- Olhai o que está aqui dentro deste tapeware – diz a Bina
Era o telefone do Álvaro que estava bem aconchegado dentro de uma marmita, entre os rissóis e os croquetes, o que motivou mais umas sonoras gargalhadas e mais uma vez uns mimos para o nosso Alvarinho. Há dias que um gajo não pode sair de casa!

Fizemos o caminho de regresso, recuperamos os carros e fomos barrados pela Brigada de Transito na rotunda de Dem, que nos mandou encostar para controle documental e de alcoolémia.
O Álvaro como compensação dos azares anteriores, foi o único que mandaram embora sem bufar. Todos os outros bufaram e foram mandados em paz (não sei como) e com votos de boa viagem.
Depois do susto, já a descer na A-28, pensei que por pouco não tinha ido beber mais um “fino” antes de vir embora.
Mas um pressentimento travou a minha ida à tasca mais próxima. Agora é que acredito que o último copo é sempre o mais perigoso. Ainda bem que só tomei o penúltimo!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Crónicas do filho da puta (1ª parte)

Estas crónicas do filho da p*** são apenas uma mera cópia de uns originais que li há muitos anos e que procurei reproduzir o melhor que pude, introduzindo novas variedades, novas espécies de filhos da p***, uma raça em constante evolução.

O filho da p*** existe e encontra-se em todos os sítios e em todos os ambientes. Do pouco que se sabe acerca dele, de como a sua roupa e a sua figura não basta para o definir, restam alguns traços que o caracterizam - os seus gostos e lugares preferidos, as suas grandes especializações, o seu sistema de entreajuda, perguntas que faz, a sua sempre escondida vida particular, a sua casa lar como lugar excelso, os seus modos de recreio e diversão, os seus tiques e aspectos anedóticos, os seus temores e receios, enfim, de como é, acima de tudo, um filho da p***.
A grande dúvida que ainda existe em relação ao filho da p*** é se ele já nasce filho da p*** ou se a vida é que o faz...

Pois, o filho da p*** também vai à pesca. Encontramo-lo por aí, sozinho ou em grupos de que apenas faz parte por pouco tempo, com a cana na mão. Digo que apenas faz parte por pouco tempo, porque é breve o espaço temporal que o grupo leva a descobrir que por lá paira um filho da p*** e, tal como a uma purulenta borbulha, procede à sua excisão, normalmente de forma gradual e pouco notada, até que o próprio filho da p*** já não tenha coragem de voltar, pois sabe que ali não se safa...
O filho da p*** nunca se define à primeira vista - esta é, aliás, uma das suas principais características.
À primeira vista, o filho da p*** faz tudo para mostrar a disponibilidade que acha própria, e ocultar a própria indisponibilidade. À primeira vista, o filho da p*** diz quase sempre que “está bem”, que "se vai ver", o filho da p*** é quase sempre assim, “sim senhor”.
É só depois, às vezes muito depois, que o filho da p***, por vocação superior e para constar, diz que "não, não senhor", e mostra que não está na disposição: nem de viver nem de deixar viver.
Por isso, ele, o filho da p***, ocupa-se e preocupa-se sobretudo com os outros, e uma das coisas que mais o ocupa e preocupa é a despreocupação dos outros, e esse é a segunda das suas principais características. Até se pode dizer que nada preocupa tanto o filho da p*** como a despreocupação dos outros, que nada o incomoda tanto, nada o perturba de tal modo como a despreocupação dos outros.
Ele, o filho da p***, tem por máxima preocupação construir toda a espécie de mais valias, e assim ocupa a vida com essa preocupação, isto é, ocupa a vida ocupando-se com o modo de conseguir sempre o que mais valia, sacrificando-se para conseguir sempre o que mais vale...
O filho da p*** não gosta de viver, mas gosta de reviver, gosta mais de reviver que de viver, e assim ocupa grande parte do seu tempo. Deste modo se entende que seja sempre imensa a saudade que ele, filho da p***, tem do passado, imenso o seu desejo de ambição de regressar (se possível) ao estado embrional, esse estado em que ia para todos os lugares sem chegar a sair do mesmo lugar.
Na pesca, o filho da p*** quer sempre pescar mais que os outros, seja lá como for. Se alguém apanha algum peixe, o filho da p*** logo a ele se encosta para pescar no mesmo lugar e vai apertando, sem quaisquer contemplações, até que o outro se afaste. Se estiver longe irá lançar exactamente para a frente do outro, de modo a incomodá-lo...
Quando não apanha nada é porque é um tipo com azar, porque os outros ficaram nos melhores locais e tinham melhor isco - para o filho da p*** cada pescaria é um concurso - e se fica mal "classificado" não consegue esconder o mau humor e a filha da putice que o envenena. é nesta altura que deixa de se controlar e não consegue evitar o focinho coberto de ódio contra tudo e todos.

Para o filho da p*** a captura de espécies que não irá aproveitar para a mesa é a forma de vingança contra o mundo e contra os outros - e os pontapés, pisadelas e outras formas de crueldade contra o desgraçado do peixe surgem, incontroláveis, proporcionando um sorriso escondido e um acalmar imediato, mas por pouco tempo, dos recalcamentos e do ódio latente nas suas entranhas...
Lançar lixo à água ou deixá-lo nos pesqueiro é um dos gozos supremos do filho da p*** na pesca - saber que quem vier a seguir vai encontrar toda a merda que lá deixou, e que contribuiu com mais algum lixo para a poluição das águas, fá-lo sentir-se importante - e o prazer de saber que incomodará os outros leva-o a um êxtase indescritível, já que ele vive basicamente para lixar a vida aos outros.
O filho da p*** utiliza material de pesca barato - porque que iria dar uma pipa de massa por uma boa cana ou carreto? Porquê gastar dinheiro nestas merdas, encher o cú a esses chulos das casas de pesca? Nem pensar!!! Ele é um gajo com azar e o dinheiro faz-lhe muita falta...
A técnica do filho da p*** muda de época para época e de lugar para lugar. A felicidade e o gosto pela vida que os outros manifestam é incompreensível para si - porque é que os outros não têm tanto azar como ele? Que mal é que ele, filho da p***, fez, para ter tanto azar????
(Continua)

sábado, 22 de março de 2008

Esquecimento


Chovia que se fartava. As pingas batiam-lhe na cara e no blusão, escorrendo em direcção ao solo. Encostava-se o mais possível às paredes na vã tentativa de escapar ao bombardeamento das pingas.
Ao chegar ao fundo da avenida abrigou-se na entrada lateral do Banco. Ao menos ali não chovia. Passou a mão pela cara e pelo cabelo, penteando-o para trás com os dedos. Logo se arrependeu porque a água escorregava agora pelo pescoço, alagando o colarinho da camisa. O candeeiro de iluminação pública com a sua luz amarela, mostrava uma cortina de água à sua volta.
Quando saíra de casa, apenas a uns trezentos metros de distância ainda não chovia e nem sequer se apercebeu da iminência da bátega de água, que se iria abater dentro de alguns segundos. Tinha sido de repente!
Tudo aquilo por causa de um esquecimento. Esquecera-se de pagar a factura da Internet e já passavam dois dias do prazo limite. Podia ser que ainda fosse possível o pagamento por Multibanco.
Voltou a perscrutar o tempo, parecia que já chovia menos. O vento é que se mantinha de sudoeste. Ia ser uma noite de temporal.
Bateu com os pés no chão, passou outra vez a mão pela cara ainda encharcada e fez o que já não fazia há muitos anos, se calhar desde jovem. Inclinou-se para a frente e sacudiu violentamente a cabeça, borrifando de água os vidros da porta do banco. Voltou a passar a mão pelo cabelo e encontrou-o mais enxuto.
Agora chovia menos, tinha a certeza, era preciso continuar, só precisava de contornar o banco até à outra entrada, onde estava a caixa Multibanco. Levantou a gola do blusão e com determinação desceu para o passeio.
Ao chegar ao destino baixou o fecho do blusão de forma a alcançar a carteira, retirou o cartão, meteu-o na ranhura, digitou o código e procurou a factura em débito. No bolso direito, no bolso esquerdo, junto à carteira, nas calças… Onde raio estaria a factura? De repente lembrou-se, pousara-a sobre a mesa da sala enquanto vestia o blusão.
Soltou uma gargalhada enquanto retirava o cartão da máquina. De regresso a casa assobiou todo o caminho…

segunda-feira, 17 de março de 2008

A magia da cor, é o Rio Âncora!

Um pequeno degrau em direcção ao mar

Foto de Raul Videira

sexta-feira, 14 de março de 2008

Litos, o traficante (2ª parte)

O Chico continuaria a ser o seu homem de mão. Guarda-costas e intermediário entre ele e os gajos que iriam vender, que nem tinham necessidade de o conhecer. O Chico era de confiança, se é que se podia confiar em alguém.
Conhecera-o há muito tempo, pouco depois de vir viver para o Porto, era o Chico porteiro de uma discoteca na Foz. Nessa altura era um gajo que metia respeito. Apesar de não ser muito grande, era suficientemente forte para dar conta de qualquer cliente mais recalcitrante.
Depois meteu-se nos copos e foi-se abaixo, perdeu empregos uns atrás dos outros e chegou a um ponto que já ninguém o queria por perto. Uma vez arreou uma porrada num gajo que passou três meses no hospital depois de lhe retirarem um rim esmagado. Como já tinha cadastro, foi “dentro” e reencontrou-se com o Litos em Custoias.
Quando saiu, o Litos chamou-o para o ajudar no negócio, mas só lhe dizia o que lhe convinha, nada de sociedades, nem sequer sabia da oficina de restauro, nem onde ele morava. Quando queria, telefonava ao Chico de uma cabine pública, o seu telemóvel só para receber chamadas, que isto das escutas era caso sério.
Iam ser três gajos a vender e o Chico a tomar conta deles. Cada um tinha de vender vinte pacotes por dia, pelo menos, para dar algum. O mais difícil tinha sido escolhê-los mas tinha de arriscar, nunca se sabe, apesar de já os ter debaixo de olho há muito tempo.

Tinha de ir buscar um pacote, já estava combinado com o tipo que o fornecia. Iriam encontrar-se na estação de serviço da A-28 perto de Viana do Castelo. A troca seria feita nos lavabos com a maior discrição e nunca no mesmo sítio por duas vezes seguidas.
Desta vez tinha encomendado a mais, já a pensar no novo âmbito do negócio, sim negócio, que o Litos abominava os consumidores, apenas via neles uma fonte de rendimentos fácil, embora arriscada, porque quando ressacavam, descontrolavam-se e nunca se sabia o que podia surgir.
Hesitou entre levar o Ax ou o Audi que guardava na garagem, mas preferiu ir no “chaço” que dava menos nas vistas. Dissimulação era a alma deste negócio.
Saiu do Porto pela Circunvalação, percorreu a Via Norte, pouco trânsito àquela hora da tarde e seguiu pela Nacional 13 até Esposende, onde parou para beber um café e verificar algum movimento estranho.
Ninguém o seguia, entrou no Citroen e dirigiu-se à A-28, faltavam poucos quilómetros para a estação de serviço. Quando chegou à área de serviço abasteceu combustível e estacionou no parque entre os outros veículos.

Dirigiu-se à cafetaria, comprou a Bola, olhou naturalmente em volta e não fixou o olhar em coisa nenhuma, mas viu distintamente o seu contacto que parecia entretido com um problema de palavras cruzadas.
Tomou outro café, esperou um pouco e caminhou em direcção aos lavabos. Lá dentro um miúdo lavava as mãos. O Litos urinou e ao seu lado, a dois urinóis de distância o seu contacto fez o mesmo. Trocaram rapidamente dois embrulhos plásticos, o outro saiu de imediato, ele foi lavar as mãos.
O embrulho da droga no bolso direito do blusão parecia que queimava. Saiu e não viu nada de estranho, caminhou devagar para o exterior e sentiu uma picadela nas costas, a vista escureceu e as pernas dobraram-se.
Acordou algemado, no banco traseiro de um automóvel. A vista continuava desfocada e sentia as costas dormentes. Ainda viu o seu contacto, igualmente algemado ser enfiado noutro carro. Um tipo com colete azul da polícia sentou-se ao seu lado, outros dois sentaram-se nos bancos da frente e arrancaram em direcção à auto-estrada.
Já não viu o Chico sair do gabinete da administração da estação de serviço, onde tinha assistido a toda a operação através do circuito de vídeo vigilância na companhia de alguns inspectores da Judiciária.
Fim

terça-feira, 11 de março de 2008

Litos, o traficante (1ª parte)

Voltou a olhar para ambos os lados, não viu nada de alarmante na penumbra da rua, entregou a prata ao tipo que estava plantado na sua frente. Dele já tinha recebido os vinte euros que faziam companhia às outras notas no bolso interior do blusão. Fez sinal com a mão, e do escuro aproximou-se outro tipo que, sem qualquer conversa, lhe estendeu a nota azulada, recebendo em troca outra pequena prata.
O Litos era traficante, apenas um pequeno vendedor que mudava frequentemente de sítio de forma a passar o mais despercebido possível pela polícia. Agora estava a fazer a noite perto do Bairro do Cerco.
Lá dentro, nas ruas do bairro, o negócio fazia-se à descarada, tanto na rua como em certas casas. Havia dias que faziam bicha nas escadas dos prédios onde estavam localizados os apartamentos dos traficantes. O problema eram as rusgas que a polícia fazia de vez em quando e lá iam meia dúzia dentro.
Mesmo que acabassem por sair, já ficavam marcados e para não serem perseguidos a cada momento, acabavam por ir dando uns bitaites à bófia. O Litos evitava ao máximo as confusões, tinha começado no “mundo” a gamar auto-rádios e umas carteiras, a “passar” erva ou qualquer coisa que desse um guito para a bucha.
Por causa de um descuido esteve preso em Custoias durante nove meses, foi lá que aprendeu a arte da dissimulação e os passos certos para o negócio da coca e do cavalo. Nunca fora consumidor e ainda sentia um certo nojo só de se lembrar que uma vez tinha fumado uma pedra de haxixe e passara a noite a vomitar.
Aos poucos estabeleceu um grupo mais ou menos fixo de clientes, que ele avisava cada vez que mudava de poiso.

- Põe-te a milhas, estás a olhar para mim porquê? Andor!!!
O magricelas alto e completamente ganzado, cambaleante, virou-se lentamente, tomou balanço e afastou-se aos tropeções.
- Este não dura muito – resmunga entre dentes.
Um carro avança lentamente do fundo da rua. Ouve um assobio, era o Chico a avisar. Recua para o interior de uma porta e fica no escuro à espreita. O veículo passa, pode ser um dos carros civis da bófia, estão sempre a mudá-los.
Antigamente conhecia-os todos, mas agora é mais difícil, até lhe tinham dito que os trocavam com os carros de Lisboa.
Farto de bater com os pés no chão para aquecer e como já há mais de meia hora não aparecia ninguém para comprar, decidiu ir embora. Fez um sinal para o sítio onde devia estar o Chico escondido, que apareceu de imediato e juntos caminharam para o seu velho Citroen AX que estava estacionado numa rua ali próxima.
- Que tal? – Pergunta o Chico.
- Fraco… Fiquei com metade por vender.
- Os gajos ainda ontem encheram a ramona no bairro, é por isso que a malta se está a cortar.
- Humm… Não tem é guito. Ainda hoje o Broas que tem sempre algum, estava liso e deixou-me ficar um relógio.
- É pá, então estás a aceitar essas merdas? Já ninguém dá nada por relógios.
- Este é bom, um Seiko. Cinquenta vale sempre, pelos menos.
Deixou o Chico junto à Câmara de Matosinhos e seguiu para a sua casa que não ficava longe. Estacionou o Citroen a dois quarteirões do prédio onde vivia, meteu a saca plástica com algumas pratas debaixo do tapete do lado do pendura, fechou-o cuidadosamente e esquadrinhou a rua deserta àquela hora da madrugada.
Tinha sempre o cuidado de deixar o carro longe e não entrava em casa até ter a certeza que ninguém o estava a observar.

Subiu no elevador até ao quarto piso, percorreu o corredor suavemente iluminado, abriu a porta do seu apartamento e suspirou de alívio.
O salão à sua frente era grande, o piso em madeira impecavelmente envernizado, cortinados verdes protegiam as vidraças da enorme janela virada para sul. Tirou o blusão, escolheu uma garrafa de whisky no bar, juntou alguns cubos de gelo, preparou a bebida e recostou-se no enorme sofá de couro negro.
Esvaziou o bolso do blusão e dedicou toda a atenção à tarefa de endireitar e ordenar aquele monte de notas amarrotadas. Mais algumas semanas e deixava a rua, era a sua primeira meta, pôr alguém a fazer o trabalho de venda. Era mais seguro, ele só tinha de controlar.

No dia seguinte acordou tarde como habitualmente e quando saiu de casa foi para ir ao Gaveto, uma marisqueira onde era cliente assíduo. Depois de um caril de gambas e uma generosa dose de pudim francês, foi buscar o velho AX e conduziu até à sua oficina, numa transversal da Constituição.
O salão era grande mas estava atravancado de moveis antigos, que ele ia recuperando lentamente e que servia de camuflagem para o seu verdadeiro negócio. Era também aí que guardava a droga, que fazia as pesagens ou o corte, e como trabalhava de porta fechada ninguém o ia lá incomodar. Apenas um ou outro proprietário dos móveis a restaurar é que lhe telefonavam a saber se já estava a obra pronta.

Tinha aprendido o ofício com o Rafael, um marceneiro resmungão do Marco, sua terra natal, que ele aturara durante dois ou três anos, desde que saíra da escola, até que se chateou e veio para o Porto em resposta a um anuncio, onde pediam um aprendiz de polidor.
Conseguiu o emprego, conheceu amigos e não tardou muito a ajudá-los a aliviar alguns carros dos respectivos auto rádios, para depois venderem. Como faltava ao trabalho e muitas vezes ia para lá dormir, o patrão acabou por mandá-lo embora e ele decidiu que já chegava de trabalhar para os outros, ter de os aturar, para no fim do mês receber uma côdea.
Passou a ajudar o Tesouras, um carteirista à moda antiga, daqueles que metia as mãos nos bolsos dos lorpas e eles ainda se riam. Nada de esticões nem de facas a ameaçar, só técnica. Trabalhavam nos autocarros e na linha da Póvoa, mas tiveram de desistir dos comboios porque já estavam a ser topados pelos revisores, que avisavam os passageiros.
Um dia o Tesouras ainda levou uns tabefes, o que lhe valeu foi chegar um polícia que estava de folga e que o tirou daquela enrascada, pois já havia uns gajos que o queriam mandar abaixo do comboio.
Foi quando começou a vender erva à porta de discotecas, porque o Tesouras agora estava mais cauteloso e o que ganhavam não dava para nada.
Uma noite, quando ia passar para a mão de um cliente uma pedra de haxixe, sentiu fechar-se no pulso uma argola de metal frio, era um polícia disfarçado de cliente e ele tinha sido apanhado em flagrante.

Em Custoias ofereceu-se para trabalhar na carpintaria, onde ninguém o chateava e as horas passavam mais depressa. Depressa ganhou a confiança do encarregado da oficina e dos guardas, passando a ter uma liberdade invejável, até porque não havia risco de fuga por a pena ser muito curta.
Ainda ganhou uns cobres a servir de correio entre os poderosos e mandantes da cadeia e, acima de tudo, ganhou confiança com eles, ganhou contactos e informações que esperava serem de utilidade quando pusesse os pés na rua.

(continua)